sábado, 30 de setembro de 2006

O Que é Democracia? - Parte 1

Democracia é um regime de governo onde o poder de tomar importantes decisões políticas está com os cidadãos (povo). Para usar uma frase famosa, democracia é o "governo do povo para o povo". Democracia se opõe às formas de ditadura e totalitarismo, onde o poder reside em uma elite auto-eleita.
Democracias podem ser divididas em diferentes tipos, baseado em um número de distinções. A distinção mais importante acontece entre democracia direta (algumas vezes chamada "democracia pura"), onde o povo expressa sua vontade por voto direto em cada assunto particular, e a democracia representativa (algumas vezes chamada "democracia indireta"), onde o povo expressa sua vontade através da eleição de representantes que tomam decisões em nome daqueles que os elegeram.
Outros itens importantes na democracia incluem exatamente quem é "o Povo", isto é, quem terá direito ao voto; como proteger os direitos de minorias contra a "tirania da maioria" e qual sistema deve ser usado para a eleição de representantes ou outros executivos.

Definição Alternativa de 'Democracia'

Há outra definição de democracia além da descrita acima, embora seja menos usada. De acordo com essa definição, a palavra democracia se refere somente ao regime direto, enquanto representativa é conhecida como república.

As primeiras origens desta definição podem ser encontradas no trabalho de Aristóteles que distingüiu, no seu livro Política, seis formas de governo, seja, por poucos ou muitos, e se a administração era justa ou injusta. Ele chamou de demokratia (democracia) um governo injusto governado por muitos, e um sistema justo governado por muitos chamou politeia, normalmente traduzido como república (do latim res publica, 'coisa pública'). A demokratia de Aristóteles chegou mais perto do que hoje podemos chamar democracia direta, e politeia se aproximou do que podemos chamar democracia representativa, embora a demokratia ainda tenha executivos eleitos.

As palavras "democracia" e "república" foram usadas de forma similar a Aristótoles por alguns dos fundadores Estados Unidos. Eles argumentavam que só uma democracia representativa (por si chamada 'república') poderia proteger o direito dos indivíduos; usavam a palavra 'democracia' para se referir à direta considerada tirânica.

Nem a definição de Aristóteles nem a dos primeiros administradores americanos é normalmente usada atualmente -- a maioria dos cientistas políticos hoje (e ainda mais do que o povo em geral) usa o termo "democracia" para se referir a um governo pelo povo, seja direto ou representativo. Diz-se "república" normalmente significando um sistema político onde um chefe de estado é eleito por um tempo limitado, oposto de uma monarquia constitucional.

No entanto, os termos mais antigos ainda são usados algumas vezes em discussões de teoria política, especialmente considerando o trabalho de Aristóteles ou dos "Pais Fundadores" americanos. Essa terminologia antiga também tem alguma popularidade entre políticos conservadores e liberais nos Estados Unidos.

Entre outras definições, pode-se afirmar nesse artigo, que democracia inclui a direta e indireta.

Democracia Direta

Democracia direta se refere ao sistema onde os cidadãos decidem diretamente cada assunto por votação. Em democracias representativas, em contraste, os cidadãos elegem representantes em intervalos regulares, que então votam os assuntos em seu favor.

A democracia direta se tornou cada vez mais difícil, e necessariamente se aproxima mais da democracia representativa, quando o número de cidadãos cresce. Historicamente, as democracias mais diretas incluem o encontro municipal de Nova Inglaterra (dentro dos Estados Unidos), e o antigo sistema político de Atenas. Nenhum destes se enquadraria bem para uma grande população (embora a população de Atenas fosse grande, a maioria da população não era composta de pessoas consideradas como cidadãs , que, portanto, não tinha direitos políticos; não os tinham mulheres, escravos e crianças).

É questionável se já houve algum dia uma democracia puramente direta de qualquer tamanho considerável. Na prática, sociedades de qualquer complexidade sempre precisam de uma especialização de tarefas, inclusive das administrativas; e portanto uma democracia direta precisa de oficiais eleitos. (Embora alguém possa tentar manter todas as decisões importantes feitas por voto direto, com os oficiais meramente implementando essas decisões).

Do mesmo modo, muitas democracias representativas modernas incorporam alguns elementos da democracia direta, normalmente referenda.

Nós podemos ver democracias diretas e indiretas como os tipos ideais, com as democracias reais se aproximando umas das outras. Algumas entidades políticas modernas, como a Suíça ou alguns estados americanos, onde é freqüente o uso de referenda iniciada por petição (chamada referenda por demanda popular) ao invés de membros da legislatura ou do governo. A última forma, que é freqüentemente conhecida por plebiscito, permite ao governo escolher se e quando manter um referendum, e também como a questão deve ser abordada. Em contraste, a Alemanha está muito próxima de uma democracia representativa ideal: na Alemanha as referendas são proibidas -- em parte devido à memória de como Adolf Hitler usou isso para manipular plebiscitos em favor de seu governo.

O sistema de eleições que foi usado em alguns países comunistas, chamado centralismo democrático, pode ser considerado como uma forma extrema de democracia representativa, onde o povo elegia representantes locais, que por sua vez elegiam representantes regionais, que por sua vez elegiam a assembléia nacional, que finalmente elegia os que iam governar o país. No entanto, alguns consideram que esses sistemas não são democráticos na verdade, mesmo que as pessoas possam votar, já que a grande distância entre o indivíduo eleitor e o governo permite que se tornasse fácil manipular o processo. Outros contrapõem, dizendo que a grande distância entre eleitor e governo é uma característica comum em sistemas eleitorais desenhados para nações gigantescas (os Estados Unidos e algumas potências européias, só para dar algums exemplos considerados inequivocamente democráticos, têm problemas sérios na democraticidade das suas instituições de topo), e que o grande problema do sistema soviético e de outros países comunistas, aquilo que o tornava verdadeiramente não-democrático, era que, em vez de serem escolhidos pelo povo, os candidatos eram impostos pelo partido dirigente.

Democracia é uma coisa boa?

Quase todos estados hoje apoiam a democracia em princípio, embora geralmente não na prática. Mesmo muitas ditaduras comunistas chamam-se a si mesmos democracias populares(p.ex. a "República Democrática do Vietnã", "República Democrática Popular da Coréia"), embora de modo algum sejam democráticas do ponto de vista da maioria dos ocidentais. Uma das fraquezas apontadas à Democracia é o facto de não permitir que objectivos lançados por um governo a longo prazo, mesmo que sejam essenciais para o progresso/bem estar dos cidadãos, não possam ser postos de lado pelo governo seguinte, adiando assim decisões importantes, ou seja, não permite que haja um rumo para a nação em causa.

Algumas ideologias se opõem abertamente à democracia, por exemplo, o Fascismo.

Comunistas argumentam que democracias não são realmente democráticas, mas na verdade apenas uma ilusão criada pelas classes dominantes, que exercem o poder real. Na análise comunista, a classe trabalhadora nas democracias não tem um voto realmente livre, já que as classes dominantes controlam a mídia e o público em geral já foi -doutrinado pela propaganda da classe dominante. De acordo com os comunistas, a democracia real somente é possível sob um sistema socialista.

Pra ilustrar essa manipulação do povo pelas classes dominantes na hora de se tomar uma decisão importante, podemos tomar o seguinte exemplo: em uma das primeiras decisões democráticas de que se tem notícia, Barrabás foi libertado, e Jesus crucificado

Direito ao Voto

No passado muitos grupos foram excluídos do direito de voto, em vários níveis. Algumas vezes essa exclusão é uma política bastante aberta, claramente descrita nas leis eleitorais; outras vezes não é claramente descrita, mas é implementada na prática por meios que parecem ter pouco a ver com a exclusão que está sendo sendo realmente feita (p.ex., impostos de voto e requerimentos de alfabetização que mantinham afro-americanos longes das urnas antes da era dos direitos civis). E algumas vezes a um grupo era permitido o voto, mas o sistema eleitoral ou instituições do governo eram propositadamente planejadas para lhes dar menos influência que outro grupos favorecidos.

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sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Charge Eleitoral

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quinta-feira, 28 de setembro de 2006

Foto da Quinzena

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quarta-feira, 27 de setembro de 2006

BOM DIA




VOCÊ QUE CHEGOU AO SEU TRABALHO.
ORE E PEÇA ILUMINAÇÃO.....

FAÇA A AGENDA E PROGRAME O SEU DIA.
ISSO SE CHAMA REFLEXÃO.....

AGORA TUDO PLANEJADO,
COMECE A TRABALHAR
ISSO SE CHAMA AÇÃO....

ACREDITE QUE TUDO VAI DAR CERTO.
ISSO SE CHAMA FÉ...

FAÇA TUDO COM ALEGRIA.
ISSO SE CHAMA ENTUSIASMO....

DÊ O MELHOR DE SI.
ISSO SE CHAMA PERFEIÇÃO....

DEUS ESTÁ COM VOCÊ.
ISSO SE CHAMA AMOR!

TENHA UM BOM DIA.
TODOS OS DIAS!!!!

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terça-feira, 26 de setembro de 2006

Os 8 melhores slogans de campanha eleitoral

- 8º lugar - Guilherme Bouças, com o slogan ''Chega de malas, vote em Bouças''

- 7º lugar - Grito de guerra do candidato Lingüiça, lá de Cotia (SP), "Lingüiça Neles!"

- 6º lugar - Em Descalvado (AL), tem um candidata chamada Dinha cujo slogan é ''Tudo Pela Dinha''

- 5º lugar - Em Carmo do Rio Claro, tem um candidato chamado Gê ''Não vote em A, nem em B, nem em C; na hora H, vote em Gê''

- 4º lugar - Em Hidrolândia (GO), tem um candidato chamado Pé. ''Não vote sentado, vote em Pé''

- 3º lugar - E em Piraí do Sul tem um gay chamado Lady Zu, ''Aquele que dá o que promete''

- 2º lugar - A cearense chamada Debora Soft, stripper e estrela de show de sexo explícito. Slogan: ''Vote com prazer''

- 1º lugar, campeoníssimo - Candidato a prefeito de Aracati (CE): ''Com a minha fé e as fezes de vocês, vou ganhar a eleição''

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segunda-feira, 25 de setembro de 2006

Uriah Heep - July Morning


There I was on a July morning looking for love.
With the strength of a new day dawning and the
beautiful sun.
At the sound of the first bird singing I was leaving
for home.
With the storm and the night behind me and a road of
my own.
With the day
came the resolution
I'll be looking for you.

I was looking for love in the strangest places.
There wasn't a stone that I left unturned.
I must have tried more than a thousand faces,
but not one was aware of the fire that burned
In my heart,
in my mind,
in my soul.
In my heart,
in my mind,
in my soul.

There I was on a July morning - I was looking for
love.
With the strength of a new day dawning and the
beautiful sun.
At the sound of the first bird singing I was leaving
for home.
With the storm and the night behind me and a road of
my own.
With the day
came the resolution
I'll be looking for you.

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domingo, 24 de setembro de 2006

AS LIÇÕES DO MESTRE - FINAL

O pensamento

A essência que permeia todo o pensamento de Confúcio é o ren, que pode ser traduzido como "benevolência" ou "humanismo". Aos discípulos que lhe perguntaram o que era o ren, o mestre teria respondido: "A principal virtude está em amar os homens". Para que não se pense que Confúcio está plagiando outro famoso pensador, lembre-se que ele proferiu essa frase 400 anos antes do nascimento de Cristo.

Embora com os passar dos séculos o confucionismo tenha se tornado uma religião para muitos - um pouco diferente das demais, é verdade, uma vez que não há corpo sacerdotal, por exemplo -, não parecia ser essa a intenção do mestre. Sua verdadeira vocação era a política. "Se o homem não consegue nem se relacionar corretamente com os vivos, por que se preocupa com o culto aos espíritos?", teria dito. Apesar de viver reverenciando o céu, principalmente por meio de sua música, ele não escondia de ninguém o quanto considerava a maioria das práticas religiosas de seu tempo superstições absurdas.

O sábio, no entanto, pagou a língua, uma vez que suas próprias origens ganharam versões fantásticas. A mais conhecida delas diz que um unicórnio teria aparecido no dia do seu nascimento segurando na boca uma tabuleta de jade com a inscrição: "Nascerá uma criança pura como o cristal para dar continuação ao povo Chou que está em decadência. Ele se tornará um rei sem reino". Dizem que outros sinais misteriosos também teriam aparecido: cinco dragões vigiaram o céu até o romper da aurora para evitar que qualquer influência maléfica perturbasse as primeiras horas do recém-nascido.

Lendas à parte, o que parecia mesmo mover Confúcio em sua juventude era uma busca insaciável por conhecimento. Assim, aos 22 anos, logo depois de fundar sua primeira escola, decidiu beber na fonte e ir ao encontro do maior sábio da época: Lao-tsé.

Fundador do taoísmo, Lao-tsé também tinha as origens envoltas em misticismo. Diz a lenda que o mestre teria ficado 81 anos no ventre de sua mãe, de onde saiu já velho e sábio.

O encontro em nada lembra a imagem clássica do mestre recebendo o aprendiz. Ao ouvir os pedidos de Confúcio, Lao-tsé teria, de fato, lhe passado um sabão: "O senhor afaste o seu ar arrogante, seus desejos excessivos e suas intenções libertinas. Nada disso é de proveito para sua pessoa. É só isso que tenho a lhe dizer e nada mais".

Envergonhado e ao mesmo tempo fascinado, Confúcio se retirou. Mais tarde, aos seus discípulos, teria assim descrito a experiência: "Eu sei que a ave pode voar, que o peixe pode nadar, que os animais selvagens podem correr. Não posso saber como o dragão sobe aos céus, galgando vento e nuvens. Mas hoje eu vi Lao-tsé. E como ele se assemelha ao dragão!".

A razão de tal rispidez talvez possa ser explicada pelas diferenças entre as duas doutrinas. Enquanto o confucionismo é essencialmente voltado para os aspectos práticos da vida, o taoísmo tem um lado metafísico mais acentuado. O primeiro trata de como se deve viver no âmbito pessoal e social, fala de regras de comportamento em sociedade, de ética e de política. Segundo o confucionismo, é possível viver em harmonia em qualquer lugar, desde que o acesso à educação seja garantido.

O taoísmo vem da palavra chinesa tao ("caminho") e sempre foi considerado uma religião. Para Lao-tsé, o caminho era um conceito místico, uma vez que para entrar em harmonia com o tao deveríamos nos livrar das futilidades, viver com simplicidade e tranqüilidade, de preferência junto à natureza. Para muitos estudiosos, no entanto, são essas diferenças que tornam as doutrinas complementares.

É bom lembrar que no mesmo século (4 a.C.) o budismo se expandia na Índia e rapidamente chegava à China. Estava pronta a salada religiosa que até hoje toma conta do país. "As teorias foram se misturando ao longo dos séculos. Hoje em dia, é difícil encontrar um chinês que seja apenas budista, taoísta ou confucionista. Todo mundo é um pouco de tudo", diz Chen Tsung Jye, professor de língua chinesa da USP. "Todo chinês é confucionista na rua, taoísta em casa e budista na morte", afirma o sinólogo André Bueno.
O homem

Confúcio era um sujeito brilhante. Mesmo assim passou a vida inteira procurando emprego e morreu sentindo-se um fracassado. "Aos 15 anos, só estava interessado em estudar; aos 30, comecei minha vida; aos 40, era presunçoso; aos 50, compreendi meu lugar no vasto esquema das coisas; aos 60, aprendi a desistir de discutir; e agora, aos 70, posso fazer o que bem entender sem acabar com a minha vida", teria dito ao descrever a si mesmo.

Kung-Fu-Tzu (Confúcio é a latinização desse nome, que significa "Venerável Mestre Kung") nasceu em Tsou, pequena cidade no estado de Lu, onde hoje é a província de Shantung. Filho caçula de uma família nobre, mas decadente e empobrecida, seu pai morreu quando ele tinha apenas 3 anos. Criado pela mãe, pouco se sabe sobre sua infância, só que ele adorava brincar de arrumar vasos rituais e demonstrava ser um estudante entusiasmado. Tanto que, aos 15 anos, já era considerado erudito, com certa preferência pela arqueologia.

O mestre parecia ser também precoce com as mulheres: casou aos 19 anos, jovem para os homens da época, e, no ano seguinte, nasceu seu único filho. Para equilibrar o orçamento, trabalhou como cocheiro e tratador de animais e ocupou cargos públicos de pequena importância. Em seu tempo livre, estudava história, música - era um exímio tocador de alaúde - e liturgia. Além disso, era adepto dos esportes ao ar livre, os radicais da época: adorava cavalgar, praticar arco-e-flecha, caçar e pescar.

Ambicioso, o que Confúcio queria mesmo era um emprego no governo para colocar suas idéias em prática. Enquanto não atingia seu objetivo, abriu uma escola onde ensinava seu código de conduta a futuros governantes.

A chance que tanto esperava chegou quando o mestre estava por volta dos 50 anos. Um de seus ex-alunos subiu ao poder e resolveu convidá-lo para o cargo de ministro da Justiça. De acordo com Paul Strathern, professor de filosofia na Universidade de Kingston, na Inglaterra, Confúcio foi bem-sucedido, apesar da rigidez excessiva. "Ele chegou a aplicar pena de morte por ‘invenção de roupas fora do comum’", afirma. Por essas e outras, logo pipocaram intrigas, boicotes e manobras até que o mestre, ofendido, enfim pediu demissão, partindo em uma expedição de 13 anos pela China. No fundo, o que Confúcio buscava era uma nova chance de mostrar sua capacidade como administrador em um outro cargo público.

"Ele era considerado o homem mais sábio da China e freqüentemente era procurado para dar conselhos ou mesmo discutir idéias com governantes e membros da aristocracia, mas sempre acabava frustrado por não conseguir um cargo público", afirma o biógrafo e sinólogo americano H.G. Creel.

Depois de sua intrépida viagem pelo interior do país, o mestre, então com 65 anos, resolveu voltar a Lu, seu estado natal. Melancólico, passou seus últimos anos de vida editando e comentando os cinco livros clássicos considerados sagrados para os chineses. Cada um expressa uma visão diferente dos acontecimentos: poética, histórica, política, social e metafísica.

Deprimido, em 479 a.C., aos 72 anos, Confúcio morreu no mesmo lugar onde nasceu. Um de seus discípulos registrou o que teriam sido suas últimas palavras: "A grande montanha terá que desmoronar! A forte viga terá que quebrar! O homem sábio murcha como a planta! Não existe ninguém no império que me queira como mestre! Meu tempo de morrer chegou".

A expansão

O maior temor de Confúcio era que seus ensinamentos se perdessem e não atingissem as gerações posteriores. Depois de sua morte, no entanto, discípulos se encarregaram de fundar oito escolas confucianas, que se empenharam em passar o conhecimento adiante.

O confucionismo andava de vento em popa até a dinastia Qin tomar o poder (221-207 a.C.). Em 213 a.C., o imperador Shi Huangdi - que construiu os famosos guerreiros de terracota - ordenou a incineração dos livros a fim de forçar uma subordinação completa à sua autoridade. Perseguidos, professores confucionistas foram enterrados vivos por defenderem suas idéias.

Com a queda da dinastia Qin, o confucionismo renasce das cinzas com o advento da dinastia Han (206 a.C.-220 d.C.), talvez a mais poderosa da história da China. "Um dos primeiros atos dos novos soberanos foi restituir a escola de Confúcio, concedendo-lhe um lugar importante junto à corte", diz o sinólogo André Bueno.

Mas como o confucionismo rompeu as muralhas chinesas e chegou aos vizinhos Japão, Coréia e Vietnã, entre outros? É bom lembrar que cultura não é igual a arroz ou macarrão, que podem ser levados de lá para cá por umas poucas pessoas. As teorias confucionistas foram se infiltrando aos poucos por conta de um intenso intercâmbio e pelo fato de a China ser considerada a grande referência cultural na época. "Era a pátria-mãe, e até a escrita por ideogramas foi importada por outros países, como o Japão", diz Mario Sproviero, da faculdade de Letras da USP. Os japoneses, por sinal, dão até hoje particular importância às teorias confucionistas que se referem a honra, lealdade e relações sociais e familiares. Isso pode ser visto, inclusive, como fator de sucesso econômico do país. "Autoconfiança, coesão social, subordinação do indivíduo, educação para a ação, tradição burocrática e convicção moralizante são uma mistura poderosa para fins de desenvolvimento", diz o economista Roderick McFarquhar, professor da Universidade de Harvard.

No entanto, 2 mil anos após o imperador dos soldados de terracota, o filósofo se via novamente em apuros. Em 1949, ao assumir o governo, o Partido Comunista de Mao Tsé-tung resolveu proibir o confucionismo, acusando sua tradição de impedir a renovação da vida chinesa. Dizia-se até mesmo que o filósofo defendia o escravagismo e os interesses dos grandes proprietários de terra. Durante a Revolução Cultural (1966-1976), de novo, os livros clássicos foram queimados. Analistas da época disseram que Mao não queria que eles fizessem sombra ao Livro Vermelho - o único que deveria ser estudado nas novas escolas chinesas.
O Partido Comunista, no entanto, faria, anos mais tarde, as pazes com o mestre numa grandiosa comemoração de seu aniversário. Semanas depois do massacre da praça da Paz Celestial, pipocaram discursos inflamados de políticos apoiando a transição para o confucionismo. Será que a imagem do homem parado em frente aos tanques mexeu com a cabeça dos dirigentes chineses? Não se sabe. Tudo bem. Confúcio mesmo dizia que somente os sábios e os idiotas não mudam de idéia.

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sábado, 23 de setembro de 2006

AS LIÇÕES DO MESTRE - PARTE 1




Praça da Paz Celestial, Pequim. O mundo inteiro assiste a cenas de horror. Soldados disparam contra manifestantes. Tanques esmagam corpos. Policiais ateiam fogo na multidão. Estamos em 4 de junho de 1989. Aos olhos do Ocidente, cenas de pura barbárie. Até o momento em que um jovem, sozinho, detém-se ante uma coluna de tanques. Pela lógica ocidental, o que viria a seguir jamais seria exibido em horário nobre na TV. Mas o que acontece surpreende o mundo. Frente ao homem desarmado, os tanques param e recuam. Por que soldados chineses são capazes de atacar sem dó uma multidão, mas cedem diante de um único indivíduo? A resposta pode estar no pensamento moldado por um homem há mais de 20 séculos e que até hoje mantém profundas raízes na cultura oriental: o confucionismo.

Depois de tanto tempo, as teorias de Confúcio (551-479 a.C.), filósofo e educador chinês, ainda permeiam o modo de vida político e social de quase metade do planeta. Em que pesem suas ambições políticas e todas superstições e lendas que rondam sua vida, o fato é que esse chinês barbudo tido por muitos como um santo revolucionou hábitos, sobreviveu a perseguições e, a cada dia que passa, parece estar mais perto da porta da sua casa.

As origens

Se você é adepto de comida chinesa tipo fast food, já deve ter lido aquelas frases que vêm nos biscoitinhos da sorte. E, no mínimo, pensou por dois segundos no que elas queriam dizer. Se é assim, você pode dizer que já ouviu falar em Confúcio. A maioria dessas frases foi retirada dos Analectos, livro com breves afirmações, diálogos e anedotas, compilados por discípulos de Confúcio após sua morte. Pode-se dizer que os Analectos estão para Confúcio assim como os Evangelhos estão para Jesus.

Foram basicamente esses escritos que ao longo dos séculos deram origem ao confucionismo - um conceito escorregadio, meio religião, meio código de ética, com pitadas de ritual social e de filosofia política, que até hoje foge à unanimidade entres seus estudiosos. O fato é que ele agrega tudo isso, podendo ser entendido como um conjunto de normas de comportamento.

Para compreender o que isso significa, é preciso voltar no tempo e entender o contexto em que se criou e se desenvolveu o confucionismo. Quando Confúcio nasceu, a China vivia um verdadeiro caos. O território havia sido fragmentado em um grande número de estados constantemente em guerra. A corrupção permeava todos os níveis de poder e a miséria era grande.

Foi com esse pano de fundo que Confúcio começou a moldar seu pensamento. Ele dizia-se um escolhido do céu com a missão de restaurar o mundo. Para isso, acreditava ser necessária uma reforma política baseada na moral e na ética, única maneira de instaurar a ordem e a justiça no país.

Como para Confúcio a política era uma extensão da ética, ele decidiu elaborar um código de conduta para quem exercesse o poder. "Governo é sinônimo de honestidade. Se um rei for honesto, como alguém ousaria ser desonesto?", costumava dizer. Por essas e outras, os governantes o consideravam um sábio um tanto quanto indigesto.

Em seu código, o filósofo desenvolveu uma de suas teorias mais importantes e que até hoje está presente na tradição política da Ásia oriental: "Um governo é feito de homens e não de leis". Como para ele a legislação era um convite à corrupção, a verdadeira coesão social só seria alcançada a partir da observância dos ritos.

No confucionismo, a palavra "rito" pode ser entendida como bons costumes e hábitos herdados dos ancestrais. Alguns exemplos: honradez entre governantes e súditos; piedade filial (um homem que respeita os pais e os mais velhos dificilmente desafiaria seus superiores); separação de funções entre marido e mulher; compreensão entre anciãos e jovens e fidelidade entre amigos. Era a esses exemplos que Confúcio se referia quando falava que um governo de ritos é preferível a um governo de leis. A força de suas idéias chegou a influenciar até mesmo clássicos do Iluminismo na Europa do século 16: "Quando um povo tem bons costumes, as leis se tornam simples", escreveria Montesquieu. É ou não Confúcio puro?

Apoiado nessa filosofia, o mestre afirmava que somente cavalheiros que possuíssem qualidades morais e éticas, alcançadas por meio de uma rígida educação, poderiam exercer o poder. Assim, nem dinheiro nem tampouco berço seriam passaporte para cargos políticos. Um pensamento incômodo numa época em que os governos passavam de pai para filho havia séculos.

Imbróglios políticos e saias-justas à parte, um ponto específico do pensamento de Confúcio parece ter sido perfeitamente assimilado por países como Japão, Coréia, Cingapura, Taiwan e China, cuja prosperidade pode ser atribuída a um fator extremamente caro a Confúcio: a educação. "Para ele, o cerne da corrupção e da degradação da humanidade estava na falta de educação. Se todas as pessoas, sem nenhum tipo de distinção, fossem educadas, elas entenderiam como viver em harmonia com a natureza e com a sociedade", diz André Bueno, sinólogo (estudioso da China) e professor de filosofia da Universidade Gama Filho (RJ).

Convicto de sua tese, Confúcio passou quase a vida inteira lecionando, procurando formar não apenas futuros governantes, mas toda sorte de gente que estivesse disposta a aprender. "Ele levou a cultura e a educação para fora dos círculos mais nobres e aristocráticos, que até então mantinham um monopólio sobre elas", diz o jornalista Pang Pu, especialista em Confúcio. "A pedagogia confuciana estava à frente de seu tempo: preconizava um ensino aberto a todos, sem diferenciação de origem social. As aulas, por exemplo, eram a céu aberto e seu método levava em conta as aptidões de cada um de seus discípulos", afirma.

O mestre afirmava que o principal não era fazer o aluno desenvolver técnicas, muito menos acumular conhecimento. O importante era desenvolver seu caráter e sua humanidade. Seu objetivo era formar homens de reputação impecável, que, ao se tornarem membros da burocracia estatal, ajudariam a construir o Estado ideal. Era por essas e outras que ele tinha fama de bravo e não admitia alunos tolos em suas turmas. "Se eu indicar o ângulo de um assunto e o aluno for incapaz de perceber os outros três por si mesmo, eu peço que ele vá embora", dizia.

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sexta-feira, 22 de setembro de 2006

Coisas da Informática

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quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Video do Ano!

Comercial Sobre Máquina de Lavar Roupas

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quarta-feira, 20 de setembro de 2006

OutDoor (Duplo clique para melhor visualização)

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terça-feira, 19 de setembro de 2006

Cidades Brasileirias: Itapetininga/SP.

Cidade situada no sul do estado de São Paulo. Centro regional subordinado à Sorocaba, comanda uma rede urbana composta de um centro local e mais seis municípios da porção sudeste do estado. É também um centro industrial importante nos setores de madeira, química e têxtil. Seu acesso é feito principalmente através das rodovias SP-270 e SP-127, que ligam Sorocaba com o Paraná.
Sua população em 1996 era de 99.886 habitantes.


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segunda-feira, 18 de setembro de 2006

Quem Somos Nós? - O Filme


Sinopse:

Amanda (Marlee Matlin) está numa fantástica experiência ao estilo ”Alice no País das Maravilhas” enquanto seu monótono cotidiano começa a se desmanchar. Esta situação revela o incerto mundo escondido por trás daquilo que se costuma considerar realidade. Amanda mergulha num turbilhão de ocorrências caóticas que revelam um profundo e oculto conhecimento do real. Ela entra em crise e questiona o sentido da existência humana.

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domingo, 17 de setembro de 2006

AS CARTAS MARCADAS DO TARÔ - FINAL


Também o número de cartas que o cliente tira, o número de rodadas e o tempo gasto na leitura variam. Para Namur, que se considera bom entendedor, doze cartas e uma rodada bastam. Já os clientes de Kucho devem escolher 28 cartas em quatro rodadas; na última, se quiserem, podem fazer perguntas. Claudine interpreta no mínimo 44 cartas. Mas nenhum deles gasta menos de uma hora na operação. Nesse complicado jogo as interpretações dos arranjos que as cartas formam variam de acordo com cada pessoa e a situação que ela vive em determinado momento, dizem os tarólogos. Por isso, se o ermitão (arcano IX) sair para uma criança, poderá simbolizar timidez; já para um homem de 50 anos será símbolo de riqueza interior.

O enforcado (arcano XII), brinca Namur, é o arcano do brasileiro, sempre com a corda no pescoço. Normalmente, os tarólogos não brincam em serviço, certamente para manter a aura de seriedade em torno daquilo que para os mais desconfiados não passa de um jogo - antigo, complexo e sofisticado, mas apenas um jogo. Para o professor Namur, os fundamentos do tarô "são o pensamento mágico, não racional, e a intuição" - seja lá o que isso signifique. Os tarólogos tomam o cuidado de advertir aos mais deslumbrados que o tarô não é um jogo de adivinhação do tipo bola de cristal.
Aponta caminhos, mas não dá soluções. Por isso, quem consultar um tarólogo na esperança de descobrir o que vai acontecer no dia seguinte estará perdendo tempo.
"A verdadeira intenção do tarô", teoriza Namur, "é fazer com que as pessoas se auto-analisem, já que as cartas mostram o que está ocorrendo com elas." Ele afirma que "se as pessoas não souberem mudar sua relação com o passado, cuja resultante é o presente, acabam se repetindo; então não adianta mudar de marido, de emprego ou de casa, pois o problema permanece o mesmo". Curioso do tarô, o escritor Caio Fernando Abreu, autor de Morangos mofados, conta que na primeira vez em que consultou um tarólogo ficou espantado "porque entre tantas cartas saíam exatamente aquelas cuja interpretação tinha a ver com o que eu estava vivenciando".

Ao que parece, o tarô e mesmo o I Ching o livro das mutações que surgiu na China no período anterior à dinastia Chou (1150-249 a.C.) têm como meta principal levar as pessoas a refletir sobre o que estão vivendo. Talvez por isso, um dos fundadores da psicanálise, o suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), tenha se interessado pelo tarô, entre outras simbologias. Seja como for, o fascínio que as várias formas de esoterismo exercem sobre as pessoas independe de sexo, religião ou atividade. Os homens, na maioria, procuram tarólogos para saber de dinheiro e negócios. Já as mulheres se preocupam com o trabalho e as questões afetivas. A curiosidade que o tarô sempre despertou nos artistas moveu o pintor espanhol e mestre do surrealismo Salvador Dali a desenhar um baralho.

Na literatura, a simbologia contida nessas cartas foi tema de poemas do francês Gérard de Nerval (1808-1855) e do norte-americano T.S. Eliot (1888-1965). E o pintor sergipano; radicado no Rio Antônio Maia, que sempre retratou temas ligados à crendice popular, decidiu comemorar seus 60 anos com uma exposição de 22 telas, onde estarão pintados, em bom tamanho, um a um, os arcanos maiores do tarô.

Esse futuro que não chega nunca.

Desde o começo dos tempos, brinca Woody Allen, o homem vive às voltas com algumas dúvidas insuperáveis: quem sou eu, de onde vim e onde será que vamos jantar esta noite. Ainda mais do que isso, o que as pessoas querem saber de verdade é o que lhes reserva o dia de amanhã. A busca insaciável do futuro, velha como o medo e a esperança, faz a felicidade dos tarólogos, jogadores de búzios, quiromantes, astrólogos, cartomantes e videntes de todas as categorias quando se trata de mexer com o desconhecido, jamais algum deles deve ter perdido dinheiro subestimando a credulidade alheia.

O que nem sempre se percebe é que correr atrás do futuro é fazer como o cachorro que dá voltas atrás do próprio rabo. Não se trata nem de dizer que é preciso estar muito aflito ou ter muita boa vontade inocente para acreditar que o futuro pode ser previsto pela magia ou pela ciência, assim ou assado. O problema é outro. Se o futuro já está pronto e acabado em alguma misteriosa dimensão das coisas, podendo portanto ser conhecido por qualquer vidente cinco-estrelas como parecem achar os que acreditam que a vida é apenas o desenrolar de um destino imutável, então que valia tem conhecer algo que não se poderá modificar? Ou, se o futuro só fica pronto quando acontece, como dizem os partidários da idéia de que são as pessoas, a cada escolha que fazem, que vão construindo sua história, então é possível conhecer algo que se modifica sem cessar?
No fundo, muita gente intui que não existe saída para esse paradoxo do contrário, bastaria ter uma bola de cristal desembaçada para fazer a quina da Loto toda semana e ainda assim freqüenta seus videntes de estimação. É que nesse ato, nesse jogo, a ansiedade diante dos rumos da vida encontra algum alívio. Se o ocultista procurado não for um charlatão, a pessoa poderá até sair dali com algo de valioso em troca do seu tempo e dinheiro. "Se um tarólogo lhe disser que ela fantasia muito", exemplifica o psiquiatra Antônio Carlos Cesarino, "certamente a pessoa vai parar para pensar nisso, e tudo que ajuda a refletir é bom."

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sábado, 16 de setembro de 2006

AS CARTAS MARCADAS DO TARÔ - PARTE 1




São 78 cartas cheias de simbolismo com uma história milenar. Sua leitura sobreviveu aos séculos e está em plena moda. Para os céticos é só um jogo de adivinhação. Para os iniciados nos seus mistérios, é uma forma de autoconhecimento.

Atores, empresários, profissionais liberais, artistas plásticos enfim pessoas das mais diferentes atividades têm em comum o costume de freqüentar um certo apartamento amplo e ensolarado no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. Ali trabalha um carioca de 30 anos, solteiro, olhos muito azuis, chamado Marcos da Silva Bordallo. Só que nenhum desses visitantes o trata pelo verdadeiro nome. Para eles Marcos é Namur ou melhor, professor Namur. E se o procuram é porque esperam receber uma orientação que os ajude a organizar melhor suas vidas e seus negócios. Engana-se quem imaginar que o tão requisitado Marcos-Namur é algum conselheiro espiritual ou psicólogo com formação psicanalítica.

O que ele faz, é dar as cartas. Pois o auto-intitulado professor é um tarólogo, por sinal o mais badalado do Rio, ou seja, um especialista em tarô o misterioso baralho que, segundo os adeptos, faz as pessoas se conhecerem melhor e a partir daí terem uma boa idéia do que o futuro lhes reserva.

Os crentes nos poderes do tarô e dos tarólogos formam uma espécie em expansão. Mas o jogo é muito antigo. A própria palavra tarô, do francês tarot, viria do velho Egito, onde o baralho teria surgido, significando "roda" ou "caminho". A história do jogo é tão obscura como o nome. Sabe-se que em 1392, Carlos VI, rei da França, encomendou por um bom preço ao pintor Jacquemin Gringonneur três pacotes de cartas. A primeira descrição de um baralho de tarô, porém, só apareceu séculos mais tarde. Seu autor foi o teólogo protestante francês e historiador Antoine Court de Gébelin (1725-1784). No primeiro dos nove volumes de sua obra Le monde primitif, Gébelin afirma que as cartas do tarô foram extraídas do Livro de Thoth (um deus egípcio).

No século XVIII, em plena Revolução Francesa, o jogo de tarô tornou-se moda nos salões parisienses e uma certa Mademoiselle Lenormand era o que é hoje no Rio o professor Namur - lia nas cartas do tarô o destino de gente importante da época. Entre seus clientes estavam os líderes revolucionários Robespierre e Saint-Just. Diz-se que Mademoiselle Lenormand previu a morte dos dois na guilhotina - o que talvez não fosse uma proeza, dada a facilidade com que se cortavam cabeças na França daqueles anos. Mas, se ela de fato previu a decapitação, nem Robespierre nem Saint-Just puderam fazer qualquer coisa para evitá-la - e isso dá o que pensar sobre a utilidade de se conhecer o futuro.

Conta-se também que, anos mais tarde, Napoleão tornou-se assíduo freqüentador de Lenormand. Esse pelo menos sabia lidar à sua maneira com o futuro desvendado pela taróloga: quando as previsões o desagradavam, mandava encarcerá-la por uns tempos.
Boa parte do charme do tarô, o que ajuda a entender sua longevidade, está nas próprias 78 cartas que compõem o baralho. Elas se dividem em dois grupos: os 22 arcanos maiores - fundamentais na interpretação e os 56 arcanos menores, que complementam os outros. A palavra arcano vem do latim arcanu, que quer dizer segredo, mistério, e cada um deles representa uma figura simbólica diferente. Por exemplo, o arcano IV (os praticantes usam a numeração romana), chamado imperador, simboliza o homem objetivo, materialista, organizado.

O professor Namur ensina que o tipo de homem simbolizado pelo imperador gosta de ser o provedor do lar, mas não se detém para tentar entender o que o outro está vivendo; geralmente é pão-duro, mas se orgulha de pagar as contas em dia; é também machão e moralista dentro de casa; ansioso e ambicioso, sonha com segurança; gosta da sacerdotisa (arcano II), que simboliza a mãe e a esposa, mas também da imperatriz (arcano III), símbolo da mulher independente, que trabalha fora, mas de quem ele finge não gostar. Se a carta do imperador sair para uma mulher, isso pode significar que procura imitar o pai.

Há uma certa carta o arcano XIII que de tão assustadora nem tem o nome impresso: é a figura da morte. Mas a morte pode não ser tão feia como a pintam. Segundo uma tranqüilizadora interpretação, essa carta simboliza o renascimento, as transformações pelas quais a pessoa está passando. Tudo depende de quem lê o tarô e, para complicar ainda mais as coisas, os métodos de leitura mudam de um tarólogo para outro: há quem utilize apenas os 22 arcanos maiores, por achar que isso facilita a consulta e a comparação com a leitura anterior, quando o cliente volta; outros preferem usar todas as cartas e certamente devem ter para isso motivos tão relevantes quanto os dos que optam pela versão resumida: é tudo uma questão de crer para ler.

Naturalmente, o jogo de cena no ato da leitura é da maior importância como convém a um ramo do ocultismo que tem a pretensão de entender a personalidade humana a partir do acaso de um sorteio de cartas. Namur, por exemplo, usa uma mesa de tampo preto, "porque as cores das cartas se realçam, pulam e ajudam na concentração", como diz. Outros tarólogos preferem rituais mais elaborados. É o caso do uruguaio cujo apelido é Kucho e que prefere não revelar seu verdadeiro nome. Há 22 anos no Brasil e desde 1975 no ramo do tarô, ele usa uma pele de animal amarelada para cobrir a mesa de trabalho, numa saleta pouco iluminada, no porão da casa onde mora, no bairro do Pacaembu, em São Paulo.

Alto, moreno, com os traços herdados da mãe índia e do pai espanhol, Kucho cobra uma quantia simbólica para ler o tarô (ele diz que trabalha na produção de comerciais e de cinema), jamais tira cartas para si mesmo e só opera com baralhos que tenham atravessado o oceano. Isso não faz diferença alguma para o carioca Namur, que se declara criador do primeiro tarô latino-americano, um baralho desenhado pela argentina Martha Leyros, em cores vivas, bem diferentes dos tons pastel do clássico baralho francês. "O nosso tem vida, emoção, chega a suar", entusiasma-se Namur.
Existem mais de mil baralhos diferentes de tarô, uma variedade à altura do número de métodos de dispor as cartas pelo menos quinhentos. Namur, por exemplo, as dispõe em círculo, na forma da mandala que em sânscrito significa círculo mágico. Kucho, por sua vez, as coloca na posição astral, de acordo com as casas do zodíaco. Dispor as cartas em linhas horizontais é o método utilizado pela taróloga paulista Claudine Cardoso. Mãe de três filhos, ela conta que aprendeu a mexer com o tarô aos 7 anos, quando ganhou um baralho da avó.

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sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Papel de Parede para sua área de trabalho!

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quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Links Interessantes Sobre Cultura

www.bienalsaopaulo.org.br
Site da Fundação Bienal de São Paulo, na capital.

www.amoyakonoya.com.br
Site da loja Amoya Konoya, em São Paulo, capital, cujo objetivo não é somente vender peças da arte indígena autêntica, mas divulgar a cultura, oferecer informação e incentivar as comunidades indígenas à recuperação de técnicas e peças.

www.jogosindigenasdobrasil.art.br
Site do Projeto Jogos Indígenas do Brasil, que estuda os jogos, os brinquedos, brincadeiras e outras manifestações lúdicas dos povos indígenas.

www.museudapessoa.net
Site do Instituto Museu da Pessoa, museu virtual de história de vida aberto à participação de todos que queiram compartilhar sua história.

www.memoriasehistorias.com.br
Site cuja proposta é dar espaço para as pessoas contarem e registrarem as histórias de vida.

www.fundacaooscaramericano.org.br
Site da Fundação Maria Luísa e Oscar Americano em São Paulo, capital.

www.meetaravindra.com
Site da cantora indiana Meeta Ravindra e da Associação Cultural Índia-Brasil.

www.oxum.com.br
Site da Sociedade Beneficente Cultural Africana em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

www.niten.org.br
Site do Instituto Niten, que estuda cultura japonesa e diversas artes samurais ligadas à espada japonesa.

www.funai.gov.br
Site da "Fundação Nacional do Índio".

www.wisdomkeepers.org
Site em inglês do grupo Guardiões da Sabedoria, movimento pela informação, educação e preservação da cultura dos índios norte-americanos.

www.kakinet.com
Site da revista Caqui, sobre Haicai, um gênero de escritura japonesa.

www.mis.sp.gov.br
Site do Museu da Imagem e do Som em São Paulo, capital.

www.nihonsite.com
Site em português sobre diversidades da cultura japonesa.

www.palmares.gov.br
Site da Fundação Cultural Palmares, ligada ao Ministério da Cultura, cujo objetivo é promover a preservação dos valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na sociedade brasileira.

urasenke.org
Site em inglês da The Urasenke Foundation de São Francisco, nos Estados Unidos, que pretende promover a apreciação da herança cultural japonesa entre os norte-americanos.

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quarta-feira, 13 de setembro de 2006

Momento de Reflexão

"Pior que subestimar o outro é subestimar a si próprio"
Roger

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terça-feira, 12 de setembro de 2006

Fernando Pessoa


Um dia a maioria de nós irá separar-se.
Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, das
descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos
que partilhamos.

Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das vésperas
dos finais de semana, dos finais de ano, enfim...do companheirismo vivido.

Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.

Hoje não tenho mais tanta certeza disso.

Em breve cada um vai para seu lado, seja pelo destino ou por
algum desentendimento, segue a sua vida.

Talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe...nas cartas
que trocaremos.

Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices...< BR>
Aí, os dias vão passar, meses...anos...até este contacto se tornar
cada vez mais raro.

Vamo-nos perder no tempo...

Um dia os nossos filhos verão as nossas fotografias e perguntarão:

"Quem são aquelas pessoas?"

Diremos .que eram nossos amigos e...isso vai doer tanto!

"Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons anos da
minha vida!"

A saudade vai apertar bem dentro do peito.

Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente...

Quando o nosso grupo estiver incompleto...reunir-nos-emos para um
último adeus de um amigo.

E, entre lágrima abraçar-nos-emos.

Então faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia
em diante.

Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vida,
isolada do passado.

E perder-nos-emos no tempo...
Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida
passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de
grandes tempestades...

Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos s
meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!

Fernando Pessoa

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segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Desvendando o Código da Vinci

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domingo, 10 de setembro de 2006

A BUSCA DO GRAAL - FINAL

Os templários

Em 1096, incitados pelo papa Urbano II, os cristãos da Europa organizaram um ataque à Terra Santa, então dominada por muçulmanos. Essa invasão foi a Primeira Cruzada e seu resultado foi a conquista de parte do território onde hoje fica Israel e a Palestina. Apesar da vitória militar, o território continuou sob litígio e, portanto, não era dos lugares mais seguros para cristãos. Por isso, 20 anos depois, foi fundada a Ordem do Templo, com o objetivo de proteger os peregrinos cristãos em visita aos santuários. Os membros da ordem uniam o treinamento militar às regras monásticas - além dos votos de pobreza e castidade, eles juravam defender a fé a golpes de espada.

Apesar do voto de pobreza, a ordem adquiriu uma especialidade nada franciscana: ganhar dinheiro. Ao longo dos séculos dedicados a proteger cristãos, os templários receberam de nobres agradecidos muitas doações de terras e dinheiro. Além disso eram beneficiados por isenções de impostos e foram aos poucos montando uma frota naval que se tornaria maior que a de qualquer Estado cristão. Seu sucesso no mundo financeiro foi tão grande que "os defensores de Cristo" acabaram se tornando banqueiros. Emprestavam dinheiro, aceitavam depósitos, controlavam investimentos. Cem anos após sua fundação, a ordem transformara-se numa verdadeira companhia multinacional, mais rica que qualquer país cristão. A influência política dos templários cresceu junto com sua riqueza. Nos séculos 12 e 13, os cavaleiros trabalhavam como conselheiros e diplomatas nas cortes dos reis e no próprio Vaticano, compartilhando segredos de Estado e contando com privilégios legais. É claro que tanto poder gerou inimigos. E a situação dos templários piorou muito em 1291, quando os muçulmanos, depois de dois séculos de luta, finalmente expulsaram os cristãos da Terra Santa.

Nas primeiras horas de 13 de outubro de 1307, Felipe, o Belo, rei da França, ordenou a prisão de todos os monges-guerreiros do país, sob acusação de heresia. Começava um dos julgamentos mais famosos e (aparentemente) injustos da história. As acusações incluíam o culto do demônio, homossexualismo e insultos à hóstia - crimes que, na Idade Média, eram motivo de sobra para a pena de morte.

Na opinião da maior parte dos estudiosos, tudo não passou de calúnia. "Nenhum historiador de renome admitirá como verdadeira essa miscelânea de tolices", escreveu o medievalista inglês Malcolm Lambert no seu livro de 1992, Medieval Heresy ("Heresia Medieval", sem versão brasileira). Torturados e amedrontados, muitos templários se declararam culpados. Vários monges-guerreiros pereceram nas câmaras de tortura, nas profundezas dos calabouços ou nas fogueiras da Inquisição. Outros se mataram de puro desespero. Em 1315, o papa Clemente V extinguiu oficialmente a ordem e parte das suas propriedades foi parar nas mãos de seu maior algoz - o rei da França.

A maior parte dos historiadores aposta que os monges-guerreiros tenham sido dizimados por motivos políticos e econômicos. O rei Felipe estava falido e confiscar a fortuna da ordem seria uma ótima solução para ele. Mas há teorias que dizem que a perseguição teve razões mais misteriosas. Elas falam num fabuloso "tesouro dos templários", que incluiria quantidades absurdas de ouro, prata e jóias, além de artefatos sagrados encontrados na Terra Santa. Essas teses começaram a tomar forma apenas entre os séculos 18 e 19 - época em que surgia, simultaneamente, um renovado interesse pelos mitos do Cálice Sagrado. O Graal tinha sido esquecido no início da Renascença, quando todos os medievalismos saíram de moda. Agora, no entanto, o mito do Cálice Sagrado renascia com força total, inspirando diversas obras-primas do Romantismo, entre elas a ópera Parsifal, do compositor alemão Richard Wagner.

Não demorou muito para que estudiosos sugerissem que o suposto "tesouro perdido" dos templários, nunca encontrado, fosse nada menos que o Graal. No século 19, as obras de Wolfram foram resgatadas - e o erudito austríaco Joseph von Hammer-Purgstall foi o primeiro a afirmar que os templeisen eram na verdade cavaleiros templários. Para ele, a Ordem do Templo servia de fachada para os adeptos de uma seita pagã que adotava o Graal como uma espécie de ídolo satânico. Segundo essa tese desvairada, a matança dos templários não tinha nada de injusta - foi apenas uma reação da Igreja contra esses conspiradores demoníacos.

Hoje, a maior parte dos historiadores descarta a teoria como pura imaginação. "O vínculo entre templários e o Graal é implausível", escreveu o medievalista inglês Richard Barber em The Holy Grail: Imagination and Belief ("O Santo Graal: Imaginação e Crença", publicado em 2004 e ainda sem tradução no Brasil). "A Ordem do Templo era uma sociedade militar com fins práticos e não tinha nenhum interesse em misticismo ou teologia", diz. Ainda assim, com sua irresistível mistura de erudição e conspiração, o pesquisador austríaco abriu as portas para teorias mirabolantes que relacionam templários, o Cálice e algum grandioso segredo escondido entre as páginas da história.
O cálice pop

No século 20, a lenda ganhou interpretações que soariam inacreditáveis para os contemporâneos de Chrétien de Troyes. Em 1920, a inglesa Jessie Weston imaginou uma explicação sexual: o vaso seria um símbolo da vagina e a "lança sangrenta" - adivinhe - representaria o pênis. Houve quem viajasse ainda mais longe. Na década de 80, o pastor anglicano Lionel Fanthorpe, presidente da Associação Britânica de Pesquisas Ufológicas, sugeriu, no livro The Holy Grail Revealed ("O Santo Graal Revelado", não traduzido no Brasil), que o Cálice tivesse sido "trazido à Terra por uma nave espacial".

Uma das teses mais famosas e também das mais controversas é a do livro O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, de 1982. Os detratores da teoria reclamam da lógica peculiar do livro, onde coincidências servem como provas e suposições viram argumentos. Por exemplo: os evangelistas às vezes se referem a Jesus como "um rabino" e, na antiga Judéia, os rabinos tinham que ser casados. Logo, Jesus devia ter uma esposa. E ela devia ser Maria Madalena, a "pecadora" que Jesus salvou do apedrejamento.

Em seguida, o livro interpreta a expressão francesa San Greal (usada em alguns textos medievais para indicar o Cálice Sagrado) como uma corruptela de sang real (em francês antigo, "sangue de rei"). O Evangelho de Marcos afirma que Jesus era descendente dos reis Davi e Salomão - logo, o tal sangue real pode ser uma referência à linhagem terrena de Cristo. De suposição em suposição, os autores chegam à hipótese de que a crucificação foi uma farsa. Jesus, que se considerava herdeiro do trono de Jerusalém, fugiu para a França com a esposa e seus filhos. Sua descendência teria continuado viva com os merovíngios, dinastia francesa que reinou nos primeiros séculos da Idade Média. Perseguidos pela Igreja Católica, que temia perder seu poder sobre os fiéis, os herdeiros de Cristo teriam sobrevivido graças à proteção - adivinha de quem? - dos templários.

Graças ao gosto moderno por intrigas esotéricas e complôs universais, essa teoria acabou se transformando num fenômeno pop. Ainda que poucos pesquisadores a levem a sério, ela acabou definitivamente assimilada à mitologia do Santo Graal. As idéias contidas em O Santo Graal e a Linhagem Sagrada serviram de inspiração para best sellers internacionais como Os Filhos do Graal, de Peter Berling, sucesso na Europa na década de 90, e O Código Da Vinci, de Dan Brown, que vendeu 17 milhões de exemplares pelo mundo e vai virar filme pelas mãos do diretor Ron Howard.
Ao que tudo indica, a saga do Graal está longe de acabar. Relíquia católica, símbolo pagão ou estrela do entretenimento, ele continua uma imagem capaz de significar muitas coisas em muitas épocas diferentes - e é nesse poder camaleônico de sugerir e ocultar, iluminar e confundir, que se encontra o segredo de sua longevidade. Desde os tempos da cavalaria até a era da comunicação em massa, o Graal sempre foi um objeto mais do reino da ficção que da história. Mesmo assim, ao longo desses 800 anos, ele nunca parou de mexer com a imaginação humana. O Código Da Vinci não é o primeiro best seller a ter o Graal como estrela. E pode ter certeza de que não será o último.

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sábado, 9 de setembro de 2006

A BUSCA DO GRAAL - PARTE 3

As novas lendas

O poeta bávaro Wolfram von Eschenbach, que viveu entre os séculos 12 e 13, foi responsável pela versão mais surpreendente do Santo Graal na Idade Média. Sua obra-prima, Parsifal, escrita entre 1210 e 1220, sugere que o Graal era muito anterior a Cristo. Em vez de prato, vaso ou cálice, ele é descrito como uma pedra luminosa, trazida à Terra por espíritos celestiais quando o mundo era jovem. O Graal-pedra teria sido guardado através dos séculos por uma irmandade de cavaleiros, os templeisen (pronuncia-se "templáisen"), no castelo de Munsalvaesche. Wolfram era um autor criativo e suas obras estão cheias de palavras inventadas e lugares imaginários - ninguém sabe o que podiam ser os templeisen ou que lugar era Munsalvaesche.

A história de Wolfram tem semelhanças curiosas com a lenda do Al-Hajarul Aswad - rocha negra guardada na Caaba, centro da Mesquita de Meca -, o objeto mais sagrado do islamismo. O poeta bávaro pode ter sofrido influência de autores muçulmanos, numa época em que os árabes dominavam boa parte da Europa. Segundo lendas antigas, o Al-Hajarul Aswad caiu dos céus nos tempos de Adão e tem o poder de purificar os fiéis de seus pecados. Outros acreditam que o Graal de Wolfram seja uma alusão ao "lápis elixir", ou pedra filosofal, substância mítica que os alquimistas medievais consideravam capaz de prolongar a vida e transformar qualquer metal em ouro.

Parsifal pode estar na origem de outra lenda que passou a circular no fim do século 13. Segundo ela, o Graal era uma esmeralda que havia adornado a coroa de Lúcifer, o anjo mais poderoso dos exércitos divinos. Essa lenda afirma que a coroa foi despedaçada pela espada do arcanjo Miguel quando Lúcifer ousou revoltar-se contra Deus. O anjo despencou para o fundo do Inferno e a esmeralda caiu na Terra como um meteorito. Mais tarde, ela seria encontrada por um sábio chamado Titurel e esculpida na forma de um vaso.

Livros como esse alcançaram uma popularidade tão grande que, de acordo com o medievalista francês Philippe Walter, deram origem a uma verdadeira "Era do Graal" na cultura da Idade Média. Logo o Santo Cálice ultrapassou os limites da ficção e entrou no reino da possibilidade histórica. Começaram a correr rumores de que ele se encontrava de fato em algum lugar da Europa (veja o mapa abaixo).

Para os interessados em rastrear o "verdadeiro Graal", o livro de Wolfram, com seus detalhes exóticos e alusões obscuras, foi um prato cheio. Parsifal cercou-se de polêmicas, nenhuma delas mais persistente do que a levantada pela palavra templeisen. No início da Idade Contemporânea, surgiu a tese de que a irmandade citada em Parsifal fosse uma referência à Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão - os templários. Para entender o fascínio que essa teoria exerceu (e ainda exerce) sobre leitores e escritores, é preciso dar uma olhada na controversa trajetória dos templários - um drama real, mas tão intenso e surpreendente que também poderia ter saído das páginas de um romancista.

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sexta-feira, 8 de setembro de 2006

A BUSCA DO GRAAL - PARTE 2

As raízes medievais

É bom avisar logo: para a pergunta acima não há resposta. O que se sabe é que graal é uma palavra do francês antigo que indica uma espécie de tigela utilizada nas refeições dos aristocratas. Alguns acreditam que o Santo Graal seja um artefato arqueológico cujos rumos podem ser traçados desde a Antiguidade até os dias de hoje. Para outros, ele é um símbolo esotérico ou um ideal filosófico. Muita gente afirma que ele nunca passou de fantasia literária.

A estréia do Graal nas páginas da ficção, no livro de Chrétien, ocorreu em uma das épocas mais dinâmicas e criativas da história: os séculos 12 e 13, que assistiram a uma revolução nas sociedades européias. "Em todos os aspectos da vida e da cultura, o período foi decisivo para a formação do Ocidente", diz o medievalista José Rivair Macedo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. "As cidades se multiplicavam e se expandiam, o comércio renascia e por todo lado ocorriam grandes mudanças sociais e econômicas." Esse clima também se refletiu na literatura, dando origem aos primeiros poemas e romances das línguas européias modernas - antes só se escrevia em latim, e para poucos.

Chrétien de Troyes, autor de diversos romances sobre as lendas do rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda, foi um dos escritores mais lidos dessa época revolucionária. Embora tenha sido o primeiro a escrever sobre o tema, há quem diga que o Graal não foi uma invenção sua. A figura de um "recipiente sagrado" era comum na mitologia do povo celta, que habitou a Europa Ocidental na Antiguidade, antes da chegada dos romanos. Entre as crenças celtas, havia a do caldeirão de Ceridwen, que continha uma "poção da sabedoria", e a do caldeirão de Bran, dentro do qual os guerreiros mortos ressuscitavam. Para muitos estudiosos, o Graal de Chrétien é herdeiro dessas lendas, mais antigas que o próprio cristianismo.

Ao longo dos séculos, circulou a tese de que Chrétien encontrou a história do Graal em algum manuscrito desaparecido. Essa opinião se baseia nas palavras do próprio autor: na obra ele cita um livro anônimo cujas revelações teriam servido de inspiração para o seu conto. De acordo com alguns historiadores, isso talvez não passe de um truque literário. Ao contrário do que acontece nos tempos atuais, a Idade Média não via a originalidade com bons olhos. Os escritores tinham o hábito de citar autoridades reais ou imaginárias para dar força a suas próprias criações. Ainda assim, a idéia de um manuscrito original contendo a "verdadeira" história do Graal tornou-se comum na Idade Média. Muita gente afirmou ter encontrado o texto, mas ninguém convenceu completamente os historiadores. Se Chrétien inventou o Graal ou se o encontrou numa narrativa antiga, é coisa que provavelmente jamais saberemos.

Ainda mais incerto é o significado que Chrétien pretendia dar aos tesouros do Rei Pescador. Embora o conto fosse um trabalho de ficção, era comum que literatura e teologia se misturassem na Idade Média, com uma facilidade que pode ser difícil de compreender para a mente materialista do século 21. A religião estava presente em todos os aspectos do dia-a-dia: nobres e plebeus acreditavam no poder das relíquias (veja quadro à esquerda), viajavam centenas de quilômetros para visitar túmulos de santos e viam por todos os lados presságios do Juízo Final e sinais da providência (ou da ira) divina. Naquele mundo saturado de misticismo, o público estava acostumado a encontrar símbolos religiosos em meio aos enredos de seus romances favoritos.

Nos 30 anos seguintes, a história de Percival seria recontada por diversos autores, que acrescentaram novos detalhes e deram ao Graal aspectos diferentes. Para alguns, ele é um relicário contendo a hóstia. Para outros, uma taça ou uma simples tigela. Em Perlesvaus, obra anônima escrita por volta de 1210, o Graal é um objeto mutante, que assume cinco formas diferentes. Segundo o romancista, "nenhuma dessas transformações pode ser revelada" aos mortais comuns, exceto a última: a forma de um cálice. Alguns acreditam que o Graal-cálice reflita o fascínio medieval pela cerimônia da Eucaristia, na qual a hóstia é consagrada como sendo o corpo de cristo - o momento mais solene e dramático da fé católica.

Mas foi nas páginas do Roman de L’Estoire du Graal ("Romance da História do Graal"), escrito entre 1200 e 1210 pelo poeta francês Robert de Boron, que o Santo Graal ganhou sua versão mais popular. Robert criou uma explicação "histórica" para o misterioso tesouro: o Graal seria o prato ou o vaso no qual Jesus partiu o pão na última ceia, mais tarde usado pelo seu discípulo José de Arimatéia para recolher o sangue de Cristo na cruz. Depois da crucificação, essa relíquia teria passado por várias peripécias na Terra Santa até aportar em solo europeu, onde teria ficado escondida atrás das muralhas de um castelo encantado. Segundo o livro de Robert, o objeto tinha poderes sobrenaturais, entre eles o dom de curar feridas, espantar demônios, fazer a terra florescer e revelar segredos apocalípticos. O Cálice Sagrado funcionaria como uma ligação do plano material com o metafísico - uma espécie de ponte entre o humano e o divino.

Em outros romances, a origem da "lança que sangra" também é desvendada. Ela é descrita como a arma usada pelo soldado romano Longinus para rasgar o flanco de Cristo durante a crucificação. Segundo uma velha crença, o golpe dado por Longinus representa o momento exato da morte do Messias. Logo, a lança seria nada menos do que a arma usada para matar Jesus. Não espanta que depois de tantos séculos ela continuasse ensangüentada.

Todas essas teses fortaleciam a crença de que os objetos avistados por Percival fossem mais do que simples tesouros. Eles eram as maiores relíquias do cristianismo - os mais sagrados entre todos os objetos sobre a terra.

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quinta-feira, 7 de setembro de 2006

A BUSCA DO GRAAL - PARTE 1

O jovem Percival estava exausto depois de cavalgar o dia inteiro. Meses antes ele tinha partido da corte do rei Artur em busca de fama e aventuras, mas naquela noite tudo que ele queria era dormir. Foi quando avistou um castelo. Os portões estavam abertos e Percival entrou. Lá dentro foi recebido por um certo "Rei Pescador", um velho nobre que o convidou para a ceia. Antes de o banquete começar, duas crianças atravessaram a sala. Primeiro um menino passou trazendo nas mãos uma longa lança, cuja ponta sangrava como se estivesse viva. Logo depois surgiu uma menina em roupas majestosas, carregando um recipiente de ouro puro, incrustado pelas jóias mais preciosas da Terra. O clarão era tão intenso que as velas do castelo perderam o brilho. Percival ficou deslumbrado, mas, por timidez, não perguntou o significado daquilo. No dia seguinte, o cavaleiro seguiu viagem. Aquela cena nunca mais sairia de sua cabeça. Um dia, ele decidiu reencontrar os tesouros e desvendar seus segredos, ainda que a aventura lhe custasse a vida. A busca pelo Graal acabava de começar.

Essa história foi escrita há mais de 800 anos, por volta de 1190. Ela faz parte do livro Le Conte du Graal ("O Conto do Graal"), de Chrétien de Troyes, um dos maiores escritores franceses da Idade Média. O livro deixava de explicar muitas coisas. Afinal, que recipiente dourado era aquele? Quem era o Rei Pescador? Por que a lança sangrava? Como acabou a busca de Percival? Poucos anos depois, Chrétian morreu, deixando todas essas perguntas sem resposta.

Pelo que se sabe, O Conto do Graal foi a primeira referência ao tema na história. A Bíblia não fala uma palavra sobre o Santo Graal e seus poderes. O livro de Chrétien incendiou a imaginação dos europeus do século 12 e acabou se tornando uma verdadeira obsessão para leitores e escritores. Tudo indica que O Conto do Graal foi uma espécie de best seller de sua época - o primeiro de uma longa série de sucessos literários inspirados pelo tema. Com o tempo, foram surgindo explicações para as coisas estranhas que aconteciam na história e tanto o recipiente dourado quanto a lança começaram a ser interpretados como relíquias dos tempos bíblicos. O Graal, que começou sua história no reino da ficção, foi sendo transformado pelo imaginário coletivo em uma das peças centrais da mitologia do cristianismo - um objeto divino, dotado de poderes miraculosos e capaz de diminuir a distância entre Deus e os homens. Uma imagem tão poderosa que até hoje há quem diga que ele realmente existiu.

Após a Idade Média, a "lança que sangra" ficou meio de lado nas páginas da literatura, mas o Graal continuou sua carreira de sucesso. Ele chegou aos tempos modernos e povoou filmes hollywoodianos, reflexões eruditas e best sellers internacionais. Por trás de toda sua fama, o mistério permanece. Oito séculos após o surgimento da lenda, o dilema central continua de pé: afinal de contas, o que é o Graal?

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quarta-feira, 6 de setembro de 2006

06.09.1991 - Há 15 Anos Atrás

URSS reconhece independência das repúblicas bálticas.

O recém-criado Conselho de Estado da União Soviética reconheceu a total e imediata independência das três repúblicas bálticas - Lituânia, Letônia e Estônia - depois de 51 anos de anexação. A primeira decisão do Conselho de Estado tornou independentes as repúblicas pioneiras do separatismo na União Soviética, que passariam a integrar a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa (CSCE). As repúblicas bálticas haviam sido anexadas à União Soviética em 1940 por Stalin e seu esforço separatista intensificou-se depois da tentativa de golpe de estado ocorrida na Rússia em agosto.

©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

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terça-feira, 5 de setembro de 2006

Pink Floyd - Have A Cigar



Come in here, dear boy, have a cigar.
You're gonna go far,
You're gonna fly high,
You're never gonna die,
You're gonna make it if you try;
They're gonna love you.
Well I've always had a deep respect,
And I mean that most sincerely.
The band is just fantastic,
that is really what I think.
Oh by the way, which one's Pink?
And did we tell you the name of the game, boy,
We call it Riding the Gravy Train.

We're just knocked out.
We heard about the sell out.
You gotta get an album out.
You owe it to the people.
We're so happy we can hardly count.
Everybody else is just green,
Have you seen the chart?
It's a helluva start,
It could be made into a monster
If we all pull together as a team.
And did we tell you the name of the game, boy,
We call it Riding the Gravy Train.

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segunda-feira, 4 de setembro de 2006

Atual Objeto de Desejo: K790i

Existe celular com câmera, com transmissão de dados em alta velocidade e smartphone. O Sony Ericsson K790i (R$ 1.799) se encaixa em todas as descrições anteriores e cria uma nova categoria: celular para blogueiros, com publicação direta de fotos em sites que usam o serviço Blogger, do Google. Tem câmera de 3,2 megapixels, transmissão de dados via EDGE e sincroniza dados com o PC, entre outros recursos.
O K790i finalmente quebra a barreira dos 2 megapixels nas câmeras dos celulares (presente desde o Nokia N90, lançado no final de 2005), gerando imagens com resolução de 3,2 megapixels. E é o primeiro aparelho da Sony Ericsson a carregar a marca Cyber-shot, da Sony, em sua câmera.
As imagens geradas têm excelente qualidade. A maioria das imagens que tiramos ao ar livre, de paisagens ou ambientes internos sem flash, ficou com excelente qualidade. A lente da câmera, protegida por uma tampa na parte traseira do aparelho, ajuda na tarefa de tirar boas fotos: tem abertura focal de f/2.8, bastante luminosa para uma câmera de telefone. Fotos com flash uma lâmpada xenon, não um LED, por sinal ficaram um tanto azuladas. Como no N90, a velocidade de disparo é um pouco mais lenta que em uma câmera digital, em torno de um segundo entre focar e disparar. O foco automático funciona bem, inclusive no modo macro, mas esqueça o uso do zoom digital (que atinge 16x), pois só serve para estragar as imagens.
O modo de fotografar do K790i lembra uma câmera convencional e até pode enganar quem não sabe que aquele é um celular. O grande visor (240 x 320 pontos, 262 mil cores) funciona bem em ambientes externos, mas pode solarizar um pouco em locais com muita claridade. O joystick permite alternar entre câmera digital e filmadora, além de ajustar a exposição em até dois pontos, gerando subexposição ou sobrexposição de imagem. Um dos modos de disparo, chamado BestPic, tira nove fotos simultâneas e salva apenas a que o fotógrafo considerar melhor. Outro recurso interessante é o PhotoDJ, um mini-editor de imagens integrado ao aparelho, com ajuste de níveis, luz, brilho, contraste, redução de olhos vermelhos e inserção de efeitos especiais na foto.
Como filmadora digital, o K790i faz o básico, gerando vídeos em formato 3GP com som e duração limitada à memória do telefone. A memória é um dos limitadores do K790i: 64 MB internos mais um cartão Memory Stick M2 de 64 MB. Isso é suficiente para guardar no máximo 130 fotos, sem armazenar outros tipos de arquivo. Para fotos do dia-a-dia é suficiente, mas ainda deixa a desejar perto dos 512 MB que vêm com o Sony Ericsson W810.
O K790i pode assumir funções de smartphone também. Primeiro pelo botão BlogThis, que envia direto imagens para blogs que usam o serviço Blogger.com, do Google. Caso o dono do celular não tenha um blog registrado, o telefone cria automaticamente uma página no Blogger para o usuário, com envio de senha direto para o telefone. Depois, basta usar o navegador do PC e modificar as definições, incluindo o redirecionamento para um blog já existente.
Como o Sony Ericsson Z530i, o K790i tem um leitor de RSS integrado, de fácil acesso. O celular já vem com alguns feeds cadastrados (como do Google News, da BBC e de notícias da própria fabricante) e é bastante simples cadastrar novas fontes de informação. Um dos modos é digitar o endereço do feed XML diretamente no aparelho. Outro, mais simples, ocorre via browser: navegue em um site com um feed RSS e o aparelho irá automaticamente detectar a fonte, perguntando se você quer cadastrar nos favoritos. Assim, toda vez que precisar de novas informações, basta atualizar as informações (via rede EDGE ou GPRS). Instalamos ainda o navegador Opera Mini, que funcionou sem problemas, apresentando páginas HTML completas (nada de sites WAP). O aparelho vem com um cliente de e-mail, funções de alarme, calendário, notas, tarefas, calculadora e cronômetro.
Finalmente, o K790i também é um telefone celular GSM tri-band (900, 1800 e 1900), com boa qualidade de som para ligações em ambientes internos e externos. O aparelho toca arquivos MP3 e AAC, que podem ser utilizados como ringtones, além de ter um rádio FM integrado. Um modo de vôo permite o uso da câmera/MP3 player (de excelente qualidade com os fones do aparelho) em aviões, desligando os recursos de telefonia. Além disso, o K790i oferece conectividade Bluetooth e infravermelho. Conectamos (e trocamos dados) do K790i a um PC via Bluetooth com mais facilidade do que com o cabo USB e o software Sony Ericsson PC Suite.
Em resumo, o Sony Ericsson é um celular voltado a um público mais específico, que precisa de uma câmera com excelente qualidade de imagem e quer publicar suas fotos na web com facilidade..

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domingo, 3 de setembro de 2006

Antônio Houaiss: Entrevista concedida a Veja (30/08/1978), a Humberto Werneck e Zuenir Ventura - Final


Veja - A língua pode ser usada como um instrumento de dominação ideológica. Em que medida isso teria ou estaria acontecendo no Brasil?
HOUAISS - Até o século XIX, o processo é visível. Há um momento em que o objetivo maior é extirpar todas as línguas que não fossem a portuguesa. Até o final do século XVIII, não podemos esquecer, o português era um idioma minoritário no país. A maioria falava a língua geral, o tupi. Nessa época, em São Paulo, as senhoras das
grandes famílias falavam tupi enquanto os maridos, fora de casa, iam discutir em caçanje, um português muito mal falado. Mas, a partir de um momento, já com o marquês de Pombal, baixam-se instruções para proscrever todas as línguas em favor da portuguesa. Porque Pombal tinha consciência de que a língua era um dos componentes fundamentais para a unificação. De lá para cá, o Brasil ficou na vanguarda do processo de padronização da língua portuguesa, através da normativização do idioma. Não é sem razão que desde a metade do século XIX os grandes gramáticos não são portugueses, mas brasileiros. Num processo de complexo colonial perfeitamente compreensível, os grandes puritanos da língua, em sua maioria, são brasileiros, ou portugueses vindos para o Brasil. E eles não só codificam uma gramática como também começam a determinar aquilo que podia e que não podia ser dito. Criaram uma camisa-de-força a qual ninguém podia escapar. Nesse sentido, o português chegou a um momento de disciplina tão rígida, tão dogmática, tão classista, que a condição sine qua non para você aceder á classe dirigente era manipulá-la com esses rigores. A língua se transformou num
instrumento de classe.

Veja - E hoje?
HOUAISS - Hoje, o purismo está sendo arrebentado. A classe dirigente está permitindo que isso aconteça. Ninguém está exigindo que os cânones puristas sejam praticados - a não ser a burocracia tecnocrática, quando tem que mandar a brasa. Quando tem de divergir, ela lembra que você errou no pronome. Para meter o pau, ela invoca a regra; para concordar com você, a regra não tem valor nenhum. Isso no magistério, na jurisprudência, no Direito. No jornalismo também: um jornalista que faz uma reportagem muito a favor de certas situações prevalentes, mesmo que o faça num português ruim, não será criticado: o conteúdo é que conta. Se escrever
contra, vão dizer que ele nem sequer sabe a língua portuguesa.

Veja - O senhor talvez tenha sido o primeiro a detectar, no começo da década, um fenômeno que foi muito sintomático, sobretudo na linguagem dos meios de comunicação: naquele momento de repressão e obscurantismo mais intensos, a imprensa estava usando uma linguagem circunloquial, metafórica, para dizer ou
sugerir o que era proibido. Hoje, com o panorama mudando, já se pode detectar fenômeno inverso?
HOUAISS - Minha tese continua válida. A decadência aparente da língua portuguesa, nos últimos tempos, foi
uma decadência entre aspas: derivava, em grande parte, do fato de se estar obrigando as pessoas a fazerem uso de um instrumento sem terem uma finalidade. Quem está interessado em usar uma língua quando os conteúdos mais importantes - as grandes questões da coletividade - estão proibidos? E esse problema continua talvez um pouquinho menos marcado, mas continua. Menos marcado porque a busca do contrário está sendo feita: onde quer que você convoque um número de brasileiros para assuntos mais sérios, como nos debates no Teatro Casa Grande, é impressionante a audiência, o comparecimento e as perguntas muitas delas elementares é verdade sobre assuntos que não são sequer objeto de consideração dentro dos currículos universitários e secundários, ou na imprensa. Não são tratados senão de uma forma convencional, oficial.

Veja - No pólo oposto à elementaridade, vemos o hermetismo da produção universitária brasileira. Como explicá-lo?
HOUAISS - Um pouco desse barroquismo é um recurso para poder dizer aquilo que muitas vezes não poderia ser dito de outra forma. Boa parte da ciência social, no Brasil, perdeu um pouco sua incisividade porque aspira a ser científica - quer dizer, aspira a não ser um discurso ideológico. Isso, a meu ver, a está comprometendo: a ciência social não pode deixar de ser engajada.

Veja - O que perdemos de mais importante nesses anos de repressão cultural?
HOUAISS - O que perdemos poderemos recuperar. Mas quantos homens de valor deixaram de aparecer? Que oportunidade os políticos tiveram para emergir? O fechamento impediu, também, que cada indivíduo colocasse politicamente sua profissão. Muitas e muitas opções profissionais têm sido determinadas pelas vantagens
materiais. Esse é um critério numa sociedade burguesa, que visa ao lucro, não é o critério das grandes vocações.

Veja - Em Portugal, antes do 25 de abril, dizia-se que as gavetas estavam cheias de boa produção intelectual e artística abafada pela censura. Não estavam. O que haverá nas gavetas brasileiras?
HOUAISS - Muitos livros foram proibidos no Brasil. Mas, no conjunto, não creio que a produção cultural chegue a estar tão comprometida. O que houve é que não se incrementou a produção livreira na proporção que seria de desejar. Só poderemos dizer que liquidamos o analfabetismo quando o consumo médio de livros e jornais dos
brasileiros for considerável. Nós somos, a esse respeito, dos países mais atrasados entre os que se consideram de cultura ocidental. As estatísticas oficiais são engordadas por folhetos do Mobral. O consumo de livros, revistas e jornais é ridiculamente baixo.

Veja - Um dos argumentos para a decantada decadência da língua portuguesa no Brasil seria a pobreza da linguagem da juventude. O senhor concorda?
HOUAISS - Não, não concordo. Se se der o momento em que essa juventude possa explodir, estou certo de que ela explodirá. Os jovens, evidentemente, não estão querendo aceitar as regras do jogo vigente. Mas aceitarão, no momento em que puderem participar da convenção da regra de um outro jogo. Teremos, então, surpresas fabulosas em todas as áreas do conhecimento científico, da ação humana, da poesia, da ética.
Insisto: a juventude está preferindo omitir-se a participar de algo que recusa. Isso se reflete claramente na linguagem. Uma das formas da linguagem presente do brasileiro é o uso de um cifra, de tal maneira que você não saiba o que ele está pensando. A juventude se abstêm com um código extremamente restrito, enigmático e ambíguo.

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sábado, 2 de setembro de 2006

Antônio Houaiss: Entrevista concedida a Veja (30/08/1978), a Humberto Werneck e Zuenir Ventura - Parte 1


Veja - Como nasceu o Vocabulário Ortográfico ?
HOUAISS - Em dezembro de 1971, o Congresso Nacional aprovou a simplificação de alguns aspectos da ortografia brasileira. Recomendou então que a Academia elaborasse um Vocabulário. O passo seguinte a essa simplificação seria a unificação pura e simples das ortografias brasileira e portuguesa.

Veja - Não existe um acordo para a unificação?
HOUAISS - Não. O que existe é um acordo entre as academias dos dois países, firmado há dois anos, no qual os portugueses, finalmente, abdicam da condição de proprietários da língua. Esse acordo, no entanto, só entrará em vigor quando for aprovado pelo Congresso brasileiro. Mas até hoje, por motivos que desconheço, está no Ministério da Educação. As tentativas de unificação são antigas. Em 1943, as academias decidiram fixar uma grafia única. Mas nossos negociadores não estavam qualificados para uma discussão de tal importância. Ora, os portugueses, brasileiros, angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos, guiné-bissaenses, etc. utilizam uma mesma língua. Não é admissível que, para escreverem uma palavra, tenham de saber como o lisboeta, o carioca ou o paulista a pronuncia. A grafia tem que ser acima e independente das pronúncias regionais. Parece absurdo, mas é o princípio da grafia fonológica, que existe há 3 000 anos. Tem-se como denominador comum alguma coisa que represente todas as variantes. Por incrível que pareça, isso é possível em todas as línguas. Mas, no caso concreto das discussões que precederam o acordo de 1943, havia um pressuposto de que a língua portuguesa era propriedade de Portugal e que os brasileiros eram apenas usuários por empréstimo. Levou algum tempo até que nós e eles tomássemos consciência dessa verdade simples: ninguém é proprietário de uma coisa que é um bem comum.

Veja - Onde os negociadores brasileiros erraram?
HOUAISS - Eles visivelmente abdicaram em alguns pontos importantes da questão ortográfica. Com isso, a feição de cada palavra ficou dependendo da pronúncia que ela tivesse na área culta de Lisboa ou Coimbra. Apesar disso, as academias assinaram um acordo e o Parlamento português o aprovou. O nosso, não, exatamente por causa desses absurdos. Nosso Congresso aprovou, aí sim, uma resolução colateral da ABL, que, no fundo, era o projeto que havíamos levado para Portugal e que não foi aceito lá. As ortografias continuam divergentes. E os nossos irmãos da África não sabem como decidir. Como uma questão de elementar política cultural - no melhor sentido, sem imperialismo -, é preciso promover a unificação. Em 1972, quando iniciamos nosso trabalho, havia uma dúvida: que tipo de Vocabulário deveríamos fazer? Uma coisa canônica, que é a simples repetição do que tem sido feito, ou algo que abarcasse a totalidade da realidade presente? Consultados meus colegas de Academia - ao contrário da tradição que os vê conservadores e quadrados aceitaram perfeitamente a hipótese de a ABL aventurar-se na abertura. O trabalho que agora concluímos vem com humildade. Pretende ser apenas um rascunho, uma base para a futura memória lexicográfica da língua portuguesa. Nele se explica que cada usuário dessa língua, de que país seja, é apto a eventualmente trazer-lhe correções.

Veja - Quais as fontes de pesquisa?
HOUAISS - Nós nos baseamos, em primeiro lugar, nos grandes dicionários e vocabulários da língua. Usamos, também, um grande número de Vocabulários regionais e locais. No caso dos neologismos, que necessariamente não estão nos dicionários, houve coleta em jornais e revistas, evidentemente, mas sobretudo uma pesquisa de natureza individual, em grande parte minha. Desses 400 000 vocábulos, pelo menos 80 000 foram coletados por mim. Porque depois de fazer duas enciclopédias a manipulação da língua me permitia dizer se uma palavra existe ou não.

Veja - Um jornal como Pasquim também serviu de fonte?
HOUAISS - Claro. Mas alguns modismos, cuja existência pudesse ser posta em dúvida, não entraram. Desses casos mais óbvios da zona sul carioca, por exemplo, muitos não terão entrado. Exemplos: Pô, duca. Acho que seria um pouco prematuro incluir essas palavras. Depois, não há o risco de perdê-las. Se prevalecerem na língua, sem dúvida serão incorporadas, O substantivo barato, por exemplo, de curtir um barato, já foi adotado.

Veja - Que universo vocabular mais tem contribuído para o crescimento do repertório da língua portuguesa?
HOUAISS - É muito difícil dizer. Mas tenho a impressão de que, por mais incrível que pareça, são as ciências na natureza. Desde meados do século XIX. Na flora, na fauna, na Medicina, a quantidade de palavras que aparecem é espantosa.

Veja - É possível computar proporcionalmente os vocabulários de cada universo do conhecimento?
HOUAISS - Um dos meus objetivos, no futuro, seria exatamente esse. A matéria não só é computável como também perfeitamente capitulável. Mas a tarefa demandaria, claro, uma equipe de sessenta a oitenta pessoas trabalhando durante quinze anos e, a partir daí, umas dez, quinze pessoas cuidando da manutenção e da atualização.

Veja - Isso não seria um luxo?
HOUAISS - É um problema de salvação nacional. A memória lexicográfica é o único ponto de referência interpsíquica dos indivíduos que falam a mesma língua e têm uma cultura comum.

Veja - Quatrocentas mil palavras: o português é língua pobre ou rica?
HOUAISS - Esse número está aquém da realidade. Até a metade do século XIX, de 40 000 a 60 000 palavras esgotavam a totalidade do vocabulário de uma língua de cultura. Mas de lá para cá a explosão vocabular tem sido tal que seria impossível registrar menos de 300 000. Se se toma como critério de línguas as palavras chamadas canônicas aquelas que podem ser usadas por pessoas cultas, o vocabulário pode limitar-se a 60
000 registros. Mas, se se incluem todas as terminologias - da Química, da Física, da Biologia, etc. -, aí o âmbito vai se alargando de tal maneira que 400 000 palavras já não serão suficientes.

Veja - Um homem comum utiliza quantas palavras?
HOUAISS - Depende. Um homem de cultura rural nasce, vive e morre com aproximadamente 3 00 palavras. Um homem urbano, dependendo do estrato social em que esteja inserido, varia entre 3 000 e 5 000. Um escritor como Guimarães Rosa, por exemplo, que pareceu um monstro, não vai além 8 000 vocábulos, segundo uma
pesquisa que acompanhei. Gabriele d’Annunzio, um dos mais verbosos escritores de língua italiana, terá chegado a 30 000 no máximo. Coelho Neto suspeita-se que este já entre 12 000 e 14 000 - o mesmo que Rui Barbosa. Camões seguramente não vai além de 8 000. Mas esse conceito de números de vocábulos como definição de potencial mental e temática é extremamente relativizado. Machado de Assis provavelmente ficaria em 5 000 e entretanto talvez seja o mais matizado dos escritores de língua portuguesa - porque aí o desgraçado, ao empregar a mesma palavra, sempre dava a ela um dengue rigorosamente novo.

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sexta-feira, 1 de setembro de 2006

Setembro


Nono mês do calendário gregoriano. Era o sétimo do calendário romano e seu nome deriva da palavra latina septem, que significa sete.

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