segunda-feira, 31 de outubro de 2005

O OITAVO DIA DA CRIAÇÃO

Com a Engenharia Genética, o homem aprende a interferir no DNA - a molécula em dupla espiral que contém os segredos da vida. Assim, cria seres que não existem na natureza, salva lavouras da geada, produz medicamentos preciosos. E mergulha numa vasta controvérsia.


Catorze anos atrás, dois cientistas norte-americanos conseguiram pela primeira vez transplantar material hereditário de um micróbio para outro, criando assim um fragmento de vida que nunca antes havia existido. Essa proeza assinala o nascimento daquilo que em pouco tempo se revelaria um formidável campo de estudos experimentos e descobertas - uma revolução tecnológica cujos efeitos se estendem por vastos horizontes, da Agricultura àMedicina, por exemplo. De fato, mesmo numa era em que o que não falta são portentosos avanços tecnológicos, poucos se comparam em alcance e diversidade à Engenharia Genética. como se denomina o conjunto de técnicas desenvolvidas pelo homem para intervir diretamente no mecanismo de construção da vida.
"A Engenharia Genética éainda mais importante do que a tecnologia nuclear", assegura o professor Crodowaldo Pavan. presidente do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq). Em 1973, o geneticista Pavan era um dos quinhentos pesquisadores presentes em Gatlinburg, no montanhoso Estado norte-americano do Tennessee. onde os professores Stanley Cohen e Hebert Boyer, da Califórnia. anunciaram numa conferência que haviam transferido genes entre células de organismos diferentes. Depois das explicações um grupo de cientistas. entre eles o brasileiro Pavan. foi designado para fazer uma primeira avaliação das conseqüências práticas do feito de Cohen e Boyer.
Um coordenador ia escrevendo no quadro-negro as realizações possíveis dentro de um prazo de cinco a dez anos", recorda Pavan. "Mas, à medida que a lista progredia, os risos na platéia aumentavam. Estávamos quase todos céticos. A sensação geral era de que a coisa simplesmente não ia funcionar. Na verdade, a "coisa" não só funcionou como produziu resultados em menos tempo do que se poderia esperar. Em 1977. por exemplo, a respeitada revista científica francesa La Recherche admitia cautelosamente, sem falar em prazos, que a produção de insulina para o tratamento de diabetes mediante Engenharia Genética já pertencia ao "domínio do possível". Pois o possível tornou-se realidade já no ano seguinte. Não espanta: com o advento da Engenharia Genética, o homem aprendeu mais sobre os segredos da vida do que em todos os seus cinqüenta mil anos de história; além disso. a massa de informação acumulada duplica a cada cinco anos na área de Biologia e a cada dois no campo especifico da Genética. O tiro de largada dessa revolução foi disparado em 1944, quando o pesquisador Oswald Avery, do Instituto Rockefeller. de Nova lorque, comprovou pela primeira vez que a matéria-prima da hereditariedade é o DNA - ácido desoxiribonucleico -, molécula existente nas células de todos os seres. das bactérias às baleias. Até então. o que havia de mais moderno em Genética eram os trabalhos sobre hereditariedade de autoria do monge Gregor Mendel. publicado em Brno. na Morávia (atual Checoslováquia). no ano de 1865. As obras de Mendel desvendaram as leis que governam a hereditariedade. Por exemplo, cada característica individual édeterminada por um gene; os genes se situam nos cromossomos; cada espécie animal ou vegetal tem um número fixo de cromossomos. Os seres humanos possuem entre cem mil e duzentos mil genes, organizados em 46 cromossomos. Mesmo sabendo disso, o homem só dispunha de um instrumento,demorado e inseguro, para mexer com as formas de vida o cruzamento e seleção de plantas e animais. Com a descoberta de que os genes habitam o DNA, fazendo dele o portador da bagagem hereditária dos seres, tornou-se possível interferir nos mecanismos mais íntimos e delicados de transmissão da herança biológica. O DNA foi analisado (1953). decodificado (1966), recortado em minúsculas fatias (1970), e estas transferidas de uma célula para outra (1973).
A importância da Engenharia Genética para a Medicina foi reconhecida desde o primeiro momento. Afinal, se existem pelo menos três mil doenças hereditárias, capazes de causar deformações aberrantes ou mesmo matar, muitas delas poderiam literalmente ser eliminadas no nascedouro removendo-se do embrião o gene responsável pela moléstia ou. ao contrário. acrescentando-se o gene cuja ausência provoca a enfermidade.
Enquanto não se chega lá, os pesquisadores trataram de agir em outra frente de batalha, comparativamente menos complexa: a produção por Engenharia Genética de substâncias que antes sóeram obtidas em quantidades absolutamente insuficientes para a procura.Foi o que aconteceu, primeiro com a insulina, em seguida com o hormônio do crescimento humano (para combater o nanismo), o interferon Alfa (usado em tratamentos antivirais e anticancerígenos) e a vacina contra a hepatite B. Todas essas substâncias que jádeixaram os tubos de ensaio dos laboratórios para os balcões das farmácias. foram fabricadas a partir de bactérias geneticamente manipuladas. Outras proteínas com propriedades anticâncer estão em fase de testes clínicos. Éo caso do interferon Beta, da interleucina 2 e do chamado fator de necrose de tumores. E, enfim, já foram isolados os genes necessários à produção de substâmcias úteis contra moléstias tão diversas como a hemofilia, a hipertensão e o enfisema pulmonar.
Tudo isso só pôde acontecer depois que a ciência desvendou o papel desempenhado pelo DNA no jogo da hereditariedade. Pois o DNA éque detém dentro de si o código genético que orienta as células na tarefa de fabricar as proteínas - as substâncias que dão as características de todos os seres. A forma do DNA é tão extraordinária como inconfundível. Trata-se de duas fitas que se enroscam a determinados intervalos como se construíssem uma dupla hélice - e éassim que se convencionou representar essa molécula nos modelos desenhados por computador.O DNA também pode ser comparado a uma escada em caracol. Esse formato éque Ihe permite executar uma singular manobra no processo de reprodução. Quando a célula se divide. a escada se separa em dois, de baixo para cima, como um zíper defeituoso que se abre. Cada um dos lados da escada atrai então para si os elementos que Ihe faltam (e estão esparsos na célula), de tal maneira que logo se formam duas escadas de DNA, réplicas perfeitas da primeira. A estrutura em dupla hélice do DNA foi descoberta em 1953 por dois pesquisadores da Universidade de Cambridge. na Inglaterra, o norte-americano James Watson e o inglês Francis Crick. Por isso eles foram contemplados com o prêmio Nobel em 1962. Vários anos se passariam, porém, até que os cientistas decifrassem a lógica das sucessivas contorções do DNA. Isso ocorreu quando se constatou que a escada com a qual a molécula se parece é formada por seqüências de apenas quatro substâncias básicas chamadas adenina, citosina, guanina e timina. A grande descoberta consistiu em perceber que esses degraus químicos não se combinam ao acaso. Ao contrário, a adenina só forma par com a timina, assim como a citosina com a guanina. Cada uma dessas combinações constitui o que os geneticistas chamam de pares de bases. A ordem em que esses pares aparecem seqüenciados e a extensão maior ou menor de cada seqüência dão sentido à linguagem genética, do mesmo modo como certas combinações entre as letras do alfabeto produzem palavras compreensiveis e não ajuntamentos sem nexo. As palavras do código genético são os genes. Um único gene pode ser constituído por até vinte mil pares de bases. Os seres humanos possuem algo como quatro bilhões de pares de bases.Os cientistas aprenderam a identificar, isolar, remover e substituir determinados genes mediante o uso de uma espécie de bisturis químicos chamados enzimas de restrição, capazes de cortar o DNA em lugares certos, de modo a forçar o divórcio dos pares de bases. Sem o parceiro original, cada base fica em principio livre para se associar a outra, com a ajuda de colas químicas chamadas ligazes. Assim, o gene responsável pela fabricação de insulina na célula humana é passado para o DNA de uma bactéria, ondecontinua produzindo a mesma insulina como se nada tivesse acontecido. E a bactéria transmite essa nova característica de geração a geração. Durante alguns anos, a bactéria preferida pelos cientistas para hospedar genes alheios foi a Escherichia coli, que vive habitualmente no intestino humano. Simples, muito bem conhecida e capaz de aceitar as ordens mais inesperadas - como a de fabricar insulinam -, ela é sem dúvida a estrela da Engenharia Genética.Outra bactéria, Bacilus thuringiensis, foi utilizada pela empresa belga Plant Genetics Systems, numa ousada tentativa de combater a malária, que, atinge cerca de 200 milhões de pessoas no mundo inteiro. Em vez de buscar uma vacina antimalária por Engenharia Genética - como faz, por exemplo, o cientista brasileiro Luis Hildebrando Pereira de Souza, no Instituto Pasteur, de Paris -, os pesquisadores belgas resolveram recorrer a Engenharia Genética para matar as larvas dos mosquitos transmissores da malária.
Conseguiram isolar da bactéria thuringiensis o gene responsável pela produção de uma proteína capaz de envenenar as larvas. Depois, transplantaram - no para o DNA da alga azul-verde da qual as larvas se alimentam. A alga, ao se reproduzir, reproduz também a proteína transplantada. Assim, ao comer a alga, as larvas acabam comendo a proteína que irá matá-las. O resultado éque se impede o nascimento do mosquito que transmite a malária."Com isso, será possível reduzir a incidência da moléstia numa boa proporção", prevê o imunologista Mark Vaeck, diretor da Plant Genetics, Também no Brasil, centros ainda pouco numerosos mas altamente capacitados procuram na Engenharia Genética armas para derrotar velhas endemias, como a doença de Chagas. O parasita causador da moléstia, por apresentar formas muito diversas em seu desenvolvimento. freqüentemente dribla os testes imunológicos tradicionais. Agora, porém, começam a surgir testes a partir de sondas moleculares - seqüências de DNA que se juntam perfeitamente com o DNA de vírus, parasitas ou bactérias. Marcadas com produtos radiativos, as sondas são lançadas no sangue do paciente, onde aderem ao agente agressor. Organizador das primeiras pesquisas sobre Engenharia Genética, em 1978, do Instituto Oswaldo Cruz, do Rio de Janeiro, o professor Carlos Morel, atual diretor da instituição, não tem dúvidas sobre a importância das sondas moleculares. "O seu futuro édos mais promissores", afirma.
Em São Paulo, a equipe do professor Walter Colli, diretor do Instituto de Química da USP, quer descobrir como o parasita de Chagas reconhece a célula que irá penetrar. "Já identificamos uma proteína do protozoário responsável por esse reconhecimento, informa o professor Colli. "Quando conseguirmos purificá-la, poderemos deduzir a fórmula do gene que a codifica e á partir dai conheceremos o mecanismo do contágio. Será a hora de bloqueá-lo." Também em São Paulo, no Instituto Ludwig, a equipe do pesquisador Ricardo Brentani segue uma linha de raciocínio análoga, embora dirigida para outro objetivo - o câncer."Para que um câncer localizado dê origem à metástase, isto é, se espalhe para outras partes do organismo", explica Brentani, "é necessário que a célula cancerosa saiba reconhecer a parede do vaso sanguíneo por onde irá entrar e depois sair." jáconseguiu localizar uma proteína da parede externa da célula cancerosa envolvida no processo - e descobriu que ela também existe na bactéria Staphylococus aureus, agente infeccioso com alta resistência a antibióticos. Pesquisas como as desenvolvidas por Morel, Colli e Brentani beneficiaram-se da vertiginosa rapidez com que a Engenharia Genética automatizou o seu instrumental.
Proezas de 1980 são rotina em 1987. Bisturis e colas química para o transplante de genes, por exemplo, já estão àvenda prontos para uso. Existem máquinas capazes de fornecer automaticamente o seqüenciamento de qualquer gene que Ihes for dado para análise. E outras máquinas sintetizam genes ou proteínas, segundo a fórmula fornecida pelos pesquisadores. Assim, um cientista brasileiro pode mandar por telex uma fórmula a algum centro no exterior e receber pelo correio tubos de ensaio com a substância equivalente. A gama de aplicações da Engenharia Genética parece aumentar na mesma proporção. Na agricultura, já se conseguiu fazer com que as folhas de tabaco produzam seu próprio inseticida - no caso, uma toxina mortal para uma lagarta que costuma devastar plantações inteiras.
Recentemente, realizou-se nos Estados Unidos a primeira experiência de campo com microorganismos fabricados por Engenharia Genética para proteger plantações de morango dos danos da geada. A bactéria protetora simplesmente não possui mais o gene que permite a formação da camada de gelo na superfície da planta.
Em Brasília, o coordenador de Biotecnologia do Cenargem (Centro Nacional de Recursos Genéticos), Luiz Antonio Barreto de Castro, vem tentando transferir para o DNA do feijão certos genes da castanha-do-pará, de maneira a obter um alimento mais nutritivo. Castro sonha com um feijão rico em metionina, um aminoácido presente na castanha, indispensável para o ser humano na infância e adolescência. "E o Brasil é o maior produtor e consumidor de feijão do mundo", anima-se o pesquisador.Mas as possibilidades da Engenharia Genética que provocam mais sensação e polêmicas referem-se à transferência de genes para células de animais. A primeira experiência do gênero se deu em 1982, quando cientistas norte-americanos transplantaram cópias do gene do hormônio de crescimento de ratos para o DNA de óvolos de camundongos recém-fertilizados. Os filhotes cresceram até atingir o dobro do peso normal - e transmitiram essa nova característica às gerações seguintes. Em 1985, os pesquisadores foram mais longe, ao transplantar para embriões de camundongos o gene do hormônio de crescimento do homem. Novamente, o crescimento dos filhotes foi excepcional.
Mas a criatura mais falada da Engenharia Genética é o porco cor de ferrugem nascido em novembro de 1986 nos Estados Unidos. Ele descende de um suíno em cujo DNA foi inserido o gene do hormônio de crescimento de uma vaca. Prova de que a operação foi bem-sucedida, o porco ferrugem pesa mais ou menos o mesmo que seus semelhantes naturais - só que com uma porcentagem bem menor de gordura. Em compensação, mal consegue andar por causa da artrite que faz inchar suas pequenas patas e ainda por cima é ligeiramente vesgo. Se imitar o pai, não chegará a completar dois anos de vida.Para os cientistas, o porco transgênico (nome dado aos animais portadores de genes de outra espécie) apenas confirma as potencialidades da Engenharia Genética. Eles acreditam que as sucessivas experiências farão surgir animais capazes de crescer depressa, consumir menos e oferecer mais carne magra por quilo - sem as doenças deformantes que afligem o porco ferrugem. A fronteira mais promissora da Engenharia Genética, porém, se localiza na área da chamada diferenciação celular. Apenas começou-se a explorar o mecanismo pelo qual as células se organizam entre si para formar um ser completo - ou seja, como elas recebem ordens para se agrupar em ossos, nervos, músculos, membranas.
Nessa linha de pesquisa, geneticistas norte-americanos conseguiram recentemente criar moscas com quatro asas, dupla fileira de patas ou patas no lugar das antenas. De seu lado, cientistas italianos chegaram a verificar existência de genes equivalentes responsáveis pelas mesmas funções organismo - no DNA de mamíferos superiores, incluindo o homem. Com isso, embora a distancia a percorrer ainda seja extremamente longa e a caminhada penosa e incerta ciência apressou mais uma vez o passo rumo aos segredos da vida.

A Engenharia Genética não recebe apenas aplausos pelas proezas que realiza. Seus avanços também provocam contrariedade entre aqueles que a encaram com manifesta desconfiança e a ela vêm tentando opor-se desde as pesquisas pioneiras no começo dos anos 70. Escaldados pela história do desenvolvimento da energia nuclear, os adversários das experiências com a bagagem genética de seres vivos querem que elas sejam suspensas ou, na melhor das hipóteses, submetidas a estrita regulamentação. Receia-se que, sob pressão dos interesses comerciais cada vez mais presentes nessa área, os pesquisadores fiquem menos atentos do que deveriam aos aspectos perigosos de suas criações.Os ecologistas por exemplo, preocupam-se com os possíveis efeitos adversos da liberação no ambiente de bactérias geneticamente alteradas com o objetivo de torná-las inseticidas vivos. Mas a controvérsia mais estridente diz respeito à manipulação genética em organismos superiores, como é o caso do porco que recebeu um gene de vaca. As objeções aumentaram principalmente depois que o governo norte-americano, em abril último, decidiu que podem ser requeridas patentes para formas de vida obtidas em laboratório, inclusive de mamíferos não humanos . Desde então, o fantasma de frankesteins de quatro patas produzidos em série em benefício da indústria de alimentos passou a assolar com maior freqüência a imaginação dos oponentes da Engenharia Genética.Da mesma forma, eles se inquietam com a possibilidade de que os avanços no setor acabem propiciando a criação de seres humanos ao gosto do freguês-nesse cenário de ficção-científica, os pais (para não dizer o Estado) escolheriam não só o sexo, mas a cor dos olhos ou quaisquer outras características hereditárias dos filhos. Essa fantasia, misturada às lembranças das teorias raciais nazistas, érealmente de arrepiar. Ao mesmo tempo, as polêmicas de fundo ético-religioso provocadas pelo advento dos bebês de proveta e mães de aluguel acabam lançando sombras confusas sobre o trabalho dos geneticistas. Causou sensação meses atrás, por exemplo, a afirmação de um professor italiano, Brunetto Chiarelli, que leciona Antropologia em Florença, sobre a possibilidade técnica de um cruzamento entre homem e chimpanzé. Ele chegou a insinuar que experiências nesse sentido estariam em curso nos Estados Unidos.O chimpanzomem resultante desse acasalamento, advertiu o professor, poderia vir a ser o patriarca de uma sub-raça de escravos ou de fornecedores de órgãos para transplantes Trata-se, porém, de um grande mal-entendido, Primeiro, porque o chimpanzomem supondo que ele pudesse vir à luz, não seria fruto de alguma irresponsável manipulação do DNA, mas de inseminação natural, artificial ou em proveta; seria um híbrido, como a mula, filha do jumento com a égua, sem nada a ver com a Engenharia Genética. Segundo, porque, em Engenharia Genética, nada indica a possibilidade da criação de seres exóticos. É inviável, por exemplo, colar metade do DNA de uma moça à metade do DNA de um peixe e ainda por cima inserir esse DNA híbrido numa célula que viesse a produzir uma sereia. Pelo mesmo motivo que meia receita de frango ao molho pardo com meia receita de pudim de ovos não dánem um frango com ovos nem um pudim ao molho pardo.De qualquer maneira, descontados os exageros e as bobagens, faz sentido que a Engenharia Genética provoque, se não temor, pelo menos uma espécie de vertigem -mesmo entre os cientistas que se dedicaram a desenvolvê-la - tão amplas parecem ser suas possibilidades.

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domingo, 30 de outubro de 2005

FREUD EXPLICOU

A Psicanálise já se incorporou ao nosso dia-a-dia. Palavras como inconsciente, líbido, ou neurose viraram de uso comum, embora nem sempre se saiba o que querem dizer. Quando surgiu, porém, no final do século passado, essa teoria foi combatida ferozmente e seu autor, Sigmund Freud, submetido a pesadas acusações. Mas não desanimou. O que o movia era a vontade de explicar, antes de tudo, a si mesmo e vencer os demônios que o atormentavam.

Quando tinha 7 anos, Sigmund Freud ouviu o pai dizer num momento de mau humor: "Esse menino nunca vai ser nada na vida". Ele só tornaria a lembrar essa frase, a muito custo, aos 41 anos. Então, naquele finzinho do século XIX, era um médico brilhante em Viena, a celebrada capital do Império Austro-Húngaro. Era também um cientista fascinado pelos mistérios do psiquismo humano e isso o levou a empreender uma longa e dolorosa viagem ao interior de si mesmo.
Essa busca do auto-conhecimento consumiu-lhe três anos e permitiu que libertasse do porão da memória episódios traumáticos da infância como a morte do irmão menor e a culpa que isso lhe provocou ou a perturbadora visão da mãe nua. Para defender-se dos fantasmas do passado, ele havia transformado a própria infância numa paisagem nublada, quase irreconhecível. Mas ao dissipar-se a névoa, graças ao extraordinário esforço para reconstituir o tempo esquecido, percebeu que, sem saber, passara a vida tratando de impedir que aquilo que lhe pareceu uma profecia paterna se cumprisse. Conseguiu, como se sabe. Fundador da Psicanálise, um dos mais originais pensadores dos tempos modernos, Sigmund Freud a tal ponto marcou a ciência, a cultura, a arte e a vida das pessoas que já nem se pode imaginar o século XX sem ele. Afinal, como se diz no Brasil, Freud explica.
Seu interesse pela mente humana manifestara-se anos antes da auto análise que acabaria abrindo as portas para um novo território do conhecimento com certeza em 1882, quando era médico-residente no Hospital Geral de Viena e tornou-se assistente do anatomista Theodor Meynert, o todo-poderoso chefe do Departamento de Neuropatologia. A trajetória de Freud havia sido, até ali, uma seqüência de brilhantes sucessos.
Com apenas 9 anos, ingressara no ginásio, para logo se tornar o primeiro da classe e se graduar "com louvor". Aos 17 anos, já estava na Universidade de Viena, como estudante de Medicina, movido por uma enorme vontade de saber. Não fora fácil escolher a Faculdade de Medicina: seus interesses intelectuais puxavam-no para vários lados. Também dentro da faculdade foi difícil escolher uma especialização. Decidiu-se finalmente pelo curso de Fisiologia, de Ernst von Brücke.
Brücke, como Meynert, era um ardoroso partidário da opinião do físico alemão Hermann von Helmholtz (1821-1894) de que "nenhuma outra força além das conhecidas forças físico-químicas é ativa no organismo". Para eles, a Biologia e conseqüentemente. a Medicina não eram mais que extensões da Física. Essas idéias, que as investigações psicanalíticas de Freud o forçaram a abandonar anos mais tarde, não deixaram, porém, de influenciar o seu pensamento.
Freud concluiu o curso de Medicina com excelentes notas. e tudo parecia encaminhá-lo para a pesquisa científica, atividade em que já havia dado mostras de grande talento nos tempos de estudante. Absolutamente convencido de que estava destinado a ser um grande homem, a cada passo pensava o que seus futuros biógrafos escreveriam a respeito. Sua fantasia correspondia plenamente aos desejos dos pais, comerciante de lã Jakob Freud e sua mulher, Amalie Nathansohn.
Quando Sigmund nasceu, no dia 6 de maio de 1856, na cidadezinha de Freiberg, Morávia (hoje Pribor, Tchecoslováquia), primeiro dos seis filhos do casal Freud dois homens e quatro mulheres, um fato deu ao comerciante Jakob a sensação de que estava diante de um acontecimento excepcional. O menino veio ao mundo envolvido na membrana amniótica, e isso foi interpretado como augúrio de um futuro brilhante. Seus pais nunca abandonaram essa perspectiva dando-lhe um tratamento privilegiado em relação aos irmãos: o melhor quarto da casa era dele; uma irmã foi proibida de tocar piano, porque isso perturbava os seus estudos.
Outro fator influenciava também a ambição do jovem Freud. A consciência de ser judeu num mundo anti-semita. Isso era sinônimo de um esforço sem trégua: se o judeu não pudesse provar que estava entre os melhores, diriam automaticamente que era o pior. Mas, quando concluiu o curso de Medicina, aos 22 anos, em 1882, um fato veio alterar os planos que tinha traçado para si mesmo: a súbita paixão e a perspectiva de casamento com Martha Bernays - seu único relacionamento amoroso conhecido. A necessidade de fazer dinheiro rapidamente para sustentar uma futura família o levou a trocar a pesquisa científica pela residência médica, com vistas a montar uma clínica particular.
O noivado com Martha foi uma experiência turbulenta. Como ela morasse em outra cidade eles se viam pouco, mas Freud lhe escreveu nada menos que novecentas cartas, algumas ardentemente apaixonadas. Quando se encontravam, porém, a possessividade e o ciúme doentio de Freud quase punham tudo a perder. A falta de dinheiro, de qualquer forma, foi adiando o casamento, sucessivamente, até 1886. Depois que se casaram, a relação tornou-se morna e rotineira. Mas eles nunca se separaram.
Nesse meio tempo a vontade de saber e o desejo de notoriedade voltaram a empurrar Freud para os braços da ciência. Como assistente de Meynert e logo livre-docente em Neuropatologia, fez importantes pesquisas sobre a medula e também sobre os efeitos do uso da cocaína. Freud contava com a própria experiência: numa época em que a droga não era proibida nem sofria qualquer tipo de interdição, ele era um consumidor habitual.
Por influência de Brücke e para desapontamento de Meynert, Freud obteve da universidade uma bolsa de estudos para um estágio de alguns meses em Paris, para estudar com o célebre Jean-Martin Charcot, no hospital da Salpêtrière. Antes de partir, queimou um diário intimo que cobria nada menos que catorze anos de vida.
Freud, então, estava intensamente interessado no fenômeno da histeria, área em que Charcot vinha realizando experiências pioneiras e absolutamente espetaculares mediante o uso da hipnose. Para Meynert, como, aliás, para toda a Psiquiatria ortodoxa da época, a histeria era simplesmente uma falsa doença.
As mulheres histéricas (a histeria era considerada algo que só afetava as mulheres) eram vistas como meras fingidoras e Charcot, como charlatão.
Um dos grandes méritos de Freud foi ter levado a histeria a sério, dispondo-se a ouvir as pacientes com atenção e respeito. Por alguma estranha intuição, ele sabia que o desvendamento dos conflitos íntimos que atormentavam a si próprio dependia da compreensão do que se passava com aquelas infelizes mulheres. Quando decidiu mergulhar de cabeça no estudo da mente humana, adotou como lema a célebre inscrição gravada no pórtico do templo de Apolo em Delfos, Grécia: "Conhece-te a ti mesmo".
Antes de partir para o decisivo estágio em Paris, Freud estudara a histeria em Viena, em intima colaboração com Josof Breuer, que vinha tratando, com excepcional dedicação, um caso de histeria que se tornou clássico na história da Psicanálise-o de Fraulein (senhorita) Anna O., pseudônimo de uma jovem de 21 anos, de altos dotes intelectuais, que após a morte do pai passou a apresentar variados sintomas psicossomáticos, como sérias perturbações de visão e audição, freqüentes paralisias nos membros, incapacidade de comer e beber, estados de ausência etc.
Utilizando-se da hipnose, Breuer conseguiu que sua paciente recordasse as cenas traumáticas que haviam desencadeado a neurose, todas elas relacionadas com o estado de extrema tensão emocional vivida durante a longa doença e a morte do pai. Verificou também, espantado, que o simples fato de narrar as cenas produzia em Anna um alivio imediato dos sintomas psicossomáticos. Esse procedimento, adotado repetidas vezes, num tratamento persistente e prolongado, levou à eliminação de praticamente todos os sintomas. Mais tarde, Freud mostraria que os traumas psicológicos como os vividos por Anna eram apenas os elementos deflagradores da neurose, cuja verdadeira origem deveria ser buscada muito atrás, na mais remota infância do doente.
Quando voltou de seu estágio em Paris, Freud publicou juntamente com Breuer os Estudos sobre a Histeria, uma espécie de marco inicial da Psicanálise. Então, ele já havia substituído na investigação psicológica o método catártico provocado pela hipnose pelo método da livre associação Logo Breuer deixaria de acompanhar Freud em sua crescente convicção sobre a origem sexual das neuroses. Freud arrumou, então um novo interlocutor, o otorrinolaringologista Wilhelm Fliess, homem de idéias ousadas e altamente interessado na natureza da psique humana. Nessa época, cada nova hipótese ou descoberta era vivamente comentada na imensa correspondência entre Freud e Fliess.
Mas também essa colaboração com Fliess estava destinada ao malogro. Como o próprio Freud descobriria mais tarde, ele transferia a vários homens de sua convivência os intensos e complexos sentimentos de amor e ódio que tinha em relação ao pai. Brücke, Meynert, Breuer e Fliess foram, todos eles, objeto dessa transferência afetiva. Amores arrebatadores e ódios furiosos se alternavam sem parar em sua vida emocional. Só a auto análise permitiria a Freud exorcizar o fantasma da figura paterna.
Quando iniciou a auto análise Freud estava convencido de que a causa da histeria era "uma experiência sexual passiva ocorrida antes da puberdade, isto é, uma sedução traumática". Ele associava a neurose à carga erótica presente, mesmo quando bem disfarçada e não percebida pelas pessoas, nas relações entre pais e filhos. Após ter observado sintomas histéricos no irmão e nas irmãs, concluiu que também seu pai não estava livre do que chamou de "incriminação incestuosa".
O prosseguimento da auto-análise e as análises de vários pacientes realizadas nessa mesma época logo lhe mostraram, porém, que, embora o sentimento incestuoso dos pais realmente existisse e fosse às vezes até levado à prática, a grande maioria das supostas seduções ocorridas na infância era um produto da fantasia das crianças: eram elas que experimentavam um intenso desejo de manter relações sexuais com os pais geralmente com o genitor do sexo oposto. Eis uma das mais arrojadas e controvertidas contribuições de Freud ao conhecimento humano: a idéia de que a sexualidade começa antes, muito antes de manifestar-se nas transformações que ocorrem na puberdade.
Ele enfrentou com determinação a hostilidade dos meios conservadores a suas idéias. A excitação da descoberta científica o empurrava para frente e os progressos na interpretação de seu próprio mundo psíquico lhe traziam crescente autoconfiança. Freud trocava o papel de filho pelo de pai: pai de seis filhos em seu casamento com Martha e pai da Psicanálise. A partir de 1902, começa a se reunir em sua casa o círculo dos primeiros seguidores da nova teoria. O grupo, formado inicialmente por Alfred Adler, Max Kahane, Rudolf Reitler e Wilhelm Stekel, além do próprio Freud, se encontra pontualmente toda quarta-feira depois do jantar.

Em 1908, o grupo já tem 22 membros, entre eles o médico suíço Carl Gustav Jung, dezenove anos mais moço que Freud e a quem este se referia como "querido filho e herdeiro". Nesse mesmo ano, o círculo se transforma na Sociedade Psicanalítica de Viena e, em 1910, na Associação Psicanalítica Internacional, com Jung na presidência por determinação de Freud. Mas, no ano seguinte, quando Jung rompe com Freud após uma série de desentendimentos por causa da "excessiva importância" que este concedia à sexualidade, Freud comentou "Finalmente estamos livres do bruta santarrão". O santarrão ia por conta do misticismo de Jung, intoleravelmente racionalista do outro.
A capacidade de trabalho de Freud era verdadeiramente espantosa. Ele acordava às 7 horas e, depois do café da manhã e de uma rápida olhada nos jornais, começava a atender seus pacientes pontualmente às 8 horas. Cada sessão durava exatamente 55 minutos. Nos cinco minutos que restavam para fechar a hora, ele subia a escada que ligava o andar em que se encontravam o consultório, a sala de espera e o escritório particular ao andar superior, onde vivia a família.
As sessões se prolongavam até as 13 horas, quando a família se reunia para o almoço. Freud era um pai carinhoso e proporcionou a seus filhos uma formação bastante livre, pelo menos em comparação com os rígidos padrões germânicos do começo do século. Quando havia convidados para o almoço, porém, seu silêncio e introspecção costumavam criar situações extremamente embaraçosas.
Depois do almoço, um curto passeio a pé pelas tranqüilas ruas de Viena e a compra dos charutos favoritos. Freud chegava a fumar até vinte charutos longos por dia. Mas, quando seus seguidores lhe propuseram uma explicação psicanalítica para o vício, ele a recusou. bem-humorado.
As consultas recomeçavam às 15 horas e se estendiam muitas, vezes até as 9 ou 10 da noite. Depois disso tudo, Freud ainda arrumava energia para escrever. Apesar do estafante rítmo de trabalho, havia tempo para o lazer. Ele era um grande jogador de xadrez e também gostava de paciência. Freqüentava às vezes o teatro, mas em matéria de ópera só gostava de Mozart, sobretudo Don Giovanni, e da Carmen de Bizet. Tinha enorme fascinação por objetos de arte antigos e sua coleção particular. com mais de 2 500 peças, principalmente egípcias. gregas e romanas, era maior que a de muitos museus.
Freud conhecia a fundo os clássicos da literatura: os gregos, Shakespeare, os grandes poetas alemães (principalmente Goethe), os romancistas franceses Balzac, Flaubert e Maupassanp e os russos Dostoievski e Gogol. Ao lado dos interesses intelectuais, tinha também grande prazer nas atividades físicas: nadava bem, patinava, caminhava muito e rápido. Aos 65 anos, participando de excursão pelas montanhas do Harz, na Alemanha, vence facilmente colegas 25 anos mais moços, tanto em resistência quanto em velocidade.
Freud havia se fixado a meta de produzir pelo menos três linhas por dia, mas nem sempre era fácil vencer o branco do papel. Outras vezes, porem, as idéias jorravam fáceis e ele era capaz de produzir uma importante obra científica em apenas algumas semanas. Escreveu dezessete livros e dezenas de artigos. Seu estilo literário é brilhante, mas dependia daquilo que ele chamava uma "moderada quantidade de miséria" pessoal: ou seja, Freud supunha que quando tudo ia bem demais na sua vida o texto não saia bom.
Misérias pessoais - nem sempre moderadas - não lhe faltaram ao longo da vida. Houve as intermináveis brigas no interior do movimento psicanalítico. Houve o câncer na boca, provocado seguramente pelos charutos. Os primeiros sintomas apareceram em 1917. Em 1923 ele foi submetido à primeira operação-a primeira das 33 que sofreria, numa escalada infernal de dor e desconforto. que suportou com extraordinário autocontrole, sem poder recorrer sequer ao conforto da religião dado seu ateísmo radical. Com a filha predileta, Anna que se torna também uma importante psicanalista e uma espécie de zelosa guardiã de seu legado teórico-. ele fez um pacto: a doença deveria ser encarada sem sentimentalismo, com frio distanciamento.
E houve, enfim o nazismo. Quando a Alemanha de Hitler anexou a Áustria, em 1938, e os nazistas invadiram sua casa, Freud os enfrentou com tanta fúria que momentaneamente os deixou paralisados e ele se livrou da ameaça iminente de agressão física. A permanência em Viena, porém, era algo fora de cogitação: cedendo aos insistentes chamados do psicanalista inglês Ernest Jones, que viria a ser também seu principal biógrafo, Freud então extremamente doente, com 82 anos, concordou em seguir para a Inglaterra.
Um movimento internacional de pressão forçou as autoridades nazistas a lhe permitirem a saída. Em Londres passou seus últimos meses trabalhando quase até o fim: seu derradeiro livro, Moisés e o Monoteísmo, foi concluído em 1939: no dia 23 de setembro daquele ano ele morreu. Seu corpo foi cremado e as cinzas guardadas numa urna grega de sua coleção. Encontram-se até hoje no cemitério judaico de GoldersGreen, em Londres.


Na mitologia grega, o rei de Tebas, Édipo, matou Laio, sem saber que este era seu pai, e casou com Jocasta, sem saber que era sua mãe. Esse trágico triângulo amoroso, segundo Sigmund Freud, seria revivido na fantasia de todas as crianças, geralmente antes dos 5 anos de idade, quando, de alguma forma, elas experimentariam desejo sexual em relação ao genitor do sexo oposto, além de fortes sensações de rivalidade e hostilidade em relação ao genitor do mesmo sexo.

A expressão complexo de Édipo só foi empregada, pela primeira vez, em 1910; seu conceito se formou, porém, mais de dez anos antes, no bojo da auto-análise de Freud. A sexualidade infantil se manifestaria já nos primeiros momentos de vida e passaria por várias fases - oral, anal, fálica e genital. Esse processo, porém, nem sempre transcorreria de modo perfeito; as inibições em sua trajetória caracterizariam muitos distúrbios da vida sexual. A fixação da líbido ou energia erótica em fases infantis do desenvolvimento sexual seria responsável pelas perversões sexuais dos adultos, entre as quais Freud inclui o homossexualismo.

As distorções no desenvolvimento sexual do indivíduo seriam, segundo Freud, a principal causa da neurose - desordem mental caracterizada por ansiedade, mal-estar psicológico, sensação de infelicidade desproporcional às circunstâncias reais da vida da pessoa. As neuroses, formadas geralmente por volta dos 6 anos de idade, seriam justamente uma resposta da mente consciente ao conflito inconsciente entre os impulsos instintivos e os padrões de comportamento impostos pela sociedade.

Essa idéia de uma atividade mental inconsciente é um dos pressupostos fundamentais da Psicanálise. O inconsciente, às vezes imaginado como uma espécie de porão da mente ou psique, seria o depósito das tendências reprimidas do indivíduo as quais, como o desejo incestuoso do menino em relação à mãe, seriam banidas da vida consciente devido a sua ameaça potencial à ordem civilizada.

A repressão, porém, nunca é completa, dizia Freud: o reprimido no inconsciente estaria sempre forçando sua passagem ao plano consciente; as mensagens cifradas transmitidas pelo inconsciente permitiriam ao analista buscar a explicação da neurose e, daí, sua possível cura. A técnica psicanalítica teria, dessa maneira, muito a ver com a atividade do detetive nos romances policiais, que vai remontando, num árduo e cuidadoso trabalho de interpretação, a trama oculta.

Em suas primeiras investigações da mente, Freud empregou a hipnose para trazer à luz as cenas traumáticas do passado. Abandonou-a, porém, não só porque muitos pacientes não se deixavam hipnotizar, mas principalmente porque, embora a hipnose permitisse o acesso a memórias correspondentes a determinada região do inconsciente, criava, nas fronteiras dessa mesma região, barreiras ainda mais difíceis de serem transpostas. Freud substituiu então a hipnose pelo método da livre associação, em que o paciente, deitado num divã, de costas para não ser inibido pelo olhar e expressão facial do terapeuta, passaria a falar tudo o que lhe viesse à cabeça. Nesse trabalho de garimpagem do inconsciente seriam importantíssimas também as interpretações dos sonhos e dos atos falhos. Os sonhos, através de sua linguagem simbólica, dariam acesso direto ao material inconsciente. E os atos falhos, tais como os lapsos de linguagem que cometemos freqüentemente, seriam for adotadas pelas tendências reprimidas para forçar a passagem ao plano consciente.

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sábado, 29 de outubro de 2005

MUITA DOR

Acredite: os brasileiros convivem com a dor como poucos povos no mundo. E não se atribua isso ao nosso lamacento Congresso Nacional nem às recentes atuações da seleção nacional de futebol. O ponto é�que a dor é�o primeiro motivo de consultas médicas no país: está presente em 85% dos pacientes atendidos. Nos Estados Unidos, a primeira causa são infecções respiratórias, a dor vem em segundo lugar. Com tanta gente dolorida, era de esperar que médicos e enfermeiros brasileiros fossem especialistas no tema. Não são. Os profissionais de saúde do país estão, infelizmente, mal-informados, e costumam ser contaminados por preconceitos sobre o tema. O resultado é�um povo cheio de dor, como revelou pesquisa da Organização Mundial da Saúde realizada em 1993: o Brasil é�o segundo pior país da América Latina no quesito dor decorrente do câncer. O estudo comparou a quantidade média de morfina consumida por paciente em vários países.

Segundo o estudo, nossos portadores de câncer recebem um décimo da dose dada aos suecos. "A dor é�negligenciada no Brasil", diz João Augusto Figueiró, psicoterapeuta do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

Mas há uma mudança em curso. Nunca se falou tanto em dor no país e no mundo. Em janeiro, nos Estados Unidos, ela foi considerada o quinto sinal vital. Quer dizer, diariamente, além de temperatura, ritmo cardíaco, freqüência respiratória e pressão arterial, será medida também a dor do paciente. A mudança tem pouco efeito clínico: a dor continua sendo um sintoma, tanto que só pode ser medida pelo relato do paciente. "O efeito é�de marketing. Uma vez medida, a dor ganha importância, gera estatísticas e recebe mais atenção", diz Figueiró.

Em São Paulo, no mês de agosto a prefeitura começou a treinar pessoal para suprir 40 novos centros especializados em dor na cidade. Detalhe: no Brasil inteiro, há apenas 70 unidades de combate à dor, mas o ideal seriam 3 000. Os Estados Unidos possuem 3 400. Há um mês, foi lançada uma campanha publicitária de combate à dor no Estado de São Paulo, nos moldes da campanha contra o câncer de mama, com logotipo próprio e tudo. A idéia é�difundir entre a população uma verdade hoje restrita a quem estuda o tema: "Toda dor tem tratamento", diz a campanha.

As notícias fazem parecer que só agora a classe médica brasileira descobriu o sofrimento causado pela dor, que sempre foi o maior pavor de qualquer doente. E, por incrível que pareça, é�isso mesmo. O estudo isolado da dor teve início há apenas 40 anos, e o assunto só há pouco tempo ganhou a atenção merecida, graças a pesquisas que provaram o óbvio: a dor prejudica ou inviabiliza o tratamento e adia a cura. "Os médicos descobriram agora que a dor dificulta o tratamento. O tratamento de doenças infecciosas, inflamatórias ou do câncer evolui melhor sem dor, porque ela reduz a resposta do sistema imunológico", diz o neurocirurgião Manoel Jacobsen Teixeira, professor da USP e especialista no tema. Pacientes com dor têm alteração do sono e do apetite e são mais sujeitos a complicações como infecções respiratórias.

A dor também dói no bolso. Nos Estados Unidos, os custos diretos (com médicos e tratamentos) e os indiretos (faltas no serviço, queda de produtividade) da dor são calculados em 150 bilhões de dólares ao ano. No Brasil não há contas precisas, mas 22,3% dos pacientes com dor abandonam o emprego, segundo o estudo Master de Dor, a maior pesquisa já feita no país sobre o assunto, editada por Jacobsen, em 1995. O estudo foi desenvolvido tendo por base entrevistas com profissionais de saúde e pacientes, e comprova nosso despreparo.

É�inegável que há muito preconceito. Entre boa parte dos médicos sobrevive a idéia de que toda dor é�psicológica. Esse é�um mito que perde espaço na medida em que os diagnósticos evoluem. A fibromialgia, por exemplo, era considerada uma dor psicogênica até�1990, quando foi descrita como doença. Um estudo realizado pelo Hospital das Clínicas da USP descobriu causas orgânicas para 99% dos casos de dor pesquisados. Menos de 1% deles não tiveram sua causa apurada e acabaram classificados como psicogênicos. "O diagnóstico de dor psicológica tende a desaparecer", diz Lin Tchai Yeng, médica fisiatra do Centro de Dor do Hospital das Clínicas. Mas, segundo o estudo Master, isso vai demorar: 30% dos médicos brasileiros acham que dores crônicas são psicogênicas. Pior: para 20% dos médicos entrevistados, dores agudas também são imaginárias.

Somados a outros profissionais que acreditam que essas dores são simuladas pelos pacientes, conclui-se que 43% dos médicos não vêem origem orgânica na dor crônica e 32% não vêem razão para a dor aguda. Trata-se de uma postura renitente dos médicos, que beira a irresponsabilidade e o descaso.

Outro mito é�o medo de que o paciente fique viciado em analgésicos. Para 71% dos profissionais de enfermagem, o paciente deve tolerar a dor para evitar excesso de medicação. Em outro estudo, realizado em São Paulo em 1992, foram entrevistados pacientes nos cinco primeiros dias do pós-operatório de cirurgias cardíacas ou abdominais. Metade deles sentia dor na hora da entrevista e, desses, metade não recebera nenhum analgésico nas quatro horas seguintes à cirurgia, embora o enfermeiro tivesse orientação para medicá-lo, "se preciso".

É�fato que analgésicos, principalmente os opiáceos, como a morfina, causam dependência química. Nos Estados Unidos, só em 1998, 1,5 milhão de pessoas ficaram viciadas dessa forma. Mas também é�verdade que menos de 5% dos pacientes que tomam analgésicos para tratar a dor viciam-se no tratamento e esses, em geral, têm histórico de dependência química. Além disso, o uso de analgésicos, mesmo em grandes quantidades, não reduz a sobrevida dos doentes, conforme pesquisa divulgada este ano, realizada no hospital londrino St. Christopher’s com pacientes terminais. Apenas torna a vida, ou a sobrevida, mais suportável.

Mas o combate à dor não é�importante apenas nas unidades de tratamento intensivo ou no leito de morte. Qualquer dor aguda, se não for tratada devidamente, pode tornar-se crônica. Isso acontece porque a duração da dor aguda modifica os neurônios que a conduzem, transformando-os na própria origem da dor, mesmo que o problema original tenha sido curado.

Aliás, há uma grande diferença entre as dores aguda e crônica. A primeira cumpre a função biológica de avisar se há algo errado e é�fundamental para nos mantermos vivos. Pessoas nascidas com uma doença rara que as impede de sentir dor morrem precocemente. Um dos casos mais bem documentados é�o de uma menina canadense que, insensível aos tombos e às colisões que sofria, colecionou ferimentos, queimou-se seguidas vezes e morreu aos 22 anos, vítima de uma infecção nos ossos feridos.

Para o neurologista americano Frank Vertosick, autor de Why We Hurt? (Por que sentimos dor?), a dor aguda é�uma professora que nos ensina o que é�perigoso. Seres vivos sem capacidade de aprender com as experiências, diz ele, não sentem dor. "Plantas não sentem dor porque não têm comportamento para ser modificado. E animais como formigas não têm dor porque seu comportamento é�geneticamente determinado."

Já a dor crônica não tem função biológica, não guarda relação de causa e efeito e é�considerada uma doença. "A dor crônica gera estresse, reduz a imunidade, baixa a produção dos neurotransmissores que produzem sensação de bem-estar e causa depressão", diz o médico Luciano Braun, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos da Dor. Na população em geral, 4% a 5% tem depressão. Nos doentes com dor crônica, o índice sobe para 30%.

O problema, enfim, é�a desinformação. Afinal, o arsenal contra a dor nunca foi tão abrangente. A farmacologia, por exemplo, é�cada vez mais eficiente. Além de mais potentes, os remédios são mais específicos, com menos efeitos adversos. Novidades como adesivos que liberam os fármacos através da pele tornaram a administração mais fácil e agora há comprimidos com absorção programada, cuja concentração no sangue não ocorre em picos, evitando intoxicação. Para casos mais graves, é�possível aplicar o remédio diretamente no local de ação da dor, por um cateter.

Mas medicamentos não dão cabo de todos os problemas dolorosos da vida. Em alguns casos, eles podem até�ser parte do drama: o uso prolongado de analgésicos torna as crises mais freqüentes, porque o cérebro se habitua a não produzir endorfina, um analgésico natural do organismo. Além disso, analgésicos tratam apenas a sensação dolorosa, mas a dor também envolve emoção e consciência. "Quando um cachorro quebra uma perna, ele sente dor física. Mas o homem ferido tem também dor psíquica. O animal sente apenas que algo está errado. O homem sabe que pode ficar afastado do trabalho, que talvez precise de uma cirurgia. A dor se transforma em raiva e desespero. O cão tem dor, o homem sofre", diz Vertosick.

Isso se explica pelo caminho da dor no corpo. Quando damos uma martelada no dedo, essa informação segue pelo sistema nervoso rumo ao cérebro. Até�chegar ao córtex cerebral - a estrutura mais complexa do cérebro - onde esse impulso será entendido e interpretado como dor, ele percorre a medula e várias estruturas cerebrais. Nesse trajeto estão o tálamo, que localiza espacialmente a dor, o sistema reticular, que regula a resposta ao estresse, e o sistema límbico, onde residem as emoções. Só então, frações de segundo após a pancada, é�que a martelada vai ganhar aquela sensação desagradável, típica da dor, e vai gerar raiva ou tristeza (veja quadro ao lado).

Ao chegar ao cérebro, o impulso doloroso tem uma segunda função, além de avisar que algo vai mal. Ele dispara o sistema supressor da dor, um mecanismo orgânico de bloqueio. É�isso mesmo: nosso corpo é�equipado com uma fábrica natural de analgésico, que despeja pelo corpo substâncias como a serotonina e a endorfina, tão potentes quanto a morfina, que geram bem-estar. No entendimento da maioria dos médicos, a dor é�resultado do desequilíbrio entre o equipamento de sentir dor e a nossa fábrica de analgésico. Quando o sistema supressor da dor está debilitado, uma canelada parece insuportável. Quando ele está em forma, uma fratura pode passar despercebida. Isso depende de muitas variáveis, desde a condição física até�o temperamento do paciente.

Sim, a mente pode controlar a dor. Um modo de medir essa força da psique é�a hipnose, uma técnica comum de combate à dor, que a bloqueia sem usar fármacos. Há registros de cirurgias inteiras realizadas apenas sob efeito hipnótico. A técnica também permite situações bizarras, como deslocar a dor do paciente de uma mão para a outra, ou reduzir a área afetada pela dor, do braço para o dedo. Um paciente, a quem foi sugerido que se dissociasse da dor, disse que "deixou seu corpo com as dores na cama e foi para a sala assistir televisão", afirma a psicóloga Maria Margarida de Carvalho, autora do artigo "A hipnoterapia no tratamento da dor".

O estresse também interfere na dor. Se for crônico, causa mais dor, porque reduz a produção de endorfinas. Mas, se for intenso, pode ser anestésico: em batalha, muitos soldados ficam insensíveis, mesmo gravemente feridos. A cultura também importa. Num estudo realizado com donas-de-casa, as italianas reportaram mais dor que as alemãs, embora a sensibilidade da pele de todas fosse parecida. "Na África ocorre a trepanação, em que o couro cabeludo e os músculos são cortados para expor uma grande área do crânio. E o sujeito, enquanto o crânio é�raspado, fica sentado, calmo, segurando uma vasilha sob o queixo para aparar o sangue", relata a professora de enfermagem da USP Cibele Andrucioli de Mattos Pimenta, no livro Dor, um Estudo Multidisciplinar (Summus Editorial, 1999).

A educação é, por fim, outra variável importante. Crianças a quem se explica a importância de uma injeção relatam sofrer menos que outras espetadas à força. "Por outro lado, um marido que tem uma mulher solícita a acudi-lo a toda hora ‘aprende’ a expressar mais dor, porque recebe compensação. E ele sente mais dor mesmo, porque presta mais atenção ao estímulo doloroso", diz Figueiró. Entender a dor, portanto, é�tão importante quanto procurar o médico e não aceitar que ele diga que a dor que você está sentindo não existe ou que você tem que se resignar com ela.



Para saber mais

Na livraria

Why We Hurt? The Natural History of Pain

Frank T. Vertosick Jr. Harcourt, 2000



Dor, Um Estudo Multidisciplinar

Maria Margarida M. J. de Carvalho (org.), Summus, 1999



Dor no Brasil: Estado Atual e Perspectivas

Manoel Jacobsen Teixeira (ed.), Limay, 1995



A Neurologia que Todo Médico Deve Saber,

R. Nitrini, Maltese, 1991



Na internet

www.dor.org.br

www.stoppain.com




Os passos de 1 a 4 mostram como um impulso doloroso chega à consciência. Os itens à direita apontam as interferências que podem ocorrer no trajeto


1. A lesão

Um ferimento no dedo do pé, por exemplo, gera um estímulo doloroso que ruma ao cérebro pelas células nervosas, cujas terminações cobrem o corpo e atuam como fios, transmitindo impulsos elétricos



2. Caminho exclusivo

Os neurônios que transmitem dor diferem dos que conduzem sensações como o tato, porque precisam de um estímulo intenso para serem acionados



3. Comunicação

No caminho até�o cérebro, o impulso doloroso percorre vários neurônios. Para "pular" de um para outro, o estímulo pega carona nos neurotransmissores, substâncias que atuam como mensageiros no espaço entre dois neurônios



4. Cérebro

Aqui, o impulso doloroso percorre várias áreas:

a. Sistema reticular - É�ativado em situações de alerta e de estresse. O estímulo doloroso gera uma resposta de ataque ou fuga.

b. Tálamo - Localiza a dor espacialmente no corpo.

c. Sistema límbico - Centro das emoções, é�ele que dá ao impulso doloroso seu caráter desagradável.

d. Córtex cerebral - É�onde mora o discernimento. Só quando o impulso doloroso chegar aqui a pessoa terá consciência da dor



Sinal trocado

Células de tecidos lesados liberam substâncias que reduzem o limiar de excitabilidade dos neurônios que conduzem a dor. Com isso, estímulos fracos, como o tato, dão origem a um impulso que será interpretado como dor



Aguda x Crônica

Se permanecer por muito tempo (alguns meses), a dor aguda causa alterações nos neurônios que a conduzem na medula. A partir daí, eles serão a origem da dor, mesmo que o problema inicial seja curado



Congestionamento

A partir da medula, o estímulo tátil percorre os mesmos neurônios que a dor. Assim, esfregar o local da pancada reduz de fato a sensação de dor, porque o tato congestiona o caminho



Sistema supressor

O corpo possui mecanismos que bloqueiam o caminho da dor ao longo do trajeto até�o cérebro. Substâncias como a serotonina e a endorfina, por exemplo, atuam como analgésicos e cortam a ação dos neurotransmissores que conduzem a dor



Estresse

Soldados em batalha e atletas em competição sentem menos dor porque a área cerebral que controla a reação de fuga ou ataque também regula alguns dos sistemas supressores de dor



Curto-circuito

O isolante que envolve os neurônios às vezes falha, permitindo trocas de impulsos: um estímulo tátil pode desviar-se para o caminho da dor. Ou, pior, uma ordem do cérebro para mover um músculo pode voltar pelo trajeto da dor. Nesse caso, pensar dói



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sexta-feira, 28 de outubro de 2005

ESSA SOFRIDA GENTE CANHOTA

A mão esquerda tem razões que a ciência desconhece. Talvez por isso os canhotos sejam tidos como pessoas esquisitas e frequëntemente vítimas de preconceitos.Mas nada disso está direito: eles são tão normais como os destros.


Já se sabe ao certo qual foi a maior conspiração da História. Sem dúvida foi a conspiração contra a esquerda, combatida por todos os lados, nos dois hemisférios, como se houvesse um acordo sinistro entre todos os que preferiam a direita - a mão direita, bem entendido. Durante milhares de anos, quase sem exceção, o lado esquerdo ficou com o pior pedaço e isso é demonstrado, na prática, nas crenças preconceituosas e palavras pejorativas que lhe são associadas. Por outro lado, "à direita do Deus Pai", como está na Bíblia, ficam as boas ovelhas. Direito máximo, injustiça máxima: a supervalorização do destro somada a um fator real - a maioria das pessoas é mais hábil com a mão direita - estigmatizou os canhotos, aqueles que dominam melhor a mão esquerda, como pessoas no mínimo diferentes e esquisitas.
Até há poucas décadas, os canhotos eram castigados ou convencidos de alguma forma a trocarem direitinho de mão. Escrever com a "mão errada" era desde sinal de insubordinação grave até prova de dificuldade de aprendizado. Mas a medicina moderna e as novas teorias pedagógicas, de mãos dadas, derrubaram essas idéias falsas. Reconhece-se que a mão esquerda de um canhoto não é nada canhestra. E como as pessoas passaram a ter o direito de preferir o lado esquerdo, nos últimos anos o número conhecido de canhotos aumentou consideravelmente. Hoje se estima que existem cerca de dez canhotos em cada cem pessoas de qualquer população. Isso comprova: os canhotos são minoria no mundo. Mas uma minoria de 500 milhões de pessoas. O que não se sabe é quantas pessoas usam a mão direita forçadas por pressões do ambiente.
Ser canhoto é fazer um esforço a mais para coisas tão banais do cotidiano que, na verdade, não deveriam exigir esforço algum. Saca-rolhas, torneiras, maçanetas - tudo o que gira, gira para a direita na ditadura dos destros. Para os canhotos, de duas, uma: ou vivem um eterno jogo de desmunhecar ou aprendem a lidar com as coisas usando a mão direita. Existem em muitos países indústrias preocupadas também com esse lado (esquerdo) da questão, fabricando objetos próprios para as mãos canhotas. A pioneira foi uma fábrica finlandesa que, em 1954, começou a produzir tesouras canhotas, ou seja, com as laminas invertidas.
Nos Estados Unidos e na Europa existem associações de canhotos, que batalham por seus direitos - igualdade de oportunidades no trabalho, por exemplo. No Brasil, uma Associação Brasileira de Canhotos (Abracan) surgiu no final da década de 70, e conseguiu apoios ilustres, como o do então presidente João Figueiredo, um canhoto; também conseguiu do governo Paulo Maluf, de São Paulo, a determinacão de que ao menos cinco por cento das carteiras nas escolas públicas sejam para canhotos, isto é, com a mesinha de apoio no lado esquerdo. Em 1982. porém. a Abracan fechou por falta de recursos, deixando aproximadamente 14 milhões de brasileiros canhotos na mão dos destros.
Uma das teorias mais aceitas para justificar á preferência pelo lado direito das coisas diz que isso surgiu com os primitivos habitantes do hemisfério Norte, adoradores do Sol. Pois, no hemisfério Norte, o Sol parece mover-se no sentido horário, para a direita. Seguindo nessa mesma direção, os budistas fazem suas caminhadas para meditar; os peregrinos que vão a Meca rezar para Alá circundam da estluertici para a direita a Ka´aba, a construção onde está a pedra sagrada dos seguidores de Maomé. Os muçulmanos, aliás, chegam a ponto de afirmar que Deus tem duas mãos direitas.
A própria Bíblia exalta a mão direita, simbolicamente a mão que " sabe dar", já que a esquerda é a que recebe de Deus o sopro da vida. Michelângelo,( pintor italiano canhoto, retratou esse momento da Criação no teto da Capela Sistina). O Antigo Testamento diz que Eva foi criada a partir da costela esquerda de Adão; tanto pior, porque dai se estabelece nos textos bíblicos toda uma duradoura ligação do lado esquerdo com o pecado e a tentação.
Na Idade Média, a Inquisição queimará os canhotos, como praticantes de bruxarias, mensageiros da morte e enviados do Diabo.

Também na Idade Média a mão esquerda passa a ser relacionada com a sujeira A explicação para isso até que tem alguma lógica: num período em que lavar-se era um hábito raro, a limpeza ficava por conta da mão esquerda, inclusive a higiene íntima. Com medo de sujar-se, as pessoas só se cumprimentavam com a mão direita , a mesma usada para comer ou pentear-se.
As escritas alfabéticas , de modo geral, indiscutivelmente favorecem os destros, porque correm da esquerda para a direita. Nessa direção, o canhoto cobre com a própria mão o que está escrevendo ou acaba torcendo o punho, segurando a caneta com a mão em forma de gancho. As exceções mais conhecidas são o hebraico e o árabe, escritos da direita para a esquerda. Já o grego é conhecido como caminho de boi, por formar um zigue-zague: vai da esquerda para a direita numa linha e da direita para a esquerda na linha seguinte.
Na realidade ninguém pode afirmar com total segurança que este ou aquele motivo é que origina o preconceito ou as desvantagens que levam os canhotos. Até porque nem a ciência moderna conseguiu encontrar uma explicação para o próprio fenômeno do canhotismo. Os macacos ou são ambidestros ou dividem-se em igual proporção entre esquerdistas e direitistas. Só no homem o ambidestrismo é uma raridade - apenas duas de cada cem pessoas, em média, são tão hábeis com a esquerda como com a direita.
Justamente por causa dessa falta de explicações seguras, o canhotismo foi o bode expiatório das mais diversas mazelas. "Atualmente sabemos que o canhoto pode ter tantos problemas de saúde ou de aprendizado quanto um destro: não há vantagem em ser um ou outro", ensina o professor de neurologia Saul Cypel, da Universidade de São Paulo. A única expressão orgânica do canhotismo é o fato de o lado direito do cérebro ser aproximadamente onze por cento maior do que o esquerdo e dele partir um feixe mais espesso de nervos.
Nos destros, o lado esquerdo do cérebro é o mais desenvolvido, porque o cérebro exerce um comando cruzado,ou seja, a parte direita do corpo é comandada pelo hemisfério cerebral esquerdo, enquanto a parte esquerda é comandada pelo hemisfério cerebral direito. Os ambidestros têm os dois hemisférios exatamente iguais e feixes de nervos da mesma espessura nos dois lados.
É sabido que o canhotismo tem a ver com a hereditariedade. "Há uma incidência maior de canhotos em famílias onde já existem canhotos", diz o doutor Cypel.
Normalmente, um casal de canhotos tem cinqüenta por cento de chances de ter um filho canhoto: quando o pai ou a mãe prefere a mão esquerda, essa probabilidade cai para não mais de vinte por cento; quando os pais são destros, a probabilidade de terem um filho canhoto é de apenas dois por cento.
Outro fato comprovado é que desde o primeiro instante de vida já se pode ou não ser canhoto.
O embriologista alemão Hans Spemann, prêrnio Nobel de Medicina e Fisiologia em 1935, mostrou que nos estágios embrioná-rios de vida os dois lados do cérebro já apresentam diferenças de tamanho. Apesar de a preferência manual ser geneticamente estabelecida, a criança só a percebe aos cinco anos de idade (embora haja crianças que se definem aos dois anos e outras,igualmente normais, só aos sete ou oito).
A preferência manual está dentro de um contexto muito amplo: a lateralidade, ou seja,a dominância de todo um lado do corpo. Assim, ser canhoto não é apenas escrever com a mão esquerda, mas também preferir todo o seu lado esquerdo, embora o canhoto não perceba isso nitidamente. O lado do cérebro mais desenvolvido - nos canhotos, o direito - está conectado a um número maior de nervos, que recebem todo tipo de informação sensitiva. Portanto, nesse lado preferido , a visão é mais aguda, a pele é mais sensível, os músculos respondem mais prontamente.
Por isso , o Dr. Guy Azemár, do Instituto Nacional de Educação Física da França, acredita que os canhotos são especialmente bons de briga. Ele observou que todos os oito finalistas do torneio de esgrima das Olimpíadas de Moscou, em 1980, lutavam com a mão esquerda, assim como cinco dos oito melhores espadachins das Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, eram canhotos. O doutor Azémar supõe que, como o hemisfério direito do cérebro possui os centros de noção de espaço, os canhotos são ligeiramente mais rápidos e precisos nos seus golpes.
É bem possível. No tênis, por exemplo, muitos campeões seguram as raquetes com a esquerda. É o caso de Thomas Koch, John McEnroe, Martina Navratilova e Jimmy Connors. O canhoto supercampeão, con-tudo, é Rocky, o pugilista do cinema, protagonizado pelo ator norte-americano Silvester Stallone.
No primeiro filme da série, o peso pesado que iria enfrentar o herói é advertido pelo técnico: "Cuidado que ele é canhoto. Não dá para confiar em canhotos, eles fazem tudo às avessas". Por razões hollywoodianas e não científicas, é claro que Rocky derrubou o destro com uma boa canhotada na cara. Mas "às avessas" mesrno, e não nas telas de cinema, viveu no século XVI, no norte da Inglaterra, a família Kerr, constituída na maioria por canhotos. Temendo que os escoceses fossem tomar-lhe as terras, o clã dos Kerr construiu no castelo escadas em caracol, com espirais da direita para a esquerda - direção contrária à usual - , de maneira que pudessem golpear os invasores, prensando-os contra a coluna central da escada. Com a maior destreza, diz a história, os canhotos Kerr expulsaram os escoceses, que até hoje usam o termo Kerrhandness (mão dos Kerr) para designar canhotismo.


Agourentos, desajeitados, maliciosos...

Na hora de dar sua palavra, o grego foi o único que ficou a favor da esquerda: arístera , o termo grego que designa a mão esquerda, tem o sentido de" melhor" e a mesma origem da palavra aristocracia. O latim, a princípio, concordava com essa imagem positiva: sinister, que quer dizer " esquerdo", significava "afortunado"; a palavra vem de sinus , o bolso da toga dos romanos que ficava, é claro, daquele lado.
Mas essa era a época em que as estátuas dos deuses romanos tinham a face voltada para o sul e o olhar dirigido à esquerda, ao leste, de onde vinham, com o sol, os sinais de bons augúrios. Não se sabe por que,mas as imagens das divindades, aproximadamente no século II, foram voltadas para o norte. Daí o leste ficou à direita. De "afortunado sinister" passou a ser "azarado" e os romanos começaram a costurar seus bolsos no lado direito.
Em português, língua nascida do latim, sinistro é "esquerdo" ou "suspeito" ou ainda "ameaçador".
Canhoto assim como canhestro é uma palavra com ligações etimológicas suspeitas com "cao", que por sua vez é sinônimo de "diabo". Mas a palavra esquerdo propriamente dita é de origem desconhecida. Outras línguas latinas seguem em oposição à esquerda. Em francês gauche vale para "esquerdo" e também para "desajeitado" ou "maldito" . Em espanhol, o canhoto é chamado de siniestro, termo que significa ainda "mau agouro", "Desengonçado" e "canhoto" têm um mesmíssimo nome em italiano : maldestro.
Mas as linguas não-latinas também tratam os canhotos de forma sinistra. No alemão linkisch é tanto "canhoto" quanto "maldito"; recht é "direito", "destreza e "lei" - e dessa palavra nasceu reich, "reino".Left -handed, em inglês, é o canhoto, mas também a pessoa, canhota ou destra, maliciosa e insincera. Já right-handed é tanto o destro quanto a pessoa íntegra. No árabe yamin é " mão direita" e "sorte".
O lado direito é sinônimo de coisas positivas até em países de esquerda .Na União Soviética, pravy é a palavra " lado direito" . Dela nasceu pravda, que significa " verdade".Levaya stonora é "lado esquerdo" e- -claro - "lado errado".

Alguns tipos sinistros

Eles estão em toda parte e fazem de tudo. Veja esta lista, por exemplo: Baudelaire, Ben-jamin Franklin, Beethoven, Baden Powell, Beth Faria, Carlos Magno, Charles Chaplin, Cole Porter, Denis Carvalho, Gerald Ford, Goet-he, Greta Garbo, Hans Christian Andersen, Harpo Marx, Jack, o Estripador, Jimi Hendrix, João Baptista Figueiredo, Judy Garland. Júlio César, Leonardo da Vinci, Lewis Carroll, Marcel Marceau, Maria Zilda, Marilyn Monroe, Michelângelo, Napoleão, Nietzsche, Paganini, Paul Klee, Paul McCartney, Picasso, Ringo Starr, Robert Redford, Ronald Regan.

Canhotos bons de bola

Há um campo onde ser canhoto não é desdouro para ninguém. No futebol, de fato, incontáveis jogadores se celebrizaram pelo show de bola de que se mostraram capazes com a perna esquerda. Na atual Seleção Brasileira há três canhotos, todos craques: Pita e Nelsinho, do São Paulo, e Edu, da Portuguesa.
Na tricampeã de 1970 havia Gérson, que não chutava nada com a direita, mas tantas maravilhas fazia com a esquerda que ganhou o ,apelido "Canhotinha de Ouro".
Rivelino, outro canhoto daquela Seleção, era conhecido por seus dribles curtos, que dificultavam qualquer marcação, e pela potência de seu chute - a "patada atômica" . A grande vantagem dos canhotos no gramado é a facilidade com que se livram dos marcadores - quase sempre destros. Ninguém faz isso melhor hoje em dia que o argentino Diego Maradona, capaz de ir de uma ponta a outra do campo sem que ninguém consiga tirar-lhe a bola do pé esquerdo.

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quinta-feira, 27 de outubro de 2005

A Vida é...

"A Vida é como uma viagem de trem...
Em algumas estações alguns sobem
e outros desecem
Não sabemos por quanto tempo eles nos acompanharão
mas, com certeza, durante esse lapso
deixarão uma marca indelével em nós.."

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quarta-feira, 26 de outubro de 2005

Dali

Salvador Dali (1904 1989) Um excêntrico e mestre surrealista na pintura e na vida, Salvador Dali escreveu em seu diário dois anos antes de entrar para a escola de arte em Madrí durante o início da década de 20: "Eu serei um gênio... Talvez eu seja desprezado e mal entendido, mas serei um gênio, um grande gênio." Durante toda a vida Dali cultivou a excentricidade e exagerava uma predisposição para o exibicionismo narcisista, alegando que suas energias criativas derivavam dele. O espectro de imagens de fantásticas a visões de pesadelo que Dali produziu são a evidência suprema dessas idiossincrasias. Nascido em Figueras, Espanha, Dali primeiramente estudou na Escola de Belas Artes em Madríe foi influenciado por pintores metafísicos de Chirico e Carra enquanto ali esteve. Igualmente admirando o realismo meticuloso dos pintores Pré-Rafaélicos e franceses do século 19, ele começou a misturar estilos e técnicas conceituais. Iniciando em 1927, Dali expôs em Madríe Barcelona, ganhando a reputação de ser um dos pintores jovens mais promissores. Uma visita a Paris em 1928 o colocou em contato com Picasso e os surrealistas Miró , Masson, Ernst, Tanguy e André Breton; logo em seguida, sua primeira exposição levou Dali firmemente para o movimento surrealista aonde foi figura de liderança nos dez anos seguintes. Dali transformou a definição de Surrealismo, que combinava o automatismo psíquico expressando o processo inconsciente do pensamento, sonho e realidades associadas para incluir o que ele chamava de "paranóia crítica", uma teoria que abraçava a desilusão enquanto permanecia atenta para o fato de que a razão tinha sido suspensa deliberadamente. Com este detalhe realista, as pinturas de Dali descrevem uma realidade alucinatória que é freqüentemente contradita pela visão e caráter alucinatório que suas imagens descrevem; "A Persistência da Memória" (1931), mostrando relógios com detalhes perfeitos derretendo em uma paisagem Catalã, confirma essa teoria. Embora um colaborador do cineasta surrealista Luis Buñuel, Dali, cujo trabalho foi identificado pelo público com o Surrealismo mais do que qualquer outro artista, foi expulso do movimento por Breton em 1937. Após visitar a Itália, no mesmo ano, ele brevemente mudou seu estilo de pintar para refletir a influência acadêmica de Rafael antes de retornar a uma mitologia mais particular. Em 1940 ele viveu por 15 anos nos Estados Unidos. Com sua primeira retrospectiva no Museu de Arte Moderna, Nova Yorque, em 1941, Dali dedicou suas energias para a publicidade durante aqueles anos, antes de retornar para a Espanha em 1955. Incluído nos maiores museus em todo o mundo, o trabalho de Dali continua a fascinar, mais recentemente com uma grande exposição no Museu de Arte Metropolitan em 1994 dos famosos primeiros anos Surrealistas

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terça-feira, 25 de outubro de 2005

Buda

Em geral, Buda significa "O Desperto", alguém que despertou do sono da ignorância e vê as coisas como elas são de fato. Um Buda é uma pessoa completamente livre de todas as falhas e obstruções mentais. Há muitas pessoas que se tornaram Budas no passado e muitas se tornarão Budas no futuro.

Não existe nada que Buda não conheça. Porque despertou do sono da ignorância e removeu todas as obstruções de sua mente, ele conhece tudo sobre o passado, o presente e o futuro, direta e simultaneamente.

Além do mais, Buda possui grande compaixão, que é completamente imparcial e abrange todos os seres vivos, sem discriminação. Ele beneficia todos os seres vivos sem exceção por meio das várias formas que emana pelo universo e das bênçãos que derrama sobre suas mentes. Ao receber as bênçãos de Buda todos os seres, mesmo os animais, às vezes desenvolvem estados mentais pacíficos e virtuosos.

Finalmente, ao encontrar uma emanação de Buda sob a forma de Guia Espiritual, todos terão a oportunidade de entrar no caminho que conduz à libertação e à iluminação. Conforme disse o grande erudito Budista Indiano Nagarjuna, não há ninguém que não tenha recebido ajuda de Buda.

Não é possível descrever todas as boas qualidades de um Buda. A compaixão, a sabedoria e o poder de um Buda estão completamente além de qualquer concepção. Sem nada que possa obscurecer sua mente, ele vê todos os fenômenos do universo tão claramente como uma jóia na palma de sua mão.

Por meio da força de sua compaixão, um Buda executa espontaneamente o que for apropriado para beneficiar os outros. Ele não precisa pensar sobre qual é o melhor modo de ajudar os seres vivos - ele age naturalmente e sem esforço da maneira mais benéfica. Assim como o sol não precisa se automotivar para irradiar luz e calor, mas simplesmente o faz porque luz e calor é sua própria natureza, um Buda não necessita de automotivação para beneficiar os outros simplesmente porque essa é sua própria natureza.

Assim como a lua reflete-se sobre a água sem esforço, as emanações de Buda aparecem espontaneamente onde quer que as mentes dos seres vivos sejam capazes de percebê-las. Os Budas podem emanar-se sob qualquer forma para ajudar os seres vivos.

Às vezes manifestam-se como budistas e outras como não-budistas. Podem manifestar-se como homens ou mulheres, monarcas ou mendigos, cidadãos que cumprem as leis ou criminosos. Podem até mesmo se manifestar como animais, vento, chuva, montanhas ou ilhas. A menos que nós mesmos sejamos um Buda, não poderemos dizer quem, ou o quê, é uma emanação dele.

De todas as maneiras pelas qual um Buda ajuda os seres vivos, a suprema é como emanação na forma de um Guia Espiritual. Por meio de seus ensinamentos e de seu exemplo imaculado, um autêntico Guia Espiritual conduz seus discípulos pelo caminho espiritual rumo à libertação e à iluminação.

Se encontrarmos um Guia Espiritual mahayana qualificado e colocarmos em prática todos os seus ensinamentos, certamente atingiremos a plena iluminação e tornar-nos-emos um Buda Conquistador. Estaremos então em condições de retribuir a bondade de todos os seres vivos livrando-os dos sofrimentos do samsara e conduzindo-os ao êxtase supremo da budeidade.

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segunda-feira, 24 de outubro de 2005

Cultura da Paz

"Na cultura da paz, saibamos sempre:
- respeitar as opiniões alheias como desejamos seja mantido o respeito dos outros para com as nossas;
- colocar-nos na posição dos companheiros em dificuldades, a fim de que lhes saibamos ser úteis;
- calar referências impróprias ou destrutivas;
- reconhecer que as nossas dores e provações não são diferentes daquelas que visitam o coração do próximo;
- consagrar-nos ao cumprimento das próprias obrigações;
- fazer de cada ocasião a melhor oportunidade de cooperar a benefício dos semelhantes;
- melhorar-nos, através do trabalho e do estudo, seja onde for;
- cultivar o prazer de servir;
- semear o amor, por toda parte, entre amigos e inimigos;
- jamais duvidar da vitória do bem;
Buscando a consideração de pacificadores, guardemos a certeza de que a paz verdadeira não surge, espontânea, de vez que é e será sempre fruto do esforço de cada um."

(Livro: Ceifa de Luz - pelo espírito Emmanuel
Psicografia de Francisco Cândido Xavier)

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domingo, 23 de outubro de 2005

Nomes perfeitos de Profissões

01- H. Ramos ..................professor de judô
02- Ana Lisa ..................trabalha em laboratório
03- P. Lúcia ..................fabricante de bichinhos
04- Pinto Souto ...............fabricante de cuecas (samba-canção)
05- Marcos Dias ...............fabricante de calendário
06- Olavo Pires ...............balconista de lanchonete
07- Décio Machado .............guarda florestal
08- H. Lopes ..................professor de hipismo
09- Oscar Romeu ...............dono de concessionária
10- Hélvio Lino ...............professor de música
11- K. Godói .................médico (hemorróida) (este é terrível)
12- Alberta Alceu Pinto ......garota de programa
13- Eudes Penteado ...........cabeleireiro
14- Sara Vaz .................mãe de santo
15- Passos Dias Aguiar .......instrutor de auto-escola
16- Régis Melo Dias ..........maestro
17- Edson Fortes .............baterista
18- Sara Dores da Costa ......reumatologista
19- Jamil Jonas Costa ........urologista
20- Ina Lemos ................pneumologista
21- Ester Elisa ..............enfermeira
22- Ema Thomas ...............traumatologista
23- Malta Aquino Pinto .......doenças venéreas (perfeito, este...)
24- Inácio Filho .............obstetra
25- Oscar A. Melo ............confeiteiro

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sábado, 22 de outubro de 2005

EU VOS DECLARO MARIDO E MULHER

Depois da invenção da pílula anticoncepcional, em 1960, o casamento andou em baixa. Mas nunca saiu de moda. E olha que é uma moda antiga. Está estabelecida há pelo menos 3 000 anos. Nesse período muita coisa mudou, principalmente até o século XIX, quando a rainha Vitória, da Inglaterra, inaugurou o estilo de núpcias que persiste até hoje. É isso mesmo, no que diz respeito à união entre homens e mulheres, nós ainda somos vitorianos. E a fama de maio, mês das noivas, está aí para comprovar.



No começo a mulher era uma mercadoria

Os historiadores não sabem direito quando o homem começou a se casar. O mais antigo contrato nupcial conhecido data de 900 a.C, no Egito, mas os rituais podem ser anteriores. Em muitas culturas, os enlaces se davam informalmente e, por isso, não ficaram registrados. As mulheres eram raptadas pelos pretendentes e só em alguns grupos sociais elas tinham valor. Não exatamente valor humano, mas de mercadoria mesmo. Freqüentemente eram entregues a estrangeiros para solucionar crises políticas ou econômicas. O lado bom é que possibilitavam trocas de costumes entre os povos. Amor, nem pensar. Não raro os prometidos se conheciam no dia do casamento, hábito preservado por algumas sociedades de religião muçulmana até hoje. Daí a ênfase na aparência da noiva. Ela tinha, e ainda tem, de ser o reflexo de tudo o que sua sociedade considera belo. Afinal, uma rica embalagem sempre valoriza o produto.

Esse modelo mercantilista começou a sofrer algum abalo lá pelo século XII, quando surgiu, no ocidente, o ideal do amor romântico. Havia na época um crescente refinamento que foi desembocar no Renascimento, nos séculos XV e XVI, período de ebulição nas ciências, nas artes e, conseqüentemente, nos costumes. Os sentimentos começaram a prevalecer sobre os interesses. Mesmo assim, só no século XIX, quando a rainha Vitória, da Inglaterra, escolheu sozinha o próprio marido, inaugurou-se o modelo de casamento ocidental (veja infográfico).

Em outras culturas, a evolução foi diferente. Homens muçulmanos podem ter até quatro mulheres. A poliandria (mulheres com mais de um marido) também é comum em grupos sociais do Ceilão e do Tibet. Mesmo nesses casos, porém, a noiva não escolhe os parceiros. Era dividida por aqueles que concordam em ratear o seu sustento.



Até que o divórcio os separe

Considerado o casamento do século, o enlace de lady Diana Spencer e do príncipe Charles, de Gales, percorreu todo o ciclo do matrimônio moderno. Do sonho romântico, quando a princesa de conto de fadas passeou de carruagem pelas ruas de Londres, numa ensolarada manhã de agosto de 1981, até o pesadelo da separação, em 1992, e a dolorosa negociação, quatro anos depois, para um divórcio que envolvia muito dinheiro, a guarda dos filhos e a coroa.

Apesar das brigas, infidelidades e escândalos (leia na página ao lado), a situação de Charles é bem mais tranqüila do que a enfrentada pelo rei Edward III. Ele teve que desistir do trono inglês para casar-se, em 1937, com Wally Simpson, porque ela era divorciada. É que a Igreja Anglicana, apesar da sua origem intimamente ligada a um divórcio, (veja o quadro) nunca foi o paraíso dos casais separados. Nos países anglo-saxônicos, o rompimento dos laços matrimoniais só passou a ser aceito em 1857. Na França já vigorava desde 1792 e podia ser concedida por muitos motivos, entre eles, incompatibilidade de gênios. Depois, Napoleão Bonaparte, imperador entre 1804 e 1815, a suspendeu para esses casos. A incompatibilidade só voltou a ser admitida em 1975.

Presos à moral católica, que até hoje aceita apenas a separação de corpos, os brasileiros ganharam o direito a divorciar-se apenas em 1977. Retomavam uma prática que era corriqueira entre egípcios, gregos e romanos, os quais se separavam quando bem queriam. O divórcio só passou a ser um problema em 1439, com a instituição, pela Igreja Católica, do casamento indissolúvel, baseado nas palavras de Jesus: "O que Deus uniu, o homem não separe".



Só a mulher tem de ser fiel para sempre

No ano passado, o príncipe Charles anunciou que pediria o divórcio, pois jamais se sentaria no trono "com essa mulher ao lado". Ele estava irritado com as declarações de Diana a respeito de um caso que teria tido depois da separação. A reação foi uma prova de que, em se tratando de adultério, há dois pesos e duas medidas, dependendo do sexo do envolvido. Afinal, em 1993, tornara-se pública uma conversa de Charles com sua amante desde os tempos de casamento, Camila Parker-Bowles, uma mulher casada, na qual o príncipe dizia querer ser o tampax dela. Apesar do escândalo causado pelo diálogo, foi o romance de Diana que detonou o processo de divórcio.

Faz sentido. Ninguém nunca ouviu falar de cinto de castidade ou honra lavada com sangue aplicados à traição masculina. Entre os gregos e os romanos a mulher podia pagar pelo crime com a vida. Na legislação dos saxões, a pena mais branda consistia na perda do nariz e da orelha.

Apesar do tempo transcorrido, o adultério continua sendo crime no Brasil. A pena mínima, prevista no artigo 240 do Código Penal, é de quinze dias de detenção, mas já foi mais pesada. No período colonial o homem traído podia matar a mulher e seu amante. A Justiça quase nunca foi a primeira instância para resolver o assunto. Para fugir da vergonha pública, os maridos preferem fazer justiça com as próprias mãos, alegando depois, nos tribunais, a defesa da honra.



PARA SABER MAIS

História da Vida Privada, coleção de cinco volumes dirigida por Philippe Ariès e Georges Duby, Companhia das Letras, São Paulo, 1990.

L´Histoire du Mariage, Sabine Jeannin Da Costa, Éditions de La Martinière, Paris, 1994.

The Bride, Barbara Tober, Lonmeadow Press, Stanford, 1984.

A Vida na Grécia Clássica, Jean-Jacques Maffre, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1989.




Nem sempre felizes para sempre

Ao longo da história, as formas de união sofreram muitas metamorfoses e até há bem pouco tempo não tinham nada do romantismo atual


Pré-história

Ainda uma incógnita



Há poucas informações sobre os laços matrimoniais no tempo das cavernas. Pinturas rupestres (foto) e outros indícios mostram que se vivia em bandos de até trinta pessoas, mas não é certo se havia monogamia ou poligamia. A idéia corrente, do troglodita que arrasta a mulher pelos cabelos, pode não estar longe da realidade, uma vez que o rapto de mulheres de tribos rivais é uma das formas mais antigas de união informal.



900 a.C.

Contratos no Egito



O primeiro contrato matrimonial de que se tem notícia é do ano 900 a.C., no Egito. Naquela civilização, as uniões já eram instituições formais, como mostram diversas obras de arte encontradas por arqueólogos (foto). Os contratos estabeleciam o que a esposa teria direito a receber em caso de divórcio e viuvez.



Séculos V e IV a.C.

Homossexualismo na Grécia



Para os gregos, mulheres, crianças e escravos eram propriedade dos homens. A mulher tinha de se manter virgem para o casamento e fiel ao marido. Este, porém, em alguns casos, reservava o amor aos parceiros do mesmo sexo. Tão pouca importância tinha a mulher que o noivado se passava sem sua presença. Não raro ela se casava contrariada, como mostra a preparação para a noite de núpcias da imagem acima, reprodução de um original grego.



Séculos I a V

Concubinas em Roma



No Império Romano (acima a imagem de um casal, encontrada num sarcófago da época) a união ainda é só um meio para manutenção da família. À esposa cabe procriar. O prazer fica para as amantes, que são aceitas pela sociedade, tranformando-se em concubinas estáveis. A palavra matrimonium é usada para definir o papel da mulher casada: ser mãe. Em contraposição, patrimonium estabelece a parte que cabe ao homem: gerir os bens. Em muitas culturas isso não mudou ainda.



Até o século IV

Rapto entre os bretões



O casamento por rapto persistiu em várias culturas menos desenvolvidas, como tribos bretãs e germânicas, até bem depois do início da Era Cristã, como é representado na imagem abaixo, da qual não se conhece a data. O homem que desejasse uma mulher simplesmente a capturava e levava embora. Na sofisticada cultura grega da Antigüidade também havia esse costume. Na mitologia, há vários casos, como o de Helena, filha de Júpiter, que foi raptada por Teseu, sendo depois resgata pelos irmãos. Mais tarde, casada com Meneleu, foi levada novamente, desta vez por Páris, que a carregou para Tróia, dando início a uma guerra de dez anos.



Século IV

Surge o dote



Interessados em reduzir os conflitos tribais, os anglo-saxões trocaram o roubo de mulheres pela compra, prática que perdurou por muitos anos, como sugere a obra acima, de Domenico di Bartolo (1400-1455). A bolsa, na mão do homem que entrega a noiva, simboliza o dote. A taxa era chamada wedd e a palavra em inglês para casamento, wedding, deriva desse arranjo. Em sua origem latina, o termo dote, ao contrário, se referia à doação que o pai da noiva fazia ao noivo. Na França, o dote latino vigorou oficialmente até 1965.



Século XII

Amor não emplaca



Muitas expressões do repertório romântico, algumas vezes emprestadas do vocabulário religioso ou guerreiro, como adorada ou conquista, surgem na primeira metade do século XIII. Nessa época, artistas como Pietro de Crescenzi (1230-1320), autor do quadro acima, começam a pintar casais de namorados. Nas cortes, menestréis compõem e cantam músicas e histórias de paixões para entreter os nobres. Estes, no entanto, continuam a se casar por interesse, usando a união para consolidar seus impérios e reservando o coração para damas inatingíveis.



Século XV

A benção da Igreja



Reconhecendo o significado político do casamento, a Igreja instituiu a cerimônia religiosa no século IX, mas ela não pegou logo de cara. Apenas a partir de 1439, depois que o Concílio de Florença transformou o matrimônio no sétimo sacramento (os outros são o batismo, a crisma, a eucaristia, a confissão, a ordem e a extrema-unção), o papa conseguiu impôr sua autoridade. O casamento tornou-se indissolúvel, foi extinta a autorização familiar e interditadas a poligamia e o concubinato, regras que valem até hoje. Acima, o casamento do Duque de Borgonha com Isabel de Portugal, no século XV.



Século XVIII

Ordem na bagunça



A revolução francesa, em 1789, teve grande impacto sobre o casamento. Uma nova era começou em 1792, quando a Assembléia Constituinte da França instituiu o casamento civil, retratado na obra acima por Jean Baptiste Mallet (1759-1835). Foi estabelecida uma idade mínima para a união legal de 15 anos para os rapazes e 13 para as moças. O ritual foi dividido em duas partes, a contratual e a religiosa, sendo que somente a primeira valia na hora de registrar os filhos.



Século XIX

Romance no altar



O moralismo da rainha Vitória, que governou a Inglaterra de 1818 a 1901, influenciou muito o comportamento da época. Por isso, sua paixão e casamento com um aristocrata foram fatos históricos. Ao contrário dos nobres de até então, Vitória se casou por amor. Todas as mulheres passaram a querer o mesmo, mantendo o apego à moral típico da rainha e valores como virgindade, fidelidade e dedicação aos filhos. O modelo durou até os anos 60, quando a pílula anticoncepcional acabou com o medo da gravidez fora do casamento, fazendo o tabu da virgindade perder importância.


Lá vem a noiva, toda de branco

E você sabe por que ela vem de branco, carregando um buquê de flores e com véu? Tudo o que vemos nos casamentos tem um significado que vem de longe. Conheça-os neste infográfico.


Pedir a mão

Desde os egípcios até a Idade Média, o consentimento dos pais foi condição legal necessária para a realização do casamento. Hoje em dia, no ocidente, é um gesto apenas formal. Aceito o pedido, o pretendente tinha o direito de tocar apenas na mão da moça até o dia do casamento. Nem carinho podia.



Noivado

Na civilizações grega e romana o noivado devia durar cerca de um ano. Quem o rompesse angariava a cólera dos deuses. Na Idade Média, a Igreja punia o rompimento com excomunhão de três anos para as duas famílias.



O pai leva

Até hoje a noiva só deixa o braço do pai para se apoiar no do futuro marido. Se você prestar atenção, vai notar que em momento algum da cerimônia ela caminha sozinha. O significado dessa tradição é literal, a transferência da autoridade sobre a mulher do pai para o marido, sem intermediários.



Festa

Os banquetes de casamento duravam vários dias na Idade Média. Quanto maior a atmosfera de fartura, maior a promessa de fortuna e fertilidade para o casal. Entre os bretões do início da Era Cristã, o rito nupcial consistia apenas de comer e beber durante três dias.



Alianças

A troca de alianças já era comum entre egípcios e romanos, mas só foi considerada essencial no casamento a partir século XVI, com o Concílio de Trento. Seu uso no dedo anular da mão esquerda teve origem no Antigo Egito. Acreditava-se que esse dedo estivesse ligado diretamente ao coração.



Bolo

Os romanos já faziam oferendas a Júpiter com uma espécie de bolo. Os primeiros pedaços deveriam ser divididos entre os noivos e as migalhas que sobrassem, derramadas sobre a cabeça da noiva num ritual de fertilidade. Com a evolução da pâtisserie, no século XVII, aparecem os primeiros bolos brancos, com elaborada decoração.



Véu

Era o elemento mais importante na roupa da noiva romana. Devia ser laranja, simbolizando a chama de Vesta, deusa do lar. Seu objetivo era preservar a pureza da noiva de olhares de cobiça. Na Idade Média foi proibido em casamentos da realeza, para evitar o risco de troca da noiva. Sem muita explicação, a partir do século XVI os véus caíram de moda. Só voltaram 300 anos depois.



Vestido branco

Noivas egípcias já usavam vestes de linho branco. As gregas se apresentavam numa túnica alva e nova, com um cinto que só poderia ser desatado pelo marido. Na Idade Média a tradição caiu por terra. Por volta do século X, começaram a chegar à Europa as sedas, veludos e brocados vindos do Oriente, que logo passaram a ser símbolo de status no casamento. De preferência em vermelho, com acessórios de ouro e pedras preciosas. Só no século XIX o branco voltou, como símbolo de pureza. Hoje, a cor prevalece, mas sua associação com a virgindade foi relaxada.



Buquê

Símbolo de fertilidade, o buquê de flores é relativamente novo. As noivas romanas carregavam buquês de ervas, cujos aromas fortes, acreditava-se, podiam espantar os maus espíritos. Isso sem falar dos seus poderes afrodisíacos.



Dama de honra

Como as noivas da Antigüidade não passavam de crianças, na hora de se vestir precisavam da ajuda das irmãs. Na cerimônia, as pequenas damas tinham a função de proteger a noiva de espíritos ruins em seu cortejo até a igreja. Para confundi-los, usavam roupas iguais às das noivas.



Noiva no colo

Em épocas em que se acreditava que os espíritos eram responsáveis por quase tudo, eles significavam uma ameaça constante também à fertilidade. Para poupar a frágil noiva dos malefícios de eventuais malfeitores etéreos escondidos no chão, na entrada da casa nova, o maridão tinha de carregá-la no colo.



Lua-de-mel

Na Antigüidade, como o satélite da Terra tivesse uma conotação de inconstância, a lua-de-mel servia para lembrar o casal que, assim como as fases da Lua mudam, o afeto (mel) também pode aumentar e diminuir. Por conta disso, os noivos tinham o ciclo de uma Lua, praticamente um mês, para esquecer os afazeres diários e se dedicar aos prazeres sensuais.



Mês das noivas

As noivas cristãs preferem o mês de maio por ser este dedicado a Maria, que é considerada uma protetora das uniões. Segundo conta a Bíblia, foi a pedido da Virgem que Jesus realizou o seu primeiro milagre; a multiplicação dos pães e do vinho numa comemoração de casamento.


Vestidos para casar

Todas as culturas valorizam o traje da noiva, mas algumas mantêm tradições bem diferentes das que vigoram no mundo ocidental.


Coréia

Hoje é comum a noiva coreana adotar o traje ocidental, mas ela costuma usar este wonsan (vestido) na festa, depois da cerimônia religiosa. Segundo a tradição, é a última vez que pode vestir vermelho. Casada, deve adotar o azul. As faixas em amarelo, azul, vermelho, branco e verde das mangas representam, respectivamente, vida longa, riqueza, saúde, respeito e honra. O arranjo preto da cabeça é uma homenagem à vida.



Tunísia

Este traje é usado principalmente no Sul do país. Os detalhes dourados são bordados pelos parentes da noiva e simbolizam sua fertilidade. As argolas presas ao vestido, de ouro, mostram a riqueza da família da mulher. Apenas o chapéu não representa nada em especial. Em geral, as tunisianas não cobrem o rosto, mas o pintam, assim como as palmas da mão, com henna, para a cerimônia.



Nigéria

As nigerianas mais tradicionais podem usar um iro (blusa) e um buba (pano enrolado no corpo) ou o abad (traje completo). As cores não têm nenhum significado, mas o pano usado para enrolar o cabelo e o xale colocado por cima, bastante decorado, simbolizam a saúde e a beleza da noiva. A menina é uma acompanhante da recém-casada. Deve viver com ela até atingir a maioridade e se casar.



Índia

Os casamentos das indianas costumam ser arranjados e os pais da noiva oferecem um dote ao noivo. O saree (roupa tradicional no país) da cerimônia deve ser de seda, com cores fortes. Não tem um significado especial. Os enfeites da cabeça são feitos por amigas da noiva. A roupa do noivo também é apenas um traje de gala. O turbante é obrigatório.



lrã

Este vestido é usado principalmente nas regiões rurais e menos desenvolvidas do Sul do país. Não tem uma cor obrigatória, mas é comum a escolha do vermelho, que representa alegria na cultura local. Os panos usados sobre a cabeça e no pescoço, assim como a máscara do rosto, costumam compor o traje, embora não tenham significados particulares. A noiva pode optar por tirar ou não a máscara durante a cerimônia.


O "jeitinho" dos nobres

Não é só no Brasil que há jeito para tudo. Muitos nobres europeus burlaram a interdição do divórcio e se separaram para casar de novo.


Princesa esperta

A princesa Alienor de Aquitânia (um estado francês) tinha 13 anos quando se casou, em 1137, com o rei Luís VII, da França. Onze anos depois, apaixonada por outro, pediu a anulação da união, alegando que o marido era seu parente de quarto grau. Na época, era proibido o casamento de parentes até sétimo grau. Três anos depois Alienor se casava com outro primo. De segundo grau.



Rei autoritário

Em 1509, mais uma vez a Igreja fez vista grossa e o rei Henrique VIII da Inglaterra pôde se casar com uma prima de primeiro grau colateral, Catarina de Aragão. Passados dezessete anos, apaixonado por Ana Bolena e insatisfeito pelo fato de a mulher não ter-lhe dado um herdeiro homem, ele tentou recorrer à mesma lei que possibilitou a separação de Alienor, mas não obteve sucesso. Indignado, o rei rompeu com os católicos e criou sua própria Igreja, a Anglicana, a primeira instituição cristã a aceitar o divórcio. Como a nova mulher também não lhe desse o tão almejado filho, foi decapitada. Depois, o rei ainda casou quatro vezes.



Quantos se divorciam

Segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 777 460 brasileiros se casaram em 1994. No mesmo ano, 77 158 se divorciaram. A taxa de divórcio, portanto é de 10% dos casamentos.


O outro lado da cerca

Nunca ninguém se espanta com o adultério masculino. Mas alguns casos se tornaram tão célebres que merecem ser lembrados.


Teúda e manteúda

Embora o Código Criminal do Império considerasse crime a manutenção de mulher "teúda e manteúda", os romances de Dom Pedro I com várias mulheres, e em especial com a bela Domitila de Canto e Melo, dama de companhia de sua esposa, Leopoldina, nunca foram punidos. O imperador chegou a dar à amante, com quem teve dois filhos, o título de Marquesa de Santos. Quando Leopoldina morreu, em 1826, Dom Pedro tentou provar que a marquesa tinha sangue azul, para poder desposá-la. Mas foi inútil. Teve de se contentar com uma princesa austríaca, a única que aceitou um homem de tão má fama.



O eleitor não perdoa

Em países muito moralistas a Justiça pode tolerar, mas o eleitorado não perdoa derrapadas de homens públicos. O sonho do senador Ted Kennedy de se tornar presidente dos EUA, por exemplo, foi interrompido em 1969, quando ele deu uma escapada com a secretária e, por azar, sofreu um acidente de carro, no qual a moça morreu. O fantasma do adultério tornado público atrapalhou muito a carreira do irmão de John F. Kennedy.



Quantos são infiéis

De acordo com uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Sexologia, com sede no Rio de Janeiro, 15% das mulheres e 65% dos homens brasileiros já tiveram ao menos uma experiência sexual fora do casamento.

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