segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Psicanálise


INTRODUÇÃO

Psicanálise, nome que se dá a um método específico para investigar os processos mentais inconscientes e a um enfoque da psicoterapia. O termo refere-se, também, à estruturação sistemática da teoria psicanalítica, baseada na relação entre os processos mentais conscientes e inconscientes.

TEORIA PSICANALÍTICA

A teoria e as técnicas da psicanálise foram desenvolvidas por Sigmund Freud. Seus trabalhos sobre a estrutura e o funcionamento da mente humana tiveram um grande alcance, tanto no âmbito científico como no da prática clínica. O primeiro legado de Freud foi o descobrimento da existência de processos psíquicos inconscientes que seguem leis próprias, diferentes das que governam a experiência consciente: as leis da lógica, básicas no pensamento consciente, deixam de exercer seu domínio no inconsciente.

Compreender como funcionam os processos mentais inconscientes possibilitou o estudo de fenômenos psíquicos de origem desconhecida, como os sonhos. Outro legado crucial da teoria freudiana foi a descrição da função que têm os impulsos básicos na vida: segundo Freud, os conflitos inconscientes envolvem desejos e impulsos, oriundos das primeiras etapas do desenvolvimento. Quando os conflitos inconscientes são desvendados para o paciente mediante a psicanálise, sua mente adulta pode encontrar soluções inacessíveis à mente imatura de quando era criança.

Segundo Freud, a sexualidade adulta é o resultado de um complexo processo de desenvolvimento que começa na infância, passa por uma série de etapas ligadas a diferentes funções e áreas corporais. Nesse desenvolvimento, é essencial o período edipiano, que transcorre entre os 4 e 6 anos de idade, momento em que a criança é capaz de estabelecer um vínculo afetivo com a mãe, semelhante à relação de um adulto com seu par, e considera o seu pai como rival (complexo de Édipo). A idade em que a criança supera esta etapa será decisiva em sua vida posterior, especialmente em suas relações afetivas. Para classificar o grande número de observações trazidas à luz pela exploração psicanalítica, Freud desenvolveu um modelo de estrutura do sistema psíquico, dividindo-o em três instâncias: o id, o ego e o superego.

ESCOLAS PSICANALÍTICAS

Carl Gustav Jung, um dos primeiros alunos de Freud, criou a escola denominada psicologia analítica. Jung utilizou o conceito de libido como conjunto dos instintos e impulsos criativos que constituem a força motivadora do comportamento humano. Alfred Adler, também discípulo de Freud, destacou a importância do sentimento de inferioridade na motivação, que nasce das três relações básicas que mantêm o indivíduo com o trabalho, os amigos e seu objeto amado.

Outro discípulo de Freud, Otto Rank, introduziu uma nova teoria da neurose, atribuindo todas as perturbações neuróticas ao trauma inicial do nascimento.

As últimas teorias psicanalíticas que merecem menção são as de Erich Fromm, Karen Horney e Harry Stack Sullivan. Outra importante escola, especialmente na Europa e América Latina, é a que se baseia nos ensinamentos de Melanie Klein, cuja obra teve uma grande influência no desenvolvimento da psiquiatria e da psicologia das fantasias inconscientes.

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domingo, 30 de dezembro de 2007

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sábado, 29 de dezembro de 2007

Reflexão do Ano

  • "O ódio nunca desaparece, enquanto pensamentos de mágoas forem alimentados na mente. Ele desaparece, tão logo esses pensamentos de mágoa forem esquecidos."
  • Buda

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    sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

    Psicologia


    INTRODUÇÃO

    Psicologia, estudo científico do comportamento e da experiência dos seres humanos e dos animais: como se sentem e o que pensam em relação ao meio ao qual se adaptam. A psicologia moderna dedicou-se a elaborar teorias que ajudam a conhecer e explicar o comportamento dos indivíduos, inclusive a predizer suas ações futuras, podendo intervir sobre elas.

    DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO

    O campo que mais contribuiu para o desenvolvimento da psicologia científica foi a fisiologia. Um dos primeiros representantes da psicologia experimental foi o fisiólogo Wilhelm Wundt, que em 1879 fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental. Da mesma forma, Emil Kraepelin estabeleceu as bases da classificação das doenças mentais. Mais conhecido, entretanto, é o trabalho de Sigmund Freud, que elaborou o método de investigação e tratamento denominado psicanálise.

    ÁREAS DE INVESTIGAÇÃO

    O estudo do funcionamento do cérebro e do sistema nervoso denomina-se "psicologia fisiológica". Os dois maiores sistemas de comunicação do organismo humano, o sistema nervoso e o circulatório, são essenciais no comportamento humano e são o ponto principal da maioria das investigações neste campo.

    Outra área central de estudo é a aprendizagem. Grande parte da pesquisa desenvolve-se utilizando animais de laboratório. O enfoque comportamental ocupa-se de suas formas mais elementares, estabelecendo dois tipos de condicionamento: o condicionamento clássico, de Ivan Pavlov, e o instrumental ou operante de Skinner. Contudo, as pesquisas sobre a aprendizagem do ser humano são mais complexas do que as de um animal. Nas últimas décadas, a investigação psicológica demonstrou uma atenção crescente pelo papel da cognição, que insiste no papel da atenção, da memória, da percepção, dos modelos de reconhecimento e no uso da linguagem no processo de aprendizagem.

    Muitos campos da psicologia teórica e aplicada empregam testes; outros, utilizam sistemas de medida. A avaliação psicológica ocupou-se com aspectos da personalidade, interesses e atitudes dos indivíduos e é empregada, também, em clínicas de psicoterapia.

    A psicologia social compreende diversas teorias denominadas "do equilíbrio",que se preocupam em estudar as mudanças de atitudes dos indivíduos. Nesta área, a psicologia também trata, entre outros temas, do comportamento das massas e dos fenômenos grupais.

    A psicopatologia é, talvez, a especialidade psicológica mais conhecida. Os sistemas de classificação dos distúrbios mentais foram se modificando com o maior conhecimento e a mudança de hábitos sociais. Os três grandes grupos são as psicoses, as neuroses e as desordens da personalidade.

    APLICAÇÕES DA PSICOLOGIA

    A psicologia tem aplicação em problemas que surgem praticamente em todas as áreas da vida social. As três áreas principais da psicologia aplicada são: psicologia industrial, educativa e clínica.

    Os psicólogos educativos trabalham com os problemas de aprendizagem e ensino, pesquisando novos métodos para tornar a aprendizagem escolar mais eficaz.

    Os psicólogos clínicos trabalham em hospitais aplicando diferentes tipos de psicoterapia nas pessoas que precisam de ajuda psicológica. A terapia ocupacional, uma das últimas contribuições, está baseada nos princípios da aprendizagem e do condicionamento.

    TENDÊNCIAS E AVANÇOS

    A psicologia, hoje, é um campo com uma crescente especialização, fruto da necessidade e das novas tendências. Os psicólogos infantis baseiam suas observações nas experiências de Jean Piaget. Os psicólogos interessados na linguagem e na comunicação aceitam a grande inovação feita pela teoria lingüística de Noam Chomsky. Os avanços no conhecimento do comportamento animal e a sociobiologia ajudaram a aumentar, de forma significativa, o interesse e as técnicas da investigação psicológica.

    Outra fonte de mudanças na psicologia moderna vem dos avanços recentes da informática e da computação. De fato, o computador trouxe um novo enfoque para o planejamento do estudo das funções cognitivas assim como também tornou-se uma ferramenta importante para avaliar complexas teorias sobre estes processos.

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    quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

    Cidades Brasileiras: Itú/SP

    Cidade do estado de São Paulo subordinada a Sorocaba, mas que sofre também influência de Campinas, pois situa-se no eixo rodoviário da SP-75, que faz a ligação Sorocaba-Campinas. É um centro industrial diversificado, operando mais fortemente nas áreas da mecânica, metalúrgica e minerais não metálicos. A cidade data de 1610, quando surgiu um núcleo povoado em torno da capela construída pelo sesmeiro Domingos Fernandes. Foi elevada à categoria de cidade em 1842. O nome se origina em uma cachoeira do rio Tietê, através do tupi Itu-guaçu, "grande queda d'água". Sua população em 1996 era de 112.006 habitantes.

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    quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

    BUDA EM SAMPA

     

    O bairro da Vila Mariana, em São Paulo, esconde um pequeno tesouro. É o Templo Tzong Kwan, uma construção que poderia estar localizada em alguma montanha do Tibete. O local é cheio de mistérios. O primeiro é a própria entrada. Um portão de ferro junto à calçada não dá a menor noção do prédio exótico que ali existe, nos fundos do terreno. Para chegar à entrada, que também é voltada para os fundos (seguindo as normas do Feng Shui), é preciso percorrer um corredor ao ar livre.
    No interior, há imagens de Buda e de outros mestres, trazidas da China, além de objetos decorativos como incensários, sinos, tambores e luminárias. Não se espante ao ver, no peito de Buda, uma suástica: muito antes de ser símbolo do nazismo, ela representava manifestações da energia cósmica. Ao visitar ou assistir a uma cerimônia em que todos os mantras e orações são traduzidos para o português (é o único de São Paulo a fazer isso), a melhor conduta é deixar os sapatos num armário próximo da entrada. O templo fica na Rua Rio Grande, 498.  Telefone: (11) 5084-0363.

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    terça-feira, 25 de dezembro de 2007

    Wallpaper Natalino


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    segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

    Véspera do Natal

    TERIAM EXISTIDO CRISTÃOS ANTES DE CRISTO?

    Desde a descoberta dos pergaminhos do Mar Morto, há mais de quarenta anos, essa pergunta está presente. Escritos pelos essênios, uma seita religiosa anterior a Cristo que tinha doutrina semelhante à dos cristãos, só agora as autoridades de Israel vão permitir a cientistas de todo o mundo o acesso aos documentos.

    Primavera de 1947. Três meninos pastores beduínos haviam levado seus carneiros e cabras para beber no oásis de Ain Feshka, a 15 quilômetros da cidade bíblica de Jericó, na Cisjordânia, território jordaniano hoje ocupado por Israel. Enquanto os animais matam a sede, os meninos brincam pelas cavernas que sulcam a paisagem de precipícios, localizada 400 metros abaixo do nível do mar, perto da costa norte do Mar Morto. Um dia normal e corriqueiro, não fosse o estrondo estafante que os três ouvem depois de jogarem pedras em uma das grutas. Eles descem à caverna e descobrem dez grandes jarros de barro, de aparência antiga: oito vazios, um cheio de terra e, no último finalmente, encontram um maço de velhos rolos de pergaminho.

    O achado, sem nenhum valor para seus pequenos proprietários, não demoraria a chegar às mãos de estudiosos estabelecidos na região. E em abril do ano seguinte circula a notícia: pela primeira impressão dos peritos, aqueles pergaminhos amarelecidos, comprados a troco de umas poucas moedas, continham escritos em hebraico e aramaico - a língua semítica usada por Cristo -, provavelmente com 2 000 anos de existência. Deviam, portanto, datar dos tempos de Jesus. No meio dos estudiosos da Bíblia cresce a expectativa, já que os estudos dos Rolos do Mar Morto, como ficaram conhecidos os documentos, poderiam proporcionar novas descobertas sobre a vida religiosa dos judeus e o nascimento do cristianismo.

    Passaram-se, desde então, 45 anos e novos fragmentos de textos foram descobertos nas centenas de cavernas próximas a Ain Feshka. Entre eles, restos de 23 dos 24 livros da versão do Velho Testamento até hoje usada pelos judeus - a exceção é o Livro de Esther -, além de obras antes só conhecidas em traduções gregas, latinas ou eslavas antigas, escritos inéditos com comentários sobre profetas, salmos que não constam da Bíblia e cânticos. Foi também encontrada uma série de textos que descrevem uma seita judaica misteriosa, de imediato associada a um nome que transformou os pergaminhos num manancial inesgotável de especulações históricas e religiosas: essênios.

    O nome dessa seita já esteve em circulação muito tempo atrás. Nos primeiros anos depois de Cristo, autores judeus como o historiador Flavius Josephus (38-100 d.C.), um dos primeiros a narrar a diáspora de seu povo após a destruição do Templo de Jerusalém pelos romanos, em 70 d. C., ou o filósofo religioso Philo (10 a.C.- 5O d.C.), que vivia no Egito na época de Jesus, fizeram alusões a eles. O naturalista romano Plínio, o Velho (23-79 d.C.), também falou de um contato com essa comunidade em sua viagem à Judéia.De acordo com as fontes antigas, eles viviam numa comunidade monástica semelhante a uma ordem religiosa, trajavam hábitos brancos, praticavam o celibato e estudavam o poder medicinal das ervas e a astrologia. Até a descoberta dos rolos do Mar Morto, porém, não existiam documentos que atestassem sua existência, pois os essênios não são mencionados nem no Novo Testamento, nem nos textos judaicos antigos.

    Contudo, como queria o acaso, as cavernas em que os pergaminhos foram encontrados ficam apenas a um pulo de Khirbet Qumran ruínas de Qumran , em árabe -, sobre cujas origens estudiosos matutavam há muito tempo. Lá não havia mais do que um monte de pedras, uma cisterna, vestígios de um aqueduto, um enorme cemitério e muitas teorias, que viam no local desde a cidade bíblica de Gomorra até uma fortaleza romana.Hoje, não é pequeno o número de especialistas que afirmam que ali ficava a pátria essênia. Mas o mistério está longe do fim. Quanto mais as peças se encaixam, mais emaranhado fica o quebra-cabeça. A começar pelo nome "essênio", que também não aparece nos rolos do Mar Morto. Alguns peritos arriscam explicar a curiosidade: seria uma alcunha usada por rivais. Provavelmente, deriva do aramaico e significa algo como curandeiro. Philo chamava os adeptos da seita de therapeutoi, ou "terapeutas" em grego. Flavius Josephus escreveu que a arte de curar era especialidade deles.

    A idade dos fragmentos não é mais um problema: os estudos espectrométricos realizados pela equipe da Escola Superior Técnica Federal de Zurique indicam que os mais recentes são originários do final do primeiro século da nossa era, enquanto os mais antigos retrocedem ao segundo século antes de Cristo. O que significa que os essênios surgiram como comunidade religiosa 200 anos antes dos cristãos. Resta agora saber de onde vieram.Muitos historiadores acreditam que tudo começou em 197 a.C., quando a Judéia foi incorporada ao reino grego dos Selêucidas e passou a ser helenizada, cultural e religiosamente. Um processo que atingiu seu ápice em 167 a.C. com o imperador Antíoco IV: ele colocou uma estátua de Zeus no Templo de Jerusalém. Formou-se então o movimento de resistência comandado por Judas Macabeu, que três anos depois expulsou os gregos e restaurou o judaísmo.Teria sido durante esse período sangrento que surgiu a seita. Inicialmente integrados à luta de Macabeu, logo eles se isolariam por divergências em torno da escolha do sumo sacerdote para o templo restabelecido.Os indícios arqueológicos parecem comprovar essa descrição: as construções de Qumran, hoje em ruínas, foram edificadas em meados do século II a.C. As pedras são mudas, porém, e informam pouco sobre as convicções religiosas de seus antigos habitantes. Por isso, os pesquisadores agora apostam suas fichas nos fragmentos achados nas cavernas vizinhas. Embora não usassem a palavra "essênio", os escribas da seita cunharam autodenominações que aparecem fartamente e ajudam a entender sua crença. As mais freqüentes são Filhos da Luz, Guardiões do Testamento e Filhos de Sadoc, sumo sacerdote do tempo do rei Salomão. Dai o rompimento com os macabeus: como os essênios se consideravam descendentes de Sadoc, eles teriam exigido que o cargo fosse ocupado por um herdeiro sangüíneo da honorável figura, o que, obviamente, não ocorreu.

    Os textos dos Filhos da Luz falam também daquele que seria o fundador da seita e autor de alguns dos escritos: o Mestre da Justiça, chamado por alguns de Mestre Verdadeiro ou Mestre da Retidão. Sua identidade, entretanto, é um dos segredos mais bem guardados da Antigüidade. Quem pronunciasse seu nome era punido com a morte, segundo Flavius Josephus. O mesmo valia para o nome de seu inimigo figadal, chamado Sacerdote Ateu, provavelmente um sumo sacerdote não descendente de Sadoc.Certo é que os essênios devem ter participado ativamente das mudanças que abalaram a Judéia nos anos que precederam Cristo. O principal lance na época era a presença da superpotência romana, que reduziu o país a protetorado imperial. É bem verdade que, para manter a paz, os ocupantes deram liberdade religiosa à população fanaticamente monoteísta. Mas mesmo com essa generosidade o país se encontrava conturbado por lutas entre os que toleravam Roma e os contrários a ela. Os primeiros eram os fariseus reformistas religiosos interessados numa interpretação mais flexível da lei de Moisés. Graças ao Novo Testamento, sabe-se que os seus desafetos eram os saduceus e os zelotes.Saduceu. Transportada para o hebreu a palavra soa mais ou menos como zadoki, isto é, sadoquitas. O Talmude, coletânea farisaica de leis, deriva esse nome de Sadoc. Como os essênios se auto denominavam sadoquitas, será que eles e os saduceus pertenciam ao mesmo grupo? A resposta é um enérgico talvez. No último século antes da destruição do templo, foram os saduceus que nomearam a maioria dos sumos sacerdotes. E se houve ligação entre eles, isso deve ter ocorrido no primeiro século antes da era cristã. Qumran seria, então, um seminário para sacerdotes saduceus, teoria agora fortalecida por um dos escritos do Mar Morto. Conhecido como Rolo do Templo, por se ocupar de ofícios religiosos - altamente apropriado para seminaristas, por sinal -, esse pergaminho foi datado entre 79 a.C. e 1 d.C. Exatamente o período de que se fala aqui.Quanto aos zelotes, sua fama era de um apaixonado grupo nacionalista. que resistiu ferozmente aos romanos. É provável que isso agora seja revisto. Os estudiosos acreditam que os "fanáticos" - esta é tradução ao pé da letra do nome zelote - não foram um grupo político isolado nos tempos de Jesus. Acredita-se que a expressão servisse para designar todos os militantes da causa anti-romana, fosse qual fosse seu partido - e os essênios também o eram.

    Esse problema do fanatismo na Judéia começou durante o governo de Herodes, o Grande, que reinou de 37 a.C. até 4 a.C. sob os auspícios romanos. Herodes costumava nomear para a função de sumo sacerdote do templo qualquer um que quisesse favorecer, coisa que os fariseus aceitavam de bom grado por acharem que os sacerdotes dispunham de poderes excessivos. Entre saduceus e essênios, no entanto, desenvolveu-se, através dos zelotes ou "fanáticos", um movimento radical - fundamentalista como se diria hoje - para combater a interferência pouco ortodoxa do governante.Os arqueólogos encontraram provas que sustentam a teoria de que não poucos essênios viraram zelotes fundamentalistas Rolos de escritos da seita essênia foram desenterrados na fortaleza de Masada, ao sul de Qumran, onde quatro anos após a destruição do Templo de Jerusalém um grupo zelote ainda resistia às tropas romanas. Alguns até supõem que Qumran tenha sido transformada em fortaleza zelote nesses anos difíceis.

    Acompanhar essa história torna quase irresistível a tentação de relacionar os antecedentes do cristianismo com o essenismo. A começar pela crença no messias. Nos escritos de Ain Feshka encontram-se várias referências à chegada de um ou mesmo vários messias.Uma ansiedade provavelmente mais profunda nos adeptos radicais da seita, em busca de um herói que os libertasse dos estrangeiros. O profeta João Batista, por sua vez, parece particularmente ligado aos adeptos da seita. Ele não só desempenhava sua função no deserto onde se localiza Qumran, como também ministrava um rito batismal - foi ele quem batizou Cristo - que lembra muito uma cerimônia de purificação através da água praticada pelos essênios: arqueólogos encontraram nas ruínas restos de uma vasta instalação para banhos. Além disso, João Batista morreu decapitado, punição típica para os zelotes messiânicos.O número de ligações entre essênios e cristãos - em grego christianos significa messianista - não fica por aí. A Bíblia cristã, por exemplo, é marcadamente antifarisaica. Lembrem-se: os fariseus toleravam os romanos que crucificaram Jesus. Nela, encontra-se a proibição de Cristo em relação ao divórcio - uma norma sem antecedentes no judaísmo fariseu. Nos rolos essênios, porém, há uma interdição semelhante. A prática da vida comunitária e a abolição da propriedade são também traços em comum de cristãos e essênios. Trechos inteiros do Novo Testamento, de fato, parecem eco dos textos de Qumran. Um deles é a carta de Tiago, tido por alguns como irmão de Jesus Cristo.

    Hoje, não são poucos os que vêem a vida nos primórdios do cristianismo como uma doçura amena, uma novela açucarada. Nada mais distante da realidade. Os primeiros cristãos eram radicais, e às vezes puniam a desobediência com a morte, como se deduz da história dos apóstolos. Tudo isso tem paralelismo nos essênios. Não se deve esquecer outra importante identidade: segundo os Rolos do Mar Morto, o auge das reuniões da seita tinha como marca registrada uma ceia de pão e vinho.

    E tem mais No século VIII, o patriarca cristão de Bizâncio Timoteu I menciona em uma carta que um caçador árabe havia descoberto velhos manuscritos hebraicos perto de Jericó. Eles foram enviados a Jerusalém, copiados e postos em circulação. Durante sua estada no Cairo, o estudioso judeu Solomon Schechter (18471915) visitou o depósito de uma sinagoga e ali encontrou um texto hebreu, copiado no século XII, que continha as normas de conduta de uma seita desconhecida. Exatamente o mesmo escrito foi encontrado em Qumran. Com isso fica claro: textos essênios ainda eram copiados no século XII.Outra fonte de idéias essênias poderia ser o islamismo. Que Maomé manteve contato com tribos judaicas na Península Arábica, disso não se tem dúvida. Mas alguns pesquisadores já desconfiam que se tratava, então, de membros de uma seita de judeus que haviam fugido de Jerusalém depois da conquista romana. Seu argumento: a linguagem do livro sagrado do Islã, o Alcorão, vez por outra se assemelha à dos textos de Qumran.

    Por enquanto, é até aqui que vão as pistas dos misteriosos essênios, que, como parece, deixaram a terra sem nenhum adeus. Mas quem sabe quando será encontrada a próxima caverna cheia de manuscritos deles? Talvez antes do que se pensa.

    Muita briga e poucas conclusões

    Embora os primeiros rolos de escritos do Mar Morto tenham sido descobertos há mais de quarenta anos o mundo até agora não teve acesso a uma lista completa dos locais dos achados nem a reproduções fotográficas dos fragmentos: não são poucos os estudiosos que assinariam essas críticas hoje. Os textos de Ain Feshka continuam sendo uma fonte de dores de cabeça para seus guardiões. Mesmo depois de Israel prometer que todo pesquisador sério terá acesso ao acervo do Museu Rockfeller de Jerusalém, o tiroteio continua. O principal alvo é o grupo de cientistas encarregado originalmente pelo governo jordaniano de traduzir os escritos: muitos os acusam de esconderem os resultados da pesquisa. Eles se defendem dizendo que catorze volumes de fragmentos foram publicados, outros vinte estão chegando ao prelo e que até 1996 toda a obra estará concluída.No fundo, essa brigalhada toda reflete o temor de que os documentos possam conter informações em discordância com dogmas do cristianismo ou que maculem a história dos judeus. Nesse embate entre fé e objetividade científica, dois pontos de discórdia ganham destaque. Um diz respeito à identificação dos zelotes com os primeiros cristãos, coisa que não é aceita por todos. O outro, mais delicado, é a teoria de que teriam existido duas correntes nos primórdios do cristianismo: os liderados pelo pretenso irmão de Jesus, Tiago, fieis à lei mosaica, e os que seguiam Paulo, preocupados em ganhar adeptos fora da Terra Santa e, portanto, inclinados a abandonar aquela lei. Conclusões, pelo visto, só em 1996. Até lá, deve continuar a especulação em torno do papel dos essênios: desde 1947, já foram publicados mais de 8 000 artigos e livros sobre Qumran e seus habitantes.

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    domingo, 23 de dezembro de 2007

    É REALMENTE PERIGOSO TOMAR BANHO DEPOIS DE COMER?

     

    Só se a água estiver muito quente. Depois de uma refeição, nosso sangue se dirige em grande quantidade ao sistema digestivo para auxiliar a digestão. "Se entrarmos em contato com água muito quente, parte desse sangue desvia para a pele", diz o fisiologista Francisco Gacek, da USP. Isso porque os vasos sangüíneos superficiais se dilatam para deixar passar o calor e esfriar o organismo. Assim, parte do sangue que deveria ajudar no processo digestivo migra para a pele. O alimento permanece mais tempo no estômago e no intestino, podendo sofrer uma nociva fermentação provocada por bactérias. Já a água fria não traz problemas de digestão. Risco maior corre quem decide nadar depois de comer: o exercício físico atrai muito mais sangue para os músculos do que a água quente do banho. 

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    sábado, 22 de dezembro de 2007

    Reflexão Natalina

    Metade do mundo não compreende os prazeres da outra metade.
    J. Austen

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    sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

    LOUCO, EU?

     

    David Rosenhan resolveu fingir-se de louco. Em 1972, ele se dirigiu a um hospital psiquiátrico americano alegando escutar vozes que lhe diziam as palavras "oco" "vazio" e o som "tum-tum". Essa foi a única mentira que contou. De resto, comportou-se de maneira calma e respondeu a perguntas sobre sua vida e seus relacionamentos sem mentir uma única vez sequer. Outros oito voluntários sãos fizeram a mesma coisa, em instituições diferentes. Todos, exceto um, foram diagnosticados com esquizofrenia e internados.

    Assim que foram admitidos, os pacientes passaram a agir normalmente. Observavam a tudo e faziam anotações em suas cadernetas. No começo, as anotações eram feitas longe do olhar dos funcionários, mas logo eles perceberam que não havia necessidade de discrição. Médicos e enfermeiros passavam pouquíssimo tempo com os pacientes e nem ao menos respondiam às perguntas mais simples. "Apesar de seu show público de sanidade, nenhum deles foi reconhecido", escreveu Rosenhan no artigo On Being Sane in Insane Places ("Sobre Ser São em Locais Insanos"), publicado na conceituada revista Science, em janeiro de 1973. Ironicamente, os pacientes reais duvidavam com freqüência da condição dos novos colegas. "Você não é louco. Você é um jornalista ou um professor checando o hospital", disseram diversas vezes.

    Os pacientes estavam certos. Rosenhan era mesmo um acadêmico e sua internação, assim como a dos outros voluntários, era parte de um estudo pioneiro para avaliar a capacidade médica de diagnosticar distúrbios mentais. Hoje, ele é professor emérito das Faculdades de Psicologia e Direito da Universidade de Stanford.

    Os falsos pacientes foram mantidos nos hospitais por períodos que variaram de 7 a 52 dias. Foram medicados (assim como boa parte dos internados reais, eles escondiam as pílulas sob a língua e as jogavam fora quando já não estavam mais na presença dos funcionários) e liberados com o diagnóstico de "esquizofrenia em remissão", uma expressão médica usada para dizer que o paciente está livre dos sintomas.

    Já de volta à sua identidade real, os pesquisadores requisitaram os arquivos sobre suas estadas nos hospitais. Em nenhum dos documentos havia qualquer menção à desconfiança de que estivessem mentindo ou que aparentassem não ser esquizofrênicos. A conclusão que David Rosenhan escreveu para o estudo desconcertou a psiquiatria americana. "Agora  sabemos que somos incapazes de distinguir a insanidade da sanidade."

    LOUCURA EXISTE!

    A conclusão de Rosenhan não era de todo uma novidade para a comunidade médica. Desde a Segunda Guerra Mundial, quando a porcentagem de homens liberados pelo exército por razões psicológicas variava de 20% a 60% entre estados, os americanos começaram a desconfiar de que seus diagnósticos tinham a precisão científica de uma cartomante. Para piorar, pesquisas começaram a mostrar que os Estados Unidos estavam diagnosticando um número muito maior de esquizofrênicos do que a Inglaterra. Seria o chá das cinco um remédio tão eficiente contra distúrbios mentais?

    O estudo de Rosenhan deixava claro que o problema não eram as mentes dos ingleses e sim a maneira pouco eficiente de se fazer diagnósticos nos Estados Unidos. O instrumento usado por médicos e psiquiatras nessa tarefa era (e continua sendo) o Manual de Diagnóstico e Estatística dos Distúrbios Mentais (DSM, na sigla em inglês). O manual é reconhecido pela Associação Americana de Psiquiatria como a lista oficial de doenças mentais e é usado em hospitais e consultórios psiquiátricos do mundo inteiro.

    Mas em 1973, o DSM ainda estava em sua segunda versão e os diagnósticos dados usando o livro de cem páginas variavam de forma absurda. Um mesmo paciente poderia ser descrito como histérico ou hipocondríaco, dependendo apenas de quem o avaliasse. E essa era uma das questões centrais do estudo de Rosenhan. "Será que as características que levam alguém a ser tachado de louco estão mesmo no paciente ou estão no ambiente e contexto em que o observador está inserido?", escreveu ele em On Being Sane....

    Essa pergunta faz ainda mais sentido quando comparamos os diferentes conceitos de loucura ao longo da história. Homens cujo estado de espírito difere drasticamente da média dos demais existem desde as épocas mais remotas - assim como tratamentos para curá-los. No entanto, por séculos, acreditava-se que a loucura era causada pela vontade dos deuses sendo, portanto, parte do destino de alguns. Fosse para punir ou até mesmo para recompensar - o Alcorão conta como Maomé achava veneráveis os loucos, já que tinham sido abençoados com loucura por Alá, que lhes tirava o juízo para que não pecassem - fato é que a loucura estava associada com a idéia de destino e participava da vida social assim como outras formas de percepção da realidade. "A definição de loucura em termos de ‘doença’ é uma operação recente na história da civilização ocidental", escreveu João Frayze-Pereira, no livro O que é a loucura.

    E mesmo vista como doença mental, a relação que se desenvolve com ela pode variar muito de cultura para cultura. Na Malásia, é comum mulheres mais velhas apresentarem um quadro psíquico conhecido como latah. É uma condição que faz com que a pessoa fique completamente alterada por um bom tempo, gritando e falando palavrões. Mas, no lugar de serem excluídas socialmente, essas pessoas são celebradas e costumam animar reuniões sociais com seu pequeno show de excentricidades.

    Os próprios exemplos do que configura um estado alterado de consciência mudam radicalmente de acordo com o lugar, o tempo ou a cultura. Só para citar um exemplo, em 1958, um jovem negro americano foi levado a um hospital psiquiátrico depois de se inscrever para a Universidade do Mississippi. Qualquer negro que pensasse que pudesse estudar ali estava, obviamente, louco.

    Ora, se a loucura - suas razões, interpretações e definições - pode mudar tão drasticamente diante de conceitos como geografia e tempo, como é possível afirmar que a loucura seja um distúrbio da mente e não apenas um desvio social? Será que Thomas Szars, um dos líderes do movimento antipsiquiatria no mundo, está certo quando diz que a psiquiatria não passa de uma polícia moral disposta a impedir pensamentos e condutas que não são agradáveis à sociedade?

    A CIÊNCIA FALA

    Hoje, a ciência faz uma distinção clara entre loucura e doenças mentais. "Talvez pareça desconcertante, mas os psiquiatras não se utilizam de termos como louco ou loucura e nenhuma das atuais classificações dos distúrbios psiquiátricos os inclui", diz Sérgio Bettarello, do Instituto de Psiquiatria da USP. Os absurdos classificatórios de alguns anos atrás, como chamar uma mulher que se apaixona por um homem mais novo de louca, minguaram. "A loucura como estado de ampliação da existência é positiva. Você costuma sair enriquecido depois de uma experiência dessas. Já as doenças mentais são o oposto disso. No lugar de liberdade, elas te dão uma restrição da autonomia", diz Bettarello.

    A loucura que a psiquiatria trata é chamada de psicose, uma distorção do pensamento e do senso de realidade, que pode prejudicar drasticamente a vida do paciente. De fato, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, cinco entre as dez maiores causas de incapacidade no mundo são problemas mentais. O ranking é feito levando em conta dois quesitos: número de anos de vida e número de anos produtivos que a doença rouba do paciente. E, no caso das doenças mentais, há pouca concorrência em relação ao segundo quesito. "Seja pelo estigma que carrega, seja pelos transtornos que traz à rotina da pessoa, distúrbios mentais podem levar a péssima qualidade de vida", diz o psiquiatra Roberto Tynakori. Qualquer pessoa com depressão crônica ou com um parente próximo que sofra de esquizofrenia sabe bem disso.

    Quando surgiu, no século 18, a psiquiatria era vista como uma prática menor, sem a objetividade necessária às coisas tratadas pela ciência. Se a própria definição de seu objeto de estudo era nebulosa, como seria possível propor diagnósticos e tratamentos confiáveis? A busca desesperada por explicações lógicas e maneiras científicas de tratar os males da mente produziu algumas das práticas mais macabras na história da ciência (veja quadros abaixo) e não teve muito sucesso até a metade do século 20. Somente quando o neurocientista português Egas Moniz ganhou o Prêmio Nobel de Medicina pela invenção da lobotomia - uma cirurgia de danificação dos lobos frontais que é vista hoje como um dos exemplos mais bem-acabados da crueldade enfrentada em hospitais psiquiátricos - é que a psiquiatria viu-se, finalmente, aceita entre os homens da ciência. "Pode-se dizer que uma nova psiquiatria nasceu em 1935 quando Moniz deu o primeiro passo corajoso em direção ao campo da psicocirurgia", escreveram os editores do New England Journal of Medicine em 1949. A psiquiatria havia, finalmente conquistado a credencial necessária para vestir o jaleco da medicina.

    A segunda revolução nos tratamentos veio algum tempo depois, com a criação dos remédios antipsicóticos. Agora era possível tratar pacientes mentais dispensando a internação - uma condição fundamental para a revolução que teria início na década de 1960: o fim dos manicômios. A invenção facilitou a vida de muitos pacientes, piorou a de outros (os efeitos colaterais costumam ser graves) e trouxe muito dinheiro para a indústria farmacêutica (só para citar um exemplo, o antipsicótico olanzapine é o terceiro remédio mais vendido do mundo).

    Mas o avanço nos tratamentos não resolvia a questão mais fundamental no processo: a precisão do diagnóstico. Há casos muito claros de perturbação mental, mas há outros em que é quase impossível determinar a linha que separa a simples imaginação humana da falta de lucidez restritiva típica das manias ou psicoses. David Rosenhan é uma prova disso.

    Quando seu artigo foi publicado, Rosenhan recebeu críticas duras de diversos psiquiatras. Muitos o acusaram de não ser suficientemente científico, afinal era impossível provar como os pacientes realmente haviam se comportado (Rosenhan nunca divulgou o nome das instituições em que foram internados já que, dizia, não era sua intenção atacar pessoalmente esse ou aquele hospital). Um dos grandes críticos do trabalho dele foi Robert Spitzer, que na época trabalhava no Centro de Pesquisa e Treinamento Psicanalíticos da Universidade Columbia, nos Estados Unidos. Spitzer acredita que o fato de terem sido liberados com o diagnóstico de esquizofrenia em remissão é uma prova de que os funcionários do hospital conseguiram sim distinguir a sanidade da insanidade. Ainda assim, Spitzer resolveu revisar o Manual de Diagnóstico vigente e logo percebeu que havia pouquíssimas provas científicas embasando os diagnósticos. Ele montou grupos de pesquisadores e foi atrás de pesquisas e evidências. Em 1974, lançou a terceira edição do DSM, um calhamaço de 480 páginas e quase 300 diagnósticos catalogados.

    OS LOUCOS FALAM

    Durante sua temporada no hospital psiquiátrico, David Rosenhan percebeu que "uma vez marcado como esquizofrênico, não há nada que o paciente possa fazer para superar essa etiqueta. A etiqueta muda completamente a percepção que os outros têm dele e de seu comportamento". Características normais, relatadas pelos pseudopacientes, foram interpretadas pelos enfermeiros como sinais da doença. A aproximação de um dos pais durante a adolescência, por exemplo, transformou-se em "ausência de estabilidade emocional" no relatório médico. E a irritação dos pacientes com a falta de atenção dos funcionários era vista como mais um sintoma da doença e não como reação aos maus tratos.

    Ao lutar por seu lugar entre as práticas da ciência, a psiquiatria moderna havia instituído uma relação com os doentes que ficou famosa na definição do filósofo francês Michel Foucault: o monólogo da razão sobre a loucura. A idéia de que pacientes mentais eram desprovidos de razão e, portanto, não tinham direito a opinar sobre sua vida e tratamento legitimou vários abusos da medicina. Esterilização forçada e proibição de casar são só dois exemplos do que era visto como verdade incontestável quando o assunto era a vida dos doentes mentais. Um dos jornais mais respeitados do mundo, The New York Times, escreveu em seu editorial, em 1923, que "é uma certeza que o casamento entre dois doentes mentais tem de ser proibido".

    A obra de Foucault transformou-se em inspiração para os movimentos que começavam a tomar corpo na década de 1960: a luta antimanicomial e a antipsiquiatria. Em todo o mundo, ex-pacientes de hospitais psiquiátricos começaram a se organizar contra os abusos da razão sobre a loucura. O objetivo era um só: dar "ao indivíduo a tarefa e o direito de realizar sua loucura", como escreveu Foucault.

    Mas até que ponto vai a liberdade do indivíduo de realizar sua loucura? Para a maior parte dos governos, o limite é o risco de morte. Foi exatamente por isso que Rosenhan e seus companheiros foram internados. Naquela época, acreditava-se que ouvir uma voz dizendo palavras como "oco" e "vazio" era um sinal de que, inconscientemente, aquela pessoa acreditava que sua vida era oca, que não valia a pena. Dali para o suicídio, seria um pulo, acreditavam os médicos. Mas nem todo mundo concorda que o tratamento deve ser obrigatório quando há risco de morte. "Qualquer tratamento forçado é ilegal", diz David Oaks, ex-paciente de hospitais psiquiátricos e fundador da organização Mind Freedom, uma organização que tem como um de seus lemas "psiquiatria cura discórdia, não doença".

    O fato de o tratamento ser imperativo quando existe risco de morte impede que, para algumas doenças, estudos sejam feitos usando dois grupos de pacientes: um medicado e outro não medicado. Sem provas de que o medicamento funciona melhor do que nenhum tratamento, a psiquiatria vira alvo de diversas críticas, principalmente no que diz respeito aos efeitos colaterais de seus medicamentos. "O que se espera da psiquiatria é que ela seja 100% eficaz  e que não tenha nenhum efeito colateral. Obviamente, ela não atinge esse objetivo", diz Bettarello. Mas nem todo mundo diz esperar 100% de eficácia. "No topo da minha lista de desejos está um simples pedido de honestidade", escreveu o jornalista médico Robert Whitaker no livro Mad in America ("Louco na América", sem edição em português). O livro faz um balanço das pesquisas sobre tratamentos psiquiátricos nos últimos anos e mostra como não existem evidências concretas para a maior parte das declarações de eficácia feitas pela indústria farmacêutica e, conseqüentemente, dentro dos consultórios psiquiátricos.

    Honestidade também é o que pedem os participantes do Mad Pride (Orgulho Louco), um movimento de combate ao preconceito contra pacientes psiquiátricos e de celebração da cultura Louca (com L maiúsculo mesmo). Uma das ações do movimento é a passeata anual de loucos, inspirada nas paradas gays que já existem em diversas cidades do mundo. A idéia é desestigmatizar os doentes mentais e mostrar que existe sim vida normal entre eles.

    No Brasil, o movimento da luta antimanicomial cresceu nos anos 80 e, inspirado em projetos bem-sucedidos dos Estados Unidos e Europa, idealizou centros de apoio a pacientes mentais organizados e administrados pelos próprios usuários, em conjunto com médicos e seus familiares. "A inserção não é algo que você concede a alguém. Ela precisa ser conquistada. O doente faz parte da sociedade e a relação que ele tem com sua doença é a mesma que a sociedade propõe", diz o psiquiatra Tykanori, um dos expoentes do movimento no Brasil. A luta antimanicomial transformou o atendimento público de saúde mental com a criação dos Caps, Centros de Apoio Psicossocial, e abriu caminho para a aprovação, em 2001, da lei que prevê a extinção progressiva dos manicômios no Brasil. E incluiu efetivamente os pacientes em sua batalha. "Nós entendemos que podemos colaborar na construção teórica de um saber e nas práticas de reabilitação psicossocial", escreveu a usuária Graça Fernandes no artigo "O avesso da vida. Como pode a assistência se transformar?". Os pacientes, finalmente, rompiam o monólogo da razão e estabeleciam um diálogo sobre sua própria condição. "A sociedade percebeu que a participação dos doentes mentais enriquece-nos muito mais que o seu isolamento", diz Tykanori.

    O QUE É NORMAL?

    Com os avanços da ciência, a baixa popularidade dos manicômios e a força dos movimentos organizados contra abusos psiquiátricos, é de se pensar que, se o experimento de Rosenhan fosse realizado nos dias de hoje, ele teria um resultado bem diferente do que o internamento imediato dos anos 70. Certo? Era isso que a psicóloga americana Lauren Slater queria descobrir quando decidiu procurar, em janeiro de 2004, oito prontos-socorros de saúde mental e afirmar que vinha ouvindo o som "tum-tum". Ela conta que, exatamente como Rosenhan e seus colegas, a voz foi o único sintoma falso que apresentou.

    Slater não foi tachada de esquizofrênica nem internada. No entanto, nos oito hospitais em que esteve, foi diagnosticada com depressão e recebeu pílulas de risperidone, um antipsicótico bem popular que, na época, era tido como um remédio leve (seis meses depois da experiência, o fabricante divulgou uma nota confessando ter minimizado os riscos do uso do medicamento nos materiais promocionais enviados a médicos). "Eu acredito que a ânsia de prescrever remédios dirige hoje o diagnóstico da mesma forma que a necessidade de enquadrar o paciente como doente fazia nos anos 70", escreveu Lauren no artigo Into the cuckoo´s nest ("Dentro do ninho do louco" uma referência a One Flew Over the Cuckoos’s Nest, o título em inglês do filme "Um Estranho no Ninho"), publicado no jornal britânico The Guardian e, mais tarde, no livro Mente e Cérebro, que acaba de ser lançado no Brasil.

    O médico Spitzer soube, pela própria Slater, do resultado do experimento. "Acho que médicos simplesmente não gostam de dizer eu não sei", disse a ela pelo telefone, depois de um longo silêncio. A recusa em confessar ignorância não é uma particularidade da psiquiatria. "O problema é que o objeto dessa ciência somos nós mesmos e nossa normalidade. Ou seja, nossa natureza básica", escreveu Lawrence Osbourne, no livro American normal: the hidden world of Asperger syndrome ("Normalidade americana: o mundo secreto da síndrome de Asperger", não lançado no Brasil), que reúne informações sobre Asperger, uma doença cada vez mais comum nos Estados Unidos.

    A síndrome de Asperger foi incluída no DSM-IV - a edição mais recente do manual, de 1994, com 884 páginas e 365 diagnósticos. Como o manual descreve os distúrbios a partir de seus sintomas,  lista uma variedade imensa de emoções humanas, condutas e regras de relacionamento como desvios patológicos. Sentir-se angustiado depois do fim de um relacionamento, comer muito, comer pouco ou comportar-se mal na sala de aula são alguns exemplos de ações que aparecem na lista. É quase impossível não se reconhecer ali e se perguntar: mas, afinal, o que é normal?

    Das duas uma: ou estamos mesmo ficando menos equilibrados - o que poderia ser explicado pelo ritmo e modos de vida do mundo moderno - ou nos viciamos em diagnósticos psiquiátricos. "Estamos transformando todo comportamento humano em patologia. Fazendo isso, criamos um sistema verdadeiramente louco, em que todos estão doentes", diz o psiquiatra Mel Levine, diretor do Centro Clínico de Estudos sobre Desenvolvimento e Aprendizado, da Univerdade da Carolina do Norte. Nos Estados Unidos, o uso de medicamentos psiquiátricos está atingindo níveis altíssimos. Crianças de 2 anos recebem prescrição de remédios cujos efeitos a longo prazo são completamente desconhecidos. "É muito mais fácil encaixar a criança difícil em uma categoria e medicá-la, do que deixar que ela desenvolva naturalmente suas habilidades sociais", diz Levine.
    E, como quase tudo na vida, o mais fácil nem sempre é o melhor. "Mais do que tudo, o aumento de diagnósticos psiquiátricos representa um aumento gradual do preconceito em nossa cultura", diz o psicólogo Richard DeGrandpre. Talvez seja a hora de começarmos a lidar melhor com as nossas próprias neuroses, manias e loucuras. E, sobretudo, aceitarmos nossas diferenças.

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    quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

    O CAMINHO QUE LEVA AO GRAAL

     

    A busca pelo "grande romance americano" (GRA), tão perseverante e complicada quanto a do Graal, tem seu Percival contemporâneo: Thomas Pynchon, 60 anos, nascido em Long lsland, Nova York. Ao contrário do cavaleiro medieval, Pynchon de inocente não tem nada. Mas sua diligência - que os inimigos chamam de insistência - é tal, que só se pode compará-lo com figuras lendárias desse porte. Como se não bastasse, ele vive recluso, foi fotografado em raras oportunidades e se mantém alheio aos debates de seu tempo, ao menos por meio da mídia. Tudo isso lhe confere ainda mais a aura de outsider, o que ele de fato é. No entanto, o que ele quer fazer é exatamente aquilo que a América Inocente, a qual ele castiga parágrafo a parágrafo, não conseguiu fazer até hoje: definir a nação, com todas suas contradições, ilusões e atrações. Seu último rormance, Mason E Dixon (sem previsão de lançamento no Brasil), tem todos os ingredientes que caracterizam o autor da V (1963, publicado no Brasil pela Paz e Terra), Gravity´s Roinbow (1973) e Vineland (1990, publicado no Brasil pela Cia. das Letras) e tem também todos os ingredientes que o GRA parece requisitar: é literalmente grande (773 páginas), faz um panorama histórico, usa personagens típicos e, apesar das ironias e sátiras, estabelece um ponto de vista no horizonte nacional.

    A metáfora do Graal não é firula do crítico. Nos romances e contos de Pynchon há sempre uma procura de algo além do alcance, ou do simples alcance material. E tal é o enredo subliminar ao american Way: busca-se a satisfação plena, indubitável, ideal - mas o que se consegue é sempre, apenas, a satisfação material e parcial, até que uma nova ilusão venha esgarçar seus limites e a procura recomece. Mas quem olha os Estados Unidos somente como o país dos arranha-céus e dos grand canyons, arrogante e triunfalista, com sua ambição de ser sempre o número 1, perde metade da história. Ciente disso, Pynchon enxerta seus cartapácios da oscilação, da polaridade que divide e dinamiza um país capaz de extremos de auto-acusação como de narcisismo. Sul e Norte. Melancólico e romântico. Mason e Dixon.

    Jamais subestime a ambição de Pynchon. Sua pretensão é representar a América, em toda sua complexidade ambivalente e febril, sempre a buscar algo mais e sempre a contestar esse algo mais ao se aproximar dele. Afinal, quem você acha que é, "V" uma aventureira estranha e elusiva que Benny Profane, um inglês puritano de meia-idade, persegue vertiginosamente? O que você entende por "arco-íris da gravidade"? Qual é o "vinhedo" de Vineland? Sim, a América. Em Mason & Dixon, lançado nos Estados Unidos no ano passado e exigindo lançamento no Brasil, Pynchon já não foi tão metafórico: Charles Mason (1728-86) e Jeremiah Dixon (1733-79) São personagens históricos, dois ingleses que traçaram a fronteira entre Pensilvânia e Maryland, conhecida como linha Mason-Dixon. Antes de ir aos Estados Unidos pré-independência, eles são vistos em viagem ao Cabo da Boa Esperança; e, depois das peripécias e facécias mil na demarcação da Nova Inglaterra, voltam a seu país natal, onde a Era da Razão lhes prega ainda outra peça. Nessa trajetória encontramos Benjamin Franklin e George Washington, ouvimos debates cínicos sobre abolir a escravidão, vemos a geografia confundir-se com a geopolítica, conhecemos uma pata-robô, um cão falante e um punhado de imigrantes. Variamos entre as vozes de Mason e Dixon e lemos frases como: "Será que a Britannia, quando dorme, sonha? A América é seu sonho?" De fato, nos sentimos em meio a um pesadelo:

    "Cada vez mais fiquei imaginando", diz Dixon, "se em algum lugar na Vastidão Americana haveria um Caminho, ainda não descoberto, que me levasse para fora de minha Perplexidade, para um lugar de Segurança em relação ao que era agora uma longa lista de Perseguidores. (...) Minha vida social estava aos pedaços".

    Todos os temas americanos por excelência - especialmente a aventura em oposição à estabilidade, ou seja, o conhecimento em oposição à segurança - estão aí. Mason e Dixon se metem em tanta confusão que começam a pôr em dúvida a necessidade de sonhar: "Romance, você deu o melhor de si", diz um para o outro, que responde: "Ah. Mas não o pior". Na terra das comunidades esotéricas que não raro se auto-aniquilam violentamente, as ilusões são provisórias e recursivas, num ciclo continuo, como o da cobra que morde o próprio rabo; e, na visão demoníaca de Pynchon, este se torna o quinhão de toda a humanidade: logo a dupla de ingleses se sente mais americana do que os próprios americanos e percebe-se que a América é como um extremamento, um estiramento do elástico para os dois lados, de forma que sua tensão é tal, que ele pode pular a qualquer minuto.

    O estilo de Pynchon é igualmente elástico para manter a peteca no ar durante toda essa viagem. Seu estoque de recursos tem poucos pares hoje em dia: humor negro, coloquialidade precisa, descrições curtas e ferinas, citações, cortes, pontuação - tudo dá a seu texto um cromatismo e uma energia formidáveis, como se Pynchon quisesse tornar seu livro tudo, menos filmável (tornando-o também quase intraduzível). Ele passeia pelos diversos gêneros e a sensação que temos de sua liberdade é incontestável. Apenas Philip Roth tem instrumental semelhante. Mas Roth tem um senso de construção dramática - de criação do clímax e sua reversão em anti-clímax - com uma empatia direta de que Pynchon não parece capaz, pois até mesmo em seus contos ele soa estratosférico, bizarramente fantasioso, aquilo que os ingleses chamam de whimsical. Pynchon tem feito uma coisa que o tempo mostrará perspicaz: ele usa um repertório científico de imagens e conceitos que muito contribui para a riqueza narrativa de seus livros. Toda história sua lida com termos como entropia, gravidade, heliocentrismo, etc., e Mason & Dixon é todo ele sobre a ansiedade humana de tudo medir e prever, de tudo demarcar e, pois, controlar. Daí a enormidade dos tombos. Aquilo que dá à América sua primazia - a ênfase na organização, na produtividade - lhe dá também seu desassossego. Há um preço alto a pagar para quem decide fundar um paraíso terreno.

    Mas aqui entramos numa questão difícil. Talvez seja a miopia de nossa época que não nos permita enxergar Pynchon a uma distância nítida, e certamente sua obra se projeta para o futuro com uma evidência que não encontramos na de John Updike, por exemplo; mas qual é sua real grandeza, talvez só o futuro dirá. A literatura americana, segundo Edmund Wilson, tem duas fortes linhagens: a psicológica, de Henry James, Scott Fitzgerald e Roth, e a naturalista, de Mark Twain, Ernest Hemingway e Cormac McCarthy. A primeira fala a linguagem de Mason, a segunda, a de Dixon. Há, de uns tempos para cá, a vontade de sintetizar ambas em uma só, e dessa fusão nasceria, então, o GRA. Updike de certa forma tenta isso, más não se aprofunda nem nos contornos psicológicos (sua real vocação) nem nos entornos físicos. Norman Mailer, cuja real vocação talvez seja a da segunda linhagem,idem. Harold Brodkey - que durante 30 anos teria finalmente elaborado o GRA, mas, quando The Runaway Soul foi publicado, viu-se que não era bem assim - também buscou o Graal e não o encontrou. Pynchon é, certamente, o que mais se aproximou dele.
    Mas a idéia de um romance-definidor não parece combinar com seu estilo. O que se espera sempre de um livro digno dessa classificação é um frescor, um certo gosto de pesar cada palavra com uma balança de alta sensibilidade. Assim são Memórias Póstumas de Brás Cubas, Os Sertões, e Grande Sertão: Veredas - os três grandes romances brasileiros, ainda que não tenhamos o grande romance urbano deste século. Também Twain e James tinham essa abrangência. Proust, Joyce e Mann - autores dos grandes romances europeus da modernidade - têm todos essa inventividade combinada com inteligência e cultura. O ponto não é comparar Pynchon com esses gigantes modernos, mas seus livros tendem a uma saturação e a um excesso, e flertam com o solipsismo. Seu modelo parece ser Laurence Sterne, autor de Tristram Shandy (que muito influenciou Machado, mas por sua visada elíptica), uma grande paródia moderna dos romances de cavalaria, satírica e não ambiguamente elegíaca como Don Quixote. O crítico Ezra Pound escreveu em seu ABC da Literatura que não recomendaria a ninguém escrever outro Tristram Shandy. Pynchon não lhe deu ouvidos, e seus livros são repletos de alusões, redundâncias, referências, como se ele quisesse o tempo todo encaixar sua tese das duas Américas em imagens e falas. Pound cortaria seu livro à metade e, sentimos, ele ainda assim ficaria de pé. O grande romance americano não precisa necessariamente ser um romance americano grande. Pynchon, que tanto ironiza o voluntarismo mecanicista do país, cometeu o mesmo crime de que o acusa. Ainda não demarcou suas fronteiras.

    O que e quanto

    Mason & Dixon, de Thomas Pynchon. Henry Holt, 773 págs., US$ 27,50

    Pynchon no Brasil

    V (1963), Ed. Paz e Terra

    Leilão do Lote 49 (1966), Cia. das Letras
    Vineland (1990). Cia. das Letras

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    quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

    Dica: Compras de Natal

    1 Travessas de cerâmica, R$ 65,00cada uma. Quadrifoglio.
    2 Geleira de ratã com pinça para gelo,R$ 350,00. Gentleman’s Corner.
    3 Liquidificador para milk-shake,R$ 159,00. Yellow’s House.
    4 Torradeira de aço escovado,R$ 273,70. Santa Cozinha.
    5 Cafeteira Oliver Hemming,R$ 338,00. Casa Mauro Freire.
    6 Picador de cebola, R$ 96,00. Tok & Stok.
    7 Garrafa térmica Alfi, R$ 136,90. Suxxar.
    8 Talheres de inox para servir,R$ 139,00 cada um. Glosh.
    9 Faca elétrica, R$ 199,00. Beauty Home.
    10 Potes para mantimentos, R$ 195,00o conjunto com quatro. M. Dragonetti.
    11 Panela para paella de ágata, R$ 75,80. Raul’s.
    12 Geladeirinha elétrica, R$ 299,00. Coqueluche’s Presentes.

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    terça-feira, 18 de dezembro de 2007

    Cidades Brasileiras: Juiz de Fora/MG

    Cidade do sudeste do Brasil, no estado de Minas Gerais, às margens do rio Paraibuna, na região montanhosa da serra da Mantiqueira. A cidade é um importante centro têxtil; além disso, há outras indústrias como a de tecidos, produtos metalúrgicos, pneumáticos, laticínios, açúcar e cortiça. Nos arredores da cidade são cultivados café, cana-de-açúcar, cereais, árvores para madeira, algodão e tabaco. A cidade tem faculdades de Direito, Farmácia, Odontologia e Engenharia. Fundada no século XIX, foi chamada anteriormente de Parahybuna, uma forma antiga do nome do rio. Em Juiz de Fora fez a maior parte de sua carreira política o ex-presidente Itamar Franco, que foi seu prefeito e deputado.

    População (1991): 385.734 habitantes.

    Microsoft ® Encarta ® Encyclopedia 2002.

    © 1993-2001 Microsoft Corporation. Todos os direitos reservados.

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    segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

    É SÓ RESPIRAR

     

    Na sala vazia e silenciosa, dois monges zen, com seus mantos e cabeças raspadas, estão sentados no chão, lado a lado, pernas cruzadas. Depois de alguns instantes, o mais jovem lança um olhar surpreso e irônico para o mestre. Sereno, o velho monge comenta: "É só isso, mesmo. Não vai acontecer mais nada". Não se trata de uma cena real. É só uma charge publicada na renomada revista americana The New Yorker, brincando com o novo hábito americano de meditar regularmente, como fazem os orientais há milhares de anos. A fina ironia da charge, no entanto, tem a ver com a realidade. Embora singela, a atitude de sentar sobre uma almofada (ficar em posição de lótus exige um preparo de monge) e ficar atento à própria respiração é tão fora de propósito em nossa rotina atabalhoada que é fácil se identificar com o jovem monge, perplexo e irônico, ao encará-la pela primeira vez. Comigo não foi diferente.

    Na primeira vez em que me detive a acompanhar o compasso da respiração, o sentimento inicial foi de surpresa. Espantei-me pela rapidez com que tudo caminhou para a inatividade. O turbilhão de pensamentos que ocupava minha mente (uma conta para pagar, uma cena do filme que vi no dia anterior, uma ótima piada para contar aos amigos) foi desaparecendo sem que eu me desse conta. O incômodo da perna dormente, pressionada pela flexão, logo foi substituído por um inesperado prazer, prazer de simplesmente respirar. Então, de repente, foi como se tudo houvesse parado nos primeiros segundos depois de acordar, aqueles instantes em que você se sente presente e alerta, mas com a cabeça vazia. Enfim, aqueles poucos segundos do dia em que nada acontece.

    Foi então que tudo ficou meio irônico: o êxtase, o delicioso estranhamento que entupiu meus sentimentos, acabou em um segundo! E no instante seguinte todos os pensamentos voltaram: a conta, o filme, a piada e mais um monte de coisas. Rindo comigo mesmo, me perguntei - talvez como um jovem monge perplexo e desconfiado - se não haveria algo mais divertido para fazer naquele instante. Mas logo me peguei novamente de olhos fechados.

    Quer dizer que meditar é só parar e não pensar em nada? É. Como afirmam os especialistas, é um não-fazer. Mas, acredite, não é fácil. Não para ocidentais como eu e você, acostumados com a idéia de que, para resolver um assunto, o primeiro passo é pensar bastante nele. Na meditação, a idéia é exatamente o oposto: parar de pensar, por mais bizarro que isso pareça.

    A novidade é que, mesmo parecendo alienígena, a meditação conquista cada vez mais adeptos no Ocidente. Dez milhões de americanos meditam regularmente em casa e em hospitais, escolas, empresas, aeroportos e até em quiosques de internet. Entre os milhões de meditadores americanos estão celebridades de grosso calibre, como o dirigente da Ford, Bill Ford, e o ex-vice-presidente Al Gore. No Brasil, a exemplo da Hollywood dos anos 90, a meditação entrou para a rotina de estrelas - como a atriz Christiani Torloni e a apresentadora Angélica, que recorreu à prática para livrar-se de uma crise de síndrome do pânico - e virou ferramenta diária de produtividade em empresas e até em alguns círculos do poder. O ex prefeito de Recife, João Paulo, por exemplo, só inicia o expediente após meditar por alguns minutos.

    Mas como é que algo assim, na contramão do pragmatismo moderno, consegue empolgar tanta gente? Como pode haver gente capaz de pagar caro para participar de sessões de meditação - ou seja, para ficar sentado em silêncio em uma sala quase sem móveis?

    Sem dúvida há muita gente desiludida com o modo de vida ocidental (a destruição do meio ambiente, a vida cada vez mais solitária das grandes cidades e a competição pelo ganha-pão). Mas esse contingente não é capaz de explicar, sozinho, a explosão da meditação. A verdade é que a ciência resolveu se debruçar sobre os efeitos dessa prática, e as notícias dos laboratórios de pesquisa cada vez convencem mais pessoas a relaxar em posição de lótus.

    O principal resultado dessas pesquisas pode ser resumido em duas palavras: meditação funciona. Ou seja, por mais estranho que pareça aos ratos de academia que se esfalfam em exercícios para melhorar a capacidade cardiorrespiratória, não fazer nada por alguns minutos diariamente tem efeitos palpáveis, reais e mensuráveis no corpo. E o melhor: só apareceram efeitos positivos (pelo menos até agora). Ou seja, aquilo que os adeptos da tradicional medicina chinesa e os mestres budistas viviam repetindo (com um sorriso bondoso no rosto) começa a ser comprovado por alguns renomados centros de pesquisa ocidentais, como as universidades Harvard, Columbia, Stanford e Massachusetts, nos Estados Unidos, e pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), no Brasil.

    É difícil listar as descobertas porque as pesquisas sobre a meditação alcançaram a maioridade recentemente. Mais precisamente no ano 2000, quando o líder do budismo tibetano, o Dalai Lama (sempre ele), encontrou-se com um grupo de psicólogos e neurologistas na Índia e sugeriu que os cientistas estudassem um time de craques em meditação durante o transe, para ver o que ocorria com seus corpos. Os cientistas abraçaram o desafio e, desde então, as pesquisas não param de produzir surpresas. Já se sabe, por exemplo, que meditar afeta, de fato, as ondas cerebrais. Sabe-se também que isso tem efeitos positivos sobre o sistema imunológico, reduz a tensão e alivia a dor. "Três décadas de pesquisas mostraram que a meditação é um bom antídoto ao estresse", diz o jornalista e psicólogo americano Daniel Goleman, autor dos livros Inteligência Emocional e Como Lidar com as Emoções Destrutivas, este o relato do encontro dos cientistas com o Dalai Lama.

    "Agora, o que está mira dos pesquisadores é saber como a meditação pode treinar a mente e reformatar o cérebro", afirma Daniel.

    A piada dos dois monges, lá no início desta postagem, não é gratuita. Afinal, faz séculos que se pratica meditação no Oriente, por recomendação religiosa. O detalhe é que agora a orientação também é médica. Nos anos 70, quando a prática começou a se espalhar pelo Ocidente, impulsionada pelo movimento hippie, o cantor e compositor brasileiro Walter Franco cantava que tudo era uma questão de "manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo". Hoje, os versos de Walter poderiam fazer parte de uma receita médica, de um treinamento em uma grande empresa ou até mesmo de um programa para a recuperação de presos.

    "Focalizar a atenção no mundo interior, como se faz na meditação, é uma situação terapêutica", diz o psicólogo José Roberto Leite, coordenador do instituto de medicina comportamental da Unifesp. "Queremos avaliar o alcance dessa prática e isolá-la de seu aspecto supersticioso." Por trás dessa intenção está o fato de que as causas de doenças mudaram muito nos últimos 100 anos. No passado, os males eram causados principalmente por microorganismos. As pessoas morriam de poliomielite, de sarampo, de varíola e outras doenças causadas por bactérias e vírus. Mas isso mudou, graças às melhorias em saneamento e à criação de antibióticos e vacinas. "Hoje, a maioria das doenças é causada por coisas como hipertensão, obesidade e dependência química, que estão ligadas a padrões inadequados de comportamento", diz José Roberto. Ou seja, o que mata hoje são os maus hábitos.

    E são esses maus hábitos que se pretende combater pela meditação, também conhecida pelo pomposo nome de "prática contemplativa". Apaziguar a mente, os cientistas estão descobrindo agora, pode reduzir o nível de ansiedade e corrigir comportamentos pouco saudáveis. O cardiologista Herbert Benson, da Universidade Harvard, um dos maiores pesquisadores da meditação e do poder das crenças na promoção da saúde, chega a estimar em seu livro Medicina Espiritual que 60% das consultas médicas poderiam ser evitadas se as pessoas apenas usassem a mente para combater as tensões causadoras de complicações físicas.

    Mas, afinal, como é que se medita e o que acontece durante a prática contemplativa? Bem, há um leque de modalidades para quem deseja meditar, mas a receita básica é a mesma: concentração. Vale concentrar-se na respiração, uma imagem (um ponto ou uma imagem de santo), um som ou na repetição de uma palavra (o famoso mantra, como "ohmmm", por exemplo). Parar de pensar equivale a ficar quase que exclusivamente no presente. Faz sentido. Os pensamentos são feitos basicamente de duas substâncias: as idéias e experiências que ouvimos, vivemos ou aprendemos no passado e os planos e apreensões que temos para o futuro. É naqueles raros momentos em que o meditador consegue livrar-se desses ruídos que surgem os sentimentos comuns nas descrições de iogues famosos: sensação de estar ligado com o Universo ou ter uma superconsciência do mundo. Meditar é, portanto, concentrar-se em cada vez menos coisas, inibindo os sentidos e esvaziando a mente. Tudo isso sem perder o estado de alerta, ou seja, sem dormir.

    Mas como saber se deu certo? Como saber se você meditou? Essa é a melhor parte da história: não há nota ou avaliação. A não ser que você medite plugado em um aparelho de eletroencefalograma para saber se suas ondas cerebrais se alteraram. Como isso é pouco prático, a melhor medida para seu desempenho é você mesmo. Só você pode dizer o que sentiu e se foi bom.

    BIOLOGIA DO ZEN

    Os efeitos da meditação sobre o corpo são surpreendentes. Nos primeiros estudos sobre a meditação, na década de 60, o cardiologista Benson, de Harvard, e outros pesquisadores submeteram meditadores a experimentos nos quais a pressão arterial, os ritmos cerebrais e cardíacos e mesmo a temperatura da pele e do reto eram monitorados. Constatou-se então que, enquanto meditavam, eles consumiam 17% menos oxigênio e seu ritmo cardíaco caía para incríveis três batimentos por minuto (a média para pessoas em repouso é de 60 b.p.m.). Isso acontecia quando as ondas cerebrais alcançavam o ritmo teta, mais lento e poderoso, no qual a mente atingiria o estado de "superconsciência" relatado pelos iogues e caracterizado por insights e alegria.

    As ondas teta vibram a apenas quatro ciclos por segundo. Para se ter uma idéia, quando estamos ativos o cérebro emite ondas beta, de oscilação em torno de 13 ciclos por segundo. Você conhece essa sensação causada pelas ondas teta. É aquele embotamento dos sentidos que surge nos segundos que antecedem o sono. Naquele momento, nosso cérebro funciona no ritmo teta. Mas os meditadores pesquisados não estavam dormindo. Ao contrário, estavam bem acordados e serenos.

    Mais tarde, percebeu-se também que no momento da meditação o fluxo sanguíneo diminuía em quase todas as áreas cerebrais, mas aumentava na região do sistema límbico, o chamado "cérebro emocional", responsável pelas emoções, a memória e os ritmos do coração, da respiração e do metabolismo. O cardiologista Benson, que escreveu um clássico sobre o tema nos anos 90 - A Resposta do Relaxamento - , tomou emprestado um pouco da humildade oriental e disse que seu trabalho se resumiu a explicar biologicamente técnicas conhecidas há milênios.

    Desde então, uma série de novas pesquisas, respaldadas em imagens da intimidade neurológica feitas por tomógrafos sofisticados que retratam o cérebro em funcionamento, levantou o véu sobre outros segredos. Um dos estudos mais abrangentes e reveladores foi realizado por Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. A idéia era registrar o que ocorre com o cérebro quando se alcança o clímax em práticas místicas como a meditação e a oração. Newberg rastreou a atividade cerebral de um grupo de budistas em meditação profunda e de um grupo de freiras franciscanas rezando fervorosamente.

    Ele constatou uma significativa alteração no lobo parietal superior, localizado na parte anterior do cérebro e responsável pelo senso de orientação - a capacidade de percepção do espaço e do tempo e da própria individualidade. Segundo as descobertas de Newberg, à medida que a contemplação se torna mais profunda, a atividade na região diminui aos poucos até cessar totalmente no momento de pico, aquele em que o meditador experimenta a sensação de unicidade com o Universo, cerca de uma hora após o início da concentração. Nesse instante, privados de impulsos elétricos, os neurônios do lobo parietal desligam os mecanismos das funções visuais e motoras e o meditador ou devoto perde a noção do "eu" e sente-se prazerosamente expandido, além de qualquer limite. É o nirvana. Ou seja, Newberg registrou em seus aparelhos a imagem de um cérebro literalmente no paraíso.

    Mas não é só isso. As imagens revelaram que, durante a experiência, os lobos temporais (sede das emoções no cérebro) tiveram sua atividade redobrada, o que explicaria a enorme influência da meditação sobre as emoções e a personalidade dos praticantes. Newberg não teve dúvida em sua conclusão: as sensações de elevação e contato com o divino vivenciadas por budistas e freiras são um fenômeno real, baseado em fatos biológicos.

    Mas há quem veja tudo isso com uma certa desconfiança. "Ao que parece, estamos diante de um fenômeno de marketing", disse Richard Sloan, psicólogo do Centro Médico Presbiteriano de Columbia, em Nova York, comentando o encontro do Dalai com os cientistas, há três anos. Segundo Richard, é discutível se o impacto da meditação sobre o sistema nervoso e a saúde tem um efeito profundo e duradouro ou apenas superficial e efêmero. Então, está na hora de conferir o que os estudos dizem a respeito. 

    MENTE QUIETA, CORPO SAUDÁVEL

    A meditação ajuda a controlar a ansiedade e a aliviar a dor? Ao que tudo indica, sim. Nessas duas áreas os cientistas encontraram as maiores evidências da ação terapêutica da meditação, medida em dezenas de pesquisas. Nos últimos 24 anos, só a Clínica de Redução do Estresse da Universidade de Massachusetts monitorou 14 mil portadores de câncer, aids, dor crônica e complicações gástricas. Os técnicos descobriram que, submetidos a sessões de meditação que alteraram o foco de sua atenção, os pacientes reduziram o nível de ansiedade e diminuíram ou abandonaram o uso de analgésicos. Ou seja, eles aprenderam a entender a dor, em vez de combatê-la. Com isso, deixaram de antecipá-la ou amplificá-la por meio do medo de vir a senti-la. Sim, porque boa parte da sensação dolorosa é psicológica, fabricada pelo medo da dor. Resultado: as queixas de dor, segundo o diretor da clínica, Jon Kabat-Zinn, diminuíram, em média, 40%.

    No hospital da Unifesp, em São Paulo, a meditação é indicada para pacientes com fibromialgia (dores nos músculos e articulações), fobias e compulsões. Ali, estudo recente dirigido pela doutora em biologia Elisa Harumi Kozasa atestou a melhoria da agilidade mental e motora em ansiosos e deprimidos que, durante três meses, meditaram sob a orientação de instrutores indianos. Outra pesquisa, coordenada pelas psicólogas Márcia Marchiori e Elaine de Siqueira Sales, deve comparar nos próximos meses os efeitos terapêuticos da meditação com os das técnicas de relaxamento físico.

    O desempenho antiestresse da meditação, segundo estudos das universidades americanas Stanford e Columbia, acontece porque a mente aquietada inibe a produção de adrenalina e cortisol - hormônios secretados nas situações de estresse, ao mesmo tempo que estimula no cérebro a produção de endorfinas, um tranqüilizante e analgésico natural tão poderoso quanto a morfina e responsável pela sensação de leveza nos momentos de alegria.

    Já parece motivo suficiente para render-se aos mantras, mas tem mais. Investigações realizadas na Universidade Wisconsin, nos Estados Unidos, acrescentaram que meditar também melhora a ação do sistema imunológico, que defende o organismo contra o ataque de microorganismos (bactérias, vírus e outros germes). A experiência comparou dois grupos de voluntários - um constituído de pessoas que meditavam havia alguns meses e o outro de não-meditadores. Primeiro constatou-se que os meditadores tiveram um aumento na atividade da área cerebral relacionada às emoções positivas. Então, ambos os grupos foram vacinados contra gripe e submetidos a medições quatro semanas e oito semanas depois. O pessoal habituado a entoar mantras apresentou um número bem maior de anticorpos, o que sugere que seus sistemas de defesa estavam mais ativos.

    Durante um encontro da Associação Americana de Urologia, anunciou-se que a meditação ajuda a conter o câncer da próstata. E alguns pesquisadores relataram que mulheres com câncer de mama que passaram a meditar tiveram elevação no nível de células imunológicas que combatem tumores. Mas essas descobertas estão longe de alcançar a unanimidade entre os cientistas. O psiquiatra americano Stephen Barret, um dos principais críticos às terapias alternativas nos Estados Unidos, desconfia desses resultados. "Meditar pode aliviar o estresse, mas sua ação nunca irá além disso no tratamento de doenças graves, como o câncer." Mesmo um entusiasta da técnica, como Herbert Benson, não descarta os tratamentos ocidentais tradicionais. Para ele, a saúde e a longevidade no mundo moderno serão, cada vez mais, resultado de um tripé formado por remédios, cirurgias e cuidados pessoais, incluindo-se aqui a meditação e todo o poder catalisador das crenças nas reações orgânicas.

    O CÉREBRO REPROGRAMADO

    Mas ainda há muita coisa para ser descoberta sobre o mantra e os pesquisadores estão debruçados sobre os meditadores, tentando entender como é que um ato tão simples causa tantas modificações. Estudos como o de Wisconsin, que ligam disciplina mental a emoções positivas e ao bom desempenho do sistema imunológico, atiçam o interesse dos cientistas em avaliar o real poder da meditação na reformatação das funções cerebrais. E o que eles estão descobrindo é que, com suficiente prática, os neurônios podem reprogramar a atividade dos lobos cerebrais, especialmente a área relacionada à concentração e à orientação.

    Não dá para negar que, sobre concentração, o Dalai Lama e os orientais, com sua atenção aos detalhes e sua atenção extrema, têm muito a ensinar aos ocidentais. "Só há pouco a psiquiatria ocidental reconheceu a existência do transtorno do déficit de atenção (uma síndrome caracterizada pela dificuldade de concentração, baixa tolerância à frustração e impulsividade), mas há milhares de anos tradições como o budismo afirmam que todos sofremos desse distúrbio com mais ou menos intensidade", diz o psiquiatra Roger Walsh, da Universidade da Califórnia em Irvine.

    A possibilidade de alterar em profundidade o cérebro, apenas meditando, talvez possa no futuro ajudar a prevenir ou a superar complicações vasculares a custo bem mais baixo que o das cirurgias. Ou a romper condicionamentos e redirecionar as mentes de indivíduos anti-sociais - o que, aliás, vem sendo testado com relativo êxito. Numa experiência na Kings County North Rehabilitation Facility, penitenciária próxima a Seattle, nos Estados Unidos, um grupo de prisioneiros condenados por crimes relacionados ao consumo de droga e álcool praticou vippassana (meditação budista com foco inicial na respiração, seguida de análise existencial) 11 horas por dia durante dez dias. Após voltarem para casa, apenas 56% deles reincidiram na criminalidade no prazo de dois anos, um índice considerado bom comparado aos 75% de reincidência entre os que não meditaram.

    Já na Universidade Cambridge, nos Estados Unidos, um estudo constatou a redução de até 50% nas recaídas de pacientes com depressão crônica que passaram a meditar regularmente. A doença é acompanhada por uma diminuição no nível do serotonina no cérebro, processo geralmente revertido com o uso de antidepressivos, como Prozac. A meditação aumenta a produção desse neurotransmissor, funcionando como um antidepressivo natural. Em Cotia, em São Paulo, um programa de meditação para crianças carentes, conduzido pela monja Sinceridade no Templo Zu Lai (sede da primeira universidade budista do país), tem resultado em mudanças no comportamento de 128 meninos de favelas. "Eles melhoraram significativamente a concentração. E a convivência social com eles tornou-se mais tranqüila", diz ela.

    FAST FOOD MENTAL?

    Toda essa popularidade, porém, não permite afirmar que a meditação continuará mantendo alguma identidade com a prática ancestral do Oriente. Além de sua gradual transformação em técnica laica, ocorre neste momento uma rápida adaptação do modo de usá-la ao estilo de vida ocidental.

    Em vez de contemplações que duram uma eternidade (você aí teria pique para ficar quatro horas sentado no chão, imóvel, como faz diariamente o Dalai Lama?), tornou-se padrão a meditação de 20 minutos duas vezes ao dia. Ainda assim, isso parece exigir uma boa dose de sacrifício de inquietos habitantes de metrópoles como Nova York e São Paulo. No próximo ano, o autor Victor Davich lançará nos Estados Unidos o livro Eight Minutes that Will Change your Life ("Oito Minutos que Mudarão sua Vida") no qual defenderá um tipo de meditação "fast food" de não mais que oito minutos. Segundo ele, esse é o tempo que os americanos estão acostumados a se concentrar diariamente: os blocos de programas de TV duram exatamente isso, entre um comercial e outro. Da mesma forma, os mantras sonoros em sânscrito das meditações místicas foram substituídos por mantras mentais, baseados em palavras escolhidas ao acaso.
    Tais ajustes são vistos com reservas por iogues, praticantes tradicionalistas e até instrutores mais liberais, como a americana Susan Andrews, para quem é saudável tirar a meditação "das nuvens do esoterismo" e aproximá-la da ciência. "Relaxamento e pensamento positivo são efeitos colaterais da meditação, não sua meta", diz Susan. "O grande alvo é atingir a hiperconsciência, o samadhi, aquele estado de plenitude, iluminação e êxtase indescritível." A questão é que para chegar lá o meditador precisa deixar de lado a idéia de que meditar não implica qualquer esforço, cuidando de manter a concentração firme e afinada por pelo menos uma hora. E isso, admitamos, é algo que também exige um preparo de monge.

    Passo a passo

    Sentado

    No chão ou em uma cadeira, mantenha a coluna ereta e concentre-se nos movimentos da respiração, observando a entrada e a saída do ar pelas narinas. Se preferir, concentre-se num mantra, que pode ser qualquer palavra, uma frase ou apenas um murmúrio. Repita seu mantra a cada expiração. Fechar os olhos pode ajudar. Se ficar de olhos abertos, concentre o olhar em um ponto.

    Em pé

    Posicione-se junto a uma fileira de árvores e tente se sentir como uma delas. Concentre-se na respiração e imagine seus pés desenvolvendo raízes no chão.

    Caminhando

    É uma boa saída para quem, por algum motivo, não consegue ficar imóvel. O segredo é focar as pisadas, vendo-as como um todo ou como segmentos do movimento, que pode ser lento ou acelerado. Melhor caminhar em círculo, sem a expectativa de um ponto de chegada.

    Visualização

    Crie uma imagem significativa para você - pode ser um símbolo religioso ou uma paisagem - e concentre-se nela.

     

    Entre o céu e os neurônios

    Hinduísmo

    Textos sagrados do período védico, entre 2000 e 3000 a.C., fazem referências a mantras e contemplações. A meditação é uma das principais práticas do conjunto de escolas religiosas da Índia conhecido como hinduísmo.

    Budismo

    Foi meditando debaixo de uma figueira que o príncipe Sidarta Gautama alcançou a iluminação, por volta de 588 a.C., tornando-se o Buda. Prática fundamental no budismo, a meditação é vista, sobretudo, como um método de examinar a realidade pessoal e eliminar condicionamentos.

    Cristianismo

    Os chamados padres do deserto, da região de Alexandria, no Egito, é que consolidaram a meditação como hábito cristão no século 4. A prática, disseminada nos monastérios, desde o século passado vem sendo adotada por cristãos leigos.

    Judaísmo

    Os praticantes da Cabala, tradição esotérica judaica, difundiram a meditação entre seus adeptos na Europa, por volta do ano 1000, como uma forma de entrar em comunhão com Deus.

    Islamismo

    Também por volta do ano 1000, os sufis, que constituem o segmento místico dos muçulmanos, incorporaram a meditação aos seus rituais, os quais incluem o êxtase místico por meio da dança.

     

    Independentes

    Em 1967, um encontro dos Beatles com o guru Maharishi Mahesh Yogi iniciou a expansão da meditação transcendental no Ocidente e o florescimento de uma infinidade de gurus e técnicas meditativas que, desde então, atraem adeptos em toda parte.

    Para saber mais

    Na livraria

    A Mente Alerta, Jon Kabat-Zinn, Objetiva, Rio de Janeiro, 2001

    Meditação e os Segredos da Mente, Susan Andrews, Instituto Visão Futuro, Porangaba, 2001

    Why God Won´t Go Away, Andrew Newberg, Ballantine, Nova York, 2001

    Yoga, Caco de Paulo e Marcia Bindo, São Paulo, Superinteressante, 2002

    A Resposta do Relaxamento, Herbert Benson, Nova Era, 1995

    Medicina Espiritual, Herbert Benson, Campus, Rio de Janeiro, 2003

    Na internet

    www.dharmanet.com.br

    www.yoga.pro.br
    www.mindandlife.org

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    domingo, 16 de dezembro de 2007

    Papel de Parede Natalino

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    sábado, 15 de dezembro de 2007

    Video Natalino

    Cuidado! Hackers de Natal
    Cuidado! Hackers de Natal

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    sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

    Há 10 Anos Atrás

    14.12.1997

    Justiça autoriza aborto de menina de 11 anos


    O juiz Luiz Olímpio Magabeira Cardoso, da comarca de Sapucaia (RJ), autoriza  a realização de um aborto em M., 11, com
    uma gravidez de quatro meses fruto de um estupro. A autorização foi pedida pelo pai da menina, um agricultor pobre e analfabeto do
    município. No mesmo dia, M. é internada na maternidade Fernando Magalhães, no Rio

    Para entender melhor o fato:

    O caso de M., grávida aos 11 anos

    Você não verá o rosto nem saberá o nome da menina que se tornou a grande personagem das conversas deste Natal. M., 11 anos completados há uma semana, é uma criança negra, muito pobre, fã da Xuxa, boa aluna, que sonhava em casar, ter filhos e se tornar professora. Há quatro meses M. foi estuprada, ficou grávida e sua família resolveu fazer aborto com autorização da Justiça, que permite a interrupção da gravidez em caso de estupro e também quando a mãe corre risco de vida. Na segunda-feira passada, a autorização saiu. No mesmo dia, M. foi internada para se submeter à operação. Na terça-feira à noite, sem gritaria nem discurso, a família voltou atrás e resolveu: a criança M. terá o bebê  decisão que tornará mais difícil ainda à garota conseguir diploma de professora.

    “Se fosse minha filha, levava a uma clínica, abortava e pronto”, reconhece um magistrado de um tribunal superior, referindo-se à duplicidade de direitos que vigora no país nessa matéria. A gravidez de uma menina como M. é diferente. Seus pais, os agricultores Valter Oliveira e Maria da Penha, moram num casebre de barro e madeira no sítio Santa Clara, a uma hora por estrada de terra do centro de Sapucaia, grotão de 17.000 habitantes, no Rio de Janeiro. O pai, a mãe, M. e sua irmã mais velha, de 13 anos, trabalham juntos na roça colhendo jiló e berinjela, e recebe um salário mínimo  para a família inteira. Falta dinheiro para o dentista, para a roupa e para a condução. Imagine se vai sobrar para um aborto. Na vida de pessoas como M., o aborto acontece em casa, com aqueles riscos que se conhecem, ou na rede pública  além de cumprir todas as exigências legais, ainda é preciso achar um hospital onde os médicos não se recusem a fazer a cirurgia alegando razões de consciência. Por isso o caso de M. colocou a discussão sobre o aborto onde ela deve estar. Entre brasileiros comuns  e não como um conflito entre feministas e padres em torno da votação de um artigo que pretende regulamentar o aborto em hospitais públicos. Desde 1940, quando Getúlio Vargas assinou o Código Penal, que essa autorização existe. Mas não é fácil fazer aborto na rede pública, especialmente em caso de estupro  crime que a polícia tem conhecida má vontade para reconhecer.

    A família tomou uma decisão acertada quando resolveu fazer o aborto  queria salvar a infância de sua filha. Mas também tomou a decisão acertada quando resolveu que M. teria a criança  pois ninguém pode ser obrigado a interromper uma gravidez. “Estou mais tranqüilo agora. Fiquei triste em ter de tirar uma vida, não é certo. Agora eu tenho o apoio das pessoas e soube que minha filha não corre risco de vida”, justificou o pai da menina, ao mudar de decisão. A família de M. é muito pobre, mas, embora o feto no ventre da garota se tenha transformado até em fonte de recursos, chega a ser um insulto preconceituoso dizer que tudo se fez apenas por dinheiro. Grupos católicos deram a seus pais uma TV colorida e a própria M. recebeu uma boneca  de segunda mão. Também lhe foi oferecido auxílio médico, apoio psicológico e até financeiro  coisa que jamais se viu na pequena casa onde mora. Militantes da comissão diocesana de defesa da vida saíram de São José dos Campos para conversar com a família. Um médico batista e sua mulher deixaram Pouso Alegre, em Minas Gerais, com a mesma finalidade. Na quarta-feira passada, uma das coordenadoras do movimento Pró-Vida, no Rio de Janeiro, o mais vigoroso no combate à regulamentação do aborto, Elizabeth Sá, 40 anos, esteve com Maria da Penha e com M. no hospital, onde ofereceu apoio à família. “Nós fazemos isso há dez anos com todas as grávidas carentes. Já temos mais de 1.000 moças”, diz ela. Na próxima semana, uma comissão irá a Sapucaia levar cobertores, roupas e mantimentos. Mas ninguém ofereceu dinheiro. “Neste caso, não há necessidade porque a família tem condições de se manter”, completa Elizabeth.


    Microcesariana

    Na família de M., a gravidez aos 11 anos foi uma tragédia. Um dia, quando ajudava os pais na lavoura, ela se distraiu e fez xixi nas calças. Foi para casa trocar de roupa e, na saída, encontrou um lavrador, conhecido na região por beber demais, que a dominou com socos. “Ela não contou nada. Ficou quieta durante alguns dias. Depois, os enjôos começaram. Eu queria me matar quando soube da gravidez”, lembra a mãe. O pai ficou dois dias de cama, com uma dor de cabeça insuportável. Levantou decidido: M. faria o aborto. A mãe hesitou, mas terminou cedendo. “Para um adulto, carregar uma criança é ruim. Para uma criança é pior”, diz Maria da Penha, que ficou grávida cinco vezes mas perdeu três filhos em abortos naturais. Na segunda-feira passada, o juiz de Sapucaia Luiz Olímpio Mangabeira Cardoso concedeu a autorização para o aborto, após meditar por cinco dias. “Pessoalmente sou contra o aborto. É preciso deixar bem claro que eu não determinei o aborto. Apenas autorizei”, diz.

    Numa conversa com o juiz, a garota disse que não queria ter o bebê. “Sou muito criança para ter filho agora. Quero estudar antes de casar e ter filhos”, pediu. Quem protestou contra a decisão foi o cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, dom Eugênio Sales. “Não é atribuição do juiz dirimir quem deve ser assassinado, a mãe ou o feto.” Levada no mesmo dia ao Rio de Janeiro para ser internada, M. chegou ao hospital assustada, chorando. “Ela só dizia que tinha uma coisa na barriga e ia tirá-la”, conta a médica Carmen Athayde dos Santos, diretora do hospital. A equipe médica encontrou um quadro clínico perfeito e recomendou microcesariana para a extração do feto.


    O bebê e o debate

    Enquanto os médicos faziam os últimos exames, os pais mudaram de idéia. Eles foram convencidos pelo padre Luiz Fraga Magalhães, da paróquia de Sapucaia, e pelo médico mineiro Altamiro Sathler. O interessante é que, se o juiz ficou em dúvida, o padre da cidade também. No começo, nem ele era enfático ao condenar a decisão de interromper a gravidez. “Sou contra o aborto, mas esse caso é diferente. A menina só tem 11 anos”, disse, no sábado, mudando de postura apenas depois de levar um puxão de orelha de seus superiores. O médico Sathler é evangélico e obstetra aposentado. Viajou 500 quilômetros com a mulher, a advogada Vera Lúcia, para impedir o aborto. Em uma conversa com o pai de M., ele contou que já tinha acompanhado a gravidez e o parto de uma menina de 9 anos. “Não há risco de vida para a menina nem para o bebê”, afirma. Sem sequer ter examinado a garota, Sathler saiu do hospital levantando dúvidas sobre a virgindade de M. “Até que ponto essa gravidez não foi resultado de outras aproximações e ainda por cima consentidas pela menina? Não posso afirmar que isso tenha acontecido com ela, mas, muitas vezes, a criança tem prazer e aceita a relação sexual.” Ao levantar essa suspeita, Sathler comete uma grosseria indevida, mas sua questão é irrelevante. O Código Penal diz que qualquer relação sexual com menores de 14 anos é considerada estupro.

    “Ela é uma criança. Vai pagar algum custo por isso, mas isso depende da vida que ela teve. Ela poderia até fazer um aborto e não entender o que aconteceu. Mas não tem condições de dar conta de outra criança”, diz a sexóloga e psicóloga Rosely Sayão. “As meninas pobres em geral não têm alternativa a não ser levar a gravidez adiante. Esse é um fenômeno que se repete em mães e filhas”, diz o obstetra João Luis Pinto e Silva, chefe da maternidade do Centro de Atenção Integrada à Saúde da Mulher da Unicamp. “Ela é o retrato do abandono e da exclusão que permeiam a vida da sociedade brasileira. Foi usada e perdeu o direito à infância. Mas ninguém deve ser pressionado a fazer um aborto. Queremos é pressionar o Estado para que a mulher tenha o direito de optar”, diz Eleonora Menicucci de Oliveira, da Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos. Enquanto o bebê cresce na barriga de M., com o parto previsto para maio, o debate político prossegue em Brasília. Aprovado na comissão de Constituição e Justiça, o projeto de regulamentação está parado por pressão da bancada antiaborto. O debate segue em 1998.

    Mais tolerância

    77% da população apóia o aborto em caso de estupro

    79% são a favor da interrupção da gravidez quando há risco de vida para a mãe

    79% do católicos aprovam o aborto nos casos de estupro e risco de vida para a mãe

    Fonte: Datafolha, a partir de pesquisa na cidade de São Paulo

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