quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

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Os Mutanters - Divina Comedia Humana - Baixe

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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Blackberry Curve

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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

The Beatles - Abbey Road CD

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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

PIN Blackberry Messenger

me add: 21 28 B8 40

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domingo, 27 de dezembro de 2009

Blackberry papel/wall

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sábado, 26 de dezembro de 2009

Blackberry Curve Papel de Parede/Wallpaper

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sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Papel de Parede Blackberry Curve

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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Wavy Style Wallpaper


Wavy Style Wallpaper, upload feito originalmente por monya ©.

Blackberry Wallpaper

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Wallpaper Iphone Natalino



- Posted using BlogPress from my iPhone.



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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Pitbull - I Know You Want Me (Calle Ocho) (Available on ULTRA MIX 2 NOW!) OFFICIAL VIDEO

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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Susan Boyle no Britain's Got Talent

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domingo, 20 de dezembro de 2009

David After Dentist

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sábado, 19 de dezembro de 2009

JK Wedding Entrance Dance

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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Roller Babies

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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Love Unlimited - It may be winter outside (but in my heart it's spring)

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

.38 Special: Hold on Loosely








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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

ShoutCast

ShoutCast Radio Directory

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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Gillan - If You Believe me

I could believe in you
The way you left me hot and helpless
I could believe in you
The way your kisses left me hot and helpless
I could believe in you
I want you
If you believe me
I'll stay with you
But if you deceive me
I'll kill you

I feel so lonely
Since you've gone
I feel so lonely
I want you back
If you believe me
I'll never let you go
If you believe me
I'll never let you go
But if you deceive me
I'll let you go

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domingo, 13 de dezembro de 2009

siente la música


siente la música, upload feito originalmente por karmen.peris.

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sábado, 12 de dezembro de 2009

Frutas Hortaliças e Verduras

Meu Álbum de fotos no Facebook

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Dica do Dia: Som e Fúria, o Filme


Trupe teatral vive entre a realidade e a fantasia nos palcos e nos bastidores. A cada montagem de uma peça de Shakespeare, os atores trazem à tona seus dramas pessoais, sempre com muito humor. (Outros)

País: Brasil/2009
Direção: Toniko Melo, Fabrizia Pinto, Gisele Barroco, Rodrigo Meirelles e Fernando Meirelles
Com: Felipe Camargo, Andréa Beltrão e Daniel de Oliveira
Duração: 100 minutos
Classificação: 12 anos
Preço médio: até R$ 30,00

HSBC Belas Artes

R. da Consolação, 2.423 - Consolação - Centro. Telefone: 3258-4092.
Aceita os cartões Diners, MasterCard, Visa. Ingresso: R$ 8 e R$ 16 (na promoção Super Segunda, qualquer pessoa que apresentar carteira de trabalho, comprovante de autônomo ou cartão de aposentado paga R$ 4). Noitão: R$ 18.

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Dicas de maquiagem


Dicas de maquiagem, upload feito originalmente por Consultora Sacks.

Para uma boa maquiagem é indispensável o uso de um bom Blush. Ele deve ser usado nas maças do rosto de forma leve.

Ele é um ótimo aliado para deixar o rosto mais alongado ou mais arredondado e com uma aparencia mais jovial e saudável.

A boa dica para o uso do Blush: para o dia use os tons rosa claro, pessego e rosa médio. Para a noite use um tom mais escuro, terra, marrom e bronze claro.

Abaixo seguem algumas dicas para não errar no uso desta maquiagem.

Testes de cor antes de usar são muito importantes. Isso evita que você passe por problemas no trabalho ou até em uma festa.

E não esqueça da famosa frase para make ups: menos é mais. É sempre melhor pecar pela falta do que pelo excesso.

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Dica do Dia

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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Dicas de Sustentabilidade: Reciclagem no Natal

Veja Neste Blog (clique no link)

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Brazilians Cities: Sabará/MG

Sabará possui um dos mais notáveis acervos de igrejas setecentistas de Minas. Nossa Senhora do Ó, uma das mais representativas do barroco mineiro, possui influência chinesa em sua arquitetura externa e na decoração interna. Sabará tem tudo para se firmar como grande atração turística, pelos aspectos culturais, pela beleza de suas paisagens e sua arquitetura barroca. Atualmente o turista encontra na cidade, restaurantes, parques, clubes e várias opções de lojas e artesanato local.

Visitando Capela de Nossa Senhora do Ó, Matriz da Conceição, Museu do Ouro, Igreja Nossa Senhora do Carmo, Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Teatro Municipal, Chafariz do Caquende

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domingo, 6 de dezembro de 2009

São Caetano do Sul/SP.

São Caetano do Sul

Município da, situado entre o setor sul de São Paulo e os municípios industrializados de Santo André e São Bernardo do Campo.

Tem estrutura industrial altamente diversificada, mas com ênfase nos setores de mecânica, matérias plásticas e química, em função das fábricas de autopeças, que atendem às grandes montadoras automobilísticas localizadas na região. Em São Caetano do Sul tem início a Via Anchieta, rodovia que liga a cidade de São Paulo ao porto de Santos. Sua base operária é uma das mais sindicalizadas do país, acompanhando o padrão dos municípios do chamado ABC Paulista (Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul), que agora agrega também as cidades de Osasco e Diadema.

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sábado, 5 de dezembro de 2009

Prefeitura Municipal de Amparo/SP

Prefeitura Municipal de Amparo/SP.

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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Cidades Brasileiras: Serra Negra/SP.


Exibir mapa ampliado

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Itu - São Paulo - Brazil


Itu - São Paulo - Brazil, upload feito originalmente por Serlunar.

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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Ciberespaço




Com a revolução da informática, especialistas se perguntam: as novas tecnologias da informação servirão para lançar os países do Terceiro Mundo rumo ao século XXI ou, ao contrário, só farão aumentar ainda mais a distância entre nações ricas e pobres?

Por toda parte as pessoas admitem – algumas com entusiasmo, outras com grande pessimismo – que o mundo está sofrendo uma revolução radical em conseqüência das novas tecnologias de informação e de comunicação. Os computadores e as redes mundiais como a Internet se juntaram a ferramentas mais antigas – rádio, televisão e telefone – para criar um sistema mundial de comunicação que as pessoas usam para conversar, ensinar, aprender, fazer conferências, comprar e vender produtos, recebendo informações de todos os tipos. Tudo isso é, entre outras coisas, uma nova e gigantesca indústria. De acordo com o Financial Times, o setor de informação e comunicação está crescendo duas vezes mais rápido do que o resto da economia mundial. E muitos cientistas políticos reconhecem que o "poder de informação" está aos poucos se tornando tão importante nas relações internacionais quanto o poder político, militar ou econômico.
O problema é que a tecnologia da informação está sendo distribuída e utilizada de forma muito desigual. O número de linhas telefônicas nos 48 países menos desenvolvidos do mundo (a maioria na África), por exemplo, é de 1,5 milhão. Isso equivale a cerca de 1% do número de linhas nos Estados Unidos, que tem menos da metade do número de habitantes desses 48 países juntos. Nos Estados Unidos existem 600 linhas telefônicas para cada mil habitantes; em Bangladesh, são duas linhas para cada mil pessoas.
As disparidades tornam-se particularmente inquietantes quando consideramos o impacto que a tecnologia da informação tem na vida das pessoas. A telemedicina, por exemplo – que é a transmissão de informações médicas pela Internet – está crescendo cada vez mais. Mas, ironicamente, as regiões que mais precisam desse tipo de atendimento são as que menos podem utilizá-las, devido, é claro, às falhas na infra-estrutura de comunicações. Como as novas tecnologias dependem, para funcionar, das tecnologias mais antigas (é impossível passar um e-mail sem linha telefônica), essa falta de infra-estrutura nos países pobres tende a ser uma enorme dificuldade. A falta de energia elétrica, principalmente em áreas rurais, é outro empecilho para que haja uma democratização do uso das novas tecnologias. E mais: embora os computadores estejam cada vez mais baratos, eles continuam inacessíveis para bilhões de pessoas em todo o mundo que vivem em estado de extrema pobreza, com renda diária inferior a dois dólares.
Mas, apesar de tais dificuldades, é preciso ver o impacto positivo dessas tecnologias nos países mais pobres. Na África, por exemplo, a Internet se tornou nos últimos anos um meio importante de liberdade de expressão. Mesmo nos países que vivem sob ditadura, é tal o fluxo de informação que os censores estatais não têm como lidar com ele. Na área ambiental, os benefícios em várias partes do mundo também têm sido enormes. Na Indonésia, um programa de computador preparado pelo Ministério do Meio Ambiente tornou-se um meio-chave de desenvolvimento sustentável de florestas tropicais. A Internet tem sido também um poderoso instrumento na área da educação ambiental. Na home page do World Wildlife Fund, por exemplo, há à disposição dos usuários dados permanentemente atualizados sobre desmatamento, poluição, espécies em extinção e outros temas que podem ensinar crianças e jovens a cuidar melhor de nosso planeta.
Muitas organizações internacionais começam a se mobilizar para usar as novas tecnologias de informação em prol do desenvolvimento dos países mais pobres. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), por exemplo, lançou um projeto para utilização da Internet como uma ferramenta para o desenvolvimento. E, em 1995, os países participantes da Conferência de Cúpula de Copenhague sobre Desenvolvimento Social se comprometeram a traçar uma estratégia de utilização das novas tecnologias com o objetivo específico de diminuir a pobreza no mundo.

ONU EM FOCO. Rio de Janeiro, Centro de Informação das Nações Unidas, outubro de 1997, nº 50.


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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Redes Sociais: YouTube

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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Redes Sociais: Twitter

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domingo, 29 de novembro de 2009

Redes Sociais: Flickr

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sábado, 28 de novembro de 2009

Redes Sociais: Facebook

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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Psicologia Criminal

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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

E-Book:

A PSICOLOGIA DO LÍDER - Antonio Meneghetti

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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Consciência


Consciência, não há uma definição simples e consensual da consciência. Certas definições têm uma orientação tautológica (por exemplo, identificar a consciência como o estado de vigília) ou puramente descritiva (a consciência como conjunto de percepções, pensamentos ou sentimentos). Embora tenha sido o principal tema de pesquisa da psicologia durante bastante tempo, logo caiu no esquecimento para ressurgir, atualmente, como uma área em constante debate, mais especificamente no que se refere ao estudo dos estados alterados de consciência.

Ficou demonstrado que os indivíduos são responsáveis diretos por suas ações e seu comportamento. A memória e as lembranças são armazenadas de forma organizada e não ao acaso. Todo um ramo recente da psicologia, a psicologia cognitiva, estuda esses aspectos. A psicologia infantil pesquisa, em profundidade, como se percebe ou interpreta o mundo nas distintas etapas de desenvolvimento. No comportamento animal, investigam-se as diferentes características que moldaram cada espécie animal para responder de forma adaptativa ao meio. Os psicólogos de orientação humanística ressurgiram depois de um prolongado silêncio. Com o aparecimento da psicologia clínica e industrial, conferiu-se uma grande importância ao estado de consciência do indivíduo em função de seus pensamentos e de seus sentimentos cotidianos. Embora o papel da consciência, com freqüência, tenha sido relegado em favor das motivações e pulsões do subconsciente, a linha atual de investigação propõe o estudo e a compreensão da natureza dos distintos estados de consciência.

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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Psicología UDG


Psicología UDG, upload feito originalmente por Carlos Sánchez Pimienta.

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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A energia psíquica e suas metamorfoses.

Nise da Silveira

Seguindo o método de acompanhar cronologicamente, tanto quanto possível, o desenvolvimento da obra de Jung em estreita conexão com sua biografia, começaremos este texto comentando o livro Símbolos de transformação, publicado em 1912, com o título de Transformações e símbolos da libido. Foi nesse livro que Jung apresentou, pela primeira vez, seu conceito de "energia psíquica". Enquanto Freud atribui à libido significação exclusivamente sexual, Jung denomina libido a energia psíquica tomada num sentido amplo. Energia psíquica e libido são sinônimos. Libido é apetite, é instinto permanente de vida que se manifesta pela fome, sede, sexualidade, agressividade, necessidades e interesses os mais diversos. Tudo isso está compreendido no conceito de libido. A idéia junguiana de libido aproxima-se bastante da concepção de "vontade", segundo Schopenhauer. Entretanto Jung não chegou a essa formulação através dos caminhos da reflexão filosófica. Foi a ela conduzido pela observação empírica, no seu trabalho de médico psiquiatra. Será inevitável, portanto, que de novo penetremos no terreno da psiquiatria. Atento à conduta do doente, pergunta Jung: a perda do contato com a realidade, na esquizofrenia, resultaria da retração do interesse libidinal, na acepção de interesse erótico? Freud sustentava esta opinião. Jung não aceitou que o contato com a realidade fosse mantido unicamente através de "afluxos de libido", ou seja, de interesse erótico. Verificava em seus doentes não só perda do interesse sexual, mas de todos os interesses que ligam o homem ao mundo exterior. Para estar de acordo com Freud seria, portanto, necessário admitir que toda relação com o mundo era, na essência, uma relação erótica. Isto pareceu a Jung "inflação" excessiva do conceito de sexualidade. Sua posição, desde o início, foi esta. Já no prefácio do livro Psicologia da demência precoce, havia escrito: "Fazer justiça a Freud não implica, como muitos temem, submissão incondicional a um dogma; pode-se muito bem manter um julgamento independente. Se eu, por exemplo, aceito os mecanismos complexos dos sonhos e da histeria, isso não significa que atribua ao trauma sexual infantil a importância exclusiva que Freud parece conceder-lhe. Ainda menos isso significa que eu coloque a sexualidade tão predominantemente no primeiro plano ou que lhe atribua a universalidade psicológica que Freud lhe atribui, dado o papel enorme que, decerto, a sexualidade desempenha na psique". Note-se que este prefácio está datado de julho de 1906.
Daí se vê que entre Freud e Jung não existiram relações do tipo mestre-discípulo, segundo se repete tão freqüentemente. A verdade é que Jung nunca deu sua adesão total a Freud.
Quando leu uma das primeiras obras de Freud – A histeria e a interpretação dos sonhos, embora fosse ainda muito jovem, Jung apercebeu-se de que estava diante de descobertas importantíssimas. Ficou fascinado pelos dinamismos do inconsciente que se revelavam a seus olhos. E tanto na prática clínica quanto na experimentação psicológica comprovou a existência dos mecanismos descritos por Freud, mas desde logo suas interpretações nem sempre coincidiram exatamente com as interpretações do mestre de Viena. Apesar de divergências abertas ou latentes, os anos de colaboração estreita entre Freud e Jung (1907-1912) foram, sem dúvida, muito fecundos para a psicanálise. O desentendimento decisivo, porém, acabou surgindo. Foi provocado pelo conceito de libido, entendida como energia psíquica de uma maneira global, apresentado por Jung em Metamorfoses e símbolos da libido. Eis um livro extremamente denso, porém de leitura apaixonante. Seu tema é o comentário psicológico dos poemas e outros escritos de Miss Miller, um caso fronteiriço de esquizofrenia. Mas em torno deste núcleo, as idéias borbulham num verdadeiro festival de atividade criadora excedendo de longe o objetivo primeiro. As imagens poéticas de Miss Miller dão lugar a abundantes paralelos mitológicos e ao aprofundamento de suas significações, resultando daí uma tal profusão de dados que o leitor poderá talvez sentir-se como alguém perdido numa espessa floresta. Carregando tantas inovações, Metamorfoses e símbolos da libido provocou enorme celeuma e não poucos mal-entendidos. A fim de esclarecer e desenvolver seu conceito de libido, apresentado neste livro junto a várias outras idéias, Jung escreveu um trabalho à parte denominado Sobre a energia psíquica.
A energia psíquica (libido) "é a intensidade do processo psíquico, seu 'valor psicológico'". Não se trata de valor em acepção moral, estética ou intelectual. Valor tem aqui o significado de "intensidade", "que se manifesta por efeitos definidos ou 'rendimentos psíquicos'". Energia psíquica é um conceito abstrato de relações de movimento, algo inapreensível, um X, comparável (mas não idêntica) à energia física.
Jung construiu para a psicologia uma interpretação nos moldes da teoria energética das ciências físicas. Fome, sexo, agressividade seriam expressões múltiplas da energia psíquica, tal como calor, luz, eletricidade são manifestações diferentes da energia física. "Do mesmo modo que não ocorreria ao físico moderno derivar todas as forças, por exemplo, somente do calor, também o psicólogo deve preservar-se de englobar todos os instintos no conceito de sexualidade".
Jung concebe o psiquismo (consciente e inconsciente) como um sistema energético relativamente fechado, possuidor de um potencial que permanece o mesmo em quantidade através de suas múltiplas manifestações, durante toda a vida de cada indivíduo. Isso vale dizer que, se a energia psíquica abandona um de seus investimentos virá reaparecer sob outra forma. No sistema psíquico a quantidade de energia é constante, varia apenas sua distribuição. "Nenhum valor psíquico pode desaparecer sem que seja substituído por outro". Se um grande interesse por este ou aquele objeto deixa de encontrar nele oportunidade para aplicar-se, a energia que alimentava o interesse tomará outros caminhos: surgirá talvez em manifestações somáticas (palpitações, distúrbios digestivos, erupções cutâneas etc.), virá reativar conteúdos adormecidos no inconsciente, construirá enigmáticos sintomas neuróticos. Esses vários fenômenos serão a expressão de metamorfoses da mesma energia. Resumiremos, para exemplificar, um caso clínico simples, descrito por Jung em Problemas da alma moderna. Trata-se de um oficial do exército suíço, com 27 anos, que sofre de violentas dores na região precordial e no calcanhar esquerdo. Nada foi encontrado, somaticamente, que justifique esses sintomas e o doente não relaciona seu aparecimento a qualquer ocorrência especial. Interrogado sobre seus sonhos, lembra-se de um sonho recente que o impressionou pela estranheza: "eu ia andando por um campo aberto quando de repente pisei numa serpente. A serpente mordeu-me no calcanhar e senti-me como se estivesse envenenado".
Pouco antes de surgirem os sintomas, a namorada desse rapaz ficou noiva de outro. Ele reagiu tomando atitude de jactância. A moça era uma tola e ele arranjaria facilmente dez namoradas mais interessantes. Isso não tinha nenhuma importância. Entretanto, perdido o objeto exterior de investimento, reprimida, a libido vem reaparecer sob a forma de sintomas somáticos. Exprime-se através de dores na região cardíaca o que, aliás, não é nada de extraordinário, pois os poetas de todos os tempos já disseram que as penas de amor fazem doer o coração. No seu recuo, porém, a libido desceu ainda mais profundamente vindo dar vida à imagem pela qual vários mitos exprimiram certas experiências que o homem teve com a mulher através dos tempos: a mordedura da serpente. O jovem suíço encontrou-se com a serpente que Ísis colocou no caminho do grande deus Ra, para morder-lhe o calcanhar; encontrou-se com a serpente bíblica, tão estreitamente associada a Eva; encontrou-se com o princípio sedutor da mulher no seu aspecto perigoso. A libido fez-se imagem simbólica.

Fragmento de Jung vida e obra. Rio de Janeiro, José Álvaro Editor, 1974, pp. 41-49.
Nise da Silveira é psiquiatra, autora de Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro, Alhambra, 1985.

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domingo, 22 de novembro de 2009

O conceito de "diferença" na obra de Gilles Deleuze

A noção de diferença, na filosofia de Gilles Deleuze, é no mínimo uma instância problemática. Num certo sentido, ela é fundamental para a compreensão de toda a sua obra. Mas, o que é exatamente a diferença, em si mesma? Por que Deleuze afirma, de forma contundente, que a razão clássica não pode apreendê-la sem, com isso, destruir a sua natureza "rebelde e anárquica"? Antes de respondermos a tal questão, precisamos levar em consideração o fato de que, ao longo da história da filosofia, a diferença foi continuamente vista como o mais temível dos males (no mínimo, ela causava estranheza e mal-estar por sua capacidade de furtar-se a qualquer tipo de modelo ou regra preestabelecida). Ou bem a diferença era "o além celestial de um entendimento divino inacessível a nosso pensamento representativo, ou o aquém infernal, insondável para nós, de um Oceano de dessemelhança". De um modo ou de outro, a diferença encontrava-se excluída do Ser - como algo que não pertencia a sua essência. Relegada, portanto, ao campo do não-ser, por uma tradição vitoriosa no pensamento ocidental, a diferença viu-se despojada de qualquer aspecto ontológico (ou seja, despojada de uma existência plena, real). Uma vez que a diferença se apresentasse ao pensamento ou à sensação, ela era entendida como algo que alterava, subvertia e destruía o Ser. Apenas quando era submetida aos critérios da "identidade" e da "semelhança" e apenas quando tornava-se diferença entre os corpos (a diferença específica de Aristóteles), ela poderia ser assimilada pela razão - que rejeita tudo aquilo que não está compreendido em um modelo pré-determinado.

Antes de continuarmos, porém, precisamos entender como Deleuze define a própria filosofia. Neste caso, especificamente, este não é um procedimento aleatório, que tem apenas por objetivo somar tal informação ao restante de suas idéias. A compreensão de um conceito qualquer, na obra deleuziana, pressupõe a idéia de que todo pensador é, inicialmente, um criador de conceitos. "A filosofia é a arte de inventar, de criar os conceitos"- afirma o filósofo francês. Para ele, todo filósofo cria seu próprio universo conceitual a partir do seu confronto com o mundo ou, mais precisamente, com o caos subjacente a todas as coisas. É a necessidade de não se perder no próprio movimento contínuo das coisas ("nada é mais doloroso, mais angustiante do que um pensamento que escapa a si mesmo") que nos leva a produzir os conceitos. Deleuze sabe o perigo que representa para o pensamento perder-se no caos, na pura diferença, neste "oceano de dessemelhança" - que está no fundo de tudo o que existe. Daí porque é imprescindível que tenhamos regras que nos protejam, que nos impeçam de mergulhar de forma inescapável naquilo que exatamente tencionamos conhecer. Estas regras são os conceitos e é claro que esta afirmação só tem sentido porque, para Deleuze, a diferença é o principio constitutivo da natureza. Ela é primeira com relação à identidade e à semelhança e é também ela que dissolve toda determinação, toda e qualquer estabilidade num mundo que, apenas na aparência, é sólido e permanente.

Criar os conceitos ou mesmo inventá-los a partir de outros (mantendo ou não o seu significante) é a tarefa da filosofia - assim como a entende Deleuze. Não existem conceitos "a priori"; todo conceito tem uma história. Todo conceito remete sempre a um campo de problemas (sem o que, ele não teria sentido algum). Desta maneira, enquanto é pensado em termos construtivistas, o conceito pressupõe um plano que lhe dá uma existência autônoma. É o que Deleuze chama de "plano de imanência" - uma espécie de "crivo no caos", uma forma de adquirir uma consistência sem perder-se no infinito no qual o pensamento mergulha. O plano de imanência é, neste sentido, o meio fluido onde os conceitos interagem, afetando e sendo afetados por outros conceitos. "O plano é como um deserto que os conceitos povoam sem partilhar". Mas, os conceitos são as únicas regiões do plano (ainda que seja o plano que lhes garanta consistência e coerência). Para Deleuze, nenhum conceito é simples; ele é sempre uma multiplicidade. Ele sempre remete a outros conceitos. Nenhum filósofo, por mais genial que ele seja, criará um conceito do "nada". É por esta razão que podemos dizer que a diferença, na obra de Deleuze, não deve ser entendida sem levar em conta a carga de negatividade com a qual a história da filosofia sempre a envolveu. Na verdade, Deleuze empreende uma luta sem tréguas contra a própria tradição filosófica, quando tenta definir e apreender a diferença nela mesma. Não se trata de conseguir ou não conceituá-la; trata-se, isto sim, de libertá-la do jugo de uma razão que tende a desqualificar tudo aquilo que ameaça o seu perfeito equilíbrio.

Para sermos mais diretos, o conceito de diferença traz consigo uma certa "maldição": a de ter sido sempre colocado do lado do "mal", do "nefasto", do "pernicioso". Não foi Deleuze quem criou este conceito, mas foi certamente ele quem mais fez para tornar a diferença, em si mesma, pensável. Em outras palavras, ele lhe deu um sentido positivo; daí porque não podemos deixar de ligar o conceito de diferença à sua obra (assim como outros filósofos também tiveram os seus nomes associados a determinados conceitos). Mas, o que significa dizer que a diferença foi colocada do lado do "mal"? Significa dizer que, desde os tempos mais remotos, a filosofia sempre demonstrou ter uma espécie de repulsa por tudo aquilo que se modifica, uma repulsa pelo próprio tempo e pela degradação inevitável que ele acarreta nos seres. Não pode haver ciência daquilo que está em perpétua transformação - assim Platão rejeita o mundo sensível em prol de uma existência imutável (a do mundo das essências). A mudança, o rio que não pára de fluir, o movimento incessante das coisas como o próprio ser deste mundo, tudo isto deve ser ignorado pela razão, uma vez que sua natureza estritamente lógica não sabe lidar senão com a semelhança e a identidade nos seres.

Para Deleuze, a questão é exatamente poder tornar a diferença objeto do pensamento. Ao invés de colocá-la como algo negativo para o conhecimento, Deleuze (tal como Nietzsche) pretende mostrar que a diferença é o próprio princípio da natureza. Para Deleuze, primeiramente estaria o fundo indiferenciado (indeterminado), o fundo caótico - onde todas as coisas encontram-se misturadas e sem qualquer "identidade". Ao caos seguir-se-ia a ordem, sempre provisória e precária e que não deixa um só instante de sofrer a ação corrosiva e cambiante do tempo. Mas, pensar a diferença requer que a própria razão ultrapasse a si mesma, rompendo com o modelo representativo e com a sua estrutura absolutamente lógica. É preciso que, por um esforço sobre-humano, a razão deixe de ter apenas uma função recognitiva (ou seja, a função de conhecer e "re-conhecer" o mundo e as coisas que a cercam) para apreender a diferença, quer dizer, tudo aquilo que foge aos padrões até agora estabelecidos. É a diferença e não a semelhança a "lei" mais profunda da natureza ("nunca uma folha é completamente idêntica a outra" - afirma Nietzsche e reitera Deleuze). A razão até acredita poder pensar a diferença quando faz dela um puro conceito do entendimento, uma forma vazia, sem qualquer conteúdo exterior. Mas, quando a submetemos às regras da identidade e da semelhança, ou seja, quando obedecemos aos critérios rígidos do raciocínio lógico, nós terminamos por perder a natureza anárquica e subversiva da diferença em si mesma. Isto porque a diferença, nela mesma, não é algo que possa ser objeto de uma representação orgânica. Afinal, representamos sempre aquilo que percebemos, aquilo que apreendemos por intermédio de nossa sensibilidade. A diferença, em si mesma, não é objeto de nossa sensibilidade e em hipótese alguma deve ser confundida com um atributo físico. Estar quente pode ser um diferencial com relação a estar frio, mas a diferença não é ser uma coisa ou outra. A diferença, em si, é algo que só o pensamento pode intuir. Ela é uma relação, um acontecimento, um incorporal.

Os termos aqui utilizados, retirados da própria obra deleuziana, demonstram claramente a influência da filosofia estóica sobre o seu pensamento. Um "incorporal" não é algo inexistente, sem qualquer aspecto ontológico. Ele pertence à esfera do transcendental, ou seja, ainda que ele não seja um corpo (e, portanto, não pode ser representado), ele existe ou "insiste" - sendo, para Deleuze, objeto apenas de nosso pensamento. É claro que Deleuze não está negando a existência da diferença enquanto ela se apresenta nos seres, criando uma diversidade inegável. Apenas, ele considera que, uma vez que ela seja "atualizada" na matéria, ela deixa de ser diferença pura para tornar-se um atributo. A sua natureza, sendo primeira e exclusivamente virtual, não pode ser apreendida pela razão clássica - que basicamente opera com os ditames da representação e que são a identidade, a semelhança, a analogia e a oposição. Daí porque, para Deleuze, é necessário que a razão tenha um outro tipo de funcionamento, uma outra forma de apreensão do mundo. Um "neo-racionalismo" é o que propõe este filósofo que figura entre os chamados "filósofos malditos"; uma razão que ultrapasse a si mesma; um segundo e mais nobre funcionamento da razão: o do pensamento. Afinal, o pensamento está para além da razão, mesmo que lhe pertença de alguma maneira (já que não se trata de um irracionalismo). É preciso, portanto, libertar a diferença, retirá-la de sua condição de maldição para o pensamento. Somente assim será possível compreender e apreender a diferença pura - este difícil e profundo conceito deleuziano.

Regina Schöpke é graduada em Filosofia pela UERJ, mestra em História Medieval pela UFF e mestranda em Filosofia pela UFRJ. Já ministrou aulas de Filosofia na UFRJ.

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sábado, 21 de novembro de 2009

Filosofia......

Filosofia

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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

eBook: Convite a Filosofia - Marilena Chaui

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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Gilles Deleuze


Deleuze, Gilles (1925-1995), filósofo francês, nascido em Paris, autor de uma filosofia da diferença, que concebe o homem como uma “máquina desejadora”.

Gilles Deleuze tornou-se bacharel em Filosofia em 1948. A partir de 1969, passou a lecionar na faculdade de Vincennes-Saint-Denis (Paris VIII), em companhia de Michel Foucault. A carreira filosófica de Deleuze principiou com a publicação de monografias filosóficas (Hume, Nietzsche, Kant, Bergson, Spinoza). Seu propósito era fundar a crítica do pensamento na análise da história do pensamento e no confronto dos sistemas epistemológicos (ver Epistemologia). Expondo as diferenças pelo jogo da repetição de sistemas situados historicamente, Deleuze buscava uma filosofia que saísse do sistema, que não identificasse, como o idealismo hegeliano (ver Hegel), a unidade e o múltiplo, reduzindo o mesmo ao outro (Diferença e repetição, 1968).

Tratava-se de fazer uma filosofia do “eterno retorno”, reprodução de um pensamento idêntico, pelo menos conceitualmente, mas em um lugar diferente, o lugar do “intempestivo” nietzscheano. Devia chegar a ser uma filosofia do porvir, da vontade, que iria além de um pensamento do ser, do sujeito. Com Félix Guattari, Deleuze inaugurou, a partir de 1972, uma nova fase na prática do múltiplo e do intempestivo. No Anti-Édipo (1972), a psicanálise foi centro da crítica dos dois autores pois trazia a força do desejo à única instância do Édipo, eixo invariável da neurose. Ao contrário, segundo Deleuze, o desejo é “criação de vida”, motivo de invenção e de diferença, transgressão de normas.

“Produzir conceitos”, atividade filosófica por excelência (O que é filosofia, 1991), consiste em pesquisar novos meios de expressão. Deleuze tentava, então, ultrapassar o domínio puramente filosófico elaborando “máquinas” textuais que, sustentadas na literatura (Proust e os signos, 1970), ou no cinema (A imagem-movimento, 1983; A imagem-tempo, 1985), dessem conta dos homens, essas “máquinas desejadoras”. A nova filosofia iniciada por Deleuze foi, portanto, um elogio dos desejos e esteve atenta aos movimentos singulares dos corpos no espaço social — um “corpo sem órgãos” que emana de um espaço plano. “Trata-se sempre de dobrar, desdobrar e redobrar”: este é o movimento que segue o pensamento na linguagem deleuziana que, assim, pôs em questão todo modelo formal de verdade. O conceito de dobra (pli em francês), desenvolvido no livro sobre Leibniz, retoma a imagem do poema de Mallarmé (Pli selon pli) que, por sua vez, musicou o compositor Pierre Boulez.

Além das citadas, as obras principais de Gilles Deleuze são Nietzsche e a filosofia (1962), Apresentação de Sacher-Masoch (1967), A lógica do sentido (1969), Mil Platôs (com Guattari, 1980), Foucault (1986) e A dobra: Leibniz e o barroco (1988). Oprimido pela doença, Deleuze escolheu suicidar-se em 1995, aos 70 anos.

Ver também Neobarroco.

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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

III Jornada de Filosofia


III Jornada de Filosofia, upload feito originalmente por Filosofante.

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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Entrevista concedida por Ferreira Gullar a Veja às vésperas de retornar ao Brasil, após seis anos de exílio político.

Veja - Algumas pessoas comentam o fato de que o Poema Sujo modifica toda uma estrutura da nossa poesia, do ponto de vista da linguagem. Como você vê isso?
FERREIRA GULLAR - Quero que, de princípio, fique bem claro que não fiz o Poema Sujo para modificar nada. Não fiz o Poema Sujo para criar uma nova forma de poesia nem para revolucionar a poesia brasileira. Fiz o Poema Sujo para sobreviver, como em geral sempre faço poesia - no último instante. Quando não é possível fazer mais nada, faço poesia. Agora, é preciso também que seja possível fazer poesia, porque às vezes nem mesmo isso é possível.

Veja - Como você vê o desenvolvimento da literatura hoje no Brasil?
FERREIRA GULLAR - No campo da poesia, especificamente, vejo uma coisa muito positiva: o abandono de certo preconceito formalista que dominou e castrou a poesia brasileira durante mais de vinte anos, a partir do concretismo. Quer dizer, um preconceito formalista. Chegou-se a dizer que a poesia deveria ser feita segundo estruturas matemáticas...

Veja - Sobre isso você teve uma conversa com João Cabral de Melo Neto.
FERREIRA GULLAR - É. Eu estava conversando com ele, em Barcelona, em 1968, e ele me perguntou por que é que eu tinha rompido com o concretismo. Disse-lhe que foi porque o pessoal inventou que a poesia tinha que ser feita segundo estruturas matemáticas e eu achava isso uma bobagem. Aí ele me disse: Não, mas pode ser feita, sim. Por exemplo: a Educação pela Pedra’ que eu fiz é tudo dois. O ritmo é de dois em dois, os versos são dois em dois, o conjunto do poema é dois, é tudo dois. Então eu perguntei: Mas esse dois veio de onde? O que é que determinou esse dois? Não podia ser três? quatro? E ele disse que podia. Então essa estrutura matemática aí está curada. Você não pode criar uma estrutura a partir da qual nasça necessariamente a linguagem. Você pode, isso sim, criar uma estrutura e justapor a ela a linguagem, mas isso é arbitrário. A verdade da poesia é a verdade que comove. Quando Newton diz que matéria atrai matéria na razão direta das massas, isso é uma verdade científica que pode ser aferida. Agora, quando Hegel diz que o concreto é a soma de todas as determinações, isso é uma verdade filosófica que não pode ser aferida como a da ciência. Mas quando Drummond diz: como aqueles primitivos que carregam consigo o maxilar inferior dos seus mortos e eu te carrego comigo tardes de maio, não é verdade, mas é bonito demais, não é? Se você for aferir no nível da verdade, essa frase não vale nada. O que é que sustenta essa frase? É que ela comove. Esse é o conteúdo da poesia. Quando alguém quer transformar a poesia numa coisa racionalista, objetivista, dá com os burros n’água, e castra. Se você elimina do homem o direito de se comover e dizer sua emoção, você pode até adoecer as pessoas. Se numa sociedade se proibisse a expressão da emoção - e às vezes, se proíbe, não diretamente, mas pela imposição de uma censura violenta - se criaria uma enfermidade social, impedindo não só a manifestação da emoção lírica como a da revolta, do protesto.

Veja - E a censura? Há quem diga que ela já está anexada naturalmente a produção de determinada camada de intelectuais.
FERREIRA GULLAR - Se isso é verdade, é uma coisa terrível. Eu confesso que me nego a acreditar nisso. Pode ser até que seja verdade, mas simplesmente não quero acreditar. Sou radicalmente contra a censura. Agora, todos esses anos de censura rigorosa sobre as atividades artísticas e culturais no Brasil demonstraram que a intelectualidade brasileira não se rendeu. Ficou provada uma forte resistência à censura, além da grande vitalidade da nossa literatura. Tudo isso que tem saldo de livros, revistas, jornais não foi de graça, não. Representa uma luta enorme porque desde 1968, 1969, tem havido prejuízos. Mas a observação direta mostra que o pessoal resistiu apesar de tudo, e continua criando. Eu não sou ufanista, não, mas a gente tem que reconhecer que o Brasil é um país de enorme vitalidade.

Veja - O que é que você acha dessa descoberta repentina da América Latina que está havendo nas artes em geral?
FERREIRA GULLAR - Eu que vivi durante algum tempo em alguns países latino-americanos posso dizer o seguinte: o Chile tem pouco a ver com a Argentina, a Argentina pouco a ver com o Peru e os três juntos muito pouco a ver com o Brasil. Não acredito em arte internacional porque a fonte da arte é o particular. Evidentemente, quando um romancista brasileiro fala de sua experiência e da realidade brasileira, está falando da América Latina também. Mas está falando igualmente do mundo contemporâneo. Agora, se a literatura brasileira quiser fazer García Márquez, aí não dá pé, porque García Márquez é produto de uma cultura específica. Vai empobrecer muito. Mas o que acho positivo nisso tudo é que, na medida em que nós, latino-americanos, tomamos consciência da nossa realidade, que o brasileiro conheça o que é a Venezuela, a Colômbia, o Peru, o Chile... e na medida em que eles também se conheçam entre si e ao Brasil... todos conhecerão os graves, profundos e inacreditáveis problemas do continente latino-americano. A solidariedade latino-americana é um dado fundamental na solução desses problemas, mas, para que isso seja feito com autenticidade e conseqüência, é preciso que
antes cada um se conheça a si mesmo, porque, para que o argentino conheça o brasileiro, é preciso que o brasileiro fale de si mesmo e não de um brasileiro misturado com peruano, chileno, etc.

Veja - O que você pensa fazer no Brasil?
FERREIRA GULLAR - Olha, ainda não tenho idéia. O que tenho que fazer é voltar para a minha profissão. Sou jornalista e foi como jornalista que sempre ganhei a vida. Então a perspectiva é essa: procurar emprego num jornal, numa revista e ganhar minha vida.

Veja - O que é que vai mudar em sua vida quando você voltar?
FERREIRA GULLAR - Não sei, não, mas acho que vai ser uma mudança muito séria, porque, depois de quase seis anos fora, o Brasil deve ter mudado muito e, segundo me dizem, mudou mesmo - para pior. As pessoas me dizem, por exemplo, que o Rio está uma cidade insuportável, uma barulheira dos diabos, ônibus, táxis, carros, metrô, buraco pra tudo quanto é lado, que as pessoas quase não conseguem se mover. Um outro aspecto da minha saída daqui é que sempre vivi sozinho todos esses anos, exceto alguns intervalos em que minha família esteve comigo aqui e no Peru. Estou sempre em minha casa lendo, pensando, às vezes pensando até demais, falando sozinho... Vou estranhar muito essa mudança.

Veja - É curioso pensar que você está vivendo há seis anos fora do Brasil e escreveu um poema que fala tanto de suas coisas em São Luís do Maranhão.
FERREIRA GULLAR - Sim, mas na verdade, se não estivesse tanto tempo fora, jamais teria escrito esse poema. O conhecimento das diferenças e semelhanças desses países em que vivi é que deu origem ao poema. Aprendi, também, a confirmar coisas que sabia em teoria. Se falo de São Luís, estou falando da América Latina. Está aí uma resposta concreta e outra pergunta. Não preciso misturar São Luís com Santiago, nem misturar as palavras, os símbolos, os elementos culturais, geográficos ou políticos para expressar a América Latina. O problema é exatamente esse: que eu encontre a expressão universal da coisa particular. O poema nasce disso e da enorme carência que é você viver no exílio. Pelo menos eu, nesse caso, me sinto completamente
desenraizado, sinto um vazio em torno de mim...... Por exemplo: alguém vive numa cidade anos e anos, essa cidade faz parte da história dele e em todos os lugares dessa cidade, do bairro em que ele viveu, das ruas por onde ele andou, está tudo impregnado dele. O poste não é um poste. A esquina não é uma esquina, um pedaço de praia não é apenas um pedaço de praia. Está tudo impregnado da história dessa pessoa, da sua geração e da gente dela. O mundo, dessa forma, não é tão inumano e imaterial, mas sim histórico, cultural e social. Agora, quando alguém está numa cidade que não tem nada a ver com ele, um poste é só um poste, uma fachada é só uma fachada e um crepúsculo é só um crepúsculo, cósmico... é esmagador, porque não tem nada a ver com ele. É uma experiência que até enriquece, mas é uma experiência terrível porque a pessoa se defronta com uma realidade alheia a ela, que não lhe responde, e na qual ela não se reflete.

Veja - Você não tem definitivamente nenhum projeto?
FERREIRA GULLAR - Tenho alguns artigos para o Brasil e penso em juntá-los em livro, discutindo o problema da arte e da literatura. Talvez faça isso. Já escrevi dois livros sobre o assunto, Cultura Posta em Questão, em 1956, e Vanguarda e Subdesenvolvimento, em 1969, discutindo os problemas da cultura brasileira.

Veja - Você podia identificar alguns deles?
FERREIRA GULLAR - Esse é um assunto que se discute muito hoje no Brasil e é um problema que está ligado ao que se colocou anteriormente sobre a literatura latino-americana. No fundo, é tudo uma questão de busca de identidade, já que a América Latina, como continente, foi colonizada e sua cultura é um ramo da cultura européia. É certo que ela se desenvolveu, ganhou formas particulares em cada país, mas na verdade é um desdobramento da cultura européia. Durante séculos essa cultura se desenvolveu com características de dependência, mas pouco a pouco esse caráter de dependência foi se reduzindo e sobretudo a consciência do nosso caráter de dependência foi aumentando, o que é um passo para realmente se conseguir uma independência.
Esse é um problema importante ligado a um processo de libertação econômica e política. Em muitos casos, a discussão do problema cultural é exatamente reflexo dos debates em torno das questões econômicas e políticas. Quero escrever um novo livro para atualizar o meu pensamento com relação a esses problemas, porque não gostaria que certas coisas que escrevi e das quais hoje discordo continuassem a aparecer como sendo o meu pensamento, sobretudo porque, de uma maneira ou de outra, isso passa para outra pessoa e as idéias vão tomando curso. Assim, na medida em que você errou, tem obrigação de rever esses conceitos, mesmo porque isso é um trabalho coletivo de esclarecimento, de entendimento da realidade e do problema cultural, que
é uma tarefa de todos.

Veja - Que tipo de revisão você faria do problema da cultura?
FERREIRA GULLAR - É muito difícil dizer. Mas, quando releio os livros e me defronto com os problemas expostos, percebo que em alguns pontos fui estreito, esquemático e que a coisa é mais complexa. No fundamental, estou de acordo com o que disse no Vanguarda e Subdesenvolvimento. Quer dizer, estou de acordo com a idéia de que a literatura e a arte nascem da experiência particular. Então, quando se coloca o problema da cultura nacional, não é
por chauvinismo ou nacionalismo. Isso é simplesmente condição fundamental para você criar. Criar a partir da experiência vivida, particular. Você pode fazer literatura a partir da literatura, mas isso nunca será uma experiência criadora. Muitos garotos por aí fazem música a partir da música americana e inglesa. Mas que contribuição essa música está dando para a música? Não está dando nenhuma porque fazem pior que os outros, porque a fonte da experiência não
está no Brasil. Mesmo que o cara não copie simplesmente, ele já parte não de uma coisa vital, que permita a criação, mas de uma coisa já formulada. No máximo, ele dilui uma experiência que não teve. Isso, também do ponto de vista da própria atitude do cara diante da realidade, me parece uma coisa negativa. É uma condição da própria dependência cultural, é claro, mas exatamente por isso os intelectuais, os artistas têm que fazer um esforço de crítica do que é importado para varar essa camada de cultura colonizadora e chegar à sua própria realidade, para exprimi-la.

Veja - Você não acha que esse esforço de crítica de que fala estaria hoje um tanto enfraquecido?
FERREIRA GULLAR - Em princípio, arte e literatura verdadeiramente criadoras são uma coisa sempre difícil e rara em qualquer época e lugar. Muita gente faz literatura e pouca gente consegue realmente criar dentro da literatura. Há épocas, entretanto, que, por motivos mais intrincados, favorecem o aparecimento de um número maior de escritores, poetas, romancistas, músicos, etc. No Brasil, até onde percebo de longe, de alguns anos para cá, em função mesmo das condições políticas, houve certa tendência em interromper o processo de tomada de consciência da realidade brasileira. Houve certa tendência em se adotar de novo elementos e padrões de fora, como o estruturalismo, por exemplo. Isso ocorre porque certo tipo de concepção filosófica não favorece o conhecimento da realidade - pelo contrário, favorece uma alienação, uma visão alienada do processo social. O estruturalismo, por exemplo, em suas diversas manifestações, tende muito a favorecer, no campo da literatura, o formalismo, um certo elitismo literário. É curioso isso, porque certas filosofias que de vez em quando aparecem e ficam na moda durante algum tempo surgem sempre com um caráter pseudo-revolucionário, e depois, quando
você vai ver, elas terminam se acovardando e se dando muito bem com as posições reacionárias anteriores no campo da política, da arte, da literatura. Portanto, o fundamental nisso tudo é que se mantenha viva a experiência criadora, a tentativa, a paixão por dizer, por criar.

Veja - Como surgiu o Poema Sujo?
FERREIRA GULLAR - Parti da estrutura de um poema que fiz sobre o formigueiro, no início do movimento concretista. Há uma lenda em minha terra que diz que onde tem formiga tem dinheiro enterrado. Na minha casa tinha muita formiga, era aquele tipo de casa antiga, muito úmida... e, quando chovia, no pé da parede surgia aquele monte de formigas pretas, verdadeiros exércitos, um negócio que me impressionava muito. Então eu quis fazer um poema que
estivesse ligado a essa lembrança da minha infância e fiz esse poema sobre o formigueiro. De outra vez, uma noite aqui em Buenos Aires, me veio a lembrança de São Luís, minha casa, meus irmãos, o quintal e as formigas saindo da parede, e me lembrei do poema da formigas. Aí eu disse: Puxa, eu podia fazer um poema em que vomitasse tudo que tenho dentro de mim logo na primeira página e a partir dessa matéria bruta fosse desfiando todo o poema. Como já era tarde da noite, fui me deitar com aquela idéia sem sair da cabeça e no dia seguinte cedo me sentei na frente da máquina e disse: Agora vou vomitar tudo. Mas o vômito não saía porque não existe uma garganta verbal onde você meta o dedo e vomite a linguagem. Então fiquei assim meio besta, frustrado e pensando: Pombas, o grande poema da minha vida é inviável porque não consigo vomitar o meu passado. Aí fiquei andando um pouco, voltei para a máquina e comecei a escrever o princípio do poema: turvo, turvo, a turva mão do sopro contra o muro..., que era a tentativa de ir o mais longe que a minha memória podia alcançar, ali onde ainda não existe nada, é tudo impreciso, escuro, mais que escuro, claro.... E aí começa um bicho que vem sonhando...,
eu entro dentro de mim e disparo o poema. Nessa hora fiquei muito excitado e achando que alguma coisa se tinha aberto dentro de mim, que realmente eu tinha rompido alguma coisa que começava a manar lá de dentro.

Veja - O que é que desencadeou essa vontade de vomitar toda a sua vida?
FERREIRA GULLAR - Acho que isso é fruto de todos esses anos e de tanta paulada que levei. Vontade de escrever um poema brasileiro e que não fosse uma coisa pessoal apenas. Uma coisa que fosse minha gente, que fosse mais do que eu, que fosse minha vida toda, na medida em que minha vida toda é a vida de todo mundo. Sempre achei que tudo que tinha feito até então era menos do que tinha que fazer e dizer. E, claro, na medida em que você vai amadurecendo, em que você assimilou uma série de coisas, aquilo passa a fazer parte de uma estrutura dentro de você. De certo modo eu sempre buscava isso. Saber, mas saber no corpo, não na cabeça. Quer dizer, um aprendizado poético que ficasse inserido em mim como sei falar, comer, dançar. Como
uma coisa integrada em minha carne, nos meus nervos, em meu cuspe. Foi um aprendizado difícil; eu poderia ter escolhido um outro caminho por onde chegaria mais fácil e rapidamente ao que chamam por aí de forma coerente, o poeta tem a sua linguagem, essas coisas... Mas achei que tinha que me preparar como um todo, como gente para fazer poesia e não como um artesão. Por isso, quando me perguntam o que é que vou fazer amanhã, digo que não sei. A vida está me acumulando de coisas, eu vou vivendo, vou aprendendo, conhecendo e, um dia, um fato qualquer, um acontecimento ou uma idéia, precipita a junção de tudo isso e bum, se transforma em poesia.

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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Fernanda Montenegro: Entrevista concedida em 1976, durante a temporada da peça "A Mais Sólida Mansão", de Eugene O´Neill.

Veja - Você disse certa vez que não existe a profissão de artista teatral. Ainda pensa assim?
FERNANDA - Penso. Aqui no Brasil isso é verdade. Nós somos fantasmas, perpetuamo-nos de geração em geração por uma espécie de teimosia particular. Há gente que nos vê. Mas, em termos concretos, não temos uma existência no plano social. Não temos leis que nos amparem. Durante muitos anos, trabalhando como atriz, eu contribuía para o INPS como comerciária.

Veja - Mas, apesar disso, você insiste. Por quê?
FERNANDA - A gente toma corpo na medida em que se impõe, em que se exercita. Quando se chega ao primeiro plano, as pessoas descobrem o artista. Mas, antes disso, ele é um marginal.

Veja - Há 25 anos você faz teatro. Nesse quarto de século, quais foram as modificações que observou no teatro brasileiro?
FERNANDA - Vi a fase do belo pelo belo e a de total engajamento dentro de uma ideologia. Depois foi a libertação completa, a volta ao espírito tribal. Hoje, tentamos juntar essas fases todas. Acho que a década de 70 será de soma.

Veja - E, dessas fases todas, qual foi a melhor?
FERNADA - Eu não sou nostálgica. Entrei de corpo e alma no belo pelo belo. Depois veio a tomada de consciência do artista diante da sociedade em que vive. Participei, na medida em que isso é possível, de uma denúncia. Foi uma fase riquíssima. Possibilitou o aparecimento de muitos autores nacionais importantes que estão escrevendo até onde podem. Depois vieram os anos do lúdico, do telúrico. Nessa época, eu fui mais platéia que artista. Mas, para mim, foi uma época muito importante, porque comecei a ver que as coisas não são definitivas. A gente vai somando experiências. Coisas que se consideravam cristalizadas passam a ser discutidas, até desprezadas. Nos anos 60 aconteceu isso. Fomos pegos pela perna, tiraram todas nossas certezas. Mas saímos prontos para outra. Recomeçamos limpos, mais abertos. Não e um estado que gratifica o artista. Mas acho que até o fim da década de 70 surgirão coisas de grande força. Estamos dando a curva.

Veja - Então você está otimista?
FERNANDA - Falando em termos gerais, estou no Brasil, não sei. Os artistas e empresários enfrentam dificuldades inacreditáveis. Em uma fase de busca como esta, parece-me que um pouco de liberdade seria fundamental. Ou, pelo menos um abrandamento. Abrandamento é uma palavra bonita, não? Uma frestinha.

Veja - Como você se colocaria nesse período que o teatro brasileiro está atravessando?
FERNANDA - Não sei o que os outros acham. Mas sempre estive aberta para ver o que estava acontecendo. Jamais me coloquei em uma posição preconceituosa. Nunca achei que aquilo que se estava fazendo fosse uma coisa cristalizada, gravada. O grande período do artista - se é que posso me chamar de artista é que, de repente, ele surge. No Brasil, então, quando a comunidade descobre que surge um indivíduo de talento, começa a incensá-lo, bajulá-lo. E é muito comum que ele acredite que achou o caminho, a verdade, a vida. Mas a vida continua. Quando a gente chega na casa dos 40 anos, deixa de ser novidade, deixa de ser enfant gaté de sua geração. Tem que ficar mais alerta. Senão cai na nostalgia. Ah! Os anos 50 Ah! A década de 60 e assim por diante. Hoje, o que me espanta muito é ver uma série de grandes talentos fazendo televisão comercial, propaganda, ou outras coisas que nada têm a ver com teatro. Para muita gente, houve um período de grande aceitação que, depois, parou. Então há quem fique parado naquele ninho bom, onde tudo dá certo. Mas teatro é persistir. O fundamental é continuar. Cada dia é um novo dia.

Veja - Teatro então é uma questão de teimosia?
FERNANDA - Sempre foi. Uma teimosia realizada em estado de emergência.

Veja - E sempre vai ser assim?
FERNANDA - Para o nosso trabalho no teatro brasileiro, a emergência é um fenômeno característico.

Veja - Você fala muito de teatro brasileiro. Mas a maioria das peças que produz não são estrangeiras?
FERNANDA - Não. Estreei com Paulo Magalhães, que já era famoso desde a década de 80. Em 1950 fiz As Loucuras do Imperador, escrita por ele. A televisão estava começando e eu fazia programas semanais. Um dia, a Heloísa Helena, mulher de Paulo, me disse que o João Viliaret vinha de Portugal para cá, mas que, por uma questão de lei, tinha que estrear com uma peça nacionais. As Loucuras. Foi um sucesso enorme. É uma peça ruim, mas funcionava. Depois fiz A Moratória, de Jorge Andrade. Em São Paulo, fiz Rua São Luís, de Abílio Pereira de Almeida. Depois fiz A Matrona de Éfeso, de Guilherme Figueiredo, além de peças de Aluísio de Azevedo, Nélson Rodrigues e Martins Pena. Isso sem falar de Calabar, de Ruy Guerra e Chico Buarque, que, como você sabe, não chegou a ser apresentada. Tentamos, também, Um Elefante no Caos, de Millôr Fernandes, e uma peça de Nelson Xavier, que abortou antes da estréia. Como você vê, só não fiz mais peças nacionais porque não foi possível.

Veja - Como você se sente como produtora?
FERNANDA - Não sei. Acho que é porque quase sempre fui produtora. Em 1959 fiz uma sociedade com Fernando Torres, Gianni Ratto, Ítalo Rossi e Sérgio Brito. Durou até 1965. Desde 1967, Fernando e eu produzimos todos nossos espetáculos.

Veja - Produzir o espetáculo não interfere no trabalho do ator?
FERNANDA - No Brasil é a única maneira de não se morrer em termos teatrais. Não temos empresários, no sentido tradicional da palavra. As pessoas preferem investir em outras coisas. Então, se você quiser se manter fiel ao teatro, tem que assumir os riscos. E veja: são 25 anos de fidelidade. É uma experiência estranha: você tem que ter pés de chumbo e asas na cabeça. Viver nisso dilacera as entranhas. Os mais sensíveis morrem cedo, como Cacilda Becker, Gláucio Gil, Sérgio Cardoso e tantos outros.

Veja - Você parece ter conseguido manter bem esse equilíbrio.
FERNANDA - Não conheço outro processo de trabalho. Me dá segurança. Tenho, pelo menos, a visão do que pode acontecer nos próximos três ou quatro meses. Isso nos dá a liberdade de escolher textos, de chamar nossos colegas e os diretores nos quais a gente acredita os cenógrafos mais criativos, os figurantes mais seguros. A gente cria uma espécie de família de trabalho. Sem um bom relacionamento humano não se consegue fazer um bom trabalho.

Veja - E A mais Sólida Mansão de Eugene ONeili?
FERNANDA - Há certos autores que a gente tem que fazer um dia. Seis anos atrás, esta peça veio às minhas mãos. Achei que tinha um clima muito estranho. Há dois anos a reli. É uma peça que tem a coragem de ser um melodrama. De buscar uma linguagem rebuscada. Isso tudo é um desafio. Fernando e eu achamos que há muito tempo não se encena aqui um texto que tenha tanta valentia verbal.

Veja - Você acha que há uma crise de texto no Brasil?
FERNANDA - Não é só no Brasil, é no mundo. Mesmo nos países de maior inquietação criativa, como a Alemanha, as companhias estão reencenando os textos tradicionais. A gente volta a sentir a paixão pela palavra. O autor volta ao primeiro plano.

Veja - A que você atribuí esta crise de criatividade dos autores?
FERNANDA - Estamos em um período de transição. Com a queda dos valores definitivos dos anos 50 e a explosão reveladora dos anos 60, entramos como se estivéssemos saindo de uma luta.

Veja - As pessoas estão escrevendo menos bem?
FERNANDA - As peças que tenho lido representam perplexidades, estilhaços. São sempre peças sintéticas. A platéia tradicional, a que vai ao teatro, está querendo ver, ouvir e pensar.

Veja - Ou se divertir?
FERNANDA - Isso também é uma forma de diversão. O público assiste às peças mais violentas como se fossem comédias de bulevar. Oh! Que Belos Dias, de Beckett, tem seu público. Mas ele não é o mesmo de Os Amantes de Madame Vidal, ou de outros textos com preocupações menores.

Veja - Como produtora e atriz, o que você prefere fazer?
FERNANDA - Representar. Antes de mais nada, sou uma mulher de teatro. Meu papel pode não ser o principal. Se o texto é o mais importante, não estou interessada em dar um dó de peito. Eu sempre escolho um texto que possa ser sentido pela platéia. Em Volta ao Lar, de Harold Pinter, acho que só dizia umas dez frases. Mas, quando li a peça, vi que o texto era orgânico, concêntrico, insólito. Acho que foi uma das melhores coisas que já fiz como atriz. Nosso critério não é o de escolher papéis, mas procurar peças que queiram dizer alguma coisa. Fazer teatro é um destino. Há companhias que sobrevivem porque um de seus membros ganha dinheiro na televisão ou porque alguém ganhou uma herança. Meu marido e eu vivemos de teatro. Teatro foi toda nossa
vida. Isso, inclusive, acaba orientando a escolha de nosso repertório, não podemos ter critérios particulares, servir só a uma certa platéia. Alternamos autores mais severos com comédias de boa qualidade. O público é sempre o mesmo, formado por pessoas que podem pagar o preço de um ingresso teatral: uma minoria. De minha platéia, 80% compõem-se os estudantes. Isso não quer dizer nada: hoje, alguns estudantes têm 70 anos. Basta apresentar uma carteirinha, mesmo que seja a de um curso de corte e costura.

Veja - Você acha, então, que é impossível um teatro popular?
FERNANDA - Minha geração, a de 1950, tem uma grande frustração: a de não ter feito teatro popular. Não é só fazer promoção dos espetáculos na rua, é mais complexo. Mesmo que a gente divulgue o teatro nas ruas, como atingir uma platéia da zona norte do Rio, por exemplo? Ela teria que ir ao teatro de trem. É muito cansativo. Uma questão de rins.

Veja - Então não há saída?
FERNANDA - Há. Uma distribuição de teatros em zonas populares e a preços acessíveis.

Veja - Mas você não acha que esse papel social do teatro diminuiu muito com o aparecimento da televisão e de outros meios de comunicação que atingem um público mais vasto?
FERNANDA - O teatro sempre teve uma profunda responsabilidade social. Acontece que, há 2 500 anos, na Grécia, toda a população de uma cidade cabia dentro de um teatro. Hoje, isso não acontece mais. Mas acho que um texto importante, dita para 300 pessoas, em um teatro, vale mais que um programa de televisão assistido por não sei quantos milhões de pessoas. O cinema e a televisão não podem substituir o teatro, aquela coisa do verbo saindo para o ouvido. O teatro tem uma função social definitiva, embora sejamos poucos falando para poucos.

Veja - Você acha, então, que o teatro tem um papel social importante?
FERNANDA - Acho. As autoridades, parece que não. Sei que existe uma série de prioridades que precisam ser atendidas antes das culturais, como construir estradas e hospitais, por exemplo. Naturalmente, isso é imprescindível. Mas é importante compreender que uma cidade que não tem teatro não tem dignidade. Você sente isso quando vê o orgulho da população de uma cidade do interior só porque lá eles têm o seu teatro. Vou mesmo mais longe. Acho que um país que não tem um teatro forte é um país fraco. Do meu ponto de vista, teatro é uma das maiores prioridades. Mas acho que, se um médico ler isso, vai achar que estou louca.

Veja - O problema é falta de ajuda oficial?
FERNANDA - Não é só isso. Dinheiro, eles dão. Mas o essencial não é só dinheiro. É preciso haver um... abrandamento. Às vezes, restringir uma peça para os maiores de 18 anos, usando critérios arbitrários, é tão danoso quanto interditá-la. Veja só, na escola, teatro constitui uma matéria de currículo. Há cursos de adestramento teatral repletos de polêmicas muito bonitas. Mas os alunos não podem ir ao teatro. É um fato curiosíssimo: os bastidores estão cheios de crianças, pesquisando sobre teatro e fazendo perguntas sobre peças que não lhes deixam ver. Quando começam a fazer suas pesquisas, a primeira coisa que pergunto é se já viram uma peça. A maioria responde que não. Ou, então, só assistiram a peças infantis, esses horrores de gênero A Vaquinha que Miava, ou coisa que o valha. Mesmo quando o governo ajuda o teatro, há nessa ajuda uma incoerência que deveria ser... desmontada. Em suma, misturar dinheiro com um pouco mais de liberdade.

Veja - Você nunca tentou escrever para o teatro?
FERNANDA - Não. Eu sou uma atriz. É no palco que tenho de encontrar formas de dizer as coisas.

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domingo, 15 de novembro de 2009

Entrevista concedida a Veja em 2003, com o especialista americano, para quem é a riqueza fácil e não o Islã que impede a democracia no Oriente Médio

Veja — Por que a democracia é rara entre os países de maioria muçulmana?
ZAKARIA — Discordo daqueles que afirmam que o problema do Oriente é a religião muçulmana. É a mesma explicação simplista que foi dada sobre as dificuldades de democratizar a Ásia. Dizia-se que esse tipo de organização social entrava em choque com a herança cultural do confucionismo. Também se falou da impossibilidade de a América Latina se tornar liberal devido ao atraso das culturas indígenas. Isso tudo é bobagem. Max Weber, o primeiro teórico a
afirmar que a cultura antecede a democracia, acreditava que a ética protestante fora essencial para o desenvolvimento do capitalismo e, conseqüentemente, da democracia. Logo surgiram aqueles que seguiram essa linha de raciocínio para concluir que a cultura católica era incompatível com a democracia e o desenvolvimento econômico. Quem acreditaria nessa teoria hoje? Basta observar os avanços democráticos de nações católicas na Europa e até na América
Latina para chegar à conclusão de que não existem barreiras culturais ou religiosas que impeçam a democracia. É espantoso que as pessoas continuem a acreditar nessas teorias reducionistas, até que um dia percebam que as culturas se transformaram.

Veja — Como ocorre essa transformação cultural?
ZAKARIA — Com boas lideranças, com a criação de instituições democratizantes e com o desejo das nações de romper com o passado para construir um Estado moderno. Se essas ambições existirem no Iraque, por exemplo, a democracia será um passo natural. Veja o caso da Indonésia. É o mais populoso país muçulmano e é também uma democracia. Se a religião fosse um problema, seria impossível explicar o fato de a Indonésia ter se transformado em um Estado democrático. Seria igualmente difícil entender a democracia na Turquia e em Bangladesh. Ou seja, há democracias islâmicas.

Veja — Mas não há nenhuma democracia em país árabe. Por quê?
ZAKARIA — A principal barreira à democracia no mundo árabe não é o islamismo ou a cultura árabe. É o petróleo. Todos os países ricos do mundo árabe têm o petróleo como principal fonte de renda. Essa especificidade fez com que os líderes desses países nunca tenham sido forçados a modernizar a sociedade e a economia. Como bastava furar o chão para o dinheiro jorrar, não houve a necessidade de criar uma economia capitalista moderna, que exige trabalho duro. Costumo dizer que o petróleo é a maldição do mundo árabe. Pelo menos no que diz respeito à modernização econômica e política. De todos os países com petróleo, apenas um, a Noruega, é democrático.

Veja — Como o senhor explica o caso da Venezuela, que é um grande produtor petrolífero e um Estado democrático há décadas?
ZAKARIA — É um caso exemplar. A Venezuela é um país rico que, por muitos anos, manteve os melhores índices de qualidade de vida da América Latina. Mas o petróleo gerou um Estado corrupto. O governo não modernizou as instituições sociais, não criou novas fontes de renda, não desenvolveu indústrias e talentos humanos nem educou as forças de trabalho. Parecia satisfeito com o dinheiro fácil que brotava do solo. Agora, com o presidente Hugo Chávez, a Venezuela tornou-se pior do que muitas ditaduras. É uma das nações mais ricas do mundo e 70% da população vive abaixo da linha de pobreza.

Veja — O senhor escreveu que só os países com renda per capita superior a 6 000 dólares podem ser realmente democráticos. Como explicar a existência de democracias em nações com renda per capita menores, como o Brasil?
ZAKARIA — É um argumento bastante polêmico e estou sendo mal interpretado. O que escrevi em meu livro O Futuro da Liberdade é que, fazendo uma retrospectiva histórica, as nações que tiveram sucesso em sua transição democrática eram aquelas que tinham três caraterísticas básicas: legislação desenvolvida, economia de mercado não necessariamente no estilo americano, mas com produtividade e crescimento e classe média ativa. Não é por coincidência que quando esses três elementos coexistiam os países também apresentavam boa distribuição de renda. Em média, a transição democrática falhou em países cuja renda per capita era menor que 3.000 dólares. Em contraste, sempre que ocorreu em países com renda per capita acima de 6.000
dólares, a revolução democrática deu certo. Claro que a vida é muito mais complicada do que essas estatísticas. Mas é importante notar que foi a classe média que sustentou os movimentos democráticos em todos os países.

Veja — O senhor não acredita que uma revolução de massa possa resultar em democracia?
ZAKARIA — A classe média não lutou sozinha pela democracia. Mas, geralmente, foi ela que batalhou pelos contratos sociais, pela Justiça independente, pelos organismos que transformam a democracia de direito em democracia de fato. O que está na raiz do desenvolvimento das nações não é a democracia, mas a liberdade individual. Claro que existem países em que a abertura política veio de baixo ou foi imposta de cima. A Venezuela é um desses casos. E observe como está o país hoje: um sistema populista que quase não difere de uma ditadura.

Veja — Em seu último livro, o senhor afirma que a proliferação da democracia pode ser tanto uma conquista boa quanto ruim. Por quê?
ZAKARIA — Não se pode negar que democracia é uma grande conquista. Mas para atingi-la verdadeiramente é preciso mais que eleições. A democracia requer uma série de instituições e tradições que preservem e protejam a liberdade dos indivíduos e as regras da lei. São essas instituições que dão vida à democracia tal como a conhecemos no Ocidente e fazem dela muito mais que um mero concurso de beleza. Sem esses fatores, as democracias são como conchas vazias. Não têm conteúdo e não fazem o menor sentido.

Veja — Como diferenciar uma democracia verdadeira daquilo que o senhor chama de "concha vazia"?
ZAKARIA — Quando olhamos para o mundo e vemos os processos democráticos atuais, com eleições e corridas presidenciais se desenvolvendo em países sem tradições liberais, percebemos que não estamos diante de verdadeiras democracias. Estamos criando o que chamo de Estados democráticos não liberais, sistemas que não são melhores que uma ditadura. Esse é o grande problema dos tempos atuais: políticos como o presidente Hugo Chávez, da Venezuela, aprenderam a manipular o conceito de democracia. Eu sou um amigo da democracia. Como todo amigo verdadeiro, prefiro criticar os problemas a festejar as conquistas.

Veja — No Oriente Médio, o que vem primeiro: o dinheiro fácil do petróleo ou a falta de tradição democrática?
ZAKARIA — Sem dúvida há aspectos das sociedades árabes que dificultam o desenvolvimento de Estados liberais. Além da mentalidade conservadora dos líderes árabes, a região sempre foi marcada por conflitos armados e culturas tribais. Mas isso só explica parte da equação. O Japão, que também tinha uma cultura feudal, conseguiu criar uma economia capitalista e treinar os cidadãos para competir nessa nova realidade. O mesmo aconteceu na Coréia do Sul, em Taiwan e em Cingapura. Sabe por quê? Porque eles não tinham a abundância de recursos naturais que o Oriente Médio tem. Quando o dinheiro não vem fácil, o Estado precisa prover as condições básicas para a modernização econômica. No caso árabe, o petróleo traz divisas que não são repartidas entre os cidadãos. Ao contrário, gera desigualdades e péssima distribuição de renda.

Veja — O senhor propõe uma "reforma do petróleo" no Iraque. O que significa isso?
ZAKARIA — A reforma do petróleo equivaleria no Oriente Médio à reforma agrária em outros países. Afinal, o que significa a reforma agrária senão tirar da mão de uns poucos o mais importante recurso natural, que na maioria das nações é a terra? A idéia é dividi-la para que todos tenham uma fonte de renda e, dessa forma, também possam participar de uma economia de mercado. Além da questão econômica, há um importante fator social: ao ganhar um pedaço
de terra, o cidadão passa a se sentir parte da sociedade em que vive. Com o petróleo, o conceito é o mesmo: redistribuir o principal recurso do Iraque, tirando do governo e entregando ao povo.

Veja — Como isso pode ser feito?
ZAKARIA — Há várias maneiras de realizar essa reforma. Uma delas seria através da criação de um fundo nacional do petróleo. Uma espécie de órgão central teria a responsabilidade de administrar e recolher as receitas provenientes de sua extração. O fundo só poderia aplicar recursos em políticas predeterminadas pelo governo. Ou seja, em programas de educação e saúde. Essa estratégia está sendo adotada com bons resultados no Chade, um país do norte da África, desde 1995.

Veja — Como se poderia evitar o desvio desse dinheiro por funcionários e políticos corruptos?
ZAKARIA — Em países com alto grau de corrupção, esse fundo de administração do petróleo poderia realmente se tornar um problema e não uma solução. É por isso que esse órgão no Chade é independente do governo, observado por entidades internacionais e auditado anualmente por empresas privadas. No caso do Iraque, o novo governo teria de fazer o mesmo: abrir as contas públicas para que o mundo possa saber o que está sendo feito com o dinheiro. O petróleo permite essa contabilidade. Basta verificar quantos barris foram vendidos e a que preço. Depois, determinar a porcentagem desse total que será investida em programas de saúde, educação, moradia popular etc. Se o novo governo iraquiano não tiver esse grau de transparência, pode-se pensar em outra solução para a democratização do petróleo.

Veja — Qual seria essa outra estratégia?
ZAKARIA — Semelhante à que os Estados Unidos têm no Estado do Alasca. Todo o dinheiro que o governo recolhe com a venda de barris de petróleo no Estado é devolvido à população em forma de desconto em impostos. Hoje, cada morador do Alasca recebe 8.000 dólares por ano. É a sua participação nos lucros que o Estado obtém com o uso do patrimônio público. Mais uma vez, trata-se de uma reforma agrária. O dinheiro sai das mãos do governo e de poucos oligarcas e vai parar na conta corrente do cidadão. Sem intermediários. O mais interessante é que o dinheiro volta para a economia doméstica, revitalizando o comércio e a indústria.

Veja — O presidente George W. Bush afirma que a criação de uma democracia no Iraque funcionará como exemplo para o Oriente Médio. Quais as chances de que isso dê certo?
ZAKARIA — Tudo depende da forma como os Estados Unidos vão administrar o Iraque nos próximos anos. Temos de pensar em duas fases distintas. Primeiro, é preciso construir naquele país as instituições liberais que são a espinha dorsal da democracia. Depois, é necessário ajudar os iraquianos a administrar essas instituições. Só então poderemos apresentar o Iraque como um exemplo para o resto da região. Por outro lado, se os Estados Unidos resolverem voltar para casa em nove meses, por causa da eleição presidencial, não há chance alguma de que o Iraque dê certo como país.

Veja — Os exemplos de administração pós-guerra na Bósnia e no Afeganistão oferecem algumas indicações para a reconstrução no Iraque?
ZAKARIA — A primeira lição que aprendemos na Bósnia é que não podemos marcar eleições muito cedo. Na Iugoslávia, a velha ordem comunista foi rapidamente destruída, mas novas lideranças demoraram muito tempo para despontar. No momento em que o país marcou suas primeiras eleições livres, a transição para a democracia estava fadada ao fracasso. Isso porque os políticos apelaram para os votos da forma mais sensível aos eleitores: o ódio religioso. O que veio em seguida foi o recrudescimento do nacionalismo sérvio, croata e bósnio. As eleições foram vistas pelos diversos grupos étnicos e religiosos como a oportunidade para impor sua própria ordem política na Bósnia. Da mesma forma, se o processo democrático for mal conduzido no Iraque, há grande possibilidade de o caos iugoslavo se repetir no Oriente Médio.

Veja — O Iraque será uma nação dos sunitas, dos xiitas, dos curdos ou dos americanos?
ZAKARIA — O Iraque se tornará inevitavelmente um país democrático. Como os xiitas são maioria, eles deverão dominar o Parlamento e governar a nação por um bom período. Por isso temos de pensar também na criação de outras formas de representação política para contentar os demais grupos étnicos e religiosos.

Veja — E como fazer isso?
ZAKARIA — Talvez seja preciso pensar em um Estado cuja representação seja proporcional aos grupos religiosos ou numa estrutura federal descentralizada. Há muitas formas de criar uma estrutura política legítima e multifacetada.

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