segunda-feira, 30 de novembro de 2009

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domingo, 29 de novembro de 2009

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sábado, 28 de novembro de 2009

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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Psicologia Criminal

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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

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A PSICOLOGIA DO LÍDER - Antonio Meneghetti

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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Consciência


Consciência, não há uma definição simples e consensual da consciência. Certas definições têm uma orientação tautológica (por exemplo, identificar a consciência como o estado de vigília) ou puramente descritiva (a consciência como conjunto de percepções, pensamentos ou sentimentos). Embora tenha sido o principal tema de pesquisa da psicologia durante bastante tempo, logo caiu no esquecimento para ressurgir, atualmente, como uma área em constante debate, mais especificamente no que se refere ao estudo dos estados alterados de consciência.

Ficou demonstrado que os indivíduos são responsáveis diretos por suas ações e seu comportamento. A memória e as lembranças são armazenadas de forma organizada e não ao acaso. Todo um ramo recente da psicologia, a psicologia cognitiva, estuda esses aspectos. A psicologia infantil pesquisa, em profundidade, como se percebe ou interpreta o mundo nas distintas etapas de desenvolvimento. No comportamento animal, investigam-se as diferentes características que moldaram cada espécie animal para responder de forma adaptativa ao meio. Os psicólogos de orientação humanística ressurgiram depois de um prolongado silêncio. Com o aparecimento da psicologia clínica e industrial, conferiu-se uma grande importância ao estado de consciência do indivíduo em função de seus pensamentos e de seus sentimentos cotidianos. Embora o papel da consciência, com freqüência, tenha sido relegado em favor das motivações e pulsões do subconsciente, a linha atual de investigação propõe o estudo e a compreensão da natureza dos distintos estados de consciência.

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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Psicología UDG


Psicología UDG, upload feito originalmente por Carlos Sánchez Pimienta.

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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A energia psíquica e suas metamorfoses.

Nise da Silveira

Seguindo o método de acompanhar cronologicamente, tanto quanto possível, o desenvolvimento da obra de Jung em estreita conexão com sua biografia, começaremos este texto comentando o livro Símbolos de transformação, publicado em 1912, com o título de Transformações e símbolos da libido. Foi nesse livro que Jung apresentou, pela primeira vez, seu conceito de "energia psíquica". Enquanto Freud atribui à libido significação exclusivamente sexual, Jung denomina libido a energia psíquica tomada num sentido amplo. Energia psíquica e libido são sinônimos. Libido é apetite, é instinto permanente de vida que se manifesta pela fome, sede, sexualidade, agressividade, necessidades e interesses os mais diversos. Tudo isso está compreendido no conceito de libido. A idéia junguiana de libido aproxima-se bastante da concepção de "vontade", segundo Schopenhauer. Entretanto Jung não chegou a essa formulação através dos caminhos da reflexão filosófica. Foi a ela conduzido pela observação empírica, no seu trabalho de médico psiquiatra. Será inevitável, portanto, que de novo penetremos no terreno da psiquiatria. Atento à conduta do doente, pergunta Jung: a perda do contato com a realidade, na esquizofrenia, resultaria da retração do interesse libidinal, na acepção de interesse erótico? Freud sustentava esta opinião. Jung não aceitou que o contato com a realidade fosse mantido unicamente através de "afluxos de libido", ou seja, de interesse erótico. Verificava em seus doentes não só perda do interesse sexual, mas de todos os interesses que ligam o homem ao mundo exterior. Para estar de acordo com Freud seria, portanto, necessário admitir que toda relação com o mundo era, na essência, uma relação erótica. Isto pareceu a Jung "inflação" excessiva do conceito de sexualidade. Sua posição, desde o início, foi esta. Já no prefácio do livro Psicologia da demência precoce, havia escrito: "Fazer justiça a Freud não implica, como muitos temem, submissão incondicional a um dogma; pode-se muito bem manter um julgamento independente. Se eu, por exemplo, aceito os mecanismos complexos dos sonhos e da histeria, isso não significa que atribua ao trauma sexual infantil a importância exclusiva que Freud parece conceder-lhe. Ainda menos isso significa que eu coloque a sexualidade tão predominantemente no primeiro plano ou que lhe atribua a universalidade psicológica que Freud lhe atribui, dado o papel enorme que, decerto, a sexualidade desempenha na psique". Note-se que este prefácio está datado de julho de 1906.
Daí se vê que entre Freud e Jung não existiram relações do tipo mestre-discípulo, segundo se repete tão freqüentemente. A verdade é que Jung nunca deu sua adesão total a Freud.
Quando leu uma das primeiras obras de Freud – A histeria e a interpretação dos sonhos, embora fosse ainda muito jovem, Jung apercebeu-se de que estava diante de descobertas importantíssimas. Ficou fascinado pelos dinamismos do inconsciente que se revelavam a seus olhos. E tanto na prática clínica quanto na experimentação psicológica comprovou a existência dos mecanismos descritos por Freud, mas desde logo suas interpretações nem sempre coincidiram exatamente com as interpretações do mestre de Viena. Apesar de divergências abertas ou latentes, os anos de colaboração estreita entre Freud e Jung (1907-1912) foram, sem dúvida, muito fecundos para a psicanálise. O desentendimento decisivo, porém, acabou surgindo. Foi provocado pelo conceito de libido, entendida como energia psíquica de uma maneira global, apresentado por Jung em Metamorfoses e símbolos da libido. Eis um livro extremamente denso, porém de leitura apaixonante. Seu tema é o comentário psicológico dos poemas e outros escritos de Miss Miller, um caso fronteiriço de esquizofrenia. Mas em torno deste núcleo, as idéias borbulham num verdadeiro festival de atividade criadora excedendo de longe o objetivo primeiro. As imagens poéticas de Miss Miller dão lugar a abundantes paralelos mitológicos e ao aprofundamento de suas significações, resultando daí uma tal profusão de dados que o leitor poderá talvez sentir-se como alguém perdido numa espessa floresta. Carregando tantas inovações, Metamorfoses e símbolos da libido provocou enorme celeuma e não poucos mal-entendidos. A fim de esclarecer e desenvolver seu conceito de libido, apresentado neste livro junto a várias outras idéias, Jung escreveu um trabalho à parte denominado Sobre a energia psíquica.
A energia psíquica (libido) "é a intensidade do processo psíquico, seu 'valor psicológico'". Não se trata de valor em acepção moral, estética ou intelectual. Valor tem aqui o significado de "intensidade", "que se manifesta por efeitos definidos ou 'rendimentos psíquicos'". Energia psíquica é um conceito abstrato de relações de movimento, algo inapreensível, um X, comparável (mas não idêntica) à energia física.
Jung construiu para a psicologia uma interpretação nos moldes da teoria energética das ciências físicas. Fome, sexo, agressividade seriam expressões múltiplas da energia psíquica, tal como calor, luz, eletricidade são manifestações diferentes da energia física. "Do mesmo modo que não ocorreria ao físico moderno derivar todas as forças, por exemplo, somente do calor, também o psicólogo deve preservar-se de englobar todos os instintos no conceito de sexualidade".
Jung concebe o psiquismo (consciente e inconsciente) como um sistema energético relativamente fechado, possuidor de um potencial que permanece o mesmo em quantidade através de suas múltiplas manifestações, durante toda a vida de cada indivíduo. Isso vale dizer que, se a energia psíquica abandona um de seus investimentos virá reaparecer sob outra forma. No sistema psíquico a quantidade de energia é constante, varia apenas sua distribuição. "Nenhum valor psíquico pode desaparecer sem que seja substituído por outro". Se um grande interesse por este ou aquele objeto deixa de encontrar nele oportunidade para aplicar-se, a energia que alimentava o interesse tomará outros caminhos: surgirá talvez em manifestações somáticas (palpitações, distúrbios digestivos, erupções cutâneas etc.), virá reativar conteúdos adormecidos no inconsciente, construirá enigmáticos sintomas neuróticos. Esses vários fenômenos serão a expressão de metamorfoses da mesma energia. Resumiremos, para exemplificar, um caso clínico simples, descrito por Jung em Problemas da alma moderna. Trata-se de um oficial do exército suíço, com 27 anos, que sofre de violentas dores na região precordial e no calcanhar esquerdo. Nada foi encontrado, somaticamente, que justifique esses sintomas e o doente não relaciona seu aparecimento a qualquer ocorrência especial. Interrogado sobre seus sonhos, lembra-se de um sonho recente que o impressionou pela estranheza: "eu ia andando por um campo aberto quando de repente pisei numa serpente. A serpente mordeu-me no calcanhar e senti-me como se estivesse envenenado".
Pouco antes de surgirem os sintomas, a namorada desse rapaz ficou noiva de outro. Ele reagiu tomando atitude de jactância. A moça era uma tola e ele arranjaria facilmente dez namoradas mais interessantes. Isso não tinha nenhuma importância. Entretanto, perdido o objeto exterior de investimento, reprimida, a libido vem reaparecer sob a forma de sintomas somáticos. Exprime-se através de dores na região cardíaca o que, aliás, não é nada de extraordinário, pois os poetas de todos os tempos já disseram que as penas de amor fazem doer o coração. No seu recuo, porém, a libido desceu ainda mais profundamente vindo dar vida à imagem pela qual vários mitos exprimiram certas experiências que o homem teve com a mulher através dos tempos: a mordedura da serpente. O jovem suíço encontrou-se com a serpente que Ísis colocou no caminho do grande deus Ra, para morder-lhe o calcanhar; encontrou-se com a serpente bíblica, tão estreitamente associada a Eva; encontrou-se com o princípio sedutor da mulher no seu aspecto perigoso. A libido fez-se imagem simbólica.

Fragmento de Jung vida e obra. Rio de Janeiro, José Álvaro Editor, 1974, pp. 41-49.
Nise da Silveira é psiquiatra, autora de Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro, Alhambra, 1985.

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domingo, 22 de novembro de 2009

O conceito de "diferença" na obra de Gilles Deleuze

A noção de diferença, na filosofia de Gilles Deleuze, é no mínimo uma instância problemática. Num certo sentido, ela é fundamental para a compreensão de toda a sua obra. Mas, o que é exatamente a diferença, em si mesma? Por que Deleuze afirma, de forma contundente, que a razão clássica não pode apreendê-la sem, com isso, destruir a sua natureza "rebelde e anárquica"? Antes de respondermos a tal questão, precisamos levar em consideração o fato de que, ao longo da história da filosofia, a diferença foi continuamente vista como o mais temível dos males (no mínimo, ela causava estranheza e mal-estar por sua capacidade de furtar-se a qualquer tipo de modelo ou regra preestabelecida). Ou bem a diferença era "o além celestial de um entendimento divino inacessível a nosso pensamento representativo, ou o aquém infernal, insondável para nós, de um Oceano de dessemelhança". De um modo ou de outro, a diferença encontrava-se excluída do Ser - como algo que não pertencia a sua essência. Relegada, portanto, ao campo do não-ser, por uma tradição vitoriosa no pensamento ocidental, a diferença viu-se despojada de qualquer aspecto ontológico (ou seja, despojada de uma existência plena, real). Uma vez que a diferença se apresentasse ao pensamento ou à sensação, ela era entendida como algo que alterava, subvertia e destruía o Ser. Apenas quando era submetida aos critérios da "identidade" e da "semelhança" e apenas quando tornava-se diferença entre os corpos (a diferença específica de Aristóteles), ela poderia ser assimilada pela razão - que rejeita tudo aquilo que não está compreendido em um modelo pré-determinado.

Antes de continuarmos, porém, precisamos entender como Deleuze define a própria filosofia. Neste caso, especificamente, este não é um procedimento aleatório, que tem apenas por objetivo somar tal informação ao restante de suas idéias. A compreensão de um conceito qualquer, na obra deleuziana, pressupõe a idéia de que todo pensador é, inicialmente, um criador de conceitos. "A filosofia é a arte de inventar, de criar os conceitos"- afirma o filósofo francês. Para ele, todo filósofo cria seu próprio universo conceitual a partir do seu confronto com o mundo ou, mais precisamente, com o caos subjacente a todas as coisas. É a necessidade de não se perder no próprio movimento contínuo das coisas ("nada é mais doloroso, mais angustiante do que um pensamento que escapa a si mesmo") que nos leva a produzir os conceitos. Deleuze sabe o perigo que representa para o pensamento perder-se no caos, na pura diferença, neste "oceano de dessemelhança" - que está no fundo de tudo o que existe. Daí porque é imprescindível que tenhamos regras que nos protejam, que nos impeçam de mergulhar de forma inescapável naquilo que exatamente tencionamos conhecer. Estas regras são os conceitos e é claro que esta afirmação só tem sentido porque, para Deleuze, a diferença é o principio constitutivo da natureza. Ela é primeira com relação à identidade e à semelhança e é também ela que dissolve toda determinação, toda e qualquer estabilidade num mundo que, apenas na aparência, é sólido e permanente.

Criar os conceitos ou mesmo inventá-los a partir de outros (mantendo ou não o seu significante) é a tarefa da filosofia - assim como a entende Deleuze. Não existem conceitos "a priori"; todo conceito tem uma história. Todo conceito remete sempre a um campo de problemas (sem o que, ele não teria sentido algum). Desta maneira, enquanto é pensado em termos construtivistas, o conceito pressupõe um plano que lhe dá uma existência autônoma. É o que Deleuze chama de "plano de imanência" - uma espécie de "crivo no caos", uma forma de adquirir uma consistência sem perder-se no infinito no qual o pensamento mergulha. O plano de imanência é, neste sentido, o meio fluido onde os conceitos interagem, afetando e sendo afetados por outros conceitos. "O plano é como um deserto que os conceitos povoam sem partilhar". Mas, os conceitos são as únicas regiões do plano (ainda que seja o plano que lhes garanta consistência e coerência). Para Deleuze, nenhum conceito é simples; ele é sempre uma multiplicidade. Ele sempre remete a outros conceitos. Nenhum filósofo, por mais genial que ele seja, criará um conceito do "nada". É por esta razão que podemos dizer que a diferença, na obra de Deleuze, não deve ser entendida sem levar em conta a carga de negatividade com a qual a história da filosofia sempre a envolveu. Na verdade, Deleuze empreende uma luta sem tréguas contra a própria tradição filosófica, quando tenta definir e apreender a diferença nela mesma. Não se trata de conseguir ou não conceituá-la; trata-se, isto sim, de libertá-la do jugo de uma razão que tende a desqualificar tudo aquilo que ameaça o seu perfeito equilíbrio.

Para sermos mais diretos, o conceito de diferença traz consigo uma certa "maldição": a de ter sido sempre colocado do lado do "mal", do "nefasto", do "pernicioso". Não foi Deleuze quem criou este conceito, mas foi certamente ele quem mais fez para tornar a diferença, em si mesma, pensável. Em outras palavras, ele lhe deu um sentido positivo; daí porque não podemos deixar de ligar o conceito de diferença à sua obra (assim como outros filósofos também tiveram os seus nomes associados a determinados conceitos). Mas, o que significa dizer que a diferença foi colocada do lado do "mal"? Significa dizer que, desde os tempos mais remotos, a filosofia sempre demonstrou ter uma espécie de repulsa por tudo aquilo que se modifica, uma repulsa pelo próprio tempo e pela degradação inevitável que ele acarreta nos seres. Não pode haver ciência daquilo que está em perpétua transformação - assim Platão rejeita o mundo sensível em prol de uma existência imutável (a do mundo das essências). A mudança, o rio que não pára de fluir, o movimento incessante das coisas como o próprio ser deste mundo, tudo isto deve ser ignorado pela razão, uma vez que sua natureza estritamente lógica não sabe lidar senão com a semelhança e a identidade nos seres.

Para Deleuze, a questão é exatamente poder tornar a diferença objeto do pensamento. Ao invés de colocá-la como algo negativo para o conhecimento, Deleuze (tal como Nietzsche) pretende mostrar que a diferença é o próprio princípio da natureza. Para Deleuze, primeiramente estaria o fundo indiferenciado (indeterminado), o fundo caótico - onde todas as coisas encontram-se misturadas e sem qualquer "identidade". Ao caos seguir-se-ia a ordem, sempre provisória e precária e que não deixa um só instante de sofrer a ação corrosiva e cambiante do tempo. Mas, pensar a diferença requer que a própria razão ultrapasse a si mesma, rompendo com o modelo representativo e com a sua estrutura absolutamente lógica. É preciso que, por um esforço sobre-humano, a razão deixe de ter apenas uma função recognitiva (ou seja, a função de conhecer e "re-conhecer" o mundo e as coisas que a cercam) para apreender a diferença, quer dizer, tudo aquilo que foge aos padrões até agora estabelecidos. É a diferença e não a semelhança a "lei" mais profunda da natureza ("nunca uma folha é completamente idêntica a outra" - afirma Nietzsche e reitera Deleuze). A razão até acredita poder pensar a diferença quando faz dela um puro conceito do entendimento, uma forma vazia, sem qualquer conteúdo exterior. Mas, quando a submetemos às regras da identidade e da semelhança, ou seja, quando obedecemos aos critérios rígidos do raciocínio lógico, nós terminamos por perder a natureza anárquica e subversiva da diferença em si mesma. Isto porque a diferença, nela mesma, não é algo que possa ser objeto de uma representação orgânica. Afinal, representamos sempre aquilo que percebemos, aquilo que apreendemos por intermédio de nossa sensibilidade. A diferença, em si mesma, não é objeto de nossa sensibilidade e em hipótese alguma deve ser confundida com um atributo físico. Estar quente pode ser um diferencial com relação a estar frio, mas a diferença não é ser uma coisa ou outra. A diferença, em si, é algo que só o pensamento pode intuir. Ela é uma relação, um acontecimento, um incorporal.

Os termos aqui utilizados, retirados da própria obra deleuziana, demonstram claramente a influência da filosofia estóica sobre o seu pensamento. Um "incorporal" não é algo inexistente, sem qualquer aspecto ontológico. Ele pertence à esfera do transcendental, ou seja, ainda que ele não seja um corpo (e, portanto, não pode ser representado), ele existe ou "insiste" - sendo, para Deleuze, objeto apenas de nosso pensamento. É claro que Deleuze não está negando a existência da diferença enquanto ela se apresenta nos seres, criando uma diversidade inegável. Apenas, ele considera que, uma vez que ela seja "atualizada" na matéria, ela deixa de ser diferença pura para tornar-se um atributo. A sua natureza, sendo primeira e exclusivamente virtual, não pode ser apreendida pela razão clássica - que basicamente opera com os ditames da representação e que são a identidade, a semelhança, a analogia e a oposição. Daí porque, para Deleuze, é necessário que a razão tenha um outro tipo de funcionamento, uma outra forma de apreensão do mundo. Um "neo-racionalismo" é o que propõe este filósofo que figura entre os chamados "filósofos malditos"; uma razão que ultrapasse a si mesma; um segundo e mais nobre funcionamento da razão: o do pensamento. Afinal, o pensamento está para além da razão, mesmo que lhe pertença de alguma maneira (já que não se trata de um irracionalismo). É preciso, portanto, libertar a diferença, retirá-la de sua condição de maldição para o pensamento. Somente assim será possível compreender e apreender a diferença pura - este difícil e profundo conceito deleuziano.

Regina Schöpke é graduada em Filosofia pela UERJ, mestra em História Medieval pela UFF e mestranda em Filosofia pela UFRJ. Já ministrou aulas de Filosofia na UFRJ.

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sábado, 21 de novembro de 2009

Filosofia......

Filosofia

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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

eBook: Convite a Filosofia - Marilena Chaui

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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Gilles Deleuze


Deleuze, Gilles (1925-1995), filósofo francês, nascido em Paris, autor de uma filosofia da diferença, que concebe o homem como uma “máquina desejadora”.

Gilles Deleuze tornou-se bacharel em Filosofia em 1948. A partir de 1969, passou a lecionar na faculdade de Vincennes-Saint-Denis (Paris VIII), em companhia de Michel Foucault. A carreira filosófica de Deleuze principiou com a publicação de monografias filosóficas (Hume, Nietzsche, Kant, Bergson, Spinoza). Seu propósito era fundar a crítica do pensamento na análise da história do pensamento e no confronto dos sistemas epistemológicos (ver Epistemologia). Expondo as diferenças pelo jogo da repetição de sistemas situados historicamente, Deleuze buscava uma filosofia que saísse do sistema, que não identificasse, como o idealismo hegeliano (ver Hegel), a unidade e o múltiplo, reduzindo o mesmo ao outro (Diferença e repetição, 1968).

Tratava-se de fazer uma filosofia do “eterno retorno”, reprodução de um pensamento idêntico, pelo menos conceitualmente, mas em um lugar diferente, o lugar do “intempestivo” nietzscheano. Devia chegar a ser uma filosofia do porvir, da vontade, que iria além de um pensamento do ser, do sujeito. Com Félix Guattari, Deleuze inaugurou, a partir de 1972, uma nova fase na prática do múltiplo e do intempestivo. No Anti-Édipo (1972), a psicanálise foi centro da crítica dos dois autores pois trazia a força do desejo à única instância do Édipo, eixo invariável da neurose. Ao contrário, segundo Deleuze, o desejo é “criação de vida”, motivo de invenção e de diferença, transgressão de normas.

“Produzir conceitos”, atividade filosófica por excelência (O que é filosofia, 1991), consiste em pesquisar novos meios de expressão. Deleuze tentava, então, ultrapassar o domínio puramente filosófico elaborando “máquinas” textuais que, sustentadas na literatura (Proust e os signos, 1970), ou no cinema (A imagem-movimento, 1983; A imagem-tempo, 1985), dessem conta dos homens, essas “máquinas desejadoras”. A nova filosofia iniciada por Deleuze foi, portanto, um elogio dos desejos e esteve atenta aos movimentos singulares dos corpos no espaço social — um “corpo sem órgãos” que emana de um espaço plano. “Trata-se sempre de dobrar, desdobrar e redobrar”: este é o movimento que segue o pensamento na linguagem deleuziana que, assim, pôs em questão todo modelo formal de verdade. O conceito de dobra (pli em francês), desenvolvido no livro sobre Leibniz, retoma a imagem do poema de Mallarmé (Pli selon pli) que, por sua vez, musicou o compositor Pierre Boulez.

Além das citadas, as obras principais de Gilles Deleuze são Nietzsche e a filosofia (1962), Apresentação de Sacher-Masoch (1967), A lógica do sentido (1969), Mil Platôs (com Guattari, 1980), Foucault (1986) e A dobra: Leibniz e o barroco (1988). Oprimido pela doença, Deleuze escolheu suicidar-se em 1995, aos 70 anos.

Ver também Neobarroco.

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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

III Jornada de Filosofia


III Jornada de Filosofia, upload feito originalmente por Filosofante.

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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Entrevista concedida por Ferreira Gullar a Veja às vésperas de retornar ao Brasil, após seis anos de exílio político.

Veja - Algumas pessoas comentam o fato de que o Poema Sujo modifica toda uma estrutura da nossa poesia, do ponto de vista da linguagem. Como você vê isso?
FERREIRA GULLAR - Quero que, de princípio, fique bem claro que não fiz o Poema Sujo para modificar nada. Não fiz o Poema Sujo para criar uma nova forma de poesia nem para revolucionar a poesia brasileira. Fiz o Poema Sujo para sobreviver, como em geral sempre faço poesia - no último instante. Quando não é possível fazer mais nada, faço poesia. Agora, é preciso também que seja possível fazer poesia, porque às vezes nem mesmo isso é possível.

Veja - Como você vê o desenvolvimento da literatura hoje no Brasil?
FERREIRA GULLAR - No campo da poesia, especificamente, vejo uma coisa muito positiva: o abandono de certo preconceito formalista que dominou e castrou a poesia brasileira durante mais de vinte anos, a partir do concretismo. Quer dizer, um preconceito formalista. Chegou-se a dizer que a poesia deveria ser feita segundo estruturas matemáticas...

Veja - Sobre isso você teve uma conversa com João Cabral de Melo Neto.
FERREIRA GULLAR - É. Eu estava conversando com ele, em Barcelona, em 1968, e ele me perguntou por que é que eu tinha rompido com o concretismo. Disse-lhe que foi porque o pessoal inventou que a poesia tinha que ser feita segundo estruturas matemáticas e eu achava isso uma bobagem. Aí ele me disse: Não, mas pode ser feita, sim. Por exemplo: a Educação pela Pedra’ que eu fiz é tudo dois. O ritmo é de dois em dois, os versos são dois em dois, o conjunto do poema é dois, é tudo dois. Então eu perguntei: Mas esse dois veio de onde? O que é que determinou esse dois? Não podia ser três? quatro? E ele disse que podia. Então essa estrutura matemática aí está curada. Você não pode criar uma estrutura a partir da qual nasça necessariamente a linguagem. Você pode, isso sim, criar uma estrutura e justapor a ela a linguagem, mas isso é arbitrário. A verdade da poesia é a verdade que comove. Quando Newton diz que matéria atrai matéria na razão direta das massas, isso é uma verdade científica que pode ser aferida. Agora, quando Hegel diz que o concreto é a soma de todas as determinações, isso é uma verdade filosófica que não pode ser aferida como a da ciência. Mas quando Drummond diz: como aqueles primitivos que carregam consigo o maxilar inferior dos seus mortos e eu te carrego comigo tardes de maio, não é verdade, mas é bonito demais, não é? Se você for aferir no nível da verdade, essa frase não vale nada. O que é que sustenta essa frase? É que ela comove. Esse é o conteúdo da poesia. Quando alguém quer transformar a poesia numa coisa racionalista, objetivista, dá com os burros n’água, e castra. Se você elimina do homem o direito de se comover e dizer sua emoção, você pode até adoecer as pessoas. Se numa sociedade se proibisse a expressão da emoção - e às vezes, se proíbe, não diretamente, mas pela imposição de uma censura violenta - se criaria uma enfermidade social, impedindo não só a manifestação da emoção lírica como a da revolta, do protesto.

Veja - E a censura? Há quem diga que ela já está anexada naturalmente a produção de determinada camada de intelectuais.
FERREIRA GULLAR - Se isso é verdade, é uma coisa terrível. Eu confesso que me nego a acreditar nisso. Pode ser até que seja verdade, mas simplesmente não quero acreditar. Sou radicalmente contra a censura. Agora, todos esses anos de censura rigorosa sobre as atividades artísticas e culturais no Brasil demonstraram que a intelectualidade brasileira não se rendeu. Ficou provada uma forte resistência à censura, além da grande vitalidade da nossa literatura. Tudo isso que tem saldo de livros, revistas, jornais não foi de graça, não. Representa uma luta enorme porque desde 1968, 1969, tem havido prejuízos. Mas a observação direta mostra que o pessoal resistiu apesar de tudo, e continua criando. Eu não sou ufanista, não, mas a gente tem que reconhecer que o Brasil é um país de enorme vitalidade.

Veja - O que é que você acha dessa descoberta repentina da América Latina que está havendo nas artes em geral?
FERREIRA GULLAR - Eu que vivi durante algum tempo em alguns países latino-americanos posso dizer o seguinte: o Chile tem pouco a ver com a Argentina, a Argentina pouco a ver com o Peru e os três juntos muito pouco a ver com o Brasil. Não acredito em arte internacional porque a fonte da arte é o particular. Evidentemente, quando um romancista brasileiro fala de sua experiência e da realidade brasileira, está falando da América Latina também. Mas está falando igualmente do mundo contemporâneo. Agora, se a literatura brasileira quiser fazer García Márquez, aí não dá pé, porque García Márquez é produto de uma cultura específica. Vai empobrecer muito. Mas o que acho positivo nisso tudo é que, na medida em que nós, latino-americanos, tomamos consciência da nossa realidade, que o brasileiro conheça o que é a Venezuela, a Colômbia, o Peru, o Chile... e na medida em que eles também se conheçam entre si e ao Brasil... todos conhecerão os graves, profundos e inacreditáveis problemas do continente latino-americano. A solidariedade latino-americana é um dado fundamental na solução desses problemas, mas, para que isso seja feito com autenticidade e conseqüência, é preciso que
antes cada um se conheça a si mesmo, porque, para que o argentino conheça o brasileiro, é preciso que o brasileiro fale de si mesmo e não de um brasileiro misturado com peruano, chileno, etc.

Veja - O que você pensa fazer no Brasil?
FERREIRA GULLAR - Olha, ainda não tenho idéia. O que tenho que fazer é voltar para a minha profissão. Sou jornalista e foi como jornalista que sempre ganhei a vida. Então a perspectiva é essa: procurar emprego num jornal, numa revista e ganhar minha vida.

Veja - O que é que vai mudar em sua vida quando você voltar?
FERREIRA GULLAR - Não sei, não, mas acho que vai ser uma mudança muito séria, porque, depois de quase seis anos fora, o Brasil deve ter mudado muito e, segundo me dizem, mudou mesmo - para pior. As pessoas me dizem, por exemplo, que o Rio está uma cidade insuportável, uma barulheira dos diabos, ônibus, táxis, carros, metrô, buraco pra tudo quanto é lado, que as pessoas quase não conseguem se mover. Um outro aspecto da minha saída daqui é que sempre vivi sozinho todos esses anos, exceto alguns intervalos em que minha família esteve comigo aqui e no Peru. Estou sempre em minha casa lendo, pensando, às vezes pensando até demais, falando sozinho... Vou estranhar muito essa mudança.

Veja - É curioso pensar que você está vivendo há seis anos fora do Brasil e escreveu um poema que fala tanto de suas coisas em São Luís do Maranhão.
FERREIRA GULLAR - Sim, mas na verdade, se não estivesse tanto tempo fora, jamais teria escrito esse poema. O conhecimento das diferenças e semelhanças desses países em que vivi é que deu origem ao poema. Aprendi, também, a confirmar coisas que sabia em teoria. Se falo de São Luís, estou falando da América Latina. Está aí uma resposta concreta e outra pergunta. Não preciso misturar São Luís com Santiago, nem misturar as palavras, os símbolos, os elementos culturais, geográficos ou políticos para expressar a América Latina. O problema é exatamente esse: que eu encontre a expressão universal da coisa particular. O poema nasce disso e da enorme carência que é você viver no exílio. Pelo menos eu, nesse caso, me sinto completamente
desenraizado, sinto um vazio em torno de mim...... Por exemplo: alguém vive numa cidade anos e anos, essa cidade faz parte da história dele e em todos os lugares dessa cidade, do bairro em que ele viveu, das ruas por onde ele andou, está tudo impregnado dele. O poste não é um poste. A esquina não é uma esquina, um pedaço de praia não é apenas um pedaço de praia. Está tudo impregnado da história dessa pessoa, da sua geração e da gente dela. O mundo, dessa forma, não é tão inumano e imaterial, mas sim histórico, cultural e social. Agora, quando alguém está numa cidade que não tem nada a ver com ele, um poste é só um poste, uma fachada é só uma fachada e um crepúsculo é só um crepúsculo, cósmico... é esmagador, porque não tem nada a ver com ele. É uma experiência que até enriquece, mas é uma experiência terrível porque a pessoa se defronta com uma realidade alheia a ela, que não lhe responde, e na qual ela não se reflete.

Veja - Você não tem definitivamente nenhum projeto?
FERREIRA GULLAR - Tenho alguns artigos para o Brasil e penso em juntá-los em livro, discutindo o problema da arte e da literatura. Talvez faça isso. Já escrevi dois livros sobre o assunto, Cultura Posta em Questão, em 1956, e Vanguarda e Subdesenvolvimento, em 1969, discutindo os problemas da cultura brasileira.

Veja - Você podia identificar alguns deles?
FERREIRA GULLAR - Esse é um assunto que se discute muito hoje no Brasil e é um problema que está ligado ao que se colocou anteriormente sobre a literatura latino-americana. No fundo, é tudo uma questão de busca de identidade, já que a América Latina, como continente, foi colonizada e sua cultura é um ramo da cultura européia. É certo que ela se desenvolveu, ganhou formas particulares em cada país, mas na verdade é um desdobramento da cultura européia. Durante séculos essa cultura se desenvolveu com características de dependência, mas pouco a pouco esse caráter de dependência foi se reduzindo e sobretudo a consciência do nosso caráter de dependência foi aumentando, o que é um passo para realmente se conseguir uma independência.
Esse é um problema importante ligado a um processo de libertação econômica e política. Em muitos casos, a discussão do problema cultural é exatamente reflexo dos debates em torno das questões econômicas e políticas. Quero escrever um novo livro para atualizar o meu pensamento com relação a esses problemas, porque não gostaria que certas coisas que escrevi e das quais hoje discordo continuassem a aparecer como sendo o meu pensamento, sobretudo porque, de uma maneira ou de outra, isso passa para outra pessoa e as idéias vão tomando curso. Assim, na medida em que você errou, tem obrigação de rever esses conceitos, mesmo porque isso é um trabalho coletivo de esclarecimento, de entendimento da realidade e do problema cultural, que
é uma tarefa de todos.

Veja - Que tipo de revisão você faria do problema da cultura?
FERREIRA GULLAR - É muito difícil dizer. Mas, quando releio os livros e me defronto com os problemas expostos, percebo que em alguns pontos fui estreito, esquemático e que a coisa é mais complexa. No fundamental, estou de acordo com o que disse no Vanguarda e Subdesenvolvimento. Quer dizer, estou de acordo com a idéia de que a literatura e a arte nascem da experiência particular. Então, quando se coloca o problema da cultura nacional, não é
por chauvinismo ou nacionalismo. Isso é simplesmente condição fundamental para você criar. Criar a partir da experiência vivida, particular. Você pode fazer literatura a partir da literatura, mas isso nunca será uma experiência criadora. Muitos garotos por aí fazem música a partir da música americana e inglesa. Mas que contribuição essa música está dando para a música? Não está dando nenhuma porque fazem pior que os outros, porque a fonte da experiência não
está no Brasil. Mesmo que o cara não copie simplesmente, ele já parte não de uma coisa vital, que permita a criação, mas de uma coisa já formulada. No máximo, ele dilui uma experiência que não teve. Isso, também do ponto de vista da própria atitude do cara diante da realidade, me parece uma coisa negativa. É uma condição da própria dependência cultural, é claro, mas exatamente por isso os intelectuais, os artistas têm que fazer um esforço de crítica do que é importado para varar essa camada de cultura colonizadora e chegar à sua própria realidade, para exprimi-la.

Veja - Você não acha que esse esforço de crítica de que fala estaria hoje um tanto enfraquecido?
FERREIRA GULLAR - Em princípio, arte e literatura verdadeiramente criadoras são uma coisa sempre difícil e rara em qualquer época e lugar. Muita gente faz literatura e pouca gente consegue realmente criar dentro da literatura. Há épocas, entretanto, que, por motivos mais intrincados, favorecem o aparecimento de um número maior de escritores, poetas, romancistas, músicos, etc. No Brasil, até onde percebo de longe, de alguns anos para cá, em função mesmo das condições políticas, houve certa tendência em interromper o processo de tomada de consciência da realidade brasileira. Houve certa tendência em se adotar de novo elementos e padrões de fora, como o estruturalismo, por exemplo. Isso ocorre porque certo tipo de concepção filosófica não favorece o conhecimento da realidade - pelo contrário, favorece uma alienação, uma visão alienada do processo social. O estruturalismo, por exemplo, em suas diversas manifestações, tende muito a favorecer, no campo da literatura, o formalismo, um certo elitismo literário. É curioso isso, porque certas filosofias que de vez em quando aparecem e ficam na moda durante algum tempo surgem sempre com um caráter pseudo-revolucionário, e depois, quando
você vai ver, elas terminam se acovardando e se dando muito bem com as posições reacionárias anteriores no campo da política, da arte, da literatura. Portanto, o fundamental nisso tudo é que se mantenha viva a experiência criadora, a tentativa, a paixão por dizer, por criar.

Veja - Como surgiu o Poema Sujo?
FERREIRA GULLAR - Parti da estrutura de um poema que fiz sobre o formigueiro, no início do movimento concretista. Há uma lenda em minha terra que diz que onde tem formiga tem dinheiro enterrado. Na minha casa tinha muita formiga, era aquele tipo de casa antiga, muito úmida... e, quando chovia, no pé da parede surgia aquele monte de formigas pretas, verdadeiros exércitos, um negócio que me impressionava muito. Então eu quis fazer um poema que
estivesse ligado a essa lembrança da minha infância e fiz esse poema sobre o formigueiro. De outra vez, uma noite aqui em Buenos Aires, me veio a lembrança de São Luís, minha casa, meus irmãos, o quintal e as formigas saindo da parede, e me lembrei do poema da formigas. Aí eu disse: Puxa, eu podia fazer um poema em que vomitasse tudo que tenho dentro de mim logo na primeira página e a partir dessa matéria bruta fosse desfiando todo o poema. Como já era tarde da noite, fui me deitar com aquela idéia sem sair da cabeça e no dia seguinte cedo me sentei na frente da máquina e disse: Agora vou vomitar tudo. Mas o vômito não saía porque não existe uma garganta verbal onde você meta o dedo e vomite a linguagem. Então fiquei assim meio besta, frustrado e pensando: Pombas, o grande poema da minha vida é inviável porque não consigo vomitar o meu passado. Aí fiquei andando um pouco, voltei para a máquina e comecei a escrever o princípio do poema: turvo, turvo, a turva mão do sopro contra o muro..., que era a tentativa de ir o mais longe que a minha memória podia alcançar, ali onde ainda não existe nada, é tudo impreciso, escuro, mais que escuro, claro.... E aí começa um bicho que vem sonhando...,
eu entro dentro de mim e disparo o poema. Nessa hora fiquei muito excitado e achando que alguma coisa se tinha aberto dentro de mim, que realmente eu tinha rompido alguma coisa que começava a manar lá de dentro.

Veja - O que é que desencadeou essa vontade de vomitar toda a sua vida?
FERREIRA GULLAR - Acho que isso é fruto de todos esses anos e de tanta paulada que levei. Vontade de escrever um poema brasileiro e que não fosse uma coisa pessoal apenas. Uma coisa que fosse minha gente, que fosse mais do que eu, que fosse minha vida toda, na medida em que minha vida toda é a vida de todo mundo. Sempre achei que tudo que tinha feito até então era menos do que tinha que fazer e dizer. E, claro, na medida em que você vai amadurecendo, em que você assimilou uma série de coisas, aquilo passa a fazer parte de uma estrutura dentro de você. De certo modo eu sempre buscava isso. Saber, mas saber no corpo, não na cabeça. Quer dizer, um aprendizado poético que ficasse inserido em mim como sei falar, comer, dançar. Como
uma coisa integrada em minha carne, nos meus nervos, em meu cuspe. Foi um aprendizado difícil; eu poderia ter escolhido um outro caminho por onde chegaria mais fácil e rapidamente ao que chamam por aí de forma coerente, o poeta tem a sua linguagem, essas coisas... Mas achei que tinha que me preparar como um todo, como gente para fazer poesia e não como um artesão. Por isso, quando me perguntam o que é que vou fazer amanhã, digo que não sei. A vida está me acumulando de coisas, eu vou vivendo, vou aprendendo, conhecendo e, um dia, um fato qualquer, um acontecimento ou uma idéia, precipita a junção de tudo isso e bum, se transforma em poesia.

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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Fernanda Montenegro: Entrevista concedida em 1976, durante a temporada da peça "A Mais Sólida Mansão", de Eugene O´Neill.

Veja - Você disse certa vez que não existe a profissão de artista teatral. Ainda pensa assim?
FERNANDA - Penso. Aqui no Brasil isso é verdade. Nós somos fantasmas, perpetuamo-nos de geração em geração por uma espécie de teimosia particular. Há gente que nos vê. Mas, em termos concretos, não temos uma existência no plano social. Não temos leis que nos amparem. Durante muitos anos, trabalhando como atriz, eu contribuía para o INPS como comerciária.

Veja - Mas, apesar disso, você insiste. Por quê?
FERNANDA - A gente toma corpo na medida em que se impõe, em que se exercita. Quando se chega ao primeiro plano, as pessoas descobrem o artista. Mas, antes disso, ele é um marginal.

Veja - Há 25 anos você faz teatro. Nesse quarto de século, quais foram as modificações que observou no teatro brasileiro?
FERNANDA - Vi a fase do belo pelo belo e a de total engajamento dentro de uma ideologia. Depois foi a libertação completa, a volta ao espírito tribal. Hoje, tentamos juntar essas fases todas. Acho que a década de 70 será de soma.

Veja - E, dessas fases todas, qual foi a melhor?
FERNADA - Eu não sou nostálgica. Entrei de corpo e alma no belo pelo belo. Depois veio a tomada de consciência do artista diante da sociedade em que vive. Participei, na medida em que isso é possível, de uma denúncia. Foi uma fase riquíssima. Possibilitou o aparecimento de muitos autores nacionais importantes que estão escrevendo até onde podem. Depois vieram os anos do lúdico, do telúrico. Nessa época, eu fui mais platéia que artista. Mas, para mim, foi uma época muito importante, porque comecei a ver que as coisas não são definitivas. A gente vai somando experiências. Coisas que se consideravam cristalizadas passam a ser discutidas, até desprezadas. Nos anos 60 aconteceu isso. Fomos pegos pela perna, tiraram todas nossas certezas. Mas saímos prontos para outra. Recomeçamos limpos, mais abertos. Não e um estado que gratifica o artista. Mas acho que até o fim da década de 70 surgirão coisas de grande força. Estamos dando a curva.

Veja - Então você está otimista?
FERNANDA - Falando em termos gerais, estou no Brasil, não sei. Os artistas e empresários enfrentam dificuldades inacreditáveis. Em uma fase de busca como esta, parece-me que um pouco de liberdade seria fundamental. Ou, pelo menos um abrandamento. Abrandamento é uma palavra bonita, não? Uma frestinha.

Veja - Como você se colocaria nesse período que o teatro brasileiro está atravessando?
FERNANDA - Não sei o que os outros acham. Mas sempre estive aberta para ver o que estava acontecendo. Jamais me coloquei em uma posição preconceituosa. Nunca achei que aquilo que se estava fazendo fosse uma coisa cristalizada, gravada. O grande período do artista - se é que posso me chamar de artista é que, de repente, ele surge. No Brasil, então, quando a comunidade descobre que surge um indivíduo de talento, começa a incensá-lo, bajulá-lo. E é muito comum que ele acredite que achou o caminho, a verdade, a vida. Mas a vida continua. Quando a gente chega na casa dos 40 anos, deixa de ser novidade, deixa de ser enfant gaté de sua geração. Tem que ficar mais alerta. Senão cai na nostalgia. Ah! Os anos 50 Ah! A década de 60 e assim por diante. Hoje, o que me espanta muito é ver uma série de grandes talentos fazendo televisão comercial, propaganda, ou outras coisas que nada têm a ver com teatro. Para muita gente, houve um período de grande aceitação que, depois, parou. Então há quem fique parado naquele ninho bom, onde tudo dá certo. Mas teatro é persistir. O fundamental é continuar. Cada dia é um novo dia.

Veja - Teatro então é uma questão de teimosia?
FERNANDA - Sempre foi. Uma teimosia realizada em estado de emergência.

Veja - E sempre vai ser assim?
FERNANDA - Para o nosso trabalho no teatro brasileiro, a emergência é um fenômeno característico.

Veja - Você fala muito de teatro brasileiro. Mas a maioria das peças que produz não são estrangeiras?
FERNANDA - Não. Estreei com Paulo Magalhães, que já era famoso desde a década de 80. Em 1950 fiz As Loucuras do Imperador, escrita por ele. A televisão estava começando e eu fazia programas semanais. Um dia, a Heloísa Helena, mulher de Paulo, me disse que o João Viliaret vinha de Portugal para cá, mas que, por uma questão de lei, tinha que estrear com uma peça nacionais. As Loucuras. Foi um sucesso enorme. É uma peça ruim, mas funcionava. Depois fiz A Moratória, de Jorge Andrade. Em São Paulo, fiz Rua São Luís, de Abílio Pereira de Almeida. Depois fiz A Matrona de Éfeso, de Guilherme Figueiredo, além de peças de Aluísio de Azevedo, Nélson Rodrigues e Martins Pena. Isso sem falar de Calabar, de Ruy Guerra e Chico Buarque, que, como você sabe, não chegou a ser apresentada. Tentamos, também, Um Elefante no Caos, de Millôr Fernandes, e uma peça de Nelson Xavier, que abortou antes da estréia. Como você vê, só não fiz mais peças nacionais porque não foi possível.

Veja - Como você se sente como produtora?
FERNANDA - Não sei. Acho que é porque quase sempre fui produtora. Em 1959 fiz uma sociedade com Fernando Torres, Gianni Ratto, Ítalo Rossi e Sérgio Brito. Durou até 1965. Desde 1967, Fernando e eu produzimos todos nossos espetáculos.

Veja - Produzir o espetáculo não interfere no trabalho do ator?
FERNANDA - No Brasil é a única maneira de não se morrer em termos teatrais. Não temos empresários, no sentido tradicional da palavra. As pessoas preferem investir em outras coisas. Então, se você quiser se manter fiel ao teatro, tem que assumir os riscos. E veja: são 25 anos de fidelidade. É uma experiência estranha: você tem que ter pés de chumbo e asas na cabeça. Viver nisso dilacera as entranhas. Os mais sensíveis morrem cedo, como Cacilda Becker, Gláucio Gil, Sérgio Cardoso e tantos outros.

Veja - Você parece ter conseguido manter bem esse equilíbrio.
FERNANDA - Não conheço outro processo de trabalho. Me dá segurança. Tenho, pelo menos, a visão do que pode acontecer nos próximos três ou quatro meses. Isso nos dá a liberdade de escolher textos, de chamar nossos colegas e os diretores nos quais a gente acredita os cenógrafos mais criativos, os figurantes mais seguros. A gente cria uma espécie de família de trabalho. Sem um bom relacionamento humano não se consegue fazer um bom trabalho.

Veja - E A mais Sólida Mansão de Eugene ONeili?
FERNANDA - Há certos autores que a gente tem que fazer um dia. Seis anos atrás, esta peça veio às minhas mãos. Achei que tinha um clima muito estranho. Há dois anos a reli. É uma peça que tem a coragem de ser um melodrama. De buscar uma linguagem rebuscada. Isso tudo é um desafio. Fernando e eu achamos que há muito tempo não se encena aqui um texto que tenha tanta valentia verbal.

Veja - Você acha que há uma crise de texto no Brasil?
FERNANDA - Não é só no Brasil, é no mundo. Mesmo nos países de maior inquietação criativa, como a Alemanha, as companhias estão reencenando os textos tradicionais. A gente volta a sentir a paixão pela palavra. O autor volta ao primeiro plano.

Veja - A que você atribuí esta crise de criatividade dos autores?
FERNANDA - Estamos em um período de transição. Com a queda dos valores definitivos dos anos 50 e a explosão reveladora dos anos 60, entramos como se estivéssemos saindo de uma luta.

Veja - As pessoas estão escrevendo menos bem?
FERNANDA - As peças que tenho lido representam perplexidades, estilhaços. São sempre peças sintéticas. A platéia tradicional, a que vai ao teatro, está querendo ver, ouvir e pensar.

Veja - Ou se divertir?
FERNANDA - Isso também é uma forma de diversão. O público assiste às peças mais violentas como se fossem comédias de bulevar. Oh! Que Belos Dias, de Beckett, tem seu público. Mas ele não é o mesmo de Os Amantes de Madame Vidal, ou de outros textos com preocupações menores.

Veja - Como produtora e atriz, o que você prefere fazer?
FERNANDA - Representar. Antes de mais nada, sou uma mulher de teatro. Meu papel pode não ser o principal. Se o texto é o mais importante, não estou interessada em dar um dó de peito. Eu sempre escolho um texto que possa ser sentido pela platéia. Em Volta ao Lar, de Harold Pinter, acho que só dizia umas dez frases. Mas, quando li a peça, vi que o texto era orgânico, concêntrico, insólito. Acho que foi uma das melhores coisas que já fiz como atriz. Nosso critério não é o de escolher papéis, mas procurar peças que queiram dizer alguma coisa. Fazer teatro é um destino. Há companhias que sobrevivem porque um de seus membros ganha dinheiro na televisão ou porque alguém ganhou uma herança. Meu marido e eu vivemos de teatro. Teatro foi toda nossa
vida. Isso, inclusive, acaba orientando a escolha de nosso repertório, não podemos ter critérios particulares, servir só a uma certa platéia. Alternamos autores mais severos com comédias de boa qualidade. O público é sempre o mesmo, formado por pessoas que podem pagar o preço de um ingresso teatral: uma minoria. De minha platéia, 80% compõem-se os estudantes. Isso não quer dizer nada: hoje, alguns estudantes têm 70 anos. Basta apresentar uma carteirinha, mesmo que seja a de um curso de corte e costura.

Veja - Você acha, então, que é impossível um teatro popular?
FERNANDA - Minha geração, a de 1950, tem uma grande frustração: a de não ter feito teatro popular. Não é só fazer promoção dos espetáculos na rua, é mais complexo. Mesmo que a gente divulgue o teatro nas ruas, como atingir uma platéia da zona norte do Rio, por exemplo? Ela teria que ir ao teatro de trem. É muito cansativo. Uma questão de rins.

Veja - Então não há saída?
FERNANDA - Há. Uma distribuição de teatros em zonas populares e a preços acessíveis.

Veja - Mas você não acha que esse papel social do teatro diminuiu muito com o aparecimento da televisão e de outros meios de comunicação que atingem um público mais vasto?
FERNANDA - O teatro sempre teve uma profunda responsabilidade social. Acontece que, há 2 500 anos, na Grécia, toda a população de uma cidade cabia dentro de um teatro. Hoje, isso não acontece mais. Mas acho que um texto importante, dita para 300 pessoas, em um teatro, vale mais que um programa de televisão assistido por não sei quantos milhões de pessoas. O cinema e a televisão não podem substituir o teatro, aquela coisa do verbo saindo para o ouvido. O teatro tem uma função social definitiva, embora sejamos poucos falando para poucos.

Veja - Você acha, então, que o teatro tem um papel social importante?
FERNANDA - Acho. As autoridades, parece que não. Sei que existe uma série de prioridades que precisam ser atendidas antes das culturais, como construir estradas e hospitais, por exemplo. Naturalmente, isso é imprescindível. Mas é importante compreender que uma cidade que não tem teatro não tem dignidade. Você sente isso quando vê o orgulho da população de uma cidade do interior só porque lá eles têm o seu teatro. Vou mesmo mais longe. Acho que um país que não tem um teatro forte é um país fraco. Do meu ponto de vista, teatro é uma das maiores prioridades. Mas acho que, se um médico ler isso, vai achar que estou louca.

Veja - O problema é falta de ajuda oficial?
FERNANDA - Não é só isso. Dinheiro, eles dão. Mas o essencial não é só dinheiro. É preciso haver um... abrandamento. Às vezes, restringir uma peça para os maiores de 18 anos, usando critérios arbitrários, é tão danoso quanto interditá-la. Veja só, na escola, teatro constitui uma matéria de currículo. Há cursos de adestramento teatral repletos de polêmicas muito bonitas. Mas os alunos não podem ir ao teatro. É um fato curiosíssimo: os bastidores estão cheios de crianças, pesquisando sobre teatro e fazendo perguntas sobre peças que não lhes deixam ver. Quando começam a fazer suas pesquisas, a primeira coisa que pergunto é se já viram uma peça. A maioria responde que não. Ou, então, só assistiram a peças infantis, esses horrores de gênero A Vaquinha que Miava, ou coisa que o valha. Mesmo quando o governo ajuda o teatro, há nessa ajuda uma incoerência que deveria ser... desmontada. Em suma, misturar dinheiro com um pouco mais de liberdade.

Veja - Você nunca tentou escrever para o teatro?
FERNANDA - Não. Eu sou uma atriz. É no palco que tenho de encontrar formas de dizer as coisas.

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domingo, 15 de novembro de 2009

Entrevista concedida a Veja em 2003, com o especialista americano, para quem é a riqueza fácil e não o Islã que impede a democracia no Oriente Médio

Veja — Por que a democracia é rara entre os países de maioria muçulmana?
ZAKARIA — Discordo daqueles que afirmam que o problema do Oriente é a religião muçulmana. É a mesma explicação simplista que foi dada sobre as dificuldades de democratizar a Ásia. Dizia-se que esse tipo de organização social entrava em choque com a herança cultural do confucionismo. Também se falou da impossibilidade de a América Latina se tornar liberal devido ao atraso das culturas indígenas. Isso tudo é bobagem. Max Weber, o primeiro teórico a
afirmar que a cultura antecede a democracia, acreditava que a ética protestante fora essencial para o desenvolvimento do capitalismo e, conseqüentemente, da democracia. Logo surgiram aqueles que seguiram essa linha de raciocínio para concluir que a cultura católica era incompatível com a democracia e o desenvolvimento econômico. Quem acreditaria nessa teoria hoje? Basta observar os avanços democráticos de nações católicas na Europa e até na América
Latina para chegar à conclusão de que não existem barreiras culturais ou religiosas que impeçam a democracia. É espantoso que as pessoas continuem a acreditar nessas teorias reducionistas, até que um dia percebam que as culturas se transformaram.

Veja — Como ocorre essa transformação cultural?
ZAKARIA — Com boas lideranças, com a criação de instituições democratizantes e com o desejo das nações de romper com o passado para construir um Estado moderno. Se essas ambições existirem no Iraque, por exemplo, a democracia será um passo natural. Veja o caso da Indonésia. É o mais populoso país muçulmano e é também uma democracia. Se a religião fosse um problema, seria impossível explicar o fato de a Indonésia ter se transformado em um Estado democrático. Seria igualmente difícil entender a democracia na Turquia e em Bangladesh. Ou seja, há democracias islâmicas.

Veja — Mas não há nenhuma democracia em país árabe. Por quê?
ZAKARIA — A principal barreira à democracia no mundo árabe não é o islamismo ou a cultura árabe. É o petróleo. Todos os países ricos do mundo árabe têm o petróleo como principal fonte de renda. Essa especificidade fez com que os líderes desses países nunca tenham sido forçados a modernizar a sociedade e a economia. Como bastava furar o chão para o dinheiro jorrar, não houve a necessidade de criar uma economia capitalista moderna, que exige trabalho duro. Costumo dizer que o petróleo é a maldição do mundo árabe. Pelo menos no que diz respeito à modernização econômica e política. De todos os países com petróleo, apenas um, a Noruega, é democrático.

Veja — Como o senhor explica o caso da Venezuela, que é um grande produtor petrolífero e um Estado democrático há décadas?
ZAKARIA — É um caso exemplar. A Venezuela é um país rico que, por muitos anos, manteve os melhores índices de qualidade de vida da América Latina. Mas o petróleo gerou um Estado corrupto. O governo não modernizou as instituições sociais, não criou novas fontes de renda, não desenvolveu indústrias e talentos humanos nem educou as forças de trabalho. Parecia satisfeito com o dinheiro fácil que brotava do solo. Agora, com o presidente Hugo Chávez, a Venezuela tornou-se pior do que muitas ditaduras. É uma das nações mais ricas do mundo e 70% da população vive abaixo da linha de pobreza.

Veja — O senhor escreveu que só os países com renda per capita superior a 6 000 dólares podem ser realmente democráticos. Como explicar a existência de democracias em nações com renda per capita menores, como o Brasil?
ZAKARIA — É um argumento bastante polêmico e estou sendo mal interpretado. O que escrevi em meu livro O Futuro da Liberdade é que, fazendo uma retrospectiva histórica, as nações que tiveram sucesso em sua transição democrática eram aquelas que tinham três caraterísticas básicas: legislação desenvolvida, economia de mercado não necessariamente no estilo americano, mas com produtividade e crescimento e classe média ativa. Não é por coincidência que quando esses três elementos coexistiam os países também apresentavam boa distribuição de renda. Em média, a transição democrática falhou em países cuja renda per capita era menor que 3.000 dólares. Em contraste, sempre que ocorreu em países com renda per capita acima de 6.000
dólares, a revolução democrática deu certo. Claro que a vida é muito mais complicada do que essas estatísticas. Mas é importante notar que foi a classe média que sustentou os movimentos democráticos em todos os países.

Veja — O senhor não acredita que uma revolução de massa possa resultar em democracia?
ZAKARIA — A classe média não lutou sozinha pela democracia. Mas, geralmente, foi ela que batalhou pelos contratos sociais, pela Justiça independente, pelos organismos que transformam a democracia de direito em democracia de fato. O que está na raiz do desenvolvimento das nações não é a democracia, mas a liberdade individual. Claro que existem países em que a abertura política veio de baixo ou foi imposta de cima. A Venezuela é um desses casos. E observe como está o país hoje: um sistema populista que quase não difere de uma ditadura.

Veja — Em seu último livro, o senhor afirma que a proliferação da democracia pode ser tanto uma conquista boa quanto ruim. Por quê?
ZAKARIA — Não se pode negar que democracia é uma grande conquista. Mas para atingi-la verdadeiramente é preciso mais que eleições. A democracia requer uma série de instituições e tradições que preservem e protejam a liberdade dos indivíduos e as regras da lei. São essas instituições que dão vida à democracia tal como a conhecemos no Ocidente e fazem dela muito mais que um mero concurso de beleza. Sem esses fatores, as democracias são como conchas vazias. Não têm conteúdo e não fazem o menor sentido.

Veja — Como diferenciar uma democracia verdadeira daquilo que o senhor chama de "concha vazia"?
ZAKARIA — Quando olhamos para o mundo e vemos os processos democráticos atuais, com eleições e corridas presidenciais se desenvolvendo em países sem tradições liberais, percebemos que não estamos diante de verdadeiras democracias. Estamos criando o que chamo de Estados democráticos não liberais, sistemas que não são melhores que uma ditadura. Esse é o grande problema dos tempos atuais: políticos como o presidente Hugo Chávez, da Venezuela, aprenderam a manipular o conceito de democracia. Eu sou um amigo da democracia. Como todo amigo verdadeiro, prefiro criticar os problemas a festejar as conquistas.

Veja — No Oriente Médio, o que vem primeiro: o dinheiro fácil do petróleo ou a falta de tradição democrática?
ZAKARIA — Sem dúvida há aspectos das sociedades árabes que dificultam o desenvolvimento de Estados liberais. Além da mentalidade conservadora dos líderes árabes, a região sempre foi marcada por conflitos armados e culturas tribais. Mas isso só explica parte da equação. O Japão, que também tinha uma cultura feudal, conseguiu criar uma economia capitalista e treinar os cidadãos para competir nessa nova realidade. O mesmo aconteceu na Coréia do Sul, em Taiwan e em Cingapura. Sabe por quê? Porque eles não tinham a abundância de recursos naturais que o Oriente Médio tem. Quando o dinheiro não vem fácil, o Estado precisa prover as condições básicas para a modernização econômica. No caso árabe, o petróleo traz divisas que não são repartidas entre os cidadãos. Ao contrário, gera desigualdades e péssima distribuição de renda.

Veja — O senhor propõe uma "reforma do petróleo" no Iraque. O que significa isso?
ZAKARIA — A reforma do petróleo equivaleria no Oriente Médio à reforma agrária em outros países. Afinal, o que significa a reforma agrária senão tirar da mão de uns poucos o mais importante recurso natural, que na maioria das nações é a terra? A idéia é dividi-la para que todos tenham uma fonte de renda e, dessa forma, também possam participar de uma economia de mercado. Além da questão econômica, há um importante fator social: ao ganhar um pedaço
de terra, o cidadão passa a se sentir parte da sociedade em que vive. Com o petróleo, o conceito é o mesmo: redistribuir o principal recurso do Iraque, tirando do governo e entregando ao povo.

Veja — Como isso pode ser feito?
ZAKARIA — Há várias maneiras de realizar essa reforma. Uma delas seria através da criação de um fundo nacional do petróleo. Uma espécie de órgão central teria a responsabilidade de administrar e recolher as receitas provenientes de sua extração. O fundo só poderia aplicar recursos em políticas predeterminadas pelo governo. Ou seja, em programas de educação e saúde. Essa estratégia está sendo adotada com bons resultados no Chade, um país do norte da África, desde 1995.

Veja — Como se poderia evitar o desvio desse dinheiro por funcionários e políticos corruptos?
ZAKARIA — Em países com alto grau de corrupção, esse fundo de administração do petróleo poderia realmente se tornar um problema e não uma solução. É por isso que esse órgão no Chade é independente do governo, observado por entidades internacionais e auditado anualmente por empresas privadas. No caso do Iraque, o novo governo teria de fazer o mesmo: abrir as contas públicas para que o mundo possa saber o que está sendo feito com o dinheiro. O petróleo permite essa contabilidade. Basta verificar quantos barris foram vendidos e a que preço. Depois, determinar a porcentagem desse total que será investida em programas de saúde, educação, moradia popular etc. Se o novo governo iraquiano não tiver esse grau de transparência, pode-se pensar em outra solução para a democratização do petróleo.

Veja — Qual seria essa outra estratégia?
ZAKARIA — Semelhante à que os Estados Unidos têm no Estado do Alasca. Todo o dinheiro que o governo recolhe com a venda de barris de petróleo no Estado é devolvido à população em forma de desconto em impostos. Hoje, cada morador do Alasca recebe 8.000 dólares por ano. É a sua participação nos lucros que o Estado obtém com o uso do patrimônio público. Mais uma vez, trata-se de uma reforma agrária. O dinheiro sai das mãos do governo e de poucos oligarcas e vai parar na conta corrente do cidadão. Sem intermediários. O mais interessante é que o dinheiro volta para a economia doméstica, revitalizando o comércio e a indústria.

Veja — O presidente George W. Bush afirma que a criação de uma democracia no Iraque funcionará como exemplo para o Oriente Médio. Quais as chances de que isso dê certo?
ZAKARIA — Tudo depende da forma como os Estados Unidos vão administrar o Iraque nos próximos anos. Temos de pensar em duas fases distintas. Primeiro, é preciso construir naquele país as instituições liberais que são a espinha dorsal da democracia. Depois, é necessário ajudar os iraquianos a administrar essas instituições. Só então poderemos apresentar o Iraque como um exemplo para o resto da região. Por outro lado, se os Estados Unidos resolverem voltar para casa em nove meses, por causa da eleição presidencial, não há chance alguma de que o Iraque dê certo como país.

Veja — Os exemplos de administração pós-guerra na Bósnia e no Afeganistão oferecem algumas indicações para a reconstrução no Iraque?
ZAKARIA — A primeira lição que aprendemos na Bósnia é que não podemos marcar eleições muito cedo. Na Iugoslávia, a velha ordem comunista foi rapidamente destruída, mas novas lideranças demoraram muito tempo para despontar. No momento em que o país marcou suas primeiras eleições livres, a transição para a democracia estava fadada ao fracasso. Isso porque os políticos apelaram para os votos da forma mais sensível aos eleitores: o ódio religioso. O que veio em seguida foi o recrudescimento do nacionalismo sérvio, croata e bósnio. As eleições foram vistas pelos diversos grupos étnicos e religiosos como a oportunidade para impor sua própria ordem política na Bósnia. Da mesma forma, se o processo democrático for mal conduzido no Iraque, há grande possibilidade de o caos iugoslavo se repetir no Oriente Médio.

Veja — O Iraque será uma nação dos sunitas, dos xiitas, dos curdos ou dos americanos?
ZAKARIA — O Iraque se tornará inevitavelmente um país democrático. Como os xiitas são maioria, eles deverão dominar o Parlamento e governar a nação por um bom período. Por isso temos de pensar também na criação de outras formas de representação política para contentar os demais grupos étnicos e religiosos.

Veja — E como fazer isso?
ZAKARIA — Talvez seja preciso pensar em um Estado cuja representação seja proporcional aos grupos religiosos ou numa estrutura federal descentralizada. Há muitas formas de criar uma estrutura política legítima e multifacetada.

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sábado, 14 de novembro de 2009

Entrevistando: Dr. Connell Cowan

Veja – Existe um parceiro ideal inato, uma alma gêmea que precisa ser encontrada para trazer felicidade?
Cowan – Em primeiro lugar, ser um bom parceiro é saber desmistificar o que é romantismo. O romantismo mostrado no cinema e na TV é bastante diferente da intimidade do dia-a-dia. Depois, a melhor qualidade de um parceiro é a aceitação do outro. É esta a qualidade que constrói a confiança, o conforto e a sensação de segurança. Outro aspecto importante é que a pessoa saiba responsabilizar-se pela própria satisfação de vida. Não devemos esperar que uma união nos proporcione isso. O problema é que as pessoas acreditam que relacionamentos foram feitos para consertar algo errado em sua vida. Felicidade, realização, equilíbrio são metas que se alcançam individualmente.

Veja – Por que tantos casamentos terminam em divórcio — e cada vez mais rapidamente?
Cowan – Uma das grandes causas é a falsa expectativa. As pessoas se casam com expectativas que não podem ser preenchidas, então acabam desiludidas e desapontadas. Os casados despejam a culpa de seus problemas no casamento. Freqüentemente os separados acabam afundados nos
mesmos problemas que tinham quando eram casados.

Veja – Por que mulheres inteligentes fazem escolhas tolas no campo afetivo?
Cowan – Existem milhares de razões. Às vezes elas são atraídas pelo desafio de conquistar homens que não se comprometem facilmente. Esse sentimento é de ânsia, não de amor. Esse tipo de relacionamento amarra as mulheres a relações estranhas e vazias. Fiquei bastante impressionado com a vida de várias de minhas clientes. Todas eram inteligentes, bonitas, moravam bem e tinham belas carreiras. Moldaram sua vida de uma forma na qual tudo
dava certo, exceto o relacionamento com homens. Era um paradoxo. Por que elas não eram capazes de usar sua inteligência nos relacionamentos amorosos? Isso me intrigou.

Veja – Seu livro foi best-seller em diferentes países, inclusive naqueles onde as mulheres são oficialmente consideradas inferiores aos homens. Como o senhor explica esse sucesso?
Cowan – Fiquei chocado ao saber que meu livro foi publicado na China, na Hungria, no Japão, em Israel e até na Bósnia. Pensei: "O que essas mulheres estão fazendo, lendo esse livro em plena guerra?". Aprendi que elas desejam entender suas relações com os homens de maneira mais profunda, além de compreender melhor os próprios homens e algumas das razões que levam a erros. Esse tema transborda culturas. Certa vez, recebi uma mulher japonesa em meu consultório — mas quem marcou a consulta foi o marido. Eles vieram do Japão e passamos uma tarde juntos. O marido participou da sessão como tradutor. Horas depois, percebi que ela entendia tudo o que eu falava e era capaz de responder em inglês. A partir daí, passei a me dirigir diretamente a ela, o que tornou a conversa bem mais interessante. Esse caso me chamou a atenção, pois, apesar de o marido controlar a situação, essa mulher é uma grande executiva, dona de uma cadeia de joalherias no Japão. Inclusive, nesse país, meu livro foi adaptado para o teatro cabúqui, com produção de Nova York no estilo da Broadway.

Veja – Há poucos meses, um jovem professor judeu americano, de Denver, colocou uma foto de si mesmo num jornal israelense. Nela, ele segurava um cartaz escrito a mão em hebraico onde se lia: "Procuro uma mulher para casar e ter filhos". Seis mil mulheres responderam. Será que homens assim são tão raros que a proporção chegue a 6 000 para uma?
Cowan – Seis mil? Isso é impressionante. Deve ter sido a menção a filhos. Normalmente, anúncios pessoais na internet ou em revistas têm um tom bastante egoísta. Os que me dão raiva são aqueles que dizem "Estou na faixa dos 50, procuro uma mulher branca, entre 22 e 28 anos", em vez de "quero me casar e construir uma família". Isso é muito mais atraente para as mulheres.

Veja – Quais são as principais reclamações que o senhor escuta de suas pacientes quando elas falam sobre homens?
Cowan – Reclamam de homens que não assumem um papel ativo na criação dos filhos e na tomada de decisões. Outras se queixam de que não têm tempo para si mesmas. É mais fácil para os homens ficar sozinhos de vez em quando. As mulheres precisam de privacidade tanto quanto os homens, mas não têm sossego. Outras mulheres reclamam de não ser ouvidas. Nem sempre elas querem que o homem resolva seus problemas, querem apenas que as escute.

Veja – O senhor diz que, em relacionamentos, os homens têm prioridades diferentes. Quais são elas?
Cowan – Existe uma gama de prioridades, muitas delas bem estranhas, mas vou falar das relações saudáveis. Os homens procuram mulheres que os alimentem emocionalmente e que os aceitem. Geralmente, eles não buscam mulheres que cuidem deles financeiramente. As mulheres ainda buscam homens que elas julguem capazes de ser bem-sucedidos, protetores, poderosos. O poder é um grande atrativo, pois é uma idéia que remete à segurança. Essa é a prioridade das mulheres. Já os homens não procuram, necessariamente, mulheres poderosas. Não que elas não sejam atraentes, mas o poder não é o suficiente — elas devem ter algo mais. O poder puro e simples seria um pouco amedrontador para um homem. De alguma forma, os homens podem
sentir-se intimidados por uma mulher poderosa.

Veja – Que tipo de homem se intimida com mulheres fortes?
Cowan – Acredito que sejam os homens fracos. Apenas homens inseguros se sentem ameaçados por mulheres com algum poder, porque eles se vêem inferiores diante delas, em vez de celebrar o sucesso das parceiras. Esse sucesso ameaça sua autoconfiança e seu próprio sucesso. Já os homens fortes gostam de mulheres fortes. Um homem forte não vê problemas em celebrar o sucesso, a força e as realizações de sua mulher. Por isso é importante que mulheres fortes busquem homens fortes.

Veja – Então mulheres mais femininas, delicadas e com menos iniciativa não necessariamente atraem mais os homens...
Cowan – Exato. Um homem inseguro provavelmente vai sentir-se mais atraído por uma mulher que ele possa controlar, que seja condescendente, que não alcance algo na vida maior ou mais importante que ele. Assim ele se sentirá mais confortável. Mas um homem seguro, eficiente e bem-sucedido pode sentir-se atraído por uma mulher tão ou até mais bem-sucedida que ele no mundo do trabalho

Veja – Por exemplo...
Cowan – Tive um casal de pacientes em que a mulher tinha um diploma de mestrado em administração de empresas pela Universidade Harvard e o marido era um advogado. Ela era apaixonada pela carreira. Já ele, que trabalhava numa empresa de entretenimento, não morria de amores pelo emprego — então pediu demissão para ficar em casa cuidando dos dois filhos. Ela está no mundo, sendo promovida e trazendo dinheiro para casa, enquanto ele está se transformando no "Senhor Mamãe". Trata-se de um homem extremamente inteligente, capaz, forte e que não se sente ameaçado pelo sucesso de sua mulher. Ele adora o fato de ela ser promovida, pois isso significa mais dinheiro e uma vida mais confortável. As mulheres sempre foram capazes de gerar renda suficiente para sustentar uma família. Agora podem fazer isso com classe.

Veja – Depois de movimentos feministas e conquistas no mercado de trabalho, as mulheres mudaram?
Cowan – Elas mudaram em alguns aspectos. No campo profissional, vemos muito mais mulheres médicas, advogadas, por exemplo. Mas ainda há uma insatisfação. Percebi, por exemplo, que várias advogadas lidavam com homens de alto escalão em ambientes em que se trabalha dezesseis horas por dia, numa atmosfera competitiva, desequilibrada e exaustiva. Muitas delas perceberam que não queriam competir ou fazer parte desse ambiente. Hoje está havendo uma mudança. Há mulheres deixando a carreira para cuidar das crianças. Isso é um movimento saudável.

Veja – Como os homens reagiram à invasão de mulheres no mercado de trabalho e ao fato de receber ordens de alguém de saias?
Cowan – No início desse movimento, eles sentiram-se ameaçados. Inclusive surgiram regulamentações que obrigam as empresas a ter um número determinado de mulheres no quadro de funcionários. Mas os homens se acostumaram a conviver com supervisoras. A idéia hoje é de confiança — os homens aceitam com mais facilidade o fato de ter uma chefe, se acharem que ela é qualificada para tal. Eles buscam profissionais mais pela capacidade do que pelo sexo. E é assim mesmo que deve ser.

Veja – Será que nas próximas gerações ainda veremos casais de idosos caminhando de mãos dadas pelas ruas ou celebrando suas bodas de ouro?
Cowan – Acredito que sim. Hoje, conheço mais gente envolvida em relações bem-sucedidas do que em qualquer outra época de minha vida. Elas se gostam. Acho que essas pessoas serão esses casais aos quais você está se referindo. É lindo ver esses velhinhos juntos, não? Transmitem algo de amor persistente. Ainda acredito nisso. Se formos realistas, generosos e responsáveis, essas relações são possíveis.

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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Entrevistando


Entrevistando, upload feito originalmente por dbasulto.

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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Há 30 Anos: EUA suspendem importação de petróleo iraniano.


12 de Novembro de 1979

O presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, decidiu suspender a importação de petróleo iraniano, para mostrar que Washington não se submeteria a pressões econômicas com o propósito de forçar a extradição do Reza xá Pahlevi. Pouco depois, o governo do Irã anunciou que deixaria de exportar petróleo para os Estados Unidos.

©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Temporalidade


squared circles - Clocks, upload feito originalmente por Leo Reynolds.

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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Feliz Aniversário!




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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Direto do Túnel do Tempo

Uma nova Alemanha

Em 09 de novembro de 1989, por volta das 22h, uma multidão pacífica marchou em direção as passagens do muro de Berlim querendo ir para o outro lado. Os guardas da fronteira sem saber o que fazer, levantaram as cancelas e deixaram o povo passar. Com a reunificação dos países, terminava a Guerra Fria.

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domingo, 8 de novembro de 2009

08 de Novembro

dia Mundial do urbanismo

Para Saber mais:

Urbanismo

1 INTRODUÇÃO

Urbanismo é o desenvolvimento unificado das cidades e das regiões próximas a elas. Durante a maior parte de sua história, o urbanismo se centrou, sobretudo, na regulamentação do uso da terra e na disposição física das estruturas urbanas em função dos critérios estipulados pela arquitetura, pela engenharia e pelo desenvolvimento territorial. Em meados do século XX, o conceito foi ampliado, incluindo o ambiente físico, econômico e social de uma comunidade como um todo. Entre os elementos característicos do urbanismo moderno, estão os seguintes: 1) planos gerais que resumem os objetivos (e limitações) do desenvolvimento urbano; 2) controles de subdivisão e de divisão em zonas que especificam os requisitos, densidades e utilizações do solo permitidos na ruas, serviços públicos e outras melhorias a que se referem; 3) planos para a circulação e o transporte público; 4) estratégias para a revitalização econômica de áreas urbanas e rurais necessitadas; 5) medidas para ajudar os grupos sociais menos privilegiados; e 6) diretrizes para a proteção ambiental e a conservação de recursos escassos.

O urbanismo é levado a cabo tanto pela iniciativa pública (estatal, estadual ou municipal) como por grupos privados. É também objeto de estudo universitário.

2 HISTÓRIA

As escavações arqueológicas de cidades antigas já revelam a existência de alguma planificação deliberada nas civilizações grega e romana, bem como no Extremo Oriente.

Durante o Renascimento, em acentuado contraste com as ruas estreitas e irregulares dos assentamentos medievais, a planificação insistiu em ruas amplas que respondiam a um padrão radial ou circunferencial regular, ou seja, ruas que formavam círculos concêntricos em volta de um espaço central, a chamada Grande Praça ou Praça Maior. Esses ideais de grandiosidade pública e de ruas radiais e circunferenciais se estenderam até o século XIX, mas o crescimento descontrolado das grandes cidades com um grave problema de superpopulação e outras dificuldades daí decorrentes provocou o surgimento de uma nova era dentro do urbanismo.

3 O URBANISMO NO SÉCULO XX

No início do século XX, muitos países importantes tomaram medidas para formalizar leis baseadas em princípios urbanísticos.

A necessária reconstrução física a que se viram obrigadas as cidades depois da II Guerra Mundial deu origem a um novo desenvolvimento para a disciplina e datam daí consideráveis remodelações urbanas em numerosas cidades européias.

No final da década de 1960, a orientação do urbanismo ultrapassou o aspecto físico. Em sua acepção moderna, o urbanismo é um processo contínuo que afeta não só o projeto, cobrindo também temas de regulamentação social, econômica e política e, por fim, questões ambientais.


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sábado, 7 de novembro de 2009

Saude




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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

U.S Departament of Health & Human Services

http://www.hhs.gov/

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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

The Death Zone - Longer and Lower. Frenchay hospital, Bristol

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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Saúde

a Arte de Não Adoecer height="500" width="100%" > value="http://d1.scribdassets.com/ScribdViewer.swf?document_id=19223029&access_key=key-1cufjonzsi8kpqu9f0f0&page=1&version=1&viewMode=slideshow">

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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Recomendações Dietéticas


São recomendações para a alimentação elaboradas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e por diversos países. Essas recomendações baseiam-se nas informações científicas sobre a quantidade dos diversos nutrientes necessária às pessoas.

Uma dieta equilibrada é a que contém a quantidade adequada de energia, segundo as necessidades de cada pessoa, e a proporção correta de nutrientes que proporcionam energia. Estes últimos são os lipídios ou gorduras, carboidratos e proteínas. A maioria das pessoas não deveria obter mais de um terço de energia dos lipídios.

A metade da energia dietética de uma pessoa deveria ser fornecida pelos carboidratos, principalmente de alimentos como o pão, as batatas e o macarrão.

As frutas e verduras apresentam efeitos benéficos na saúde. A OMS recomenda consumir cerca de 400 gramas por dia.

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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Literatura Grega

1 INTRODUÇÃO

Grega, Literatura, literatura dos povos de língua grega do final do segundo milênio a.C. até a atualidade (ver Grécia).

Os textos do período primitivo da literatura grega são em verso. Para detalhes sobre a métrica e outros elementos da estrutura do verso planteado (ver Versificação). Para conhecer os dialetos gregos (ver Língua Grega).

2 POESIA ÉPICA

As civilizações egéia e micênica possuíam uma literatura oral composta, em sua maior parte, por canções. No segundo milênio a.C., os gregos apropriaram-se destas canções e desenvolveram a arte dos aedos (cantores de baladas). As baladas folclóricas foram a base da Poesia Épica Grega.

A épica grega atingiu seu auge com a Ilíada e a Odisséia que, acredita-se, foram escritas por Homero. Algumas teorias sugerem que estas obras devem sua autoria à uma sucessão de poetas que viveram ao longo do século IX a.C. (ver Poesia Épica).

Um grupo de poemas épicos compostos pelos Poetas Cíclicos, entre 800-550 a.C., tratam da Guerra de Tróia e da expedição dos Sete contra Tebas. Pisandro de Rodes, Paniasis de Halicarnaso e Antimaco de Colofón ou Claros estão entre os poetas épicos mais conhecidos.

O poeta Hesíodo escreveu no século VIII a.C. No século seguinte floresceram as Elegias de Calino de Éfeso, Tirteo de Esparta, Mimnermo de Colofón, Arquiloco de Paros, Sólon e Teognis de Megara. Desta época procedem as famosas Fábulas de Esopo.

Na antiga Grécia havia dois tipos principais de lírica: a pessoal e a coral. A primeira desenvolveu-se nas ilhas de Lesbos. O poeta e músico Terpandro é considerado como o primeiro poeta lírico. Anacreonte escreveu alegres poemas líricos. Depois apareceram Alceu e Safo.

No século VII a.C desenvolveu-se a lírica coral. Consta que o primeiro a cultivá-la foi Taletas, seguido por Terpandro, Estesícoro, Íbicos, Simónides de Ceos e Baquílides de Ceos. Esta manifestação poética alcançou seu apogeu nas obras de Píndaro, em meados do século V a.C.

Outro gênero que floresceu no século VI a.C. foi o Poema Filosófico, relacionado com a épica e escrito por filósofos gregos como Empédocles, Xenófanes e Parmênides. No final do século V a.C. foram escritos alguns dos primeiros textos em prosa. Os mais notáveis são atribuídos ao médico Hipócrates.

Durante o século VI a.C., desenvolveu-se o drama em Atenas (ver Teatro e arte dramática). Acredita-se que o Drama Trágico tenha sido criado no século VI a.C., pelo poeta Ésquilo. Os outros dois grandes autores trágicos foram Sófocles e Eurípedes.

Um dos maiores poetas cômicos foi Aristófanes, autor das primeiras comédias. Os principais autores da comédia intermediária foram Antífanes de Atenas e Alexis de Thruil. Pertence a Menandro o título de principal autor da comédia nova.

O primeiro historiador grego foi Heródoto, destacando-se, também, as obras dos historiadores Xenofonte e Timeo. Tucídides aparece como o primeiro grande escritor de prosa ática. A melhor prosa ática pode ser encontrada nas obras dos oradores atenienses Antifón — professor de retórica —, Lísias e Isócrates. A perfeição da oratória grega foi alcançada nas obras de Demóstenes.

Os dois principais escritores de filosofia do período ático foram Platão e Aristóteles.

Depois das conquistas de Alexandre III o Grande, no século IV a.C., a cultura grega expandiu-se por um vasto império. A mais destacada das escolas de literatura e a maior biblioteca da antigüidade localizavam-se na cidade de Alexandria, no Egito (ver Biblioteca de Alexandria).

Calímaco de Cirene foi um dos grandes poetas alexandrinos mas Teócrito é considerado o melhor. Entre seus sucessores estão Bion de Esmirna e Mosco.

A prosa mais importante do Período Helenístico foi realizada pelo médico Herófilo, pelo anatomista Erasistrato, pelos astrônomos Hiparco de Nicéia, Cláudio Ptolomeo e Aristarco de Samos e pelo matemático, astrônomo e geógrafo Eratóstenes.

Depois que os romanos conquistaram a Grécia em 146 a.C., os textos em prosa mais importantes foram os do historiador grego Políbio, do geógrafo Estrabão e de Plutarco. Galeno escreveu obras que lançaram os fundamentos da medicina moderna.

O dialeto koine (comum) é diferente do que foi empregado pelos escritores gregos clássicos e, entre seus continuadores (os aticistas), o melhor foi o satírico Luciano.

O protótipo do romance desenvolveu-se antes do século II d.C. O mundo contemporâneo conserva importantes fragmentos de Romance de Ninos, um primitivo romance grego. Os mais importantes autores de romances foram o escritor Heliodoro de Emesa, Longo, Xenofonte de Éfeso e Aquiles Tacio.

A filosofia estóica (Estoicismo) foi representada por Epicteto e Marco Aurélio Antonino; os neoplatônicos (Neoplatonismo) tiveram seu melhor representante em Plotino.

Alguns dos melhores versos deste período são epigramas anônimos contidos na Antologia Grega, compilação de poesia e prosa gregas que cobre quase dois mil anos.

Do começo do reinado de Constantino, no ano 323 d.C., até a queda do Império Bizantino em 1453, a literatura grega foi bastante influenciada por elementos latinos e orientais. A maior parte dos textos deste período são teológicos e atacam as diversas heresias cristãs. Seus autores foram Santo Atanásio, Anastásio de Antióquia e Leão de Bizâncio (século VI). Os pais capadócios — São Basílio de Cesarea, São Gregório de Nisa e São Gregório de Nacianzo — escreveram sobre teologia. No século VIII, o último dos grandes teólogos gregos, São João de Damasco, também escolheu a teologia para tema de seus escritos. Simeon Metafrastes destaca-se como editor dos Feitos dos Mártires, no qual revisava e comparava relatos anteriores da vida dos santos. Romanus Melodus e os primeiros pais da Igreja compuseram numerosos hinos, sobretudo São Gregório de Nacianzo e Cosmas de Jerusalém.

A influência eclesiástica fez com que decaísse a literatura secular. Entretanto, aparece neste período um importante poema histórico e lendário, a epopéia popular Digenes Akritas (séculos X-XI).

Também são importantes os historiadores bizantinos Procópio, o imperador Constantino VII Porfinogereta, Miguel Pselo, Anna Comnena, Georgius Pachymeres e João VI Cantacuzene. O mais significativo dos críticos bizantinos foi Fócio e, no século XII, Eustáquio de Tessalônica escreveu um comentário sobre as obras de autores clássicos. Entre os filósofos bizantinos destaca-se Georgio Gemisto Pletho.

Como resultado da ocupação dos francos, na quarta Cruzada, apareceu uma importante obra literária: A Crônica dos Morea (século XIV), um longo poema épico em versos gregos.

Creta, dominada pelos venezianos, foi o centro literário da Grécia durante os séculos XVI e XVII. Seus autores mais importantes foram Yeoryos Xortatsis e Vitsentzos Cornaros. O Sacrifício de Abraão (1635) — drama psicológico de autor desconhecido, talvez Cornaros — também deve ser citado. Nesta época foi escrito um grande número de canções populares.

A florescente escola cretense extinguiu-se quando a ilha foi conquistada pelos turcos no século XVII. No entanto, As baladas dos Cleftes sobreviveram até o século XVIII. Trata-se das canções dos combatentes gregos das montanhas que sustentaram a guerrilha contra os turcos.

Por volta do século XVIII, os sonhos de liberdade tornaram-se um objetivo concreto para o povo grego. Os patriotas e os poetas escreviam copiosamente. No plano lingüístico, Adamantios Corais, um estudioso classicista que vivia em Paris, propôs o uso de uma língua combinada que não fosse nem a antiga nem a moderna.

Alguns poetas retomaram a tradição clássica frente ao demótico. Entre eles, encontram-se Constantinos Rigas e Iacovakis Risos Nerulos. No século XIX, vários poetas continuaram esta tradição, como Alexandros Risos Rangavis. No entanto, cada vez mais, os poetas tenderam a empregar o grego demótico, sistema lingüístico com maior capacidade de expressão. Este fato gerou, durante décadas, uma forte controvérsia. Atualmente, emprega-se o grego demótico na literatura, enquanto que para a escrita técnica e científica emprega-se outra forma de grego mais clássico.

Nas primeiras décadas do século XIX, a literatura — sobretudo a poesia — foi principalmente patriótica e poetas, como Dionisios Solomós, incentivaram a nação a livrar-se do cativeiro turco. Seu admirável Hino à Liberdade (1823) tornou-se o hino nacional grego. Possivelmente, o melhor poeta da escola jônica foi Andreas Calvos.

Entre os narradores do século XIX destacam-se Emmanuel Roidis, Alexandros Papadiamandis e Aryiris Eftaliotis. Posteriores à libertação, os mais importantes são os escritores e poetas Aristotelis Valaoritis, Ioannes Papadiamandópulos (que escreveu em francês com o nome de Jean Moréas), Constandinos Hadsopulos, Miltiades Malacasir e Yeoryos Suris.

Os primeiros dramaturgos gregos importantes do século XIX, Dimetrios Vernadakis e Spiridon Vasiliadis, escreveram de maneira clássica, enquanto que os dramas realistas e satíricos de Ioannis Cambisis foram escritos na língua vernácula.

Os poetas mais populares da primeira parte do século XX foram Yeoryos Drosinis, Costis Palamais, Ánguelos Sikelianós, sendo Konstantinos Kaváfis considerado o mais importante.

No campo da prosa, o escritor grego do século XX mais conhecido é Nikos Kasantzakis. Outros que se destacaram foram Ilias Venesis, Stratis Mirivilis, Pandois Prevelakis, Cosmais Politis, Yorgos Zeotocas e I. M. Panayotopulos.

Durante e depois da II Guerra Mundial, muitos escritores refletiram, em suas obras, a influência da política, entre eles Zemos Cornarós, Vassilis Vasilicos, Stratis Tsírcas, Antonis Samarakis, Galatia Sarandi e Nestoras Matsas.

Com o fim da guerra surgiu um vigoroso grupo de poetas cujo modernismo enriquece, e dá continuidade, à antiga tradição de sentimento nostálgico: Georgios Seféris — Prêmio Nobel de Literatura em 1963 —, Yannis Ritsos e Odiseas Elitis, Prêmio Nobel em 1979.

O teatro começou a ser revalorizado a partir da década de 1950. Em contraste com as tragédias de Sikelianos e Kasantzakis, inspiradas na antigüidade e na época bizantina, as obras dos jovens escritores abordam os problemas da atualidade.


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