sábado, 26 de novembro de 2016

Tom Jobim: Entrevista concedida a Veja (23/03/1988),


Veja - O que você veio fazer no Brasil?
TOM JOBIM - Vim ver minha mãe, que está com 80 anos.
Vim ver se o imposto de renda me devolve o que tirou na fonte.
Vim falar português. Vim tomar ar puro, olhar o céu azul e
sentir cheiro de mato. Nova York é poluída demais e a gente se
cansa do frio, se cansa de enfiar ceroulas e botas cada vez que
sai à rua.
 
Veja - Qual a sua queixa do imposto de renda?
TOM JOBIM - O imposto de renda me tira 45% na fonte e,
como sou residente no exterior, não posso fazer nenhuma
dedução. O Brasil é um país de parasitas, que persegue quem
trabalha. Se descobrem que você trabalha, correm atrás de você
o fiscal, a polícia, os ladrões. Falam mal de você. O Brasil
me dá prejuízo.
 
Veja -Mas nos Estados Unidos o imposto de renda
também não é pesado?
TOM JOBIM - Isto é uma invenção brasileira. Hoje em
dia, o máximo que se cobra de pessoa física nos Estados Unidos
é 28%. E, para um artista, há deduções de gastos com piano,
carro, vestimenta, maquilagem. Comparado com o Brasil, aquilo é
um paraíso fiscal.
 
Veja - O fato de estar morando no exterior, de
estar afastado das chamadas raízes brasileiras, não prejudica a
sua música?
TOM JOBIM - Eu acho uma coisa formidável você de longe,
à distância, poder contemplar sua calçada e seu quintal. O
Guimarães Rosa, o Vinícius de Moraes, o João Cabral de Melo
Neto e tantos outros escreveram muito quando estavam em outros
países e não ficaram menos brasileiros. O Jorge Amado, que eu
encontrei em Nova York, lançando o livro dele - Tocaia
Grande -, viajou em seguida para Paris, onde arranjou um
apartamento para ficar escrevendo. E não é maravilhoso ele
carregar a Bahia para Paris? Em matéria de raiz, o Jorge Amado
já comeu toda a mandioca que podia. Como dizia o Carlos Drummond
de Andrade: "Os senhores me desculpem, mas, devido ao
adiantado da hora, me sinto anterior a fronteiras".
Passarinho sempre voou - e nunca usou passaporte, nem
bilhete.
 
Veja - Como recebeu a notícia de que o Rio de
Janeiro havia sido devastado pela chuva?
TOM JOBIM - Soube pela televisão, pelos jornais e pela
perplexidade dos americanos ao tomarem conhecimento de que
pessoas viviam daquela forma no Rio. Não podemos atribuir a Deus
uma catástrofe dessas. No Rio se corta o mato, chegam as chuvas
de verão e a terra desliza. A enxurrada quase levou até a minha
casa, no Jardim Botânico, em pleno centro da cachoeira. Estamos
completamente erodidos.
 
Veja - Onde é mais fácil fazer sucesso: no
Brasil ou nos Estados Unidos?
TOM JOBIM - É mais fácil fazer sucesso no Carnegie
Hall, em Nova York, do que no Maracanãzinho. Aqui o cara já vai
para o Maracanãzinho cheio de problemas, com todos os planos na
cabeça, cruzados, congelamento, descongelamento. Isso aqui é
uma brincadeira. Lá as pessoas vão para o espetáculo sem
preocupações.
 
Veja - O Brasil trata bem os seus artistas?
TOM JOBIM - O Brasil precisa amar os seus artistas. Ficam
dizendo que nós, músicos, somos milionários. Por que não se
fala a verdade no Brasil? Por que não se diz que os ricos são
os ricos? O rico é a Gal Costa, o Caetano Veloso, o Chico
Buarque, o Tom Jobim? Aqui inventam uma porção de coisas, há
sempre a interferência muito grande do governo na vida
particular do indivíduo. Eles querem saber o que é que você
está fazendo, escutar no telefone, aquele negócio todo que
tivemos desde 1964. Eu fui preso, o Chico Buarque também, todo
mundo foi apanhado em casa. Eu não sou subversivo, pelo
contrário, eu sou um sujeito nitidamente da ordem e do
progresso. Agora, o que estou vendo aqui não é nem ordem nem
progresso, pelo contrário.
 
Veja - Mas mesmo com essas críticas você
continua gostando do Brasil?
TOM JOBIM - Sim. Mas é preciso ter lucidez para falar do
país. Porque se a pátria é um negócio pelo qual você dá a
vida, você morre e você é torturado, o que é que é isso?
Isso não é a pátria. Como disse um amigo em Nova York: o meu
país é aquele que me deixa viver, que não me fuzila, que não
me tortura, que me deixa educar meus filhos, onde posso exercer
minha profissão, que deixa eu fazer meus negócios. Você ama,
ama, ama a pátria e depois como é que é? Cadê o piano? O
Brasil importa metralhadoras de todos os tipos e nós não temos
piano para tocar.
 
Veja - Não há pianos no Brasil?
TOM JOBIM - Atenção, juventude, para o meu conselho: a
primeira coisa que o garoto deve fazer, se quiser ser músico, é
arranjar um contrabandista. Se não for assim, não terá um
instrumento decente.
 
Veja - Que outro conselho você daria para quem
quer ser músico?
TOM JOBIM - O garoto precisa saber também que música
não é só um instinto sexual, não é comprar uma camisa
vermelha e sair de moto, não é imitar o canto dos pássaros,
nem sair tocando "bumbum" até furar a laje da casa ou
do apartamento.
 
Veja - Você trabalha muito?
TOM JOBIM - Trabalho mais do que mereço. Eu sou uma
usina de música. Tenho mais de 500 músicas gravadas e faço
questão de acompanhar todas as etapas do meu disco. Tem horas
que não quero trabalhar, prefiro andar na praia, sair para
comprar um jornal, ver uma garota na praia - à distância e
com muito respeito -, mas quase não dá, tanto aqui como no
exterior.
 
Veja - Muita gente o criticou por ter cedido Águas
de Março para os anúncios da Coca-Cola. Você fica magoado
com isso?
TOM JOBIM - Há quase dois anos que eu não bebo. Só
posso beber café, água e refrigerantes. A Coca-Cola se
aproximou de mim para fazer um anúncio, eu achei ótimo, achei
que não fazia mal a ninguém, pois vejo todo mundo tomando
Coca-Cola. Aí esses meus amigos - entre aspas, Jards
Macalé, Antônio Houaiss e Luiz Carlos Vinhas - começaram
a dizer que eu tinha vendido o Brasil à Coca-Cola. Essas pessoas
resolvem que fazer anúncios para a Coca-Cola é pecado. Eu posso
anunciar cachaça, Brahma Chopp, mas não posso cometer o pecado
mortal que é anunciar Coca-Cola. Eu não vendi nada para a
Coca-Cola. Eu apenas licenciei o mote de Águas de Março.
Todo o Brasil pode cantar tranqüilamente esta música. O
primeiro contrato foi por seis meses e por aquele anúncio em que
eu aparecia, aqui no Brasil, recebi 280 000 cruzados.
 
Veja - E de outras publicidades que você faz,
as pessoas não reclamam?
TOM JOBIM - Reclamam. Eu fiz também a campanha do
"Rio, eu gosto de você", o anúncio do Passaporte
Brasil, para a Embratur, e vem sempre gente dizer: "Como é,
você agora é garoto-propaganda?" E o que eu vou dizer para
essas pessoas? Eu posso dizer: "Não, garoto-propaganda é a
sua mamãe". Mas não vou dizer isso porque sou um rapaz
educado.
 
Veja - Mas vendo você como um patrimônio da
arte brasileira, um monumento da música, muita gente se espantou
vendo o comercial da Coca-Cola.
TOM JOBIM - Vamos ser objetivos, bem diretos. Vamos
contar a verdade. Se o "seu" Tom Jobim está com 61
anos, andando de avião pelo mundo todo, indo para os Estados
Unidos, Japão, Europa e várias cidades, dormindo cada dia num
lugar diferente, fazendo show - por quê? Porque o
"seu" Tom Jobim está precisando de dinheiro,
evidentemente. Se ele não estivesse precisando de dinheiro, ele
não estaria viajando tanto. Eu não sou passarinho para viver
pelos ares. Sou uma pessoa que tem grandes compromissos, ajudo
gente, tenho uma família grande, fui casado uma primeira vez,
sou casado pela segunda vez. Minha mãe é idosa, tenho de cuidar
dessas pessoas que dependem de mim. Vou ganhar ainda esses
dinheiros e depois não quero mais.
 
Veja - O Michael Jackson ganhou 10 milhões de
dólares para fazer anúncio da Pepsi-Cola, não é?
TOM JOBIM - Eu fico muito satisfeito com isso porque o
Michael Jackson comprou os direitos dos Beatles. Isso é uma
coisa fantástica. O Michael Jackson deve ser fã dos Beatles e
vai cuidar bem da obra. Eu, se ganhasse um dinheiro desses, não
10 milhões de dólares que é muita coisa para mim, mas 5 ou 4
ou 3 ou 2 ou 1 milhão de dólares, compraria a obra do Tom
Jobim, a minha própria obra. Não quero terras nem fazendas.
Dinheiro é muito bom quando você não tem de pensar nele. Eu
compraria minha obra e iria editá-la toda direitinho porque
está toda escrita errada, ia corrigir as letras, as harmonias e
as melodias e até o ritmo. Faria isso para poder morrer em paz.
Se eu morresse agora, neste minuto, iria ficar um rastro de
besteira incrível. No mais das vezes, esses editores nunca se
preocuparam em editar música nenhuma, eles sempre quiseram foi
ficar com os direitos autorais.
 
Veja - Está acontecendo uma renovação na
música brasileira?
TOM JOBIM - O Brasil é um país maravilhosamente
musical, bem-dotado. Fala-se muito aqui da influência americana.
Mas tenho ouvido Michael Jackson e aquilo está cheio de samba.
Aliás, a música latina sempre fez parte da música americana. A
música cubana toda foi assimilada pelos Estados Unidos. O Dizzy
Gillespie ia a Cuba estudar pistão. Eles vêm aqui e ficam
encantados. Mas é difícil ouvir músicas brasileiras porque
aqui só se escuta rock.
 
Veja - O que você acha de estar incluído
pelos críticos internacionais entre os compositores mais
importantes do século?
TOM JOBIM - Eu me sinto muito bem. Sou um cara humilde,
não gosto muito de ipsilone, de coisa muito complicada. Sou um
compositor popular e a minha mensagem é direta. Quando faço uma
melodia, pretendo que ela seja ouvida, seja claramente entendida,
que tenha contornos nítidos. O Villa-Lobos costumava dizer umas
coisas para irritar as pessoas. Lembro que o pessoal estava numa
fase de falar muito da esquerda. Aí o Villa disse: "Olha, o
futuro do mundo, o que vem aí, é o socialismo, o comunismo, é
claro. Mas infelizmente no momento eu não posso perder um
mercado como os Estados Unidos". Isso é o auge da
gozação, porque o Villa-Lobos era um pobretão, não tinha
nada, mas era um gozador. Quando voltou para o Brasil, já muito
doente, depois de operado em Nova York, deu uma entrevista. E a
repórter perguntou: "Maestro, está compondo muito?" E
ele: "Não, minha filha, agora estou decompondo".
 
Veja - Como você está se sentindo sendo pai
novamente, agora aos 61 anos?
TOM JOBIM - Ser pai é ótimo. Eu tenho meus filhos bem
criados. Graças a Deus, eles gostam muito de mim e eu gosto
muito deles. São boas pessoas. Gente de bem - inclusive o
Paulinho e a Elisabeth trabalham comigo. Agora tenho esses mais
novinhos: João e Maria Luiza. Eu consegui chegar a uma certa
simplicidade, pois meus filhos se chamam João e Maria, nomes
bastante simples e bonitos.
 
Veja - E como é a sua relação com João?
TOM JOBIM - Excelente. Ele vai fazer 8 anos em outubro.
Ele é engraçado. Ao mesmo tempo que me admira, de vez em quando
me esculhamba, me maltrata. Outro dia estava o Lobão cantando na
televisão. Eu perguntei: "Como é João, você gosta
disso?" Ele disse: "Olha, o Lobão explode, você não
chega nem a quebrar". Ele esculhamba logo.
 
Veja - Ainda hoje há críticas que dizem que
bossa nova é música brasileira. Como você reage a isso?
TOM JOBIM - A bossa nova é um negócio que apareceu com
um baiano chamado João Gilberto, que é um cara de um talento
genial. Aí vem um Paulo Francis e escreve: "A bossa nova é
50% jazz". Mentira. É um troço brasileiro que surgiu aqui
com Chega de Saudade, com uma introdução tipo choro, e
não tem nada de jazz. Ao contrário, o jazz é que teve uma
atitude aquisitiva em relação à bossa nova. Em 1962, Stan Getz
já começava a improvisar com figuras de jazz sobre a bossa nova
brasileira. O que é o jazz? É uma orquestra que tem saxofone,
tem trombone? Então isso é o jazz. E nós estamos perdidos
porque você não vai poder usar o telefone, tocar trombone, tudo
é jazz. Se a bossa nova fosse jazz nunca teria estourado nos
Estados Unidos, como não estouraram o jazz francês, o jazz
sueco, o jazz alemão.
 
Veja - Você parou de fumar cigarros e
praticamente não bebe mais. Essa preocupação com a saúde
seria medo da morte?
TOM JOBIM - Não. Não tenho medo da morte. Mas acho
preferível adiar esse problema, não tenho pressa. Antes, eu
gostaria de botar os papéis em ordem. Já tenho dois testamentos
feitos, um em Nova York e outro no Brasil. Mas, como o nosso
país não tem memória, espero morrer só depois que escrever o
meu cancioneiro. Só eu e meu filho Paulinho sabemos tudo das
minhas músicas, de como devem ser tocadas. Tenho de botar tudo
isso no papel. Por enquanto, é até bom a gente andar em aviões
separados.
 
Veja - Você gosta de tomar remédios?
TOM JOBIM - Não, remédio eu não tomo. Eu estava com
uma bursite, em Nova York, e aquilo incomoda, estava me
atrapalhando tocar. Eu fui numa loja de comida natural. Lá eu
tenho mania de comer comida natural. Pedi aos indianos, donos da
loja, uma pomada lá da Sumatra, que é um paliativo. Aí eles me
deram um remédio, um antioxidante. Eu comprei dois vidrinhos, 25
dólares cada um. Tomei e melhorei muito. É feito com uma erva
havaiana.
 
Veja - E a comida natural aqui no Brasil, você
não come?
TOM JOBIM - Um dos problemas do Brasil é a falta de
honestidade: arroz integral é falsificado. O problema do Brasil
é que nós não podemos fazer nem uma lingüiça porque ela
depende do que você põe dentro. Se colocar tudo que é
porcaria, fica uma porcaria. Esse é o problema básico do
Brasil. O problema do nosso país, infelizmente, é um problema
de honestidade.
 
Veja - A fama te incomoda?
TOM JOBIM - A liberdade derradeira do homem é andar como
um ilustre desconhecido. Em Nova York, eu ando na rua, as pessoas
me perguntam as horas, me tratam como um ser normal, isso é
muito confortável. Tem hora que o sujeito vem te fazer um elogio
frontal e é uma coisa embaraçosa. Às vezes, em Nova York,
chega uma pessoa e diz:
Eu sei quem você é. Outro dia, um cara me parou
e disse que havia me visto na TV, sabia que eu era um compositor
brasileiro, lembrava das músicas que eu cantei, falou que eu
toquei piano na beira do mar. Mas não se lembrava do meu nome.
 
Veja - Como você definiria a sua atual fase?
TOM JOBIM - Depois que a gente tem um distanciamento,
depois que a gente fica assim destacado, um pouco marginalizado
de si mesmo, devido à passagem dos anos e ao fato de você poder
olhar certas coisas com mais tranqüilidade, as coisas mudam.
Muitos filósofos acham mesmo que, para se ver bem uma coisa, a
pessoa deve se distanciar um pouco dela. O Guimarães Rosa se
tratava na terceira pessoa. Isso daí já é o distanciamento
ideal. Ele dizia assim:O Rosa está com sede, o Rosa quer
água, o Rosa agora está cansado, o Rosa agora vai dormir, ele
quer cama. Infelizmente ainda não cheguei a essa
perfeição de me tratar na terceira pessoa. Mas não demora
muito não.

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