segunda-feira, 30 de abril de 2007

MOTO-CONHECIMENTO - PARTE 3

Tudo como está

E quando se descobre uma coisa dessas, é como se se descobrisse um dente sem obturação. A gente nunca esquece o assunto. Põe-se a investigar, a desencavar, a revolver, a pensar sobre ele, não para distrair, mas porque ele não sai mais da cabeça. E quanto mais eu penso e remexo nesse negócio de manutenção das motos, mais irritado fica o John, o que, por sua vez, aumenta ainda mais a minha vontade de investigar o caso. Não de propósito, para aborrecê-lo, mas porque aquela irritação me parece um sinal de algo mais profundo, algo oculto, que não se percebe de imediato.
Quando se fala sobre controle de natalidade, o que faz com que a conversa esfrie não é uma questão de nascerem mais ou menos bebês. Isso é só aparente. Por baixo está um conflito de fé, um choque entre o planejamento social empírico e a fé na autoridade de Deus, revelada pelos ensinamentos da Igreja Católica. Você pode apresentar as vantagens da paternidade planejada até se acabar, que não vai adiantar nada, porque seu oponente não parte do pressuposto de que tudo o que seja prático em termos sociais é automaticamente bom. A bondade, para ele, provém de outras origens, que ele valoriza tanto quanto a conveniência social, ou até mais.
Com o John é a mesma coisa. Eu poderia provar o valor prático e a importância da manutenção das motocicletas até ficar rouco, que ele não se impressionaria. É só eu tocar nisso que seus olhos ficam vidrados e ele ou muda de assunto ou olha para o outro lado. Simplesmente não quer falar a respeito. E quanto mais tento compreender o que me faz gostar tanto de mecânica, e o que os faz odiá-la tanto, mais difícil se torna a coisa. A razão fundamental dessa diferença de opiniões, em princípio pequena, parece estar localizada num nível muito mais profundo.
Falta de capacidade deles não é. Os dois são bem inteligentes. Poderiam aprender a regular uma moto em uma hora e meia, se quisessem, e assim poupar tempo, dinheiro e preocupação. E eles sabem disso. Ou talvez não saibam, sei lá. Nunca os encosto contra a parede. É melhor deixar tudo como está.

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domingo, 29 de abril de 2007

MOTO-CONHECIMENTO - PARTE 2

Lodo correnteza abaixo

Eu gostaria mesmo era de usar o tempo que temos para falar sobre algumas coisas que me ocorreram. Andamos sempre correndo que não temos muitas oportunidades para conversar. Daí aquela eterna superficialidade do cotidiano, aquela que faz com que, anos mais tarde, se fique imaginando o que foi feito do tempo, chateados porque tudo já passou. Como temos algum tempo agora, e sabemos disso, eu gostaria de me aprofundar em aspectos que me parecem importantes.
O que tenho em mente é uma espécie de chautauqua - é o único nome que tenho para isso -, à semelhança dos espetáculos itinerantes realizados no interior de tendas, as chautauquas, que atravessavam os Estados Unidos, este mesmo país onde hoje vivemos. As chautauquas eram séries de palestras populares, muito em voga no século XIX, que visavam edificar, divertir, aprimorar o raciocínio e fornecer cultura e informação ao espectador. Com o advento do rádio, do cinema e da televisão, que são meios de comunicação mais rápidos, as chautauquas foram extintas; só que, a meu ver, a troca não foi muito vantajosa.
Talvez por causa desses progressos, a corrente da consciência nacional flui agora com maior velocidade e é mais caudalosa; entretanto, parece estar ficando cada vez menos profunda. Os velhos canais não conseguem mais contê-la e ela, na sua busca de novos caminhos, semeia a devastação e a ruína ao longo de suas margens. Nesta chautauqua eu gostaria não de eliminar os novos canais de consciência, mas simplesmente de aprofundar os canais antigos, que ficaram entupidos do lodo formado pelos escombros das idéias rançosas e dos chavões.
"Quais são as novidades?" é a eterna pergunta, interessante, abrangente; mas, se só perguntarmos isso, obteremos uma série de banalidades e modismos, o lodo do futuro. Prefiro me preocupar em perguntar: "o que é melhor?" É um questionamento mais profundo do que abrangente, cujas respostas tendem a lançar o lodo correnteza abaixo.
Houve épocas na história da humanidade em que os canais de pensamento eram muito superficiais, mas não havia remédio. Nada de novo acontecia e o "melhor" era apenas uma questão de dogma. Hoje não é mais assim. Agora, a corrente da nossa consciência comum parece estar obliterando suas próprias margens, perdendo a direção e o propósito principal, inundando baixios, isolando planaltos, sem outro objetivo senão o de realimentar-se prodigamente.

Empacando a conversa

Parece-me natural fazer uso dos pequenos estojos de ferramentas e manuais de instrução que vêm com a máquina, regulando-a e ajustando-a eu mesmo. Meu amigo John, porém, não concorda. Prefere entregar a moto a um mecânico competente. São pontos de vista bastante generalizados e essa diferença nunca teria aumentado de proporções se não viajássemos tanto juntos, parando nos bares de beira de estrada para beber cerveja e falar o que nos vem à cabeça.
Em geral, o que nos vem à cabeça é o que estivemos pensando na meia hora ou nos 45 minutos que se passaram desde a última vez que nos falamos. Quando conversamos sobre estradas, condições climáticas, gente, recordações ou notícias, a conversa se torna naturalmente agradável. Mas quando penso no desempenho da motocicleta e trago o assunto à baila, a conversa empaca, não progride mais. Ficamos quietos, interrompendo a seqüência da conversação. É como se fôssemos dois velhos amigos, um católico e outro protestante, tomando cerveja, gozando a vida e, de repente, começássemos a falar sobre o controle de natalidade. Um gelo total.

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sábado, 28 de abril de 2007

MOTO-CONHECIMENTO - PARTE 1

Um livro que nos leva confortavelmente
na garupa e que, no caminho, vai nos
revelando o mais sagrado


Em 1974, um professor de redação de Minneapolis, Estados Unidos, decidiu escrever sobre suas viagens de moto com o filho e um casal de amigos, John e Sylvia. Era o que o mundo queria: Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas virou um cult. Montado na máquina, Robert M. Pirsig volta a atenção para si mesmo e racionaliza sobre a existência humana, nos levando por estradinhas e descobrindo paisagens - as externas e as outras. Em inúmeros momentos ele nos faz pensar de maneira diferente. "Buda, a divindade, mora tão confortavelmente nos circuitos de um computador digital ou nas engrenagens de uma transmissão de motocicleta quanto no pico de uma montanha ou nas pétalas de uma flor." Como dá para perceber, não é um livro que deva ser associado à prática ortodoxa do Zen-Budismo, como está anotado logo nas primeiras páginas, mas uma investigação sobre valores. E como você vai descobrir nestes trechos do primeiro capítulo, trata-se de uma investigação sobre valores muito inspirada. Para ler sem capacete.

Pelo meu relógio, sem soltar o punho esquerdo do guidom da motocicleta, vejo que são oito e meia da manhã. O vento, embora estejamos a 90 por hora, é morno e úmido. Se às oito e meia o tempo já está assim, abafado e quente, imagine como não estará à tarde´
O vento traz um cheiro acre dos pântanos que margeiam a estrada. Estamos numa região das Planícies Centrais com milhares de charcos, onde é permitida a caça dos patos, e rumamos para noroeste, de Minneapolis para as Dakotas. Nesta rodovia antiga, de duas pistas, o movimento diminuiu bastante desde que inauguraram ao lado uma auto-estrada de quatro pistas, há vários anos. Quando passamos por um pântano, o ar refresca um pouco; depois, torna subitamente a esquentar.
É bom viajar de novo pelo interior. Esta é uma espécie de terra de ninguém, sem notoriedade alguma, e é justamente isso que atrai nela. Ao longo dessas estradas velhas, a gente se descontrai. E seguimos aos solavancos pelo concreto desnivelado, entre rabos-de-gato e trechos de campinas, mais rabos-de-gato e capim-do-brejo. De vez em quando, aparece uma certa extensão de água; se a gente olhar com atenção, consegue ver os patos selvagens, perto dos rabos-de-gato. E as tartarugas também´ Um melro de asas vermelhas!
Quando a gente passa as férias viajando de moto, vê as coisas de um jeito completamente diferente. De carro, a gente está sempre confinado e, como já estamos acostumados, nem notamos que tudo o que vemos pela janela não passa de mais um programa de televisão. Sentimo-nos como um espectador, a paisagem fica passando monotonamente na tela, fora do nosso alcance.
Já na motocicleta não há limites. Fica-se inteiramente em contato com a paisagem. A gente faz parte da cena, não fica mais só assistindo, e a sensação de estar presente é esmagadora. Aquele concreto zunindo a uns 15 centímetros da sola dos pés é real, é o chão onde se pisa, está bem ali, tão indistinto devido à velocidade que nem se pode fixar a vista nele; e, no entanto, para tocá-lo basta esticar o pé. A gente nunca se desliga daquilo que está acontecendo.

As melhores estradas

Queremos aproveitar o tempo mas, no momento, concentramo-nos mais no "aproveitar" do que no "tempo". Com essa mudança de ênfase, muda também toda a perspectiva. As estradas sinuosas e íngremes são mais longas em termos de tempo, mas bem mais agradáveis de percorrer numa moto, onde a gente se inclina nas curvas, do que de carro, onde se é jogado de um lado para outro dentro de um compartimento.
As estradas menos movimentadas, além de mais agradáveis são também mais seguras. As melhores estradas são aquelas sem drive-in nem anúncios, onde se vêem árvores, pastos, pomares e capinzais que chegam até a beira do acostamento, onde as crianças acenam quando a gente passa, onde as pessoas espiam das varandas para ver quem é, onde a gente pára para pedir uma orientação ou uma informação e a resposta geralmente é muito mais longa do que se espera, onde as pessoas perguntam de onde você está vindo e há quanto tempo está viajando.
Foi há alguns anos que minha mulher, eu e meus amigos começamos a compreender essas estradas. Entrávamos por elas de vez em quando, para variar um pouco, ou para alcançar outra via principal. Ao fazê-lo, gozávamos a paisagem magnífica e saíamos com uma sensação de relaxamento e prazer. Fizemos isso vezes sem conta, até percebermos o óbvio: essas estradas eram mesmo diferentes das principais.
A personalidade e o ritmo de vida das pessoas que ali moravam eram completamente diferentes. São seres que não têm objetivos rígidos. Não estão ocupados demais para serem gentis. Sabem tudo sobre o "aqui" e "agora". Foram os outros, os que se mudaram para a cidade anos atrás, e seus filhos perdidos, que quase se esqueceram disso tudo.
Fico pensando por que levamos tanto tempo para compreender. Víamos tudo e, no entanto, nada víamos. Ou melhor, estávamos acostumados a não ver, orientados para crer que a verdadeira atividade é a metropolitana e que tudo isso era apenas uma roça sem graça. Coisa intrigante. A verdade batendo à nossa porta e a gente respondendo: "Vá andando, estou em busca da verdade". E aí ela vai embora. Realmente incrível.
Mas, ao alcançar a compreensão, decidimos que nada nos faria deixar essas estradas, fins de semana, tardes, férias. Passamos a ser verdadeiros aficionados dos passeios de moto em estradas secundárias e descobrimos nessas viagens que havia muita coisa para aprender.
Aprendemos, por exemplo, a localizar estradas boas no mapa. Se a linha for sinuosa, é boa. Significa que há morros. Se a linha parece representar a rota principal de uma cidadezinha para uma cidade maior, a estrada não serve.
As melhores geralmente são aquelas que ligam localidades sem grande importância, variantes de uma via que corta caminho. Se você estiver saindo de uma cidade grande na direção noroeste, nunca siga a estrada durante muito tempo. Saia e comece a dar voltas, indo para o norte, depois para o leste, voltando a seguir para o norte; logo você se achará numa estrada secundária, usada apenas pelos habitantes do lugar.
Nos fins de semana prolongados viajamos horas seguidas nessas estradas, sem ver nenhum outro veículo e, ao cruzar uma rodovia federal, observamos a longa fila de carros engarrafados até a linha do horizonte; dentro dos carros, rostos carrancudos. E crianças berrando no banco traseiro. Fico querendo encontrar um jeito de lhes dizer alguma coisa, mas eles estão de cara fechada, parecem apressados e não dá´
A menos que você goste de gritar, não poderá conversar enquanto anda de moto. Em vez disso, passa o tempo tomando consciência das coisas e refletindo sobre elas: o panorama, os sons, o tempo, recordações, a moto, a região onde está. A gente pensa nas coisas com muita calma e vagar, sem pressa, sem a sensação de estar perdendo tempo.

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sexta-feira, 27 de abril de 2007

Papel de Parede (1024 x 768)

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quinta-feira, 26 de abril de 2007

Para Que Serve um "Dedão"

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quarta-feira, 25 de abril de 2007

Há 10 Anos Atrás

25.Abril.1997

Novo planeta é descoberto fora do sistema solar

Astrofísicos norte-americanos anunciam a descoberta de um planeta que gira em torno da estrela Rho Coronae Borealis, da constelação Corona Borealis, situada a 50 anos-luz do Sol. A descoberta foi divulgada num artigo publicado no Astrophysical Journal. O planeta teria o tamanho de Júpiter e é o nono a ser detectado fora do sistema solar.

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terça-feira, 24 de abril de 2007

COMO OCORRE A GAGUEIRA?

O fenômeno tem sempre implicações psicológicas, mesmo que haja também algum problema físico. Em geral, quando a criança tem cerca de três anos de idade e está aprendendo a falar, ela gagueja naturalmente. Como ainda está aprendendo a elaborar as frases para expressar seus pensamentos, muitas vezes não consegue falar tão rápido quanto pensa. "Na maioria das crianças, esse processo - chamado de disfluência normal - é apenas passageiro. Em algumas delas, porém, o problema persiste, dando origem à gagueira", afirma Carla Mieli, fonoaudióloga do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.
Não se conhece ainda nenhuma causa específica para que isso aconteça e não há gagueira absolutamente igual a outra. Muitos dos sintomas se manifestam em função do esforço excessivo do gago em evitar o problema, levando a uma fala repleta de falhas de ritmo, pausas silenciosas e frases incompletas, acompanhadas de esforço físico, com alteração na sincronização entre a respiração e a produção da fala. Distúrbios emocionais e de relacionamento familiar, como ciúme, insegurança, ansiedade, violência física ou falta de carinho e atenção dos pais também podem desencadear o processo. Além disso, costumam estar na origem do sintoma problemas físicos durante a gestação ou o parto, como falta de oxigenação do cérebro ou acidentes com lesão do tecido cerebral.

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segunda-feira, 23 de abril de 2007

Reflexões


"Ninguém se eleva, sem esforço máximo da vontade, dos campos do hábito para as regiões iluminadas da experiência. Entretanto, ninguém atinge as múltiplas regiões da experiência sem passaportes adquiridos nas agências da dor."
Emmanuel

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domingo, 22 de abril de 2007

Dias de sombra, dias de luz - Final

Diante dessa desmedida, afirmar que não se sabe o que fazer ou que se pode experimentar desejos de retaliação não significa jogar a ética na lama; significa mostrar que a malignidade de algumas circunstâncias sociais podem fazer o discernimento ético vacilar. Para alguns, isto é retórica vazia ou falta de coragem para tomar partido. Mas agir e pensar com justiça não é questão de tomar partido; é questão de experimentação sócio-moral, como sustentaram James, Dewey, Rorty; é questão de apostar, sem garantias e com riscos de frustração, na boa-vontade de nossos parceiros de vida em comum; é questão, enfim, do 'perigoso talvez', tão repetido pelo saudoso Derrida. O que fazer, então, para sanar este estado de coisas? Não há resposta fácil. Como, por exemplo, combater a secular injustiça brasileira, reforçando, ao mesmo tempo, as instituições democráticas, se dependemos, para isso, de parlamentares, que, na maioria, sequer se dão ao trabalho de ocultar do público a baixeza de seus mesquinhos interesses? Como fazer deste país um país tolerante, se os líderes intelectuais, empresariais, políticos etc, comportam-se como fanáticos encastelados em seitas ideológicas, sempre prestes a renunciar ao diálogo e à persuasão e a desqualificar com arrogância ou desdém a opinião do opositor? Como, enfim, restaurar o princípio da boa-fé atribuível, em primeira mão, ao outro, se vemos líderes políticos mentir despudoradamente ou empresários da locomotiva agrícola falando de “liberalismo”, enquanto literalmente escravizam ou deixam morrer por exaustão física seus empregados?

Não sou derrotista ou desistente. Há coisas nas quais podemos acreditar porque existem e podem ser feitas. Dou dois exemplos. O primeiro é o da conversa recente entre o ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, e três governadores recém-eleitos. O ex-prefeito foi direto ao ponto: “polícia sem cidadania e sem reforma urbana é o mesmo que nada”. E, prosseguiu, “quando era prefeito, ao invés de gastar US$ 2,2 bilhões em auto-estradas que beneficiariam 15% da população de Bogotá, decidi usar o dinheiro em transporte público, e, com o que sobrou, investir em escolas de qualidade, bibliotecas, parques, ciclovias e melhorias das calçadas. Nós demos a cidade aos pobres que não tinham como usá-la”.

Tão simples quanto isso. Por que, então, já não fizemos o óbvio? Porque, de um lado, o arcaico senhoriato empresarial-político brasileiro empenhou-se em fabricar uma caricatura dos mais pobres como um bando de desclassificados indolentes, reprodutores irresponsáveis de criaturas que não sabem como alimentar e educar, e que, por isso mesmo, não merecem viver na mesma cidade que eles; de outro, porque boa parte dos que têm poder de agir na esfera pública e criticam essa concepção indigna do povo brasileiro demitiu-se, por cansaço ou decepção, da tarefa de formar uma elite comprometida com um projeto de nação. Elite, como bem disse a ministra Marina Silva, não é sinônimo de oligarquia vampiresca. Elite são os melhores; os que pensam e agem com a consciência da responsabilidade pública que têm, em função do poder social e da autoridade moral que souberam conquistar no legítimo exercício de seus talentos e competências.

Encontramos, neste ponto, o segundo exemplo, que nos foi dado a ver pelo cineasta João Jardim, em seu belo documentário Pro dia nascer feliz. O filme trata da escolarização de adolescentes brasileiros de pequenas cidades rurais do Nordeste, da periferia das grandes cidades do Sudeste e da alta classe média paulistana. O resultado é impactante. Como seria previsível, presenciamos a trajetória de garotos que terminaram cometendo crimes e foram parar nos aviltantes centros de detenção de menores. O mais importante, contudo, é a surpresa de testemunhar o vigor do desejo de auto-realização e de justiça que anima tantos jovens brasileiros que ainda não sucumbiram á lavagem cerebral do “este país não presta”. Da humilde garota pernambucana que supera obstáculos gigantescos para concretizar suas aspirações literárias ao depoimento de duas garotas da escola paulistana, o que vemos é o desenho humano do que deveria ser uma verdadeira elite. O caso das garotas privilegiadas, em especial, é ainda mais eloqüente, pois contraria em tudo o clichê de alienação e insensibilidade colado aos jovens desse grupo social. Em uma cena, duas dessas garotas conversam, e, ao se referirem à injustiça social que lhes deu tudo, privando a maioria de quase tudo, uma delas diz: “São dois mundos separados”. Ao que a outra, com uma acuidade intelectual cirúrgica, responde: “O pior é que não são dois mundos, é um mundo só”.

Eis uma das chaves da saída: um só mundo, um só povo. Com essa simples consciência, esses brasileirinhos decentes e encantadores mostram que possuem o senso de pertencimento a uma mesma comunidade de tradições, e, portanto, são capazes de reconhecer o direito dos demais ao mesmo respeito e oportunidade que lhes foram dados. No mundo deles - se permitirmos - mortes de inocentes como João Hélio serão lembradas, apenas, como dias de sombras que antecedem os dias de luz. No mundo deles - se permitirmos - a referência do pronome “nós”, na sensível expressão de Rorty, será estendida a todos os brasileiros e a todos aqueles que elegerem nosso país como um bom lugar para se viver. Sonho de bobo alegre, dirão os cínicos. Talvez. Mas plagiando a rústica Macabéia de Clarice Lispector, sem esse sonho, viver serve pra quê?

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sábado, 21 de abril de 2007

Dias de sombra, dias de luz - Parte 1

Sem o sonho de que os tempos sombrios passarão, viver serve para quê?

Jurandir Freire Costa

Começo pelas sombras. O Brasil vive uma escalada da violência urbana desorientadora. Quando a lista de atrocidades parecia esgotar-se, aparece mais uma figura do medonho, do horror dos horrores, a morte do menino João Hélio. Será que somos uma aberração coletiva apelidada de nação? Será que somos uma civilização sem amanhã? Talvez sim, talvez não. Seja como for, para evitar o dano mais grave é preciso admitir o evidente: criamos uma sociedade inconseqüente que se vê a braços com o pior efeito da inconseqüência humana: a carnificina monstruosa, na qual crianças matam crianças, sem se dar conta da imoralidade do que estão fazendo.

O assassinato de João Hélio por um adolescente que afirmou “não saber o que significa perder um filho assassinado porque nunca teve filho” mostra a face disforme do imaginário da terra de palmeiras onde cantam sabiás. O adolescente que disse ignorar o que é a dor de perder um filho assassinado porque nunca teve filho, exibiu, sem se dar conta, sua patológica cegueira de valores. Mas, sobretudo, mostrou que nunca teve a chance de saber o que é um pai, uma mãe, um filho, enfim, o que é amar e perder um ser amado a quem se deu a vida. Ao ser privado dessa experiência afetivo-moral básica, o jovem criminoso também foi privado de conhecer a distinção entre o justificável e o injustificável. A impiedosa engrenagem da miséria triturou sua capacidade de introjetar o sentido ético do que Levinas chamou de “infinita responsabilidade pelo Outro”!

Aí, porém, reside a trágica antinomia da condição humana. Apesar de não ter controle sobre as causas que o levaram a agir como agiu, o garoto é responsável pelo que fez, a menos que o consideremos um puro espectro humanóide, o que seria incomensuravelmente mais desumanizante. Podemos, é claro, conceder-lhe o benefício da ausência de consciência plena do crime cometido; podemos olhar com clemência a dolorosa história de vida que o fez praticar o que praticou, mas não podemos isentá-lo da autoria do seu ato. Conclusão: é nosso dever ético condenar e procurar mudar, por todos os meios possíveis, regimes socioeconômicos que favoreçam a formação moral de pessoas sem consciência do que seja crueldade. Caso contrário, estaremos permanentemente expostos a um terrível impasse ético, qual seja, não saber como julgar alguém que não teve condições de dar sentido a palavras como culpa, crime e castigo.

Renato Janine Ribeiro, ao comentar o homicídio do menino João Hélio, exprimiu esse mal-estar. A fantasia de vingança contra o assassino que lhe veio ao espírito, entretanto, nem significou incitação à tortura - longe disso!-, nem neutralidade moral em relação ao Bem e ao Mal. De minha perspectiva - e pode haver outra que não seja pessoal? -, ao escrever o que escreveu, ele pensou em carne viva e revelou um aspecto recalcado de nossa cultura, o convívio promíscuo com a barbárie. Reagindo como reagiu, mostrou o barro de que todos somos feitos, e seu discurso, por isso, foi objeto de numerosas contestações. Compreendo o sentido das objeções feitas, mas não concordo com a maioria delas.

Nós, universitários ou acadêmicos, não somos anjos prudentes com uma régua de virtudes à mão, prontos para dirimir, judiciosa e incansavelmente, o que é joio e o que é trigo. Nossa tola vaidade nos faz pensar, muitas vezes, que “os outros”, os incultos ou conservadores, podem tropeçar na própria ignorância e não saber o que dizem ou dizerem “não sei”. Nós, não! Nós somos embaixadores do Iluminismo, do Humanismo ou de qualquer outro “ismo”. Por conseguinte, vir a público falar do que sentimos em momentos de comoção moral e intelectual significa confessar o pecado leigo de lesa-razão! Crime, diz-se, é com a justiça, e fora da justiça não há salvação. Porém, o que chamamos de justiça, entendida como lei ou direito instituídos, não nasce da cabeça de Zeus. Nasce de um sentimento anterior, pré-reflexivo e pré-racional, adquirido mediante experiências psicológico-morais primárias, que ao longo das vidas pessoais e da vida cultural tornam-se familiares. Acontecimentos extraordinários do ponto de vista moral podem, assim, fazer-nos hesitar quanto à propriedade e a natureza do que julgamos justo ou injusto. Nestas situações, o moralmente indecidível pode emergir, posto que a enormidade do fato ocorrido força-nos a oscilar, de modo ambivalente, entre o “impiedoso, frio e impessoal” e o “compassivo, passional ou leniente”. Esse é um dos efeitos mais nocivos da anomia cultural: suportar a dúvida de estar sendo, simultaneamente, injusto com a vítima e com o algoz. No caso de João Hélio, como decidir entre a piedade devida a cada um e a equanimidade devida a todos? O que é mais justo: pedir o endurecimento na punição do responsável pela morte de uma criança inocente brutalmente assassinada ou argumentar, em favor do adolescente assassino, que ele jamais teve condições de entender, por questões psicológico-sociais, que o direito à vida é uma prerrogativa de qualquer ser humano?

Pode-se responder: podemos ficar ao lado dos dois, escolher um lado contra o outro, ou não querer pensar no assunto, pouco importa. O fundamental é que isto é da alçada da justiça válida para todos e não do arbítrio voluntarista ou dos espasmos emocionais de um só. Em parte, é verdade. Mas qual justiça, volto a perguntar? A dos códigos e protocolos ou a da aspiração ao respeito absoluto e inegociável pela singularidade do outro? O dilema é mais difícil do que se costuma fazer crer. Como bem apontou Olgária Mattos, não por acaso, Adorno, no julgamento dos nazistas, foi levado a dizer algo mais ou menos assim: não faria o menor gesto para condená-los à morte; não faria o menor gesto para poupá-los da morte! No mesmo tom, não foi algo semelhante que levou Hannah Arendt a dizer que há crimes sem perdão, pois aqueles a quem competeria perdoar já não podem mais fazê-lo, por terem sido mortos?

Naturalmente, o infeliz garoto assassino não é um nazista. Ele é um sobrevivente social a quem foi sonegada a mais elementar possibilidade de valorizar a vida do próximo. Isso - creio e defendo - é razão suficiente para julgarmos seu crime com indulgência, mas não é motivo para recalcar o horror que podemos sentir, ao imaginar o que João Hélio sofreu e o desespero alucinadodos pais que viram o filho ser morto como foi. O gênio da língua tarda, mas não falta. Dispomos, em português, de uma palavra para designar filhos que perdem pais, qual seja, “órfão”; não dispomos de palavra alguma para nomear o que se torna um pai ou uma mãe que perde um filho. Este estado é feito de uma dor que não se inscreve na linguagem. Ele é provação extrema; é o mais escuro vazio e a mais lenta agonia; é algo que nenhuma lágrima apaga, porque é a nudez implacável da morte no coração de uma vida que gostaria de não mais ser, e, que, no entanto, é obrigada a continuar sendo.

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sexta-feira, 20 de abril de 2007

Catavento e Girassol

Meu catavento tem dentro
O que há do lado de fora do teu girassol
Entre o escancaro e o contido
Eu te pedi sustenido
E você riu bemol
Você só pensa no espaço
Eu exigi duração
Eu sou um gato de subúrbio
Você é litorânea
Quando eu respeito os sinais
Vejo você de patins
Vindo na contra-mão
Mas, quando ataco de macho
Você se faz de capacho
E não quer confusão
Nenhum dos dois se entrega
Nós não ouvimos conselho:
Eu sou você que se vai
No sumidouro do espelho.
Eu sou do Engenho de Dentro
E você vive no vento do Arpoador
Eu tenho um jeito arredio
E você é expansiva (o inseto e a flor)
Um torce pra Mia Farrow
O outro é Woody Allen...
Quando assovio uma seresta
Você dança, havaiana...
Eu vou de tênis e jeans
Encontro você demais:
Scarpin, soirée
Quando o pau quebra na esquina
Você ataca de fina
E me oferece em inglês:
É fuck you, bate-bronha
E ninguém mete o bedelho:
Você sou eu que me vou
No sumidouro do espelho.
A paz é feita no Motel
De alma lavada e passada,
Pra descobrir logo depois
Que não serviu pra nada.
Nos dias de carnaval
Aumentam os desenganos:
Você vai pra Parati
E eu pro Cacique de Ramos.
Meu catavento tem dentro
O vento escancarado do Arpoador
Teu girassol tem de fora
O escondido do Engenho de Dentro da flor
Eu sinto muita saudade
Você é contemporânea
Eu penso em tudo quanto faço
Você é tão espontânea!
Sei que um depende do outro
Só pra ser diferente
Pra se completar
Sei que um se afasta do outro
No sufoco somente pra se aproximar
Cê tem um jeito verde de ser
E eu sou mais vermelho
Mas os dois juntos se vão
No sumidouro do espelho.

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quinta-feira, 19 de abril de 2007

O Que Estou a Ler

Os grandes escritores sempre procuraram comportar-se como pessoas normais. No entanto, a maioria jamais conseguiu disfarçar certas excentricidades. Em O Ofício de Escrever (Angra), Ramón Nieto fornece pilhas de curiosidades sobre os grandes gênios da literatura. Entre as pérolas está a revelação de que Balzac adorava fantasiar-se de monge e Walter Scott ficava excitadíssimo diante de uma folha em branco. O pesquisador espanhol comete, porém, uma certa injustiça: entre os mais de 40 autores ali descritos não há um único brasileiro.

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quarta-feira, 18 de abril de 2007

Blogueiros discutem regras

O mundo dos blogs está debatendo se precisa de um código de conduta. Cansados de comentários e posts mal-educados e abusivos, alguns blogueiros influentes pensam em criar regras para manter o debate civilizado.
Tim O"Reilly, organizador de eventos de tecnologia e blogueiro, pôs uma proposta de código em seu blog e no site Wikia.com para ser discutida.
Entre as novas regras estariam a proibição a comentários abusivos, agressivos, caluniosos ou ameaçadores.
"Temos pessoas que se envolvem em um manto de livre expressão quando na verdade só estão sendo infantis", disse O'Reilly.
A proposta também pede o fim dos comentários anônimos e a proibição de conteúdo que firam os direitos autorais.
A discussão sobre o código veio após a blogueira Kathy Sierra, autora de livros sobre programação, receber ameaças de morte em sua página.

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terça-feira, 17 de abril de 2007

Amizades Diferentes

A esposa passou a noite fora de casa. Na manhã seguinte, explicou ao marido que tinha dormido na casa de uma amiga.

O marido, então, telefonou para dez amigas. Nenhuma delas confirmou.

O marido passou a noite fora de casa. Na manhã seguinte, explicou à mulher que tinha dormido na casa de um amigo.

A esposa, então, telefonou para dez amigos do marido. Sete deles confirmaram, e os três restantes, além de confirmarem, garantem que ele ainda estava lá.

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segunda-feira, 16 de abril de 2007

Musse de chocolate com frutas cristalizadas



Ingredientes:

125 g de chocolate meio amargo picado
1 gema
3 claras
frutas cristalizadas para decorar

Modo de Preparo:
Coloque o chocolate em um refratário e derreta-o em banho-maria. Acrescente a gema, misture bem e, em seguida, incorpore delicadamente as claras batidas em ponto de neve firme. Distribua em 4 taças e leve-as à geladeira por 2 horas. Antes de servir a musse, decore com frutas cristalizadas.

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domingo, 15 de abril de 2007

Entrevista concedida a Veja (22/11/1995), a Eurípedes Alcântara, no momento em que o governo americano movia processo de formação de monopólio contra

Veja - O senhor acredita que a internet pode contribuir para diminuir o fosso entre os países pobres e ricos?
GATES - O surgimento da internet é uma notícia boa para todas as pessoas em qualquer lugar do mundo. Ela permite compartilhar instantaneamente resultados de testes com novos remédios, pesquisas e ajuda tremendamente o desenvolvimento da ciência. Além disso, ela alarga as fronteiras do próprio capitalismo, dando um poder inusitado aos consumidores. Isso torna a economia dramaticamente mais eficiente. O mundo como
um todo está se beneficiando da internet. Os países em desenvolvimento que mais investiram em educação e comunicação serão os maiores beneficiados. O caso da Índia é interessante. O cidadão indiano médio não tem acesso a um sistema educacional maravilhoso, mas tem o legado britânico que privilegia a qualidade. O resultado disso é que atualmente há cerca de 1 milhão de pessoas trabalhando na indústria de software na
Índia. Graças à internet eles estão próximos dos consumidores de seus produtos. Isso tem um efeito equalizador. Por causa da internet, o salário de um criador de software na Índia, que costumava ser um décimo do que se paga nos Estados Unidos, hoje é quase equiparado ao que pagamos.

Veja - Que conselhos o senhor daria a um jovem empreendedor brasileiro?
GATES - É preciso querer fazer algo novo, inédito, grandioso. Nos Estados Unidos há a sensação agora de que qualquer coisa relacionada à internet vai gerar uma empresa da noite para o dia que logo estará com ações na bolsa, deixando seus fundadores ricos. Essa situação não vai durar. Logo vão prosperar apenas as empresas que realizarem coisas únicas e valiosas. As cópias, as imitações, não vão durar muito, em benefício do
consumidor. A internet dá muito mais poder aos consumidores do que às empresas. Obviamente, isso significa que a competição tende a aumentar e as margens de lucro, a cair neste novo ambiente de negócios. Por outro lado, é uma época fascinante para pessoas com queda para estratégia empresarial. A internet é onde todo jovem empreendedor deve estar. É o lugar certo para encontrar outras pessoas, um emprego ou para construir uma empresa. A verdadeira revolução está apenas no começo. Mas é um erro achar que a internet vai pulverizar os negócios estabelecidos e transformar o mundo num lugar onde só existam pequenas empresas. Uma das situações mais interessantes agora pode ser fazer parte de uma grande empresa que ensaia seus primeiros passos na internet. Ser o agente de mudança de uma grande empresa, ajudá-la a entender o real impacto da internet e se reinventar pode ser excitante e menos arriscado do que se aventurar de peito aberto num negócio próprio com a ilusão de que, por estar na internet, vai ser um sucesso imediato. Talvez para muitos jovens possa ser mais vantajoso aproveitar os recursos financeiros e materiais de uma grande empresa para explorar as grandes possibilidades abertas pela internet.

Veja - Como o senhor encara o processo por monopólio que o governo americano move contra a Microsoft?
GATES - Não existe liderança duradoura no mundo da tecnologia. Mesmo uma empresa dona de larga fatia do mercado por muitos anos pode rapidamente ser varrida do mapa se não desenvolver vigorosamente o produto e baixar constantemente seu preço. Portanto, se nós não desenvolvermos o Windows algum de nossos competidores vai tomar o lugar no mercado. Obviamente, queremos manter nossa posição de liderança e, por isso, investimos em pesquisa básica mais do que qualquer outro produtor de software. Mas nosso negócio não pode ser comparado aos monopólios tradicionais. Fabricar um produto líder como o Windows não é a mesma coisa que ser dono, por exemplo, de todas as minas de cobre do mundo. Nesse caso, seu poder é inabalável. Não vai aparecer da noite para o dia outra pessoa com outra montanha de cobre para competir com a sua. Com o Windows é diferente. Nosso mercado é o mais dinâmico da história do capitalismo. Por isso o fato de termos liderado o mercado por mais de vinte anos diz muito sobre nossas qualidades, mas não é uma garantia de
futuro. Temos de nos reinventar todos os dias.

Veja - Quem o senhor escolheria como o maior homem de negócios do século: Gates, Thomas Watson Jr, da IBM, ou Henry Ford?
GATES - Por mais simplista que pareça escolher um único nome, na minha opinião o empreendedor do século é, provavelmente, Alfred Sloan Jr. Ele pegou a General Motors quando a empresa não passava de um amontoado de unidades que haviam sido adquiridas desorganizadamente por seus antecessores. Sloan encarnou as melhores idéias nascentes em sua época: o senso de medida das coisas, de contato íntimo com o
consumidor, o gerenciamento de grandes organizações, a necessidade de redes de apoio financeiro. Ele criou uma organização que, pela primeira vez, entendeu como é vital ser sensível às preferências do mercado.

Veja - O senhor já doou 17 bilhões de dólares para as fundações que levam seu nome. Planeja alguma grande doação para países como o Brasil no futuro próximo?
GATES - Sim. Estou muito interessado em incentivar a pesquisa de vacinas que ajudem a debelar doenças em países não tão afortunados quanto os Estados Unidos. Essas novas vacinas podem salvar 1 milhão de vidas no mundo a cada ano. Quero incentivar a pesquisa de vacinas contra a Aids e contra a malária. Estamos contribuindo consideravelmente para uma equipe da Universidade Colúmbia que trabalha com a erradicação da mortalidade infantil em diversos partes do mundo. Eventualmente vamos investir fora dos Estados Unidos em fornecer meios de acesso à internet para pessoas que não têm como custear um provedor. Mas, por enquanto, quero manter o foco de minhas doações em atividades ligadas à saúde. Frases O medo das pessoas com
relação ao bug do milênio foi exagerado. É um erro achar que a internet vai transformar o mundo num lugar onde só existam pequenas empresas Alfred Sloan foi o maior empresário deste século. O primeiro a entender a importância de ouvir o consumidor

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sábado, 14 de abril de 2007

Entrevista concedida a Veja (22/11/1995),no momento em que o governo americano movia processo de formação de monopólio contra a Microsoft. - Parte 1

Veja - Dentro de alguns dias o computador pessoal, o PC, será a mais extraordinária máquina do século passado. A era do computador pessoal está no fim?
GATES - O motor da indústria de computadores sempre foi a reinvenção, a transformação de velhas abordagens em idéias novas. Fazemos isso desde o ano zero de criação do PC. Esperar algo mágico de uma simples virada de página do calendário, uma coisa totalmente arbitrária, é inconseqüente. Avanços revolucionários marcaram a
indústria nos anos ímpares e pares e não apenas naqueles terminados em números redondos. Independentemente dos dígitos que identificam o ano em que estamos, a internet vai continuar sua expansão fenomenal. A próxima década será muito, muito interessante e continuaria sendo tão vibrante mesmo que não estivéssemos às portas do ano 2000.

Veja - O senhor não acha que boa parte dos compradores de computadores pessoais subutilizam seus aparelhos?
GATES - Não acredito. A maioria dos usuários está se beneficiando grandemente do uso dos computadores pessoais. As possibilidades gráficas, a capacidade de armazenamento de dados, a riqueza dos programas e a conexão com a internet impulsionam a indústria de PC de um modo formidável. A maneira como o Windows
resolveu os grandes problemas de utilização dos computadores pessoais certamente será lembrada como um avanço histórico. Claro que o PC ainda exige certo domínio de operações muito complexas e há queixas e frustrações de pessoas que simplesmente não conseguem tirar da máquina tudo que gostariam. Elas têm de aprender comandos e, às vezes, são surpreendidas por inesperadas mensagens de erros. O Windows 2000 vai
eliminar um bocado dessas coisas negativas. Vamos simplificar as experiências das pessoas com o software e livrá-las dos incômodos mais comuns, como os congelamentos do computador. Não vejo motivo para pessimismo quanto ao futuro da indústria de computadores pessoais. Desculpe-me, mas essa história da chegada de uma era pós-PC, do triunfo no mercado dos aparelhos não-PC, parece-me muito mais uma
denominação criada por jornalistas do que um reflexo fiel do que está ocorrendo na realidade.

Veja - Não me parece que tudo seja apenas uma questão de nomenclatura...
GATES - Bem, eu vou continuar chamando de PC aquele aparelho de tela grande que as pessoas têm em casa e os funcionários das empresas utilizam para realizar seu trabalho. O que se está dizendo é que esses aparelhos de tela grande vão acabar? Sinceramente, não entendo o que querem dizer quando falam no fim da era do PC. O computador pessoal é o produto que sofreu as mutações mais rápidas que o mundo já viu. A
questão é se ele vai continuar mudando. A resposta é sim. Agora, se as pessoas quiserem dar um nome novo para esse aparelho, tudo bem, mas é uma distinção um tanto tola. As vendas de computadores têm aumentado bastante e temos de ter em mente que quase todas as novas idéias tecnológicas que estão surgindo exigem que as pessoas tenham PCs poderosos em casa e máquinas sólidas estáveis sustentando o tráfego nas redes. Não fica de pé a idéia de que as pessoas vão prescindir da capacidade de processamento e de armazenamento de seus computadores e usar terminais burros ligados à internet. Ocasionalmente, as pessoas vão mesmo buscar um programa na internet e utilizá-lo apenas por algum tempo, em vez de ir à loja e comprar o produto
numa caixa. A Microsoft terá um serviço assim.

Veja - O senhor acha justo dizer que está aí uma idéia que Bill Gates copiou de empresas pioneiras em vender software pela internet?
GATES - De maneira alguma. Não existem idéias novas de como utilizar a rede. Isso tudo já era sabido nos anos 70. Apenas não era economicamente viável. A internet foi crescendo e, de repente, boom!, descobrimos que tinha massa crítica suficiente para ser utilizada como canal de distribuição de programas comerciais. Tudo isso tem suas raízes no passado, no tempo em que os computadores eram tão caros que vários usuários eram
obrigados a compartilhar a mesma máquina. Por essa razão, se alguém lhe disser que inventou algo muito novo na área da ciência da computação, desconfie. Toda idéia brilhante de hoje já foi uma idéia impraticável no passado. Quando nós criamos a Microsoft, há 25 anos, as pessoas riam de nós. Todo mundo da indústria achava impraticável que as pessoas pudessem ter computadores individuais com um razoável poder de processamento. Mas os tempos são outros e o computador pessoal é apenas parte do cenário de nossas possibilidades como empresa. O PC não é a única coisa que nos move.

Veja - O senhor está dizendo que a Microsoft sobreviverá à era PC?
GATES - Lá vem você de novo com esse conceito vago. Haverá nas casas do futuro diversos aparelhos eletrônicos para fazer conexão com a internet. Mas sempre haverá nas casas e nos escritórios um aparelho principal que podem chamar do que bem entenderem, mas para mim ele será um PC. O teclado poderá ter sido abolido pelo uso das tecnologias de reconhecimento de voz e de caligrafia. Provavelmente o aparelho não terá mais aquele monitor grande e desengonçado de raios catódicos. Ele terá sido substituído por uma tela plana de cristal líquido. Mesmo o disquete deverá ter desaparecido por causa da facilidade de estocar e recuperar dados de algum site da internet. Mas aposto que essa máquina terá capacidade de processamento e vai rodar
programas poderosos como os que produzimos. Certamente não existirá, nos próximos trinta anos, uma barreira capaz de impedir o desenvolvimento dos PCs, seja ela econômica, seja tecnológica.

Veja - Para muita gente, a definição de PC é uma máquina que leva uma eternidade para começar a funcionar e apenas um átimo para congelar. O PC do futuro se livrará desses pecados originais?
GATES - Sistemas operacionais mais avançados como o Windows 2000 vão acabar com o congelamento das máquinas. Mas vamos conviver ainda uns cinco anos com os discos rígidos. São eles os responsáveis pelo tempo de inicialização de um computador. O disco precisa ser ligado e começar a girar para que o PC funcione. Não vejo nenhuma tecnologia economicamente viável de substituição do disco para uso imediato. Na verdade, as pessoas não estão muito incomodadas com isso. Os consumidores têm consistentemente escolhido comprar computadores com discos, preferindo-os aos de inicialização instantânea, que já vêm com programas pré-instalados.

Veja - O senhor costuma dizer que há sempre o perigo de que um garoto numa garagem esteja inventando algo que vai tornar a Microsoft obsoleta. O sistema operacional Linux, que é eficiente e gratuito, pode ser essa ameaça?
GATES - Não. Acho um erro desprezar qualquer concorrente, mas o Linux não ameaça justamente porque não existe apenas um Linux. O ponto mais forte do Windows foi sempre ter sido único. Hoje existem milhares de versões do sistema Linux. Todo mundo acha que pode fazer sua própria versão. Isso gera incompatibilidades que assustam os usuários. Brincar com o código-fonte de sistemas operacionais é divertido para hackers e programadores, mas não para a maioria das pessoas.

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sexta-feira, 13 de abril de 2007

Filósofo do Mês: Parmênides

Parmênides (viveu em torno de 500 a.C.), filósofo grego. Precursor do idealismo de Platão e da explicação materialista do universo de Empédocles e Demócrito. Foi o membro mais importante da escola eleática. Defendia que os fenômenos da natureza não têm entidade real. Na opinião de Parmênides, a realidade, o ser verdadeiro, somente é encontrada na razão. Sua única obra conservada é Sobre a natureza.


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quinta-feira, 12 de abril de 2007

Dica de CD



Big Hits & Remixes, Earth Wind and Fire (Sony Music) — Criado há trinta anos pelos irmãos Maurice e Verdine White, o grupo negro de Chicago criou um dos repertórios mais sacolejantes da década de 70 o que não é pouco. Relançá-los num disco de remixes versões retrabalhadas para fazer a música soar moderninha pode parecer um truque para aumentar as vendas. Não é o caso. Coordenado pelos remanescentes do Earth, Wind and Fire, este CD é diversão dançante garantida. Se você duvida disso, experimente colocar hits como Let's Groove numa festinha desanimada. Ninguém resiste.

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quarta-feira, 11 de abril de 2007

Cidades Brasileiras: Jundiaí/SP.

Cidade industrial do sudeste do Brasil, no estado de São Paulo, entre as cidades de São Paulo e Campinas. Entre os produtos de sua indústria predominam o aço, os têxteis, o vinho, os móveis, o cimento (concreto) e a cerâmica. Na área circundante são produzidos uvas, café, madeira e cereais; além disso, a cada ano se comemora na cidade o festival da uva. Nos arredores da cidade, existem minas de tungstênio. A exportação de seus produtos se realiza através do porto de Santos, no oceano Atlântico. A cidade foi fundada por volta de 1615, como lugar de pousada na época das bandeiras, e em 1655 obteve o reconhecimento como vila, com o nome de Vila de Nossa Senhora do Desterro de Jundiahy.

População (1991): 288.644 habitantes.


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terça-feira, 10 de abril de 2007

Esse é o Candidato!

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segunda-feira, 9 de abril de 2007

COMO DESCOBRIR EXTRAS SECRETOS NOS DVDS?

O controle remoto do DVD é a chave para achar cenas e outros bônus que não são indicados no menu do filme. São os "ovos de Páscoa" (ou, em inglês, Easter eggs), batizados assim porque, nessa data, as pessoas costumam esconder os doces para que as crianças os procurem pela casa. Com os "ovos" digitais é a mesma coisa: o espectador precisa brincar com os botões do controle até descobrir o atalho para esses extras - às vezes cenas hilariantes de bastidores, outras vezes nada além de créditos da produção.

Os "ovos de Páscoa" surgiram na década de 90, nos Estados Unidos. Os programadores do software Photoshop, da Adobe, resolveram colocar algumas telas escondidas no programa, que só pudessem ser encontradas pelos aficionados em computação gráfica.

O feito se tornou notícia e os ovos migraram para a indústria do entretenimento nos DVDs, eles são uma espécie de prêmio para o espectador com espírito de hacker. "Não divulgamos a existência deles no rótulo para não estragar a surpresa", diz Carolina Dias, assessora de comunicação da Columbia TriStar Pictures.

A brincadeira é muito popular entre os americanos, mas pouco conhecida no Brasil. Aqui, há ainda um problema adicional: muitos dos DVDs disponíveis nas lojas e locadoras são versões simplificadas dos originais gringos, sem todos os extras. Na internet, é possível encontrar o caminho para "ovos" de filmes famosos. Testei 15 filmes indicados nesses sites: apenas seis funcionaram. Veja abaixo como saborear esses "ovos de Páscoa".



PARA SABER MAIS

www.dvdangle.com/fun_stuff/easter_eggs/, Guia de "ovos de Páscoa" do site DVD Angle (em inglês)
www.dvdmagazine.com.br/easter_eggs/!easter_egs.htm, Guia de "ovos de Páscoa" da revista digital DVD Magazine (em português)


O mapa dos ovos


PROCURANDO NEMO

O ovo: há vários, entre eles um áudio engraçadinho como tubarão Bruce.

Como achar: vá ao item "bônus especial" do disco 1. Selecione o peixinho azul do canto esquerdo inferior (sem teclar "enter") e pressione a seta para a esquerda. Dê "enter" no peixe verde que aparecerá no lado direito da tela



CLUBE DA LUTA
O ovo: como quase tudo neste filme, o bônus secreto está lá para perturbar o espectador. Trata-se de uma mensagem escrita, em tese, pelo protagonista Tyler Durden.

Como achar: o controle remoto é inútil. A mensagem surge após as telas de advertência, antes do menu principal. Dura oito segundos. Não é possível congelar a imagem nem voltar a essa tela mais tarde. Para continuar a ler, é necessário abriro drive do DVD e fechá-lo novamente


MONSTROS S/A

O ovo: o desenho da Pixar contém vários. O melhor mostra a galera do estúdio, uns baitas marmanjos, em um concurso de aviões de papel no meio do expediente

Como achar: No segundo disco, selecione a porta "humanos" e depois a porta "Pixar". Quando a tela seguinte se abrir, pressione a seta esquerda do controle: um círculo aparecerá em volta do aviãozinho de papel. Aí é só apertar "enter"



HOMEM-ARANHA

O ovo: você pode flagrar um teste de computação gráfica que verifica imperfeições nos uniformes do aracnídeo e do Duende Verde - é impagável assistir aos dois requebrando os quadris em suas malhas justas.

Como achar: na tela "comentários" do disco 1, selecione "apresentações especiais" sem pressionar "enter". Aperte a seta paraa esquerda: uma aranha deve aparecer no canto esquerdo inferior do vídeo. Vá à aranha e tecle "enter"



CIDADÃO KANE

O ovo: nem os clássicos escaparam da onda dos "ovos de Páscoa". A obra-prima de Orson Welles contém entrevistas que não constam no menu do DVD.

Como achar: insira o disco A e selecione a opção "informações especiais". Além das opções de rotina, vai aparecer o desenho de um trenó no lado direito da tela. Clique nele



LARANJA MECÂNICA

O ovo: bem fraquinho para um filme que marcou época por sua ousadia. O extra escondido não passa de créditos da produção do DVD.
Como achar: no menu principal, selecione "idiomas". Na tela seguinte, desça o cursor até chegar à palavra "seguinte". Tecle enter, leia os créditos, volte e assista ao filme de Stanley Kubrick, que é o que realmente vale a pena neste DVD

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domingo, 8 de abril de 2007

Como os grandes sábios podem nos ajudar a viver melhor - Final

Marco Aurélio é útil para uma infinidade de situações cotidianas. Somos extraordinariamente suscetíveis à idéia da glória, e é um convite ao bom senso ouvir, a esse respeito, quem foi o dono do mundo. A arrogância, mostra ele, sustenta-se apenas na ignorância e na ilusão. "Cada um vive apenas o momento presente, breve. O mais da vida, ou já se viveu ou está na incerteza. Exíguo, pois, é o que cada um vive. Exíguo, o cantinho da terra onde vive. Exígua, até a mais longa memória na posteridade, essa mesma transmitida por uma sucessão de homúnculos morrediços, que nem a si próprio conhecem, quanto menos a alguém falecido há muito." Marco Aurélio legou à posteridade exemplos memoráveis. Descoberta uma conspiração e executado sem seu conhecimento o traidor, ele lamentou a perda da chance de perdoá-lo. Entregaram-lhe a correspondência do conspirador. Ele queimou-a sem lê-la. Sua atitude diante da discórdia é inspiradora. Estamos a toda hora brigando com alguém e sendo tomados por sentimentos de rancor e aversão. Em suas anotações, Marco Aurélio disse com majestosa sabedoria: "Sempre que você se desentender com alguém, lembre que em pouco tempo você e o outro estarão desaparecidos". Evite brigar. Evite confrontos. Não alimente rancores. Tudo isso é pregado pelos filósofos. "O homem sábio nunca tem maldade e sempre esquece as injustiças de que é vítima", escreveu Aristóteles. Você é teimoso numa discussão? Gosta de comprar briga? Pense na seguinte frase de Montaigne: "Teimar e contestar obstinadamente são defeitos peculiares às almas vulgares. Ao passo que voltar atrás, corrigir-se, abandonar uma opinião errada no ardor da discussão são qualidades raras das almas fortes e dos espíritos filosóficos".

Tão forte como o medo da morte, para a humanidade, é o pesadelo do envelhecimento. Há uma luta inútil e muitas vezes patética pela juventude eterna. Muitos filósofos se detiveram sobre o tema e se esforçaram por nos ajudar a lidar melhor com a passagem do tempo. Um deles foi Cícero (106 a.C.-43 a.C.). Cícero enumera as vantagens desprezadas da velhice. Na dedicatória, ele diz: "Senti tal prazer em escrever que esqueci os inconvenientes dessa idade; mais ainda, a velhice me pareceu repentinamente doce e harmoniosa". Cícero começa por um fato incontestável: "Todos os homens desejam alcançar a velhice, mas ao ficarem velhos se lamentam. Eis aí a conseqüência da estupidez". Depois ele toca num ponto crucial: uma vez que a sorte instável ora nos ergue e ora nos derruba, o que muda mesmo é a maneira com que cada um de nós lida com sua cota de infortúnios. Afirma Cícero: "Os velhos inteligentes, agradáveis e divertidos suportam facilmente a idade, ao passo que a acrimônia, o temperamento triste e a rabugice são deploráveis em qualquer idade".

Cícero é mordaz e divertido. Quando toca na questão da alardeada perda de memória dos anciões, ele contrapõe: "A memória declina se não a cultivamos ou se carecemos de vivacidade de espírito. Os velhos sempre se lembram daquilo que os interessa: promessas, identidade de seus credores e devedores etc.". Permanecer intelectualmente ativo é uma forte recomendação dele. Cícero lembra que, no fim da vida, Sócrates aprendeu a tocar lira. "Acaso os adolescentes deveriam lamentar a infância e depois, tendo amadurecido, chorar a adolescência? A vida segue um curso preciso e a natureza dota cada idade de suas qualidades próprias. Por isso, a fraqueza das crianças, o ímpeto dos jovens, a seriedade dos adultos, a maturidade da velhice são coisas naturais que devemos apreciar cada uma em seu tempo." Cícero acende uma luz para a humanidade ao ajudar a enxergar a velhice sob um aspecto menos negativo. Acender luzes, para nos ajudar na busca de felicidade, é a missão dos filósofos - os eternos amigos da humanidade.

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sábado, 7 de abril de 2007

Como os grandes sábios podem nos ajudar a viver melhor - Parte 3

Seja simples, portanto. E ria. Veja o caso de Heráclito (540 a.C.-470 a.C.) e Demócrito, dois grandes filósofos gregos da Antiguidade. Diante da miséria humana, Heráclito chorava. Demócrito ria. No correr dos dias nós vemos uma série infinita de absurdos e de patifarias. Alguém a quem você fez bem retribui com ódio. A inveja parece onipresente. Você tropeça e percebe a alegria mal disfarçada dos inimigos e até de amigos. (Palavras do frasista francês Rochefoucauld: sempre encontramos uma razão de alegria na desgraça de nossos amigos.) A hipocrisia é dominante. As decepções se acumulam. Até seu cachorro se mostrou menos confiável do que você imaginava. Em suma, a vida como ela é. Diante de tudo isso, as alternativas estão basicamente representadas nas atitudes opostas de Heráclito e Demócrito. Você pode chorar. Ou então você pode rir. Sêneca comparou a atitude de Heráclito e Demócrito para fazer seu ponto: ria das coisas, em vez de chorar. Séculos depois dele, Montaigne fez a mesma comparação entre os dois sábios, o sorridente e o chorão, para defender o sorriso.

Mesmo o alemão Schopenhauer (1788-1860), o filósofo do pessimismo, reconhece sabedoria na jovialidade. Em seu livro Aforismos para a Sabedoria de Vida, Schopenhauer, que viveu no século XIX, escreveu: "Acima de tudo, o que nos torna mais imediatamente felizes é a jovialidade do ânimo, pois essa boa qualidade recompensa a si mesma de modo instantâneo. Nada pode substituir tão perfeitamente qualquer outro bem quanto essa qualidade, enquanto ela mesma não é substituível por nada".

Tudo isso demanda perseverança. Paciência. Suor. Muito suor. "A virtude é uma arte obtida com o treinamento e o hábito", escreveu Aristóteles (384 a.C.-323 a.C.), que com Sócrates e Platão formou a santíssima trindade do pensamento grego. "Nós somos aquilo que fazemos repetidas vezes. A virtude, então, não é um ato, mas um hábito." Treinar. Perseverar. O grego Demóstenes (384 a.C.-322 a.C.), que disputa com o romano Cícero o título de maior orador da Antiguidade, é um exemplo formidável do poder do esforço pregado por Aristóteles. Foi graças ao treinamento persistente que Demóstenes se elevou à imortalidade como um símbolo da força das palavras. Demóstenes, natural de Atenas, era de uma família rica. Seu pai morreu quando ele tinha 8 anos. A herança foi torrada por seus tutores. Demóstenes, quando era garoto, assistiu a um julgamento no qual um orador chamado Calistrato teve um desempenho brilhante e, com sua eloqüência, mudou um veredicto que parecia selado. (Orador era uma espécie de advogado de hoje.)

Esse episódio foi assim narrado por um historiador: "Demóstenes invejou a glória de Calistrato ao ver a multidão escoltá-lo e felicitá-lo, mas ficou ainda mais impressionado com o poder da palavra, que parecia capaz de levar tudo de vencida". Ele entrou numa escola de oratória. Assim que pôde, processou seus tutores. Ganhou a causa. Mas estava ainda longe de ser notável. Um dia, desanimado, desabafou com um amigo ator. Gente bem menos preparada que ele provocava melhor impressão nas pessoas. O amigo pediu-lhe que recitasse um trecho de Eurípedes ou de Sófocles, dois gigantes do teatro grego. Demóstenes recitou. Em seguida, o amigo leu o mesmo trecho, com o tom dramático de um ator. Era a mesma coisa, e ao mesmo tempo era tudo inteiramente diferente. Demóstenes montou então uma sala subterrânea na qual se enfiava todo dia por demoradas horas para treinar, treinar e ainda treinar. Chegava a raspar um dos lados da cabeça para não poder sair de casa e, assim, praticar sem parar. Para aperfeiçoar a dicção, Demóstenes punha pequenas pedras na boca enquanto falava. Fazia também parte de seu treinamento declamar em plena corrida. Olhava-se num grande espelho para ver se sua expressão causava impacto. Treinamento. Hábito. As recomendações de Aristóteles fizeram de Demóstenes um dos maiores oradores da História da Humanidade. s

Outra etapa crucial para a vida feliz, e nisso concordam todas as escolas filosóficas, é lidar bem com a idéia da morte. Montaigne disse que quando queria lidar com o medo da morte recorria a Sêneca. Não por acaso. Ninguém se deteve de forma tão profunda e brilhante sobre a maior das aflições humanas: o medo da morte. Sêneca, numa carta a um discípulo, escreveu uma frase célebre: "E por mais que te espantes, aprender a viver não é mais que aprender a morrer". Sêneca pregava o desprezo pela morte. Não por morbidez ou por pessimismo. É que quem despreza a morte vive, paradoxalmente, melhor. Sobre sua alma não pesa o terror supremo da humanidade: o fim da vida. "Parece inacreditável, mas muita gente morre do medo de morrer", escreveu Sêneca. "Imagine que cada dia vai ser o último, e assim você aceitará com gratidão aquilo que não mais esperava", disse outro sábio da Antiguidade.

Pensar na morte, regularmente, é a primeira e maior recomendação de Sêneca. Os romanos tinham o seguinte provérbio: "Memento mori". Que quer dizer: lembre-se de que vai morrer. Não há como escapar. E no entanto nos atormentamos o tempo todo por algo que com certeza, um dia, se realizará. Esse tormento contínuo nos impede de viver bem. Outro romano, Lucrécio (c. 98 a.C.-55 a.C.), escreveu: "Onde a morte está, não estou. Onde estou, a morte não está". Encontramos uma maneira similar de lidar com a morte nas filosofias orientais. O asceta Milarepa, uma das maiores figuras do budismo, vivia perto de um cemitério para jamais esquecer que um dia iria morrer. "O remédio do homem vulgar consiste em não pensar na morte", escreveu Montaigne. "Isso é uma demonstração de cegueira e de estupidez." Fato: quanto menos pensamos na morte, mais somos assombrados por ela.

Sêneca evocou com freqüência a bravura de personalidades históricas diante da morte. Sócrates, perante a perspectiva de tomar cicuta, manteve a calma e o humor. Consolou os discípulos em vez de ser consolado, episódio que Platão, o maior deles, registrou em sua obra-prima, Fédon. "Chegou a hora de partir, vocês para a vida, eu para a morte", disse Sócrates na hora da execução de sua sentença, segundo Platão. "Qual dos dois destinos é melhor, ninguém sabe." Sêneca mostrou a mesma bravura das pessoas que tanto citou. Acusado de conspiração, recebeu do tirano romano Nero, de quem tinha sido preceptor, a sentença de se matar. Na perpétua instabilidade da sorte, Sêneca passara de homem forte do reinado de Nero (antes que este ficasse louco) a renegado. Como Sócrates, confortou os amigos e familiares que o cercavam desesperados no momento derradeiro. Cortou os punhos e se deixou levar serenamente

Pensar na morte, para tirar dela o poder aterrorizador, também era recomendado por Marco Aurélio, que comandou o mundo no último grande momento de Roma. Marco Aurélio foi um imperador filósofo, como sonhava Platão. Como imperador, nos primórdios da Era Cristã, Marco Aurélio conduziu uma Roma já ameaçada pelos bárbaros a um derradeiro período dourado. Como filósofo, escreveu, em geral em acampamentos de guerra, reflexões para si próprio, frases curtas e profundas que giravam sobre a efemeridade da glória e da vida. Um discípulo, depois da morte de Marco Aurélio, juntou-as num livro ao qual deu o nome de Meditações. O pensador francês Ernest Renan (1823-1892) disse que os seres humanos estariam sempre de luto por Marco Aurélio. Sugestão do imperador filósofo para o começo de cada dia: "Previna a si mesmo ao amanhecer: vou encontrar um intrometido, um mal-agradecido, um insolente, um astucioso, um invejoso, um avaro".

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sexta-feira, 6 de abril de 2007

Como os grandes sábios podem nos ajudar a viver melhor - Parte 2

Não sobrou livro nenhum de Zenão. Atribuem-se a ele frases das quais uma das melhores diz: "A natureza nos deu dois ouvidos e apenas uma boca para que ouvíssemos mais e falássemos menos". Zenão se matou aos 72 anos. Para os estóicos, o suicídio - sem lamúrias, sem queixas - era uma retirada digna e honrosa quando a pessoa já não encontrasse razões para viver. Sabe-se de sua morte pelo biógrafo Diógenes Laércio (200 d.C.-250 d.C.), autor de Vida dos Filósofos. Zenão tropeçou e se machucou, segundo Diógenes Laércio. Em seguida, citou um verso de um autor grego chamado Timóteo: "Eis-me aqui: por que me chamas?". E depois se enforcou.

Aceitar as coisas como elas são: eis um ponto crucial para a vida feliz de acordo com todas as escolas filosóficas. Sobre isso tratou com profundidade Epiteto (c. 55 d.C.-c.135 d.C.). Nascido escravo e só liberto depois de adulto, Epiteto não escreveu um único livro. Seu pensamento é conhecido graças a um discípulo, o historiador Arriamo. Arriamo teve o cuidado de anotar as idéias de seu mestre e depois transformá-las em dois livros, Entretenimentos e Manual. Seu tamanho intelectual é tal que o imperador filósofo Marco Aurélio escreveu que um dos acontecimentos capitais de sua vida foi ter tido acesso às obras de Epiteto. Revoltar-se contra os fatos não altera os fatos, disse Epiteto, e ainda traz uma dose de tormento desnecessária. "Não se deve pedir que os acontecimentos ocorram como você quer, mas deve-se querê-los como ocorrem: assim sua vida será feliz", disse Epiteto. (Séculos depois, o pensador francês Descartes (1596-1650) escreveria uma frase semelhante: "É mais fácil mudar seus desejos do que mudar a ordem do mundo".) Não adianta se agastar contra as circunstâncias: elas não se importam. Isso se vê nas pequenas coisas da vida. Você está no meio de um congestionamento? Exasperar-se não vai dissolver os carros à sua frente. Desfrute música boa. Caiu uma chuva na hora em que você ia jogar tênis com seu amigo? Xingar as nuvens não vai secar o piso. Que tal uma sessão de cinema emvez do tênis?

Outro ensinamento crucial de Epiteto é que só devemos nos ocupar efetivamente daquilo que está sob nosso controle. Você cruza uma manhã com seu chefe no elevador e ele é efusivo. Você ganha o dia. Você o encontra de novo e ele é frio. Você fica arrasado. Daquela vez ele estava bem-humorado, daí o cumprimento caloroso, agora não. O estado de espírito de seu chefe não está sob seu controle. Você não deve nem se entusiasmar com tapas amáveis que ele dê em suas costas e nem se deprimir com um gesto de frieza. Você não pode entregar aos outros o comando de seu estado de espírito. "Não é aquele que lhe diz injúrias quem ultraja você, mas sim a opinião que você tem dele", disse Epiteto. Se você ignora quem o insulta, você lhe tira o poder de chateá-lo, seja no trânsito, seja na arquibancada de um estádio de futebol ou numa reunião corporativa. Não são exatamente os fatos que moldam nosso estado de espírito, pregou Epiteto, mas sim a maneira como os encaramos. "É digno de piedade quem depende dos outros", escreveu Montaigne. O poeta e pensador romano Horácio (65 a.C.-8 a.C.) disse coisa parecida: "Todas as minhas esperanças estão em mim". Conte com você. Não ponha nos outros sua felicidade. Isso é fundamental para a vida feliz.
Horácio, em suas obras, como tantos outros filósofos, recomendou às pessoas viver e desfrutar o dia de hoje, em vez de se inquietar com o futuro. "Para que tantos planos em tão curta vida?", escreveu ele. O sábio vive apenas o presente. Não planeja nada. Não se atormenta com o que pode acontecer amanhã. É, numa palavra, um imprevidente. Eis um conceito s comum a quase todas as escolas filosóficas: o descaso pelo dia seguinte. O futuro é fonte de desassossego permanente para a humanidade. Tememos perder o emprego. Tememos não ter dinheiro para pagar as contas. Tememos ficar doentes. Tememos morrer. Tememos ser abandonados por quem amamos. O medo do dia de amanhã impede que se desfrute o dia de hoje. "A imprevidência é uma das maiores marcas da sabedoria", escreveu Epicuro (341 a.C.-270 a.C.). Nascido em Atenas, Epicuro, como os filósofos cínicos, foi uma vítima da posteridade ignorante. Pregava e praticava a simplicidade, e no entanto seu nome ficou vinculado à busca frívola do prazer. Epicuro vivia basicamente de pão, favas e água e cunhou frases como "a quem pouco não basta, nada basta". O ponto de Epicuro, neste caso, é o controle das ambições e dos desejos. Quem se deixa levar pela ambição e pelos desejos jamais está feliz. Quanto mais tem, em bens materiais, mais quer. É dominado em tempo integral pela frustração.
Epicuro, numa sentença freqüentemente citada, disse que nunca é tarde demais e nem cedo demais para filosofar. Para refletir sobre a arte de viver bem, ele queria dizer. Para buscar a tranqüilidade da alma, sem a qual mesmo tendo tudo nada temos a não ser medo. Também nunca é tarde demais e nem cedo demais para lutar contra a presença descomunal e apavorante do futuro em nossa vida. O homem sábio cuida do dia de hoje. E basta. A vida simples que Epicuro pregava e levava é outro ponto com o qual todos os grandes filósofos concordam quando se trata da busca da felicidade. Simplicidade em tudo, eis a recomendação. Incluída a maneira como nos comunicamos, falando ou escrevendo. Uma pessoa afetada na maneira de falar ou escrever é afetada em outras esferas. "A verdade precisa falar uma linguagem simples, sem artifícios", escreveu um sábio da Antiguidade. Montaigne dedicou linhas brilhantes ao assunto em seus Ensaios. Montaigne conta duas histórias instrutivas e divertidas. Numa delas, os embaixadores de uma cidade grega tentavam convencer o rei de Esparta a aderir a um esforço de guerra. O espartano deixou-os falar longamente. Depois disse: "Não me lembro do começo nem do meio da argumentação de vocês. Quanto à conclusão, simplesmente não me interessa". Na outra história, dois arquitetos atenienses disputavam a honra de construir um grande edifício. A platéia à qual cabia a escolha ouviu um extenso discurso do primeiro arquiteto. As pessoas já se inclinavam por ele quando o segundo disse apenas: "Senhores atenienses, o que este acaba de dizer eu vou fazer".
Montaigne cita seu pensador predileto, o romano Sêneca, segundo o qual nos grandes arroubos da eloqüência há "mais ruído que sentido". Escreveu Montaigne: "Gosto de uma linguagem simples e pura, a escrita como a falada, e suculenta, e nervosa, breve e concisa, não delicada e louçã, mas veemente e brusca". Os espartanos eram admirados por Montaigne pela simplicidade com que viviam e se expressavam. Ele conta que uma vez perguntaram a uma autoridade de Esparta por que não colocavam por escrito as regras da valentia para que os jovens pudessem lê-las. A resposta foi que os espartanos queriam acostumar seus jovens antes aos feitos que às palavras. "O mundo é apenas tagarelice e nunca vi homem que não dissesse antes mais do que menos do que devia", disse Montaigne. Outro mestre de Montaigne, Plutarco (c. 45 d.C.-120 d.C.), autor de Vidas Paralelas, mostrou que falar demais pode ser perigoso. "A palavra expõe-nos, como nos ensina o divino Platão, aos mais pesados castigos que deuses e homens podem infligir", disse Plutarco. "Mas o silêncio jamais tem contas a dar. Não só não causa sede como confere um traço de nobreza."

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quinta-feira, 5 de abril de 2007

Como os grandes sábios podem nos ajudar a viver melhor - Parte 1

A filosofia existe para que as pessoas possam viver melhor. Sofrer menos. Lidar mais serenamente com as adversidades. Enfrentar com coragem o "perpétuo vai-e-vem de elevações e quedas", para citar uma frase do romano Sêneca (4 a.C.-65 d.C.), um dos grandes filósofos da Antiguidade. A missão essencial da filosofia é tornar viável a busca da felicidade. Todos os grandes pensadores sublinharam esse ponto. A filosofia que não é útil na vida prática pode ser jogada no lixo. Alguém definiu os filósofos como os amigos eternos da humanidade. Nas noites frias e escuras que enfrentamos no correr dos longos dias, eles podem iluminar e aquecer. A filosofia apóia e consola. "O ofício da filosofia é serenar as tempestades da alma", escreveu o sábio francês Montaigne (1533-1592). Numa definição magistral, Montaigne definiu a filosofia como a "ciência de viver bem".

Considere o caso do aristocrata romano Boécio (480 d.C.-524 d.C.). Boécio era rico, influente, poderoso. Era dono de uma inteligência colossal: traduziu para o latim toda a obra de Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) e Platão (427 a.C. ou 428 a.C.-347 a.C.). Tudo ia bem. Até o dia em que foi acusado de traição pelo imperador e condenado à morte. Foi torturado. Recebeu a marca dos condenados à morte de então: a letra grega theta queimada na carne. Boécio recorreu à filosofia, em que era mestre, para enfrentar o suplício. Tinha na memória tudo o que lera. Naqueles dias, a elite intelectual costumava decorar os livros, lidos em voz alta desde a infância. Formava-se uma espécie de "biblioteca invisível". Entre a sentença e a morte, Boécio escreveu em condições precárias um livro que se tornaria um clássico da literatura ocidental: A Consolação da Filosofia. Tudo de que ele dispunha, para escrevê-lo, eram pequenas tábuas e estiletes. Isso lhe foi passado, para dentro da cela, por amigos. "A felicidade pode entrar em toda parte se suportarmos tudo sem queixas", escreveu ele.

A filosofia consola, mostrou em situação extrema Boécio. E ensina. E inspira. Sim, os filósofos são os eternos amigos da humanidade. Observe Demócrito (460 a.C.-370 a.C.), pensador grego do século V a.C. Ele escreveu um livro chamado Sobre o Prazer. Primeira frase do livro: "Ocupe-se de pouco para ser feliz". Ninguém com múltiplas tarefas pode aspirar à felicidade. A palavra grega para tranqüilidade da alma é euthymia. A recomendação básica de Demócrito é encontrada em muitos outros filósofos. Sobrecarregar a agenda equivale a sobrecarregar o espírito, e traz inevitavelmente angústia. Um sábio da Antiguidade não abria nenhuma correspondência depois das 4 horas da tarde. Era uma forma de não encontrar mais motivo de inquietação no resto do dia, que ele dedicava a recuperar a calma perdida ao entregar-se a seu trabalho. E nós? Quantos de nós não abrimos mensagens de trabalho no computador às vezes de madrugada? Muitas vezes o conteúdo dessa mensagem perturba o espírito. O único resultado disso é a perda de sono.

Fazemos muitas coisas desnecessárias. Coloque num papel as atividades de um dia. Depois veja o que realmente era preciso fazer e o que não era. A lista das inutilidades suplanta quase sempre a das ações imperiosas. O imperador filósofo romano Marco Aurélio (121 d.C.-180 d.C.) louvou a frase de Demócrito em suas clássicas Meditações. Acrescentou que devemos evitar não apenas os gestos inúteis, mas também os pensamentos desnecessários. Marco Aurélio recomendava o exercício de conduzir a mente, quando agitada, para pensamentos aquietadores. O objetivo: controlarmos a mente, esse cavalo selvagem, em vez de sermos controlados por ela. Está aborrecido com algum fato? Experimente concentrar sua mente s em algo que traga paz. Uma paisagem linda. Uma pessoa querida. Uma cena alegre. Não conseguiu ainda? Esforce-se. Persevere. Sêneca usou as expressões "agitação estéril" e "preguiça agitada" ao tratar dos atos que nos trazem apenas desassossego. "É preciso livrar-se da agitação desregrada, à qual se entrega a maioria dos homens", escreveu Sêneca. "Eles vagam ao acaso, mendigando ocupações. Suas saídas absurdas e inúteis lembram as idas e vindas das formigas ao longo das árvores, quando elas sobem até o alto do tronco e tornam a descer até embaixo, para nada. Quantas pessoas levam uma existência semelhante, que se chamaria com justiça de preguiça agitada?"

Outro ponto essencial recomendado pelos filósofos para a vida feliz é aceitar os tropeços. Até porque são inevitáveis. É o maior ensinamento do filósofo Zenão (333 a.C.-264 a.C.) e seus discípulos. Nascido na Ilha de Chipre, filho de pais ricos, Zenão fundou em Atenas uma escola de filosofia cujos fundamentos influenciaram a doutrina cristã: o estoicismo. Tão forte é a filosofia estóica que "estóico" virou sinônimo de bravura na adversidade. Segundo o mais admirado dicionário de inglês, o Oxford, estóico é quem se porta com serenidade diante do revés ou do triunfo. Nem vibra na vitória e nem se deprime na derrota. Equilíbrio. Calma. Serenidade. Quando você está em alta ou quando você está em baixa. Um torcedor de futebol, por exemplo. Se ele explode de alegria quando seu time vence, vai inevitavelmente descer aos abismos da depressão quando seu time é batido. Nada bom, num caso ou no outro, para a sonhada euthymia.

Zenão perdeu todo o seu patrimônio num naufrágio. Seu comentário ao receber a informação: "O destino queria que eu filosofasse mais desembaraçadamente". O nome da escola deriva da palavra grega stoa, pórtico. Zenão, alto, magro, o pescoço ligeiramente inclinado, pregava suas idéias num pórtico erguido pelos atenienses para celebrar a vitória na guerra sobre os persas. Esse pórtico era colorido com imagens de gregos derrotando os bárbaros. Na Atenas de então, era comum discutir filosofia em locais públicos, mas a escolha do pórtico por Zenão parece carregada de simbolismo: o triunfo da sabedoria sobre a brutalidade.

O estoicismo defendia uma vida de acordo com a natureza. Simplicidade no vestuário, na comida, nas palavras, no estilo de vida. E a aceitação de tudo o que possa ocorrer de ruim. Agastar-se contra as circunstâncias apenas piora o estado de espírito da pessoa: essa a lógica da aceitação, ou resignação, que viria a ser um dos pilares do cristianismo. O lema estóico: abstenha-se e aceite. O apreço pela vida de acordo com a natureza Zenão aprendeu com seu mestre em filosofia, Crates (368 a.C.-288 a.C.). Crates era da escola cínica. Os cínicos defendiam a simplicidade tanto quanto os estóicos, e não é difícil entender por que a posteridade ignorante lhes atribuiu um sentido pejorativo: é que eles eram extraordinariamente irreverentes. O mais notável filósofo cínico, Diógenes (413 a.C.-323 a.C.), certa vez se masturbou em público. Explicou aos que o interpelavam: "Gostaria de saciar minha fome esfregando o estômago".

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quarta-feira, 4 de abril de 2007

“Não tenhas pressa. Aonde tens de ir é só a ti mesmo.”

Por vezes, a compreensão de episódios que se repetem em nossa vida pode ocorrer por meio dos simbolismos, das correlações que formam as teias nas quais bordamos nossa existência. Compreender o simbólico para superar o ilusório que nos cerca é um dos passos fundamentais que devemos trilhar no caminho extenso da consciência.
Compreender aquilo que fica de tudo que é transitório é mergulhar na própria essência da vida e beber do mais puro sabor da verdade. Acertar, errar, ganhar, perder, estar feliz ou infeliz são apenas partes do intrincado espelho da ilusão. Ora estamos numa condição, ora noutra. Tudo o que passa não pode ser o propósito da vida. A dor, a perda e o sofrimento também são parte desta experiência de Maia, a deusa da ilusão para os hindus

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terça-feira, 3 de abril de 2007

Novo Produto no Mercado

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segunda-feira, 2 de abril de 2007

Bom Início de Semana


"Amo a beleza do compromisso.."

Simone Weil

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domingo, 1 de abril de 2007

Entrevista concedida a Veja (12/12/1973), a Maria Helena Dutra(Bidu Sayão), ao visitar o Brasil, depois de 20 anos morando no exterior.- Final


Veja - Um ano depois de tão súbita decisão você voltou a cantar e chegou mesmo a gravar com Villa-Lobos "A Floresta Amazônica". Saudades?
BIDU - Fiquei um ano sem cantar, sem abrir a boca, sem vocalizar. Até que meu amigo Villa e sua mulher, a Mindinha, chegaram aos Estados Unidos. Villa tinha ido compor a trilha sonora do filme "Green Mansions", com Audrey Hepburn. A fita foi um fiasco. E, da música do Villa, sobraram só uns 10 minutos. Ele ficou indignado, eu nunca o vi tão amolado. Decidiu, então. gravar a obra, e me pediu que o ajudasse. Eu estava há um ano
afastada. E só aceitei porque tive o pressentimento de que aquela seria a última gravação do Villa. E foi.

Veja - O fato de seu primeiro marido, Walter Mocchi, ter sido empresário, e o segundo, Giuseppe Danise, ter sido um barítono de fama, não foi fundamental para o sucesso de sua carreira?
BIDU - Para se fazer uma carreira internacional é preciso ter perseverança, sorte e alguém que dê o impulso inicial, pois os empresários nunca querem principiantes. O fato de meu primeiro marido ter sido empresário, contudo, em nada contribuiu para o início da minha carreira internacional. Eu estreei, em 1927, no Teatro Constanza, de Roma, após ter feito uma série de audições para seus responsáveis. Consegui a chance porque tinha sido aluna de Jean De Rezky, em Nice, França, a única sul-americana que ele aceitou para ensinar. Só dois anos depois, 1929, é que me casei com Walter, um sonhador, homem riquíssimo, que botava tudo que tinha no teatro. Quanto aos Estados Unidos, foi o maestro Arturo Toscanini, que conheci no Scala de Milão, quem me abriu as portas do Metropolitan. Ele queria uma voz especial e etérea para interpretar a "Demoiselle Elue" de Debussy. Tinha escutado todas as sopranos da América sem encontrar o que pretendia. Eu nem sabia disso, até que tivemos uma conversa sem compromissos. Aí, ele me levou para cantar o poema no Metropolitan,
num concerto do qual participaram todas as pessoas importantes da cidade. Afinal, apesar de desconhecida, e de nome exótico, eu era apresentada por Toscanini. Mais ainda, tive a sorte de cantar no ano do afastamento da soprano Lucrezia Bori, que tinha quase as mesmas características de voz. Assim mesmo, porém, até ser contratada pelo Metropolitan, ainda fiz mais duas audições. Seus responsáveis achavam que minha voz era pequena para o teatro e eu tive de demonstrar que podia atingir até as últimas poltronas. Dois anos depois, em 1939, separei-me de Walter e pouco tempo depois casei-me com Danise que, durante quinze anos foi barítono do Metropolitan e depois se tornou, até morrer, em 1963, um grande professor. Através de estudo e muito
exercício, ele foi o responsável pelo desenvolvimento de minha voz.

Veja - Mas por que mesmo depois de se retirar você preferiu os Estados Unidos ao Brasil?
BIDU - Preferi não é bem o termo. Tanta coisa aconteceu comigo que meus amigos brasileiros, nesta visita, depois de informados dos meus azares, passaram apenas a me dar figas como presente. Ao abandonar o canto, fiquei vivendo em Nova York, junto a meu marido, que dava aulas. Passávamos o tempo livre em nossa ampla casa no Maine, no norte do país, perto do Canadá. Em 1963, Danise morreu e fiquei desorientada.
Percebi que não tinha a menor experiência com relação a nenhum problema prático. Não sabia fazer nada, só assinava cheques. Tive só duas fraquezas: uma com peles e outra com jóias. Pensando assim, vivíamos nossos calmos e tranqüilos dias quando ele morreu. O choque foi tanto que perdi 18 quilos em um mês. Mas sobrevivi
por causa da minha mãe. Até que em 1966 ela morreu, aos 94 anos. Senti-me abandonada no mundo. Horrível. Tinha dinheiro mas nenhuma felicidade. Passei a ter taquicardia, palpitações, suor frio e pulso irregular. Mas meu cardiologista não constatou nenhum problema mais grave. Era tudo angústia, nervosismo e preocupação.
Fiquei com medo de vir ao Brasil e morrer de uma emoção mais forte. Depois fui me habituando a viver sozinha. E passei a dedicar carinho especial à minha casa, às minhas lembranças e saudades. Mas, certo dia, em junho de 1969, sai para fazer umas compras, com o meu empregado, misto de caseiro, jardineiro, chofer, tudo enfim, que me serve há 22 anos. Estava apenas com um slack sem uma jóia, sem nada. Na volta, vimos de longe uma densa neblina. Mas quando cheguei perto não pude mais me enganar. O fogo estava destruindo minha casa. Nada foi possível fazer. Perdi tudo. As jóias que minha mãe tinha me dado, uma medalha feita pelo próprio Caruso com uma caricatura sua, minhas tapeçarias, móveis, lembranças, diplomas, placas, tudo. Provocado por um curto-circuito, o fogo acabou com as recordações de toda a minha vida. Só se salvou um anel de água marinha brasileira. Mas reconstruí tudo, a casa estava no seguro e o prejuízo financeiro não foi tão grande assim.

Veja - E então conseguiu um pouco de tranqüilidade?
BIDU - Minha filha, quando me dão figas é porque têm razão. Ainda não acabou, não. A casa ficou pronta em 1970. Dois anos depois ladrões estiveram lá e levaram tudo. Só não tocaram no que tinha as iniciais B.S. Mas de resto fizeram um limpíssimo trabalho profissional. Como podia vir para o Brasil me divertir?

Veja - Mesmo no seu retiro você acompanha a vida musical dos Estados Unidos? E a ópera, seria um gênero em decadência?
BIDU - Hoje a ópera não mais me diverte. Ainda existem espetáculos bonitos. Mas o teatro lírico está realmente um pouco decadente e fora de moda. Não por culpa do gênero que é eterno, mas pela insistência nos erros. O principal na ópera e o canto. Mal cantada, vira uma caricatura. Os jovens de hoje, porém, mesmo alguns mais antigos, não têm paciência de estudar muito, ou a modéstia de se guardar apenas para os papéis que sejam adequados à sua voz e sensibilidade. Querem fazer tudo rápido e aparecer muito para ficarem ricos e famosos depressa. Isto mata a ópera e seus melhores talentos. Monteserrat Caballé, minha cantara preferida, e Joan Sutherland são exceções nestas comédias de erros. Duas vítimas do mal que lhe falei antes são Maria Callas e
Renata Tebaldi. Cantaram demais e em todo os gêneros de ópera: dramática, lírica, ligeira. Dizem que o problema de Callas foi sua gordura e o tratamento rigoroso a que se submeteu. Mas não é verdade. Foi a pressa. Aliás, outra mentira histórica da ópera é se dizer que os gordos têm a melhor voz. Bobagem. Mas insistem nesta mentira e o resultado são feias figuras no palco numa hora que os jovens estão habituados a
outra estética. Se a ópera insistir nessa tecla e nas montagens ultrapassadas, vai realmente acabar.

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