sábado, 26 de novembro de 2016

Tom Jobim: Entrevista concedida a Veja (23/03/1988),


Veja - O que você veio fazer no Brasil?
TOM JOBIM - Vim ver minha mãe, que está com 80 anos.
Vim ver se o imposto de renda me devolve o que tirou na fonte.
Vim falar português. Vim tomar ar puro, olhar o céu azul e
sentir cheiro de mato. Nova York é poluída demais e a gente se
cansa do frio, se cansa de enfiar ceroulas e botas cada vez que
sai à rua.
 
Veja - Qual a sua queixa do imposto de renda?
TOM JOBIM - O imposto de renda me tira 45% na fonte e,
como sou residente no exterior, não posso fazer nenhuma
dedução. O Brasil é um país de parasitas, que persegue quem
trabalha. Se descobrem que você trabalha, correm atrás de você
o fiscal, a polícia, os ladrões. Falam mal de você. O Brasil
me dá prejuízo.
 
Veja -Mas nos Estados Unidos o imposto de renda
também não é pesado?
TOM JOBIM - Isto é uma invenção brasileira. Hoje em
dia, o máximo que se cobra de pessoa física nos Estados Unidos
é 28%. E, para um artista, há deduções de gastos com piano,
carro, vestimenta, maquilagem. Comparado com o Brasil, aquilo é
um paraíso fiscal.
 
Veja - O fato de estar morando no exterior, de
estar afastado das chamadas raízes brasileiras, não prejudica a
sua música?
TOM JOBIM - Eu acho uma coisa formidável você de longe,
à distância, poder contemplar sua calçada e seu quintal. O
Guimarães Rosa, o Vinícius de Moraes, o João Cabral de Melo
Neto e tantos outros escreveram muito quando estavam em outros
países e não ficaram menos brasileiros. O Jorge Amado, que eu
encontrei em Nova York, lançando o livro dele - Tocaia
Grande -, viajou em seguida para Paris, onde arranjou um
apartamento para ficar escrevendo. E não é maravilhoso ele
carregar a Bahia para Paris? Em matéria de raiz, o Jorge Amado
já comeu toda a mandioca que podia. Como dizia o Carlos Drummond
de Andrade: "Os senhores me desculpem, mas, devido ao
adiantado da hora, me sinto anterior a fronteiras".
Passarinho sempre voou - e nunca usou passaporte, nem
bilhete.
 
Veja - Como recebeu a notícia de que o Rio de
Janeiro havia sido devastado pela chuva?
TOM JOBIM - Soube pela televisão, pelos jornais e pela
perplexidade dos americanos ao tomarem conhecimento de que
pessoas viviam daquela forma no Rio. Não podemos atribuir a Deus
uma catástrofe dessas. No Rio se corta o mato, chegam as chuvas
de verão e a terra desliza. A enxurrada quase levou até a minha
casa, no Jardim Botânico, em pleno centro da cachoeira. Estamos
completamente erodidos.
 
Veja - Onde é mais fácil fazer sucesso: no
Brasil ou nos Estados Unidos?
TOM JOBIM - É mais fácil fazer sucesso no Carnegie
Hall, em Nova York, do que no Maracanãzinho. Aqui o cara já vai
para o Maracanãzinho cheio de problemas, com todos os planos na
cabeça, cruzados, congelamento, descongelamento. Isso aqui é
uma brincadeira. Lá as pessoas vão para o espetáculo sem
preocupações.
 
Veja - O Brasil trata bem os seus artistas?
TOM JOBIM - O Brasil precisa amar os seus artistas. Ficam
dizendo que nós, músicos, somos milionários. Por que não se
fala a verdade no Brasil? Por que não se diz que os ricos são
os ricos? O rico é a Gal Costa, o Caetano Veloso, o Chico
Buarque, o Tom Jobim? Aqui inventam uma porção de coisas, há
sempre a interferência muito grande do governo na vida
particular do indivíduo. Eles querem saber o que é que você
está fazendo, escutar no telefone, aquele negócio todo que
tivemos desde 1964. Eu fui preso, o Chico Buarque também, todo
mundo foi apanhado em casa. Eu não sou subversivo, pelo
contrário, eu sou um sujeito nitidamente da ordem e do
progresso. Agora, o que estou vendo aqui não é nem ordem nem
progresso, pelo contrário.
 
Veja - Mas mesmo com essas críticas você
continua gostando do Brasil?
TOM JOBIM - Sim. Mas é preciso ter lucidez para falar do
país. Porque se a pátria é um negócio pelo qual você dá a
vida, você morre e você é torturado, o que é que é isso?
Isso não é a pátria. Como disse um amigo em Nova York: o meu
país é aquele que me deixa viver, que não me fuzila, que não
me tortura, que me deixa educar meus filhos, onde posso exercer
minha profissão, que deixa eu fazer meus negócios. Você ama,
ama, ama a pátria e depois como é que é? Cadê o piano? O
Brasil importa metralhadoras de todos os tipos e nós não temos
piano para tocar.
 
Veja - Não há pianos no Brasil?
TOM JOBIM - Atenção, juventude, para o meu conselho: a
primeira coisa que o garoto deve fazer, se quiser ser músico, é
arranjar um contrabandista. Se não for assim, não terá um
instrumento decente.
 
Veja - Que outro conselho você daria para quem
quer ser músico?
TOM JOBIM - O garoto precisa saber também que música
não é só um instinto sexual, não é comprar uma camisa
vermelha e sair de moto, não é imitar o canto dos pássaros,
nem sair tocando "bumbum" até furar a laje da casa ou
do apartamento.
 
Veja - Você trabalha muito?
TOM JOBIM - Trabalho mais do que mereço. Eu sou uma
usina de música. Tenho mais de 500 músicas gravadas e faço
questão de acompanhar todas as etapas do meu disco. Tem horas
que não quero trabalhar, prefiro andar na praia, sair para
comprar um jornal, ver uma garota na praia - à distância e
com muito respeito -, mas quase não dá, tanto aqui como no
exterior.
 
Veja - Muita gente o criticou por ter cedido Águas
de Março para os anúncios da Coca-Cola. Você fica magoado
com isso?
TOM JOBIM - Há quase dois anos que eu não bebo. Só
posso beber café, água e refrigerantes. A Coca-Cola se
aproximou de mim para fazer um anúncio, eu achei ótimo, achei
que não fazia mal a ninguém, pois vejo todo mundo tomando
Coca-Cola. Aí esses meus amigos - entre aspas, Jards
Macalé, Antônio Houaiss e Luiz Carlos Vinhas - começaram
a dizer que eu tinha vendido o Brasil à Coca-Cola. Essas pessoas
resolvem que fazer anúncios para a Coca-Cola é pecado. Eu posso
anunciar cachaça, Brahma Chopp, mas não posso cometer o pecado
mortal que é anunciar Coca-Cola. Eu não vendi nada para a
Coca-Cola. Eu apenas licenciei o mote de Águas de Março.
Todo o Brasil pode cantar tranqüilamente esta música. O
primeiro contrato foi por seis meses e por aquele anúncio em que
eu aparecia, aqui no Brasil, recebi 280 000 cruzados.
 
Veja - E de outras publicidades que você faz,
as pessoas não reclamam?
TOM JOBIM - Reclamam. Eu fiz também a campanha do
"Rio, eu gosto de você", o anúncio do Passaporte
Brasil, para a Embratur, e vem sempre gente dizer: "Como é,
você agora é garoto-propaganda?" E o que eu vou dizer para
essas pessoas? Eu posso dizer: "Não, garoto-propaganda é a
sua mamãe". Mas não vou dizer isso porque sou um rapaz
educado.
 
Veja - Mas vendo você como um patrimônio da
arte brasileira, um monumento da música, muita gente se espantou
vendo o comercial da Coca-Cola.
TOM JOBIM - Vamos ser objetivos, bem diretos. Vamos
contar a verdade. Se o "seu" Tom Jobim está com 61
anos, andando de avião pelo mundo todo, indo para os Estados
Unidos, Japão, Europa e várias cidades, dormindo cada dia num
lugar diferente, fazendo show - por quê? Porque o
"seu" Tom Jobim está precisando de dinheiro,
evidentemente. Se ele não estivesse precisando de dinheiro, ele
não estaria viajando tanto. Eu não sou passarinho para viver
pelos ares. Sou uma pessoa que tem grandes compromissos, ajudo
gente, tenho uma família grande, fui casado uma primeira vez,
sou casado pela segunda vez. Minha mãe é idosa, tenho de cuidar
dessas pessoas que dependem de mim. Vou ganhar ainda esses
dinheiros e depois não quero mais.
 
Veja - O Michael Jackson ganhou 10 milhões de
dólares para fazer anúncio da Pepsi-Cola, não é?
TOM JOBIM - Eu fico muito satisfeito com isso porque o
Michael Jackson comprou os direitos dos Beatles. Isso é uma
coisa fantástica. O Michael Jackson deve ser fã dos Beatles e
vai cuidar bem da obra. Eu, se ganhasse um dinheiro desses, não
10 milhões de dólares que é muita coisa para mim, mas 5 ou 4
ou 3 ou 2 ou 1 milhão de dólares, compraria a obra do Tom
Jobim, a minha própria obra. Não quero terras nem fazendas.
Dinheiro é muito bom quando você não tem de pensar nele. Eu
compraria minha obra e iria editá-la toda direitinho porque
está toda escrita errada, ia corrigir as letras, as harmonias e
as melodias e até o ritmo. Faria isso para poder morrer em paz.
Se eu morresse agora, neste minuto, iria ficar um rastro de
besteira incrível. No mais das vezes, esses editores nunca se
preocuparam em editar música nenhuma, eles sempre quiseram foi
ficar com os direitos autorais.
 
Veja - Está acontecendo uma renovação na
música brasileira?
TOM JOBIM - O Brasil é um país maravilhosamente
musical, bem-dotado. Fala-se muito aqui da influência americana.
Mas tenho ouvido Michael Jackson e aquilo está cheio de samba.
Aliás, a música latina sempre fez parte da música americana. A
música cubana toda foi assimilada pelos Estados Unidos. O Dizzy
Gillespie ia a Cuba estudar pistão. Eles vêm aqui e ficam
encantados. Mas é difícil ouvir músicas brasileiras porque
aqui só se escuta rock.
 
Veja - O que você acha de estar incluído
pelos críticos internacionais entre os compositores mais
importantes do século?
TOM JOBIM - Eu me sinto muito bem. Sou um cara humilde,
não gosto muito de ipsilone, de coisa muito complicada. Sou um
compositor popular e a minha mensagem é direta. Quando faço uma
melodia, pretendo que ela seja ouvida, seja claramente entendida,
que tenha contornos nítidos. O Villa-Lobos costumava dizer umas
coisas para irritar as pessoas. Lembro que o pessoal estava numa
fase de falar muito da esquerda. Aí o Villa disse: "Olha, o
futuro do mundo, o que vem aí, é o socialismo, o comunismo, é
claro. Mas infelizmente no momento eu não posso perder um
mercado como os Estados Unidos". Isso é o auge da
gozação, porque o Villa-Lobos era um pobretão, não tinha
nada, mas era um gozador. Quando voltou para o Brasil, já muito
doente, depois de operado em Nova York, deu uma entrevista. E a
repórter perguntou: "Maestro, está compondo muito?" E
ele: "Não, minha filha, agora estou decompondo".
 
Veja - Como você está se sentindo sendo pai
novamente, agora aos 61 anos?
TOM JOBIM - Ser pai é ótimo. Eu tenho meus filhos bem
criados. Graças a Deus, eles gostam muito de mim e eu gosto
muito deles. São boas pessoas. Gente de bem - inclusive o
Paulinho e a Elisabeth trabalham comigo. Agora tenho esses mais
novinhos: João e Maria Luiza. Eu consegui chegar a uma certa
simplicidade, pois meus filhos se chamam João e Maria, nomes
bastante simples e bonitos.
 
Veja - E como é a sua relação com João?
TOM JOBIM - Excelente. Ele vai fazer 8 anos em outubro.
Ele é engraçado. Ao mesmo tempo que me admira, de vez em quando
me esculhamba, me maltrata. Outro dia estava o Lobão cantando na
televisão. Eu perguntei: "Como é João, você gosta
disso?" Ele disse: "Olha, o Lobão explode, você não
chega nem a quebrar". Ele esculhamba logo.
 
Veja - Ainda hoje há críticas que dizem que
bossa nova é música brasileira. Como você reage a isso?
TOM JOBIM - A bossa nova é um negócio que apareceu com
um baiano chamado João Gilberto, que é um cara de um talento
genial. Aí vem um Paulo Francis e escreve: "A bossa nova é
50% jazz". Mentira. É um troço brasileiro que surgiu aqui
com Chega de Saudade, com uma introdução tipo choro, e
não tem nada de jazz. Ao contrário, o jazz é que teve uma
atitude aquisitiva em relação à bossa nova. Em 1962, Stan Getz
já começava a improvisar com figuras de jazz sobre a bossa nova
brasileira. O que é o jazz? É uma orquestra que tem saxofone,
tem trombone? Então isso é o jazz. E nós estamos perdidos
porque você não vai poder usar o telefone, tocar trombone, tudo
é jazz. Se a bossa nova fosse jazz nunca teria estourado nos
Estados Unidos, como não estouraram o jazz francês, o jazz
sueco, o jazz alemão.
 
Veja - Você parou de fumar cigarros e
praticamente não bebe mais. Essa preocupação com a saúde
seria medo da morte?
TOM JOBIM - Não. Não tenho medo da morte. Mas acho
preferível adiar esse problema, não tenho pressa. Antes, eu
gostaria de botar os papéis em ordem. Já tenho dois testamentos
feitos, um em Nova York e outro no Brasil. Mas, como o nosso
país não tem memória, espero morrer só depois que escrever o
meu cancioneiro. Só eu e meu filho Paulinho sabemos tudo das
minhas músicas, de como devem ser tocadas. Tenho de botar tudo
isso no papel. Por enquanto, é até bom a gente andar em aviões
separados.
 
Veja - Você gosta de tomar remédios?
TOM JOBIM - Não, remédio eu não tomo. Eu estava com
uma bursite, em Nova York, e aquilo incomoda, estava me
atrapalhando tocar. Eu fui numa loja de comida natural. Lá eu
tenho mania de comer comida natural. Pedi aos indianos, donos da
loja, uma pomada lá da Sumatra, que é um paliativo. Aí eles me
deram um remédio, um antioxidante. Eu comprei dois vidrinhos, 25
dólares cada um. Tomei e melhorei muito. É feito com uma erva
havaiana.
 
Veja - E a comida natural aqui no Brasil, você
não come?
TOM JOBIM - Um dos problemas do Brasil é a falta de
honestidade: arroz integral é falsificado. O problema do Brasil
é que nós não podemos fazer nem uma lingüiça porque ela
depende do que você põe dentro. Se colocar tudo que é
porcaria, fica uma porcaria. Esse é o problema básico do
Brasil. O problema do nosso país, infelizmente, é um problema
de honestidade.
 
Veja - A fama te incomoda?
TOM JOBIM - A liberdade derradeira do homem é andar como
um ilustre desconhecido. Em Nova York, eu ando na rua, as pessoas
me perguntam as horas, me tratam como um ser normal, isso é
muito confortável. Tem hora que o sujeito vem te fazer um elogio
frontal e é uma coisa embaraçosa. Às vezes, em Nova York,
chega uma pessoa e diz:
Eu sei quem você é. Outro dia, um cara me parou
e disse que havia me visto na TV, sabia que eu era um compositor
brasileiro, lembrava das músicas que eu cantei, falou que eu
toquei piano na beira do mar. Mas não se lembrava do meu nome.
 
Veja - Como você definiria a sua atual fase?
TOM JOBIM - Depois que a gente tem um distanciamento,
depois que a gente fica assim destacado, um pouco marginalizado
de si mesmo, devido à passagem dos anos e ao fato de você poder
olhar certas coisas com mais tranqüilidade, as coisas mudam.
Muitos filósofos acham mesmo que, para se ver bem uma coisa, a
pessoa deve se distanciar um pouco dela. O Guimarães Rosa se
tratava na terceira pessoa. Isso daí já é o distanciamento
ideal. Ele dizia assim:O Rosa está com sede, o Rosa quer
água, o Rosa agora está cansado, o Rosa agora vai dormir, ele
quer cama. Infelizmente ainda não cheguei a essa
perfeição de me tratar na terceira pessoa. Mas não demora
muito não.

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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Humberto Eco: Entrevista concedida a Veja, (27/10/2000),


Veja — Na sua opinião, que impacto a internet vai ter na cultura?
ECO — Pela primeira vez, a humanidade dispõe de uma enorme quantidade de informação a um baixo custo. No passado essa informação era custosa, implicava comprar livros, explorar bibliotecas. Hoje, do centro da África, se você estiver conectado, poderá ter
acesso a textos filosóficos em latim. É uma mudança e tanto.
 
Veja — E na política, o que vai acontecer?
ECO — O governo chinês está filtrando informação on-line. Programas bloqueiam o acesso ao site B e só permitem acesso ao site A. Mas há truques para chegar ao site B por meio do site A. O governo não pode controlar todos os sites existentes. A internet é como
uma enchente, não há como parar a invasão de informação. Em situações críticas, esse excesso de informação é muito positivo. Durante uma conferência em Bolonha, um palestrante disse que se a internet existisse nos anos 40 Auschwitz não teria sido possível,
porque todos teriam sido informados do que estava acontecendo. Eles não poderiam dizer, como dizem até hoje, "ah, eu não sabia". A internet nos obriga a saber. Você não pode parar a informação.
 
Veja — Qual é o aspecto negativo?
ECO — A abundância de informação. Uma boa quantidade de informação é benéfica e o excesso pode ser péssimo, porque não se consegue encará-lo e escolher o que presta. Brinco dizendo que não há diferença entre o jornal stalinista Pravda e o New York Times
dominical. O primeiro não possui notícia alguma e o outro tem 600 páginas de informação. Uma semana não é suficiente para ler essas 600 páginas.
 
Veja — No meio de tanta informação, como encontrar os sites de qualidade?
ECO — Hoje podemos encontrar na internet todos os textos de filósofos medievais. O problema é saber como vou adivinhar que eles estão lá. Esbarrei com esses textos durante uma pesquisa. Mas sou profissionalmente envolvido com esse tipo de estudo. Para uma
pessoa mais jovem, a internet pode ser uma floresta: se você decidir virar para a esquerda em vez de ir para a direita, talvez deixe de achar o tesouro que está buscando. Existem muitos sites interessantes, mas há também muito lixo. Fiz uma experiência. Escolhi o
tema Holy Grail (em inglês, cálice sagrado, no qual, segundo lendas medievais, Cristo teria bebido durante a Última Ceia). Sei que é um assunto que envolve bastante gente louca, que desperta fantasias inacreditáveis. Na primeira busca encontrei 78 sites. Dois
continham boas informações enciclopédicas, dois forneciam dados de nível universitário, cinco misturavam informação enciclopédica com informação sem nenhum controle. O resto era lixo. Como podemos garantir que um jovem iniciante consiga distinguir entre a
informação verdadeira e a falsa?
 
Veja — Boa pergunta...
ECO — Isso é algo que deveria ser ensinado nas escolas do futuro, mas ainda não sabemos em que cadeira. Estou cada vez mais pensando em criar grupos universitários que monitorem sites. Por exemplo, em filosofia. Eles selecionariam os sites interessantes.
Então, se um jovem iniciar uma pesquisa sobre um assunto, poderá receber um aconselhamento razoável. Esse poderia ser um serviço de grande sucesso, até em termos ECOnômicos. Hoje você aperta um botão e recebe 10 000 títulos sobre um tema. Só que você
não tem tempo nem de ler os 10 000 títulos, sem falar nos livros — isso ilustra como o excesso de informação pode transformar-se em puro silêncio.
 
Veja — Certa vez, o senhor disse que "quando a internet se tornasse um meio de implementar comunidades reais, por intermédio de comunidades virtuais, teríamos uma grande mudança". O que queria dizer com isso?
ECO — Na primeira fase, a internet implementou a solidão. As pessoas passaram a trabalhar em casa, a se comunicar virtualmente. Como transformar essa solidão em ocasiões sociais? Aqui, em Bolonha, estamos inaugurando em dezembro um enorme espaço
público cheio de computadores e livros. A Itália tem população de 58 milhões de habitantes e uma minoria de 5 milhões conectada à internet. Nesses espaços, as pessoas terão acesso à internet, poderão escrever suas teses, receber cursos de treinamento, todo tipo
de informação. Tem gente que usa a internet uma vez por semana, então para que comprar um computador? Cinqüenta pessoas usando computadores numa sala podem trocar informação. Assim se utiliza um instrumento de solidão para criar uma pequena
comunidade.
 
Veja — No mundo virtual, a anarquia parece prevalecer. Mas existem ferramentas de controle, como softwares e cookies. Quem vai vencer: a anarquia ou a burocracia?
ECO — Esse é um problema que não tem a ver apenas com a internet. Neste mundo, estamos perdendo a privacidade. Somos filmados quando adquirimos uísque no supermercado, nossas compras, sejam de Bíblias ou de livros pornôs com cartão de crédito, são
registradas, assim como nossa hospedagem em hotéis. Com a internet, podemos chegar ao paroxismo. Somos registrados em certos sites, e isso significa que alguém pode ter seguido minhas pesquisas nos últimos seis meses e visto que entrei no site tal
buscando informações sobre o filósofo Emmanuel Kant. Isso levará, provavelmente, ao desaparecimento do segredo. Somos cheios de segredos, mas eles não são tão dramáticos assim. Quero comprar um presente de aniversário para minha filha e manter sigilo até
lá. É um pequeno segredo, mas segredos estão cada vez mais difíceis de guardar. Vamos viver como na época da confissão pública, quando todos revelavam seus pecados.
 
Veja — Como driblar essa perseguição?
ECO — Digamos que eu queira ler sobre Emmanuel Kant na internet. Em um site que não tenha nada de proibido, mas que, por razões pessoais, eu não queira ser monitorado. O que fazer? Faço cinqüenta buscas em alguns filósofos, incluindo Aristóteles, Descartes
e Kant. No final, ninguém vai saber em qual filósofo estou interessado. É uma forma artificial de proteção, que toma tempo. Estaremos criando formas de proteção para nossos segredos legítimos, ou então deveremos ter uma atitude diferente perante eles. Como dizer
"Sim, tenho uma amante. Sim, comprei a revista Playboy. E daí?" Caso contrário, teremos de inventar formas de autoproteção, novos modelos de hipocrisia pública.
 
Veja — O inglês está se transformando na língua franca da internet?
ECO — O inglês é o esperanto da internet. Não é a primeira vez que um idioma se transforma num veículo do mundo. Antes era o grego, depois foi o latim. Para algumas pessoas, a rede pode ser a oportunidade de descobrir outras línguas. Existem ferramentas,
horríveis por sinal, de tradução, mas talvez um americano traduzindo algo do francês e comparando as traduções passe a entender um pouco de francês.
 
Veja — O senhor acredita que a internet vá mudar o idioma inglês, pela disseminação de seu uso entre pessoas que não o dominam muito bem?
ECO — Sim, mas esse idioma já vinha mudando bem antes da internet. A existência da América mudou o inglês usado em Oxford e, à medida que o idioma circula, ele está em constante mutação. O que aconteceu com o grego clássico quando ele passou a ser
falado na região mediterrânea, pelos egípcios e até pelos romanos? Surgiu uma espécie de novo grego elementar chamado coiné. Era polido, em comparação ao grego de Homero. Mas Aristóteles escreveu naquele idioma. Então, mesmo com um idioma universal
simplificado, você pode fazer excelentes coisas.
 
Veja — A internet ainda é um privilégio da elite?
ECO — Hoje é. E, francamente, não acredito que a humanidade toda vá usar a internet. A rede vai acabar criando novas formas de divisão de classes. As classes não serão mais baseadas em dinheiro, mas sim em quem tem acesso à informação. Teremos aqueles
que vão acessar, manipular e interagir, aqueles que usarão a rede apenas passivamente e aqueles que serão excluídos, os proletários. Quando a divisão de classes se fazia de acordo com a riqueza, era difícil dizer para milhões de pessoas pobres "vou doar milhões
de dólares e vocês enriquecerão". Agora seria mais fácil dar às pessoas analfabetas acesso gratuito à internet.
 
Veja — Como podemos acelerar a democratização da rede?
ECO — Por meio da educação. Cada criança no mundo deve ter acesso à internet. Se elas não tiverem dinheiro para comprar um computador, pelo menos devem ter espaços públicos onde possam acessar a rede.
 
Veja — O que o senhor acha do e-book, o livro eletrônico para computador?
ECO — Os e-books podem mudar parcialmente o panorama. A enciclopédia italiana Treccani deve ter uns quinze volumes grandes. Além de custar caro, ocupa um enorme espaço. Você pode colocar tudo isso num disquete. Uma criança pode ir para a escola levando
apenas um e-book. Só não acredito que seja prazeroso ler um romance dessa forma.
 
Veja — O senhor publicaria seus livros dessa forma?
ECO — Ainda não.
 
Veja — Com que freqüência o senhor usa a internet?
ECO — Uso a internet como uso o carro, quando preciso. Não passo minha vida dirigindo em auto-estradas. Se não tiver de me locomover, não pego o carro. Não passo madrugadas on-line. Tenho coisa melhor para fazer.

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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Tania Zagury: Entrevista concedida a Nova Escola (Mar./2000)


NOVA ESCOLA: Quem tem hoje o papel de educar as crianças para a cidadania? Os pais ou a escola?
Tania Zagury: Essa missão está sobrando muito mais para a escola, apesar de ela não ter condições de arcar sozinha com a responsabilidade. Não que os pais estejam acomodados.
Nas últimas décadas, nossa sociedade passou por mudanças que se refletiram nas relações familiares.
 
NE: Que mudanças foram essas?
TANIA: Os pais de hoje trabalham mais e passam menos tempo com os filhos. A mãe, que antes ficava em casa e transmitia valores morais, agora trabalha fora e, em 27% dos casos,
é arrimo de família. Quando chegam do trabalho, ambos estão cheios de culpa pela ausência e, para minimizar esse sentimento, tornam-se muito permissivos, deixam de estabelecer
limites e de ensinar o que é certo e errado. Por trás de tudo isso há uma insegurança grande, em parte fruto da crise ética institucional que estamos vivendo no Brasil. No passado, a
família tinha um papel de formação ética do indivíduo. À escola cabia a transmissão da cultura acumulada (tendo o professor no papel de centro de conhecimento) e uma parte da
formação de hábitos e atitudes. Reestabelecida a democracia, a volta da liberdade de imprensa permitiu que uma série de escândalos viessem à tona e a população percebeu que a
impunidade corria solta. Casos como o de PC Farias, o dos anões do Orçamento e o do ex-deputado Sérgio Naya passaram a deixar no ar uma sensação ruim de que, para se dar
bem no Brasil, é preciso ser, no mínimo, "esperto". Senti, nas minhas pesquisas, que essa inversão de valores afetou negativamente as famílias.
 
NE: De que forma?
TANIA: Antigamente, ninguém deixava por menos. Se a criança trazia para casa um lápis ou uma borracha de um colega, não se aceitava, mesmo que fosse apenas um empréstimo.
No dia seguinte, tinha de devolver ao dono. No momento em que se vê triunfar a impunidade, os pais não agem mais assim. Como são amorosos e preocupados – e não querem ver
seus filhos por baixo –, ficam em dúvida se devem preservar esses valores com um nível de exigência tão alto. Prevalece a idéia de que as pessoas têm de levar vantagem em tudo.
Eles temem que o filho perca os instrumentos necessários para se defender em uma sociedade que privilegia os espertos. Têm a impressão de que ele será o único a agir com ética
e sentem medo de que se torne um "bobão". Tornam-se inativos, inseguros. Como conseqüência, acabam transferindo a responsabilidade da educação moral para os professores.
 
NE: E como a escola deve agir diante dessa situação?
TANIA: Deve revitalizar a confiança da família no seu papel de formadora e trazê-la cada vez mais para dentro da instituição. Quando os pais passaram a se sentir inseguros e culpados
por não estar tão próximos dos filhos, a escola tentou ocupar esse espaço. Mas ela não tem condições de fazer bem as duas coisas. Os conteúdos estão mudando muito
rapidamente. O professor precisa se reciclar, tem responsabilidades profissionais e não pode arcar com tarefas que são prioritariamente da família. Ao levar os pais a participar de
encontros, palestras, reuniões e troca de experiências com outros pais, eles saem fortalecidos e sentem que não estão sozinhos nessa luta.
 
NE: Mas os pais aceitam participar?
TANIA: Muitos sim, mas sempre há os que resistem. Os que delegam toda a responsabilidade aos professores são os que trazem mais problemas. Costumam não aceitar críticas e
apóiam os filhos em atitudes indisciplinadas. São os que pedem que não sejam aplicadas provas às segundas-feiras para viajar no fim de semana ou sugerem que se enforquem
feriados para que seus filhos não corram o risco de perder matéria. Se o pai faz esse tipo de reclamação, a escola se enfraquece e o jovem sem limites se fortalece.
 
NE: O que fazer para evitar esse enfraquecimento?
TANIA: Pais e professores devem agir em conjunto. A própria escola tem de mostrar coesão e transparência e trabalhar em equipe. Se um problema de indisciplina é enviado para
uma instância superior e a direção abranda, o professor sai enfraquecido. Ninguém pode tomar atitudes isoladas. Por exemplo, aplicar uma prova mais difícil porque determinado aluno
é bagunceiro. O planejamento pedagógico, que deve incluir o programa de avaliação, precisa ser claro e seguido à risca. Essa postura gera confiança. O aluno percebe que a escola é
séria, bem definida e passa a respeitá-la.
 
NE: Por que muitos pais modernos não conseguem dizer não aos filhos?
TANIA: Eles têm o que eu chamo de visão excessivamente psicologizada da educação. Preocupam-se demais com a psiqué, com o emocional, se os filhos vão ficar com algum
trauma, algum complexo ou com a auto-estima abalada cada vez que eles lhes impõem limites. Muitos tornam-se superprotetores, alegando que o tempo é escasso e que preferem
curtir os filhos em vez de ficar fazendo exigências. Mas esse tempo que sobra é precioso para a formação ética dos filhos. Nessas poucas horas é preciso ter postura. É preciso fazer
a criança entender que os pais se ausentam porque estão trabalhando. E que trabalham porque querem dar segurança, saúde e educação aos filhos. A criança compreende isso muito
bem. Quando juntos, os pais devem dar atenção, carinho, amor e... educação aos filhos.
 
NE: A senhora afirmaria que os estudantes de hoje estão mais indisciplinados por causa da falta de limites em casa?
TANIA: Com certeza eles estão mais indisciplinados, mas não apenas por causa disso. Há três fatores que contribuem para essa situação. Em primeiro lugar, a insegurança dos pais.
Criança que não aprendeu a esperar a vez, que bate na porta quando a mãe está no banheiro, que grita para chamar a atenção, chega à escola e repete esse modelo. Em segundo
lugar, está um fator que, isoladamente, é positivo. Na sociedade atual, a quantidade de estímulos que a criança recebe a faz mais articulada. Ela argumenta mais cedo e discute sobre
mais assuntos. Por fim, mudanças ocorridas nas últimas décadas ajudam a compor esse ambiente. A relação professor/alunos se alterou de forma radical. Na década de 50, a
hierarquia era rígida. O mestre tinha poder absoluto, o que é muito ruim. Com o chamado movimento da Escola Nova, no final dos anos 60 e início dos 70, o aluno passou a ter mais
participação. O poder do professor diminuiu, o que é positivo. No entanto, Nem todos os docentes souberam lidar de forma eficiente com essa democracia em sala de aula.
 
NE: Como lidar com essa indisciplina? Existem castigos na era moderna?
TANIA: A solução começa pela boa formação do professor, que precisa dominar muito bem os conteúdos, ter bom relacionamento com os alunos, muita didática e autoridade com
eles, mas ser afetuoso e respeitoso. Dessa forma, ele será querido e respeitado. Por outro lado, a escola tem de ter autonomia para agir pedagogicamente. Pôr para fora da sala ou
expulsar o aluno devem ser os últimos recursos, pois são formas de exclusão social que não levam a nada. O importante é fazer o aluno perceber as conseqüências dos seus atos. Se
picha uma parede, deve pintá-la. Se quebra uma carteira, deve consertá-la. Essas sanções, porém, Necessitam do apoio da família e têm de estar claras para todos os envolvidos,
desde o início das aulas.
 
NE: O que a senhora acha de pais que estimulam a precocidade dos filhos?
TANIA: Isso faz parte de uma sociedade competitiva, com tendência à recessão e cada vez mais globalizada. As pessoas estão com muito medo. Cada vez mais cedo os pais
procuram dar estímulos para o filho não ficar para trás. Só que acabam exagerando. Há crianças que até disputam docinhos a tapa nas mesas de aniversários. E, quando acha que o
filho não lutou, o pai fica incomodado. Tem medo de que ele seja um derrotado. Começa a incentivar atitudes que normalmente não incentivaria. Certa vez, vi um pai gritar para o filho,
num jogo de futebol amistoso, que derrubasse o colega para não perder um gol. O medo é um grande inimigo da educação ética.
 
NE: Esse estímulo, então, não é saudável?
TANIA: Tudo o que é excessivo é ruim. É ótimo que se consiga perceber certas inclinações e habilidades nos filhos. Mas que isso não se torne um motivo de ansiedade para a
criança. É muito interessante que um filho goste de jogar xadrez. Mas, se surge um clima de cobrança quando ele perde um campeonato, não é bom. A aprendizagem tem de vir
acompanhada do prazer. Do contrário, podemos criar uma população de neuróticos. Bebê já tem de ir para a piscina. Com 5 anos, tem de estar alfabetizado em duas línguas. Depois,
faz vestibulinho. Desse jeito, suprimimos a infância, gerando pessoas estressadas, competitivas e ansiosas.
 
NE: Essa precocidade gera situações por vezes constrangedoras – perguntas que desconcertam qualquer adulto. Como pais e professores devem agir nessas situações?
TANIA: A orientação que costumo dar é que a verdade deve ser sempre a resposta. É evidente que, de acordo com a idade, os pais precisam dosar a profundidade do que estão
falando. Não convém aprofundar mais do que foi perguntado, respondendo sempre de forma objetiva e concreta. Se não se der por satisfeita, a criança continuará perguntando até que
se sinta atendida. É muito chato quando uma simples pergunta se transforma numa aula de Biologia. Também a mentira ou as meias-verdades são percebidas pela criança. Agindo
assim, pais e professores perdem a credibilidade.
 
NE: A senhora tem filhos?
TANIA: Sim. Dois, já entrando na idade adulta.
 
NE: Como agiu com eles?
TANIA: O que escrevo nos livros é exatamente o que fiz, toda a vida, em minha casa, com meus filhos. Eu e meu marido colocamos limites desde o começo. Limites coerentes, no
momento certo e bem dosados, é claro. Sempre exercitamos esse equilíbrio entre a liberdade e a responsabilidade e também nossa autoridade como pais. Não pense que foi fácil,
mas vale a pena quando, depois de alguns anos, seu filho vira uma pessoa produtiva, ética e respeitosa.

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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

ZIEMBINSKI: Entrevista (26/11/1975), durante os preparativos para a segunda montagem da peça Vestido de Noiva

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Veja — Encenar "Vestido de Noiva" agora, 32 anos depois do sucesso de sua estréia, não seria um pouco como se Orson
Welles pretendesse filmar uma nova vesão de "O Cidadão Kane"?

ZIEMBINSKI — Não. Em 1943, "Vestido de Noiva" não foi apenas uma peça que obteve maior repercussão. Ela representou
uma mudança visceral na dramaturgia brasileira. Foi um espetáculo muito adiantado, tanto no setor do texto quanto no aspecto
formal. A montagem mexeu com o teatro, mas, principalmente, mexeu com os teatrólogos de então, que, com raríssimas
exceções, limitavam-se a criar as peças comerciais. Sendo assim, à medida que o tempo ia passando, "Vestido de Noiva"
adquiria mais importância. Sentimos agora a necessidade de mostrar esse marco de nosso teatro a uma geração que ouve
falar dela, responsabiliza o espetáculo por uma porção de coisas que vieram depois, mas nunca o assistiu. A idéia foi fazer o
mesmo espetáculo, inclusive com os cenários originais de Santa Rosa. Naturalmente, recorremos a novos recursos. Na
ocasião, dispúnhamos quase só de amadores. Agora temos um elenco profissional e outras concepções de luz e palco.

Veja — Foi difícil reconstruir os cenários de Santa Rosa?

ZIEMBINSKI — Tínhamos um vastíssimo material fotográfico em preto e branco. Só faltavam as cores. Mas o espetáculo ficara
inteiramente gravado em minha memória. Só precisei recorrer às fotos quanto a um ou outro detalhe.

Veja — Será que a peça conserva o mesmo impacto?

ZIEMBINSKI — Acho que seu vigor, hoje em dia, se não for maior, é pelo menos igual ao de sua estréia em novembro de
1943. Interessa-me saber até que ponto esta nossa versão do "Vestido" pode beneficiar a nós e ao teatro brasileiro. Não se
trata de uma simples remontagem, que vise ao sucesso financeiro. Para mim, significa a recolocação de um espetáculo que
vigora há 32 anos e continuará vivo no futuro.

Veja — Como vê o teatro brasileiro de hoje?

ZIEMBINSKI — O teatro brasileiro percorreu, num prazo de tempo excepcionalmente curto, um caminho que os outros teatros
do mundo percorreram muito mais lentamente. Nasceu, cresceu e fez todas essas tentativas que conhecemos em pouco mais
de trinta anos. Esse desenvolvimento precoce, essa maturidade sem infância, o tornaram forçosamente mais vulnerável ao
desnorteamento e a inúmeras tentativas infelizes, ou simplesmente descabidas. Mas devemos nos dar conta do que está
acontecendo no teatro do mundo inteiro. Trata-se de uma época de desorientação. Em países onde o teatro tem mais vida,
mais infância, mais tradição (no bom sentido da palavra), criou-se uma certa resistência às inovações. Nosso teatro, sendo
jovem, tem o fervor e a impaciência dos recém-batizados e por isso se embrenha em aventuras que podem não trazer, afinal,
nada de positivo. Mas muitas vezes acerta, de maneira puramente casual, quando parte para a sinceridade.

Veja — A sinceridade, então, seria o essencial?

ZIEMBINSKI — Sim. O que prejudica muito o sucesso dessas tentativas é a situação econômica de nosso teatro e a
colocação específica do público.

Veja — Em que sentido?

ZIEMBINSKI — A situação econômica do teatro, no Brasil, é extremamente precária, embora a época atual pareça mais feliz.
Essa instabilidade não permite ao autor nem ao produtor partirem para um espetáculo pelo seu eventual interesse, mas sim
pelo dinheiro que possa render. O público brasileiro não tem o hábito do teatro. Vai a um espetáculo atraído pelo nome de
algum artista ou por determinado tema. Agora é o erotismo. Mas não há um interesse pelo teatro. Este, muitas vezes, se
transforma então em um espetáculo de duas ou três pessoas unidas por conveniências comerciais. Muitos, ao saberem que eu
estava montando "Vestido de Noiva", indagaram: "Mas como é que você está fazendo uma peça com trinta personagens?"
Essa pergunta não deveria existir. Qualquer peça de importância — e estou falando no panorama dos séculos — tem muitas
personagens e cenários. Mas tais peças hoje vivem amaldiçoadas, são desprezadas sem que se pergunte o que podem
significar.

Veja — Mas a época atual, segundo o senhor, não apresenta maior estabilidade?

ZIEMBINSKI — É verdade, embora eu não saiba por quê. Curiosamente, ninguém jamais consegue explicar por que as coisas
acontecem no teatro. Mas tem havido uma afluência de público bastante auspiciosa. Sem dúvida, o sexo vem a ser um grande
elemento de atração. Outra causa seria o fato de o teatro permitir uma maior liberdade de linguagem e um tratamento de
problemas pessoais nos quais o público se reconhece. Além disso, ... não sei ... parece-me que é uma conseqüência da
superpotência da televisão. No primeiro momento ela atraiu terrivelmente o público e continua a ter uma audiência estável. Mas
há uma parte desses espectadores que voltaram a se interessar pelo teatro, porque ele, hipoteticamente, mostra-se mais livre
e procura uma profundidade maior.

Veja — O senhor considera, então, que a televisão teve um papel positivo no desenvolvimento do teatro?

ZIEMBINSKI — Sem dúvida. Costuma-se dizer, levianamente, que a televisão tirou o público do teatro. O que se esquece é
que, no começo, ninguém levava televisão a sério. Só se começou a prestar atenção nela quando ficou claro que é um
importantíssimo veículo de comunicação do século XX. Também se disse que a TV matou o cinema. Talvez a mais justa
dessas acusações é a que relaciona a televisão com o cinema. Foi o cinema que levou a paulada. Primeiro, porque a televisão
atinge uma platéia maior. Segundo, porque oferece uma imagem parecida com a do cinema. Nos grandes centros, o confronto
tornou-se violento. O próprio cinema refugiou-se abertamente na televisão. Mas o teatro, como disse não me lembro mais
quem, está em crise há 5.000 anos. É uma crise muito sadia. Ela acompanha qualquer movimento da humanidade. A televisão
não só não prejudica o teatro como ajuda a divulgá-lo. Ela trouxe a consciência do espetáculo teatral a pessoas que não
tinham a menor idéia do que ele significa. Isso criou nelas uma grande curiosidade pelo palco. Quem sabe se, futuramente, ela
não se tornará responsável por uma nova época áurea do teatro?

Veja — Como se sente o senhor trabalhando na televisão?

ZIEMBINSKI — Olha: eu gosto muito. Desde o início da televisão, me liguei muito a ela. Não vou dizer que fui pioneiro, mas
sempre tentei fazer coisas novas, ainda no tempo que a TV era uma cinderela, um veículo meio desacreditado, com milhares
de defeitos técnicos, que servia de "bico" para os artistas. Sou um profissional e sinto-me bem em tudo que estiver ligado à
minha profissão. Não tenho dessa profissão um conceito romântico. Às vezes me perguntam qual o papel que eu mais
desejaria representar. Isso nunca me passou pela cabeça. Gosto de fazer qualquer papel. Por isso me considero um artesão.
Quando parti para a TV, embarquei com a maior boa fé e disposição. Não é verdade que um bom ator de teatro não pode ser
um bom ator de cinema ou que um bom ator de televisão não pode ser bom ator de teatro. É tudo lenda. Existem dois tipos de
intérpretes: o bom e o ruim. O bom se adapta a qualquer veículo, todas as portas se abrem ao seu talento. A televisão me
apresenta, como intérprete, duas grandes possibilidades. A primeira é que estou diante de uma audiência monstruosa, a mais
heterogênea possível, a mais subdividida culturalmente. Essa platéia me absorve e julga meu trabalho de mil formas diferentes.
Embora eu não possa ser de mil maneiras diferentes, posso ter uma atuação que satisfaça a todos ou que, pelo menos, não os
decepcione.

Veja — Como é representar na TV?

ZIEMBINSKI — Ela me oferece o flagrante da autenticidade, aquele velho sonho do ator de se queimar na emoção criadora da
hora de interpretar. No teatro, paradoxalmente, essa chama autêntica do ator acaba muito prejudicada. No decorrer da peça,
surge um aperfeiçoamento técnico mas vem também um desgaste circunstancial. A televisão me propõe a delícia íntima de
pesquisar intensamente durante as horas que antecedem a gravação para queimar esse precioso material em alguns minutos.
Por isso eu digo aos jovens: não tentem a televisão, que vocês não vão agüentar a barra. É preciso ter muito preparo.

Veja — Mas há muitos artistas que surgem na televisão e fazem sucesso sem ter experiência de teatro.

ZIEMBINSKI — Não é verdade. Quase sempre saem do teatro. Há o que o cinema alemão, no tempo da "UFA", chamava de
Naturmensch (homem da natureza), que filmava sem ter consciência do que estava interpretando, como as crianças: são os
intérpretes ideais, justamente porque lhes falta experiência. As plantas também são excelentes exemplos de "naturalidade".
Mas, até hoje, só poucas crianças que fizeram sucesso conseguiram tomar-se bons artistas, e é mais difícil ainda manter a
curiosidade em torno de uma planta. Muitas vezes, depois de uma primeira experiência na televisão, os artistas se refugiam no
teatro para se reabastecer.

Veja — Representar no palco dá mais prazer ao ator?

ZIEMBINSKI — Ninguém discute que o público vivo representa um desafio constante. Existe sempre dentro de nós a vontade
de provar até onde se consegue levar o público. Mas devo confessar que, às vezes, o público proporciona um enorme
desprazer. Ele leva o ator ao desespero, com reações erradas, quando se agita, quando tosse, quando espirra. Existe uma
lenda segundo a qual as pessoas param de tossir se o ator representou extraordinariamente bem. Nada mais falso. A gripe é
uma coisa indomável. Por outro lado, na televisão, há o fenômeno da máquina funcionando. Não podemos deixar que isso nos
afete. É muito importante manter um desligamento em relação a ela.

Veja — Até agora estávamos falando do ator. Como é Ziembinski diretor?

ZIEMBINSKI — Você está me pegando muito de surpresa. Tive várias colocações durante minha vida, às vezes totalmente
opostas. Nas décadas de 30 e 40, quando havia uma predominância, quase uma autocracia do diretor, segui essa colocação.
Mas, por mais arbitrárias que fossem minhas concepções do espetáculo, sempre tive um grande encantamento pelo material
humano. Tentava desenvolver o intérprete ao máximo de sua potência. Confesso que agora minha maneira de dirigir é
diferente. Sou muito mais liberto. Quero que os atores venham a mim. Mas que venham a mim sabendo o que quero. O
problema é que se confunde liberdade dentro da arte com confusão dentro da arte. E confusão gera sempre confusão. O fato
de o diretor esperar que o elenco o estimule na criação só pode resultar em algo positivo se todos — atores e diretor —
souberem para onde caminham. Senão viram mercado persa.

Veja — Um diretor pode criar um ator? Ou esmagá-lo?

ZIEMBINSKI — Nem uma coisa nem outra. A colocação do diretor, especialmente hoje, é muito diferente daquela do passado.
Acredito que um diretor possa ajudar muito um ator que tenha um verdadeiro potencial e não desenvolver tanto outro que
apresente um potencial limitado. Acho que o diretor pode até prejudicar um ator, mas só se este não for bastante forte. Não
podem nunca matar um ator. Mas, hoje em dia, a concepção de direção é tão ampla que alguns encenadores nem se
interessam pelo ator. Outros só se interessam por ele e jogam fora o espetáculo. Nessa relação de ator e diretor aparecem
também muitas lendas, muitas histórias românticas, que a gente gosta de contar mas que não são verdadeiras.

Veja — Quais são os grandes atores, atualmente? Ou melhor, quais atores o senhor prefere?

ZIEMBINSKI — Vou ser muito sincero: isso não tem a menor importância. É uma coisa muito íntima, muito especial. Assim,
não sei responder. Gosto, por exemplo, do inglês Paul Scofield. Eu o vi em Varsóvia, em 1964, fazendo "Rei Lear". Foi uma
das coisas mais impressionantes que já vi em minha vida. Este ano eu o vi fazendo a "Tempestade". Foi das coisas mais
medíocres que já assisti. Mas é possível que outros tenham achado bom. Gosto muito, por exemplo, de Laurence Olivier e de
vários outros. Mas gosto em determinadas ocasiões e em certos papéis.

Veja — O senhor disse que não lhe importa o papel que interpreta. Mas qual lhe deu maior satisfação?

ZIEMBINSKI — Não tenho nenhum amor ou deslumbramento pelos papéis que deixei para trás. Posso avaliar quais deles
consegui fazer mais ou menos bem. Mas não tenho encantamento especial por nenhum. Não me "amarro" em nenhum, como
se diz hoje. É sempre o meu último filho que me desperta maior amor e interesse. A não ser quando é uma dessas coisas que
a gente faz só para ganhar dinheiro. Ninguém está livre disso.

Veja — Mas o sucesso?

ZIEMBINSKI — Seria insincero se não dissesse que uma receptividade maior me causa prazer, mesmo uma ligeira vaidade.
Mas esse processo não parte de mim. Parte dos que recebem o que fiz.

Veja — E como o senhor reage diante do fracasso?

ZIEMBINSKI — É muito difícil responder isso sem ser acusado de cabotinismo. Na minha carreira, a não ser nos tempos muito
de juventude, quando devo ter cometido vários pecados de imaturidade e nos quais eu era um pasto excelente para afiar os
dentes dos juízes, não me lembro de papéis que tenham me decepcionado. Podia causar decepção a peça, por não ter sido
aceita. Mas nunca me senti repudiado, isolado, sem encontrar em mim a verdade humana. Talvez porque nunca tenha partido
para um papel sem a segurança de que o iria fazer bem. E olha que me arrisquei muito. Por exemplo, quando fiz, na televisão,
o papel da velha Stanislava na novela "O Bofe". Não é fácil fazer um travesti que possa ser visto por espectadores de subúrbio.
É um perigo.

Veja — O senhor nunca escreveu para teatro?

ZIEMBINSKI — Escrevi. Foi na época de minha partida para cá: várias peças em polonês que não teriam sentido no Brasil.
Sinto vontade de escrever. Mas não tenho tempo físico. Muito confidencialmente, posso dizer que ajudei a escrever algumas
peças de teatro. Para escrever é necessário um tal afastamento temporal de todas as circunstâncias que nos envolvem que
para mim isso hoje em dia seria impossível. Meu grande desejo é escrever um livro. Não sei quando nem como. Só sei que,
para isso, me fecho de noite com meu gravador e falo coisas que poderão servir.

Veja — Um livro de memórias?

ZIEMBINSKI — Não sei. Um livro que falasse de tudo aquilo que o teatro fez de minha vida e do que minha vida fez do teatro.

Veja — Qual o saldo dessa experiência? O senhor se sente mais rico ou mais cansado?

ZIEMBINSKI — Quando olho para minha vida, vejo uma longa história de desenvolvimento. Não só de minha arte, mas
principalmente da canceituação dessa arte. Mais ainda: a conceituação do próprio ser humano, de minha qualidade de gente.
Acho que isso acontece na carreira de todo profissional. Há alguns anos, houve um dia em que eu me dei ao luxo de dizer para
mim mesmo: agora sei representar. Foi uma descoberta. Hoje ela me permite qualquer tentativa. Não quero dizer que vá ser
bem sucedido. Mas já tenho bastante capital humano e profissional para me credenciar. Na prática, isso representa uma maior
economia de forma. Quanto mais maduros ficamos, menos precisamos de forma. Com o tempo, ela fica mais direta, mais
cristalina, mais penetrante.

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terça-feira, 22 de novembro de 2016

Refletindo

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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Médico chinês

Um médico chinês não consegue encontrar um emprego em hospitais no Brasil, então ele abre uma clínica e coloca uma placa com os dizeres: "Tenha tratamento por R$ 20. Se não ficar curado, devolvo R$ 100."
Um advogado vê a placa, pensa que é uma grande oportunidade de ganhar R$ 100 e entra na clínica.
Advogado: "Eu perdi o meu sentido do paladar."
Chinês: "Enfermeira, traga o remédio da caixinha 22 e pingue 3 gotas na boca do paciente."
Advogado: "Credo, isso é querosene!"
Chinês: "Parabéns, o seu paladar foi restaurado. Me dê R$ 20."
O advogado irritado volta depois de alguns dias para recuperar o seu dinheiro.
Advogado: "Eu perdi minha memória não me lembro de nada.".
Chinês: "Enfermeira, traga o remédio da caixinha 22 e pingue 3 gotas na boca do paciente."
Advogado: "Mas aquilo é o querosene de novo. Você me deu isso da última vez para restaurar o meu paladar."
Chinês: "Parabéns, você recuperou sua memória. Me dê R$ 20."
O advogado já fumegante paga o chinês, e volta uma semana mais tarde determinado a ganhar os R$ 100.
Advogado: "Minha visão está muito fraca e eu não consigo ver nada."
Chinês: "Bem, eu não tenho nenhum remédio para isso, sendo assim tome este R$ 100."
Advogado: "Mas isso aqui é uma nota de R$ 20!"
Chinês: "Parabéns, sua visão foi restaurada. Me dê R$ 20."

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domingo, 20 de novembro de 2016

Epocler


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sábado, 19 de novembro de 2016

Samsung galaxy SIII - bateria


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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Lula


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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Dramin


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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Solitude


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terça-feira, 15 de novembro de 2016

Cidades


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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Artigo


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domingo, 13 de novembro de 2016

Screenshot


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sábado, 12 de novembro de 2016

10 Bons Desejos

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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Dipirona sódica


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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

As aparências enganam


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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Music Non Stop


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terça-feira, 8 de novembro de 2016

Adobe Acrobat


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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Reinaldo Azevedo Vs Joice


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domingo, 6 de novembro de 2016

Lavanderia


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sábado, 5 de novembro de 2016

Dexametasona


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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Entrevista da Semana: Mercado Livre

Como surgiu a ideia de criar o Mercado Livre?
Quando fui estudar nos EUA, eu estava convencido de que a internet iria mudar o mundo. Me sentia frustrado porque eu ia voltar para meu país e não poderia fazer muitas coisas que eu já fazia nos EUA. Não havia serviços. Na época, em todos os países da América Latina, havia apenas cinco empresas que dominavam o comércio. Se as pessoas não moravam em uma grande cidade, não tinham acesso aos lançamentos de produtos e aos melhores preços. Eu pensei, então, em criar um lugar onde as pessoas poderiam comprar e vender de tudo. 
Muitos varejistas estão apostando no mesmo modelo do Mercado Livre. Porque só agora?
Os grandes varejistas tentaram resistir, mas perceberam que precisam ter suas plataformas de marketplace. Mas eles têm dificuldades, porque vêm de uma cultura de concentrar o varejo nas mãos de poucos, enquanto nós não. Da mesma forma que o Google democratizou o acesso à informação, estamos democratizando o comércio na América Latina.
Foi difícil conseguir investimento após criar a empresa?
Sim, particularmente na segunda rodada de investimentos, quando a bolha da internet já havia estourado. Levantamos US$ 45 milhões, mas foi um dos piores momentos da história do Mercado Livre.
O que motivou o sr. a continuar, apesar das dificuldades?
Eu tenho paixão pela internet. Eu estava convencido de que ela iria mudar tudo para melhor. Quando eu vi a oportunidade, foi irresistível para mim.
Porque o Brasil é tão importante para o Mercado Livre?
A nossa operação no Brasil é maior do que todas as nossas outras operações juntas. Melhoramos a experiência de pagamento e o Brasil se tornou o primeiro mercado onde 100% das transações são pagas pelo Mercado Pago. O Mercado Envios é usado para enviar 70% de todos os produtos comprados no site. Isso ajudou a acelerar a empresa no Brasil e tivemos crescimento de 60% na receita em 2016.
Quando o Mercado Livre vai permitir compra e venda entre quaisquer países da região?
Estamos começando a trabalhar em comércio entre regiões. Fizemos uma parceria com eBay para permitir que, no Chile e Colômbia, as pessoas comprem produtos da China e dos EUA. Ainda não sabemos quando vai chegar ao Brasil. Mas as limitações monetárias e alfandegárias na América Latina ainda não permitem que isso aconteça entre países da região.
O Mercado Livre é alvo de muitas ações na Justiça – só no Estado de São Paulo, são mais de 300. Como lidam com isso?
A porcentagem de ações na Justiça em relação ao número de compras nunca esteve tão baixa no Brasil. Em 2016, tivemos quase quatro transações por segundo. Mesmo assim, se 0,01% tem problemas, é muita coisa. Como tudo que se compra é pago via Mercado Pago, nós devolvemos o dinheiro se houver problemas. Por isso, cada vez menos pessoas se sentem motivadas a ir à Justiça.
E como lidam com os casos de produtos falsos à venda?
Temos um programa de proteção à propriedade intelectual. Qualquer empresa ou pessoa pode denunciar um produto falso está à venda no Mercado Livre. Automaticamente, retiramos o anúncio do ar. Mas quem denuncia tem o dever de provar para nós que aquele produto é falso.
Como o sr. vê a concorrência de gigantes do e-commerce, como Amazon e eBay?
Em todos os países, sempre tivemos muita concorrência. Vamos seguir pensando no longo prazo e fazer tudo para que nossos usuários tenham uma  experiência muito melhor do que tem hoje. Acho que nos últimos três anos nós realmente melhoramos muito, por isso tivemos um crescimento tão grande no Brasil. Mas ainda faltam muitas coisas -- muitas deles, vamos anunciar este ano. Acho que vamos seguir melhorando muito e crescendo muito.
Vocês ainda pensam só na América Latina ou tem planos de expansão global?
Temos uma oportunidade tão grande na América Latina: são 600 milhões de pessoas. No ano passado, só tivemos 30 milhões de compradores. É muito importante para nós expandir o número de usuários, porque os compradores vão onde tem mais vendedores e os vendedores vão aonde tem mais compradores. Nós preferimos focar na América Latina e vemos que temos oportunidade de crescer de 30 milhões de compradores para 600 milhões de compradores. No ano passado, nós tivemos seis compras por comprador -- há três anos atrás tínhamos duas compras por comprador. Está crescendo muito. Mas na China, o Alibaba tem 50 compras por comprador. Hoje. Nós queremos chegar lá. Por enquanto, vemos oportunidade muito grande e vamos continuar focando aqui.
Na semana passada, o sr. anunciou um grande investimento ao lado do presidente argentino Maurício Macri. Como vai aplicar esse dinheiro?
Sim, nós anunciamos que vamos criar 5 mil empregos nos próximos três anos em toda a América Latina. Sempre que falamos em toda a América Latina, o Brasil representa a metade. A outra parte do anúncio é uma sede muito grande que estamos construindo em Buenos Aires, mas o ano passado, nós fizemos a inauguração da sede no Brasil. Hoje, a sede que temos no Brasil é muito maior do que o que temos aqui em Buenos Aires. Agora teremos uma sede similar à brasileira aqui na Argentina.
Qual foi a importância de inaugurar uma sede tão grande no Brasil? Qual o simbolismo por trás da obra?
Pessoalmente, eu senti muito prazer em fazer a inauguração da nova sede. Quando começamos, éramos quatro caras na garagem de um subsolo. Quando nos mudamos para um escritório no Brasil, eu ainda me lembro o endereço. Era um apartamento pequeno, estava em obras. Eu tive que fazer a limpeza. E, após tantos anos no mercado, eu vi muitos empreendedores que gastavam muito dinheiro, mas não tinham por trás uma empresa ou um modelo de negócios que justifique. Grandes escritórios, com empresas pequenas. Nós fizemos ao contrário. Uma grande empresa primeiro e, depois que ela se tornou sustentável e milhões de pessoas usavam o serviço, nós construímos o escritório. Foi dinheiro do Mercado Livre que pagou essa obra. Mas do que tudo, foi um símbolo para nós mesmos. Foi também um sinal para o mercado de nosso posicionamento como empresa global. Estamos construindo algo muito grande.
Qual o seu maior desafio hoje?
Acho que a parte de logística. Ainda temos muito a melhorar. Meu sonho é que qualquer pessoa, de qualquer parte na América Latina, possa comprar no Mercado Livre e receba esse produto em duas horas, sem importar onde está o vendedor. Vamos ter que trabalhar muito nos próximos 20 anos para chegar lá.
Nos últimos meses, vocês compraram duas empresas brasileiras de software, a KPL e a Axado. Porque isso é estratégico para o Mercado Livre?
As duas empresas estão desenvolvendo software para melhorar a área de logística e armazenagem. A KPL está desenvolvendo um sistema de gestão de centro de distribuição. E a Axado, de Florianópolis, está desenvolvendo um sistema que vai nos permitir escolher qual empresa de correios é mais eficiente para entregar um determinado pacote em um determinado local. Encontramos empresas no Brasil que tem muito boa tecnologia e isso vai nos ajudar a ter um sistema de logística muito mais veloz.
O que você aprendeu de mais importante desde a criação do Mercado Livre?
Acho que temos que estar tranquilos quando as coisas vão muito bem e não se desesperar quando as coisas vão muito mal. É o mais importante.
Qual o seu sonho hoje? O que você almeja?
Eu acho que o Mercado Livre está apenas começando. Assim como democratizamos o comércio, acho que o Mercado Pago pode democratizar o dinheiro. O sistema financeiro é muito complicado, tudo tem taxas. Acho que em 20 anos, acho que uma empresa como Mercado Pago vai estar disposta a pagar para você usar o sistema só para ter a informação de onde você compra, o que compra. Além disso, tem muita gente está fora do sistema, porque sabe que se abrir uma conta-corrente vai ter que pagar taxas. Acho que é possível tornar o sistema financeiro muito mais eficiente em todo o mundo. Temos que democratizar o dinheiro.

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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Felicidade é...

Um cidadão perguntou ao mestre: 
Mestre, qual é o caminho da felicidade? O mestre respondeu: 
- O caminho da felicidade e não discutir com idiotas. 
O cidadão então retrucou: 
- Mas não acho que seja esse o caminho mestre!! 
O Mestre respondeu: 
- Você tem razão.

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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Entreevista: Antônio Négri

O senhor define multidão como um conjunto de singularidades que não é representável, sendo ao mesmo tempo sujeito e produto da prática coletiva. Como essa multidão se organiza, num mundo marcado pela crescente fragmentação? O que provoca o levante da multidão, como ocorreu no Brasil em junho de 2013? 
Antonio Negri –
 A multidão se organiza em torno dos eventos do momento, nos quais uma linguagem comum se expressa. Uma linguagem comum que nasce da indignação e do protesto, do cansaço de sempre se encontrar em situações que não têm saída. É exatamente como antes era com a classe operária. A multidão se organiza à base de paixões que caminham junto com a resistência e com tentativas de construções de uma perspectiva de uma nova via de solução dos problemas. Não há muita diferença do ponto de vista entre a multidão e todos os outros movimentos que nascem da base de necessidades ou anseios fundamentais de se viver e  produzir. Mas há um outro elemento que é a singularidade. Quando a multidão se move, nunca é simplesmente uma massa, é uma riqueza plural de elementos de questionamentos de vida. É claro que aqui nasce um problema de organização. Há um grande problema de unidade, de articulação dos movimentos, em meio a muitas singularidades. Mas esta é também a riqueza, a beleza do processo que vivemos.
Como as manifestações de junho de 2013 no Brasil se inserem no contexto internacional? Em que medida são parte do mesmo ciclo de reações como a Primavera Árabe e o Occupy Wall Street e em o que expressam de singularidade?
Negri –
 É difícil precisar. Os movimentos surgem a partir de um clamor por democracia substancial. É claro que no Brasil teve um estranho curto-circuito entre um discurso político que foi pregado por Lula, pelo PT, aos jovens, e depois esse discurso se encontrou diante de obstáculos, como o custo da passagem do ônibus. Isso foi interpretado como uma espécie de provocação, como esses enormes gastos com os megaeventos, esses gastos que parecem não dizer respeito à vida das pessoas. É preciso considerar também que a multidão está inserida em um processo vital e metropolitano. Pode se dizer que a classe operária estava para a fábrica como a multidão hoje está para a metrópole. A multidão tem essa sensibilidade particular aos serviços metropolitanos, o bem-estar nas metrópoles contemporâneas e, portanto, vai em busca dessas coisas. Assim nasce a luta, a resistência, mas, também, uma proposta de felicidade. Há uma característica geral que vai da Espanha ao Egito, à Turquia, e ao Brasil: essa tonalidade alegre na luta, numa multidão constituída de singularidades. Não existe uma tentativa de ser igual ao outro nos comportamentos, mas sim de enriquecer cada um com aquele pouco de felicidade, de alegria e de linguagens, que circulam na mesma forma da luta.   
O senhor propõe a alegria como um dos elementos da luta política, defendendo que os militantes inventem novas formas de se manifestar em vez de adotar uma nostalgia daquele tempo "em que se sabia o que devia ser feito". Mas ao mesmo tempo a violência tem aparecido como um aspecto importante das manifestações. Como se relacionam esses dois aspectos, a alegria e a violência? 
Negri –
 A alegria e a violência não andam juntas, mas cada país tem a polícia que merece. O problema é que aqui a polícia é acostumada a matar os negros, os pobres. Uma coisa que precisa ser dita, que é inútil esconder, é que o Brasil nunca teve uma guerra externa, mas tem uma guerra civil interna contra a sua população, que é organizada pelo Exército. Quando se lê que se um militar que ocupa uma favela e comete um desrespeito vai ser julgado por um tribunal militar, é uma coisa que é totalmente fora dos direitos humanos.
A violência é inseparável das manifestações?
Negri –
 A violência nas manifestações é natural, sempre acontece. A polícia sabe perfeitamente quando pode isolar a violência e quando incitar a violência. Eu organizei muitas e grandes manifestações nos anos 1960/1970 e sabíamos perfeitamente quando a polícia iria atacar ou não. Sabíamos quando usar a violência e quando não usar. A violência sempre existiu, mas a violência não é a violência do povo, a violência é sempre do poder. O Estado é baseado na violência. As polícias na Dinamarca e na Inglaterra não usam armas, por exemplo.
O senhor afirma que a multidão, por não ser representável, teria uma face monstruosa, como um monstro revolucionário. Esse monstro costuma ser temido, mas o senhor afirma que ele carrega novas e potentes de vida. Como a sociedade deve conviver com esse monstro?
Negri –
 O problema é que a sociedade está em transformação muito veloz e muito profunda. As sociedades são sempre um pouco monstruosas. O monstro é a metamorfose da população, no nosso caso, que nós podemos verificar do ponto de vista político, do ponto de vista moral, do ponto de vista da arte. Se você se dá conta de que está diante de um fenômeno monstruoso, que é a crise da soberania, esses são problemas enormes e monstruosos, no sentido de que são novidades que não havíamos previsto. É claro que existem forças conservadoras que têm medo daquilo que não conseguem prever. Têm medo de tudo aquilo que muda.
Com a mudança dos antigos modos de produção pelo trabalho imaterial, o senhor aponta a necessidade de novas formas de organização política. O que está nascendo a partir do conjunto de manifestações? 
Negri –
 Não sei. Por exemplo, na Europa, não há dúvida que começam a nascer novas formas de política, nas quais, é muito interessante isso, se unem os pobres e os "precários", dentro dessa crise capitalista. O "precariado" é caracterizado pelo trabalho flexível e móvel, cada vez mais precário, sem contratos, ao mesmo tempo em que é ultraqualificado. E esse novo proletariado se une àqueles que são os extratos mais pobres da sociedade, aqueles que são excluídos pela crise do Estado de bem-estar social. Então nos encontramos diante de uma nova forma de organização. Por exemplo, na sociedade, se assiste à construção de uma série de formas de cooperação novas, que nascem em contraste com à velha tradição do velho movimento operário, socialista. Aí surge o que nós chamamos de movimento sindicalista social, que não é mais sindicalismo de fábrica, é um sindicalismo da sociedade. Um exemplo disso são os grandes movimentos para defender saúde pública, como os "Mareas" na Espanha. A reivindicação do transporte público em São Paulo também poderia ser uma demonstração disso. E a construção não é simplesmente quantitativa, é sobretudo qualitativa. No nível político, uma das coisas mais impressionantes durante as eleições na Europa, que envolveram 300 milhões de votantes, não foi tanto o nascimento de grupos xenófobos e parafascistas, que já se sabia que existiam, mas, pelo contrário, a emergência de grupos de esquerda democrática radical, como por exemplo, na Espanha, na Grécia, na Itália, na Alemanha.
Em termos de perspectiva de futuro, para onde essa multidão caminha?
Negri –
 Não há um determinismo. Eu não chamo isso de futuro. Há um porvir. Existe um tempo aberto diante de nós, que depende de para onde caminhamos, que quer dizer encontrar o algoritmo de conjunção desta rede enorme de atos, de gestos e de linguagem que constituem a multidão. É a multidão que comanda a história. Esse é o conceito fundamental.

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terça-feira, 1 de novembro de 2016

09 Rosas

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