sábado, 31 de dezembro de 2005

REZAR RESOLVE?

A paciente está na mesa de operação. Tem 80 anos, acabou de sofrer um enfarte e pode morrer nos próximos minutos. Está cercada pelos mais fantásticos dispositivos da medicina moderna. Uma máquina de raios-X gira em torno dela. Monitores de vídeo mostram imagens do seu coração. Médicos vestidos com aventais forrados de chumbo analisam gráficos e imagens. A sala ecoa os bips e flashes dos instrumentos high-tech.

Mitchell Krucoff, cardiologista do Centro Médico da Duke University, na Carolina do Norte, Estados Unidos,. e Suzanne Crater, sua enfermeira, introduzem um cateter no coração da paciente e guiam-no até uma artéria obstruída. O procedimento, conhecido como angioplastia, já virou rotina nos últimos anos. Mas não há cirurgia cardíaca sem risco. E ambos sabem disso.

Antes de começar a intervenção, Krucoff e Crater fizeram algo que poucos livros de medicina recomendam: rezaram. Eles oram antes de toda cirurgia. Geralmente tentam fazê-lo num lugar silencioso. Mas esta angioplastia é urgente e desta vez eles tiveram de rezar na própria sala cirúrgica.

Crater olha para um monitor que mostra uma imagem de raios-X do coração da paciente - um borrão preto composto por músculos e artérias. Ela olha o coração intensamente, como se quisesse conversar com ele. Krucoff fecha os olhos. Um sorriso plácido aparece em seu rosto. Ele está longe. Em seguida, Crater termina a sua "comunicação" com o coração da paciente. Krucoff abre os olhos. A sessão de oração, ou seja qual for o nome que você quiser dar ao momento, terminou. Os dois estão prontos para assumir a responsabilidade sobre a vida de uma pessoa.

Krucoff e Crater acreditam no poder da oração. Crêem que rezar funciona mesmo se a pessoa objeto da oração estiver do outro lado do mundo, sem saber que estão rezando por ela. Estas orações são conhecidas como preces intercessoras. Sua eficácia é considerada indiscutível nas comunidades religiosas. Mas no mundo da Medicina e da ciência é difícil encontrar provas concretas de que funcionem.

Krucoff e Crater gostariam de mudar esta realidade. Estão realizando um estudo no qual 14 grupos rezam por pacientes de angioplastia internados em cinco hospitais americanos. Espera-se que outros seis hospitais integrem o estudo nos próximos meses. No ano que vem, quando esta pesquisa, da qual participarão 1 500 pacientes, for concluída, a saúde dos pacientes alvos de orações será comparada com a saúde de um grupo similar que não recebeu orações. Se aqueles que as receberam estiverem melhor do que os outros, a tese de Krucoff e Carter estará provada: rezar funciona.

"Até que ponto isto é loucura? É doideira mesmo", diz Krucoff. "Mas houve uma época em que se você sugerisse que tomar duas aspirinas evitaria enfartes as pessoas diriam que você era maluco. A prece intercessora pode fazer algo por uma pessoa que está sofrendo um enfarte a 500 quilômetros de distância? Não acho impossível."

Os grupos de oração organizados por Krucoff e Carter têm representantes de várias religiões. Há 150 monges de um mosteiro budista numa montanha próxima a Katmandu, no Nepal. Os monges, vindos do próprio Nepal, da Índia, do Tibete e de outros países nas cercanias do Himalaia, sentam em fileiras de frente uns para os outros e ouvem, durante as orações matinais, o mestre de canto falar alto os nomes dos pacientes cardíacos americanos. Vestidos com as tradicionais vestes alaranjadas, eles rezam silenciosamente pela boa saúde dos enfermos.

Na periferia de Baltimore um grupo de 18 freiras de um convento carmelita entra na sua capela durante a oração vespertina e acrescenta os pacientes cardíacos à lista das pessoas por quem pedem cuidados divinos. Em Jerusalém, os nomes dos doentes são impressos em pequenos pedaços de papel e colocados no Muro das Lamentações, de acordo com a tradição judaica de pedir a atenção de Deus. (Se você quiser, pode mandar um e-mail com suas orações para o website VirtualJerusalem.com, que imprime e coloca no Muro as cartas de pessoas de qualquer país.) Na Carolina do Norte, onde fica a Duke University, diversos grupos - pentecostais, batistas, moravianos, muçulmanos - também rezam pelos pacientes.

O estudo sobre orações de Krucoff e Crater é duplamente cego: nem os pacientes nem os médicos que os tratam sabem quem está recebendo orações e quem não está. Quando o paciente aceita participar, ele é designado aleatoriamente por um computador da Duke University para receber orações ou ficar no grupo-espelho que não as recebe.

Em pesquisas médicas, o grupo-espelho não recebe o medicamento ou tratamento que está sendo testado. Mas é mais dificil monitorar o grupo-espelho em um estudo de oração: a família e os amigos podem estar rezando pelo paciente. "A oração já está presente", observa Krucoff. "O que estamos medindo é se um acréscimo sistemático de preces tem um efeito mensurável".

O estudo está sendo patrocinado por organizações beneméritas e filantrópicas. Krucoff e Crater pretendiam conseguir fundos do governo mas desistiram depois que um funcionário do Instituto Nacional de Saúde americano disse que a instituição não queria se envolver com estudos sobre orações.

"A oração intercessora é mágica", diz a Dra. Barrie Cassileth, chefe de medicina integrativa no Centro de Câncer do Memorial Sloan-Kettering Hospital, em Manhattan. Cassileth supervisiona tratamentos que antigamente eram inaceitáveis pelos grandes hospitais americanos - acupuntura e hipnose, por exemplo. Mas ela vê limites no poder das orações intercessoras. "A idéia é que algumas pessoas podem influenciar à distância o estado de saúde de alguém que não conhecem através da oração. Isto ocorre há milênios, mas não há nenhuma evidência que comprove os resultados. Eu nunca investiria recursos intelectuais ou financeiros num estudo deste tipo. É como estudar se a terra é plana ou redonda".

O Reverendo Jerry Falwell também tem dúvidas. "Não sei se Deus responde a pesquisas como esta", diz. "Deus quer que acreditemos com base nas promessas da Bíblia e não em pesquisas científicas." Ele ressalta que as orações não funcionam como um concurso de popularidade onde a pessoa que mais recebe orações vive mais tempo - se fosse este o caso, a Madre Teresa de Calcutá jamais morreria. Falwell vê com reservas estudos sobre a oração. Mas diz que se fosse um dos pacientes de Krucoff, "gostaria de estar no grupo por quem as pessoas estão rezando".

A questão do impacto da oração é discutida há bastante tempo. Num estudo de 1872 de grande repercussão - Pesquisas Estatísticas sobre a Eficácia da Oração -Sir Francis Galton, primo de Charles Darwin, pergunta diretamente: "as orações são respondidas ou não?" Galton, um cientista brilhante que entrou para a História como o pai da eugenia - o refinamento genético da espécie humana -, comparou os índices de óbitos de eminentes advogados, médicos e padres. Observou que os padres, que supostamente rezavam mais do que os outros e recebiam orações de suas congregações quando adoeciam, viviam menos do que outras pessoas. Também não achou qualquer diferença entre o índice de natimortos entre famílias que iam à igreja e as que não iam.

O assunto ficou entregue às discussões entre teólogos e ateus durante um século, sem quaisquer experiências realizadas por médicos e cientistas respeitáveis. Hoje, com a onda da medicina alternativa, o tema está sendo resgatado. E não só ele. Tratamentos outrora considerados fora da alçada das pesquisas sérias estão sendo investigados pelo establishment médico. Mesmo o Instituto Nacional de Saúde americano está financiando um estudo sobre o valor da cartilagem de tubarão como cura para o câncer. Tudo isto espelha a crença disseminada de que a medicina moderna, por mais fantástica que seja, não detém todas as respostas.

A era moderna de estudos críveis sobre os efeitos terapêuticos da oração começaram em 1988 quando o Dr. Randolph C. Byrd, cardiologista do San Francisco General Medical Care Center, publicou o resultado de uma experiência em que dividiu 393 pacientes do setor de cardiologia do seu hospital em dois grupos. Um grupo recebeu orações e o outro grupo não, Byrd acompanhou 29 indicadores de saúde nos dois grupos e percebeu que em seis deles os pacientes que haviam recebido orações apresentavam melhores resultados.

Este estudo, porém, não é considerado conclusivo. Richard R. Sloan, diretor do programa de medicina comportamental do Columbia Presbyterian Medical Center, observou num artigo recentemente publicado no The Lancet, publicação médica inglesa, que "os grupos não eram diferentes em termos da duração da estada no setor de cardiologia e da quantidade de medicamentos prescritos". Em outras palavras: mesmo que a oração funcione, ela não funciona tão bem assim (os defensores da oração rebatem dizendo que qualquer melhora é melhor do que nenhuma melhora).

Muita coisa será determinada este ano. Além do estudo da Duke University, o Dr. Herbert Benson, professor do Havard Medical School e presidente do Mind/Body Medical Institute, filiado a Harvard, está supervisionando um estudo com pelo menos 1 200 pacientes submetidos a pontes de safenas em vários centros médicos em todo o país. Os resultados deste estudo serão publicados em 2002.

Krucoff só começou a se preocupar com o possível ponto de encontro entre oração e Medicina no início de 1990, quando começou a realizar angioplastias em pacientes gravemente enfermos na Duke University. (Para você ter idéia, os pacientes eram instados a assinar declarações de que sabiam que tinham uma chance em três de morrer durante a cirurgia.) Para surpresa de Krucoff, o índice de mortalidade caiu de 33% para 3%. Ele diz que gostaria de atribuir tudo isso à sua habilidade e ao desenvolvimento de novas técnicas. "Mas havia algo mais. Ao avisar os pacientes do alto risco, eu sem querer os encorajava a rezar como nunca haviam rezado antes."

Krucoff e Crater estavam adentrando uma das áreas mais quentes da pesquisa médica - o elo entre espiritualidade e saúde. Duke hospeda o Centro para o Estudo da Religião, Espiritualidade e Saúde. E tem um setor especial dedicado à medicina integrativa. Não bastasse, há alguns anos a universidade acolheu a inovadora e controvertida pesquisa de J.B. Rhine sobre percepção extrasensorial (ESP). Ou seja: a Duke University está acostumada a sacudir as coisas.

Krucoff e Crater concentraram sua pesquisa nos efeitos terapêuticos, caso houvesse algum, da oração e de outras terapias noiéticas (nome bonito para "terapias espirituais"), como a imposição das mãos. Completaram um estudo piloto em 1998, mas como o número de pacientes recebendo orações era pequeno - apenas 30 - o resultado, que indicava que as orações intercessoras funcionam, ficou desprovido de solidez estatística. Era necessário um estudo maior, como o com 1 500 pacientes em diversos hospitais que eles estão coordenando hoje a partir de Duke.

A fé de quem recebe as preces conta? Aparentemente sim. Veja o caso de Donald, frequentador assíduo da unidade cardíaca do Veterans Affairs Hospital, de Durham, também na Carolina do Norte. Ele é um paciente de Krucoff. E não acredita em todos os tipos de oração. Seu ponto de vista explicita uma das incongruências do estudo. "Nem todas as preces são respondidas", diz ele. "Se você não acredita em Jesus, suas preces não são ouvidas". Ele sacode a cabeça de um lado para o outro negativamente quando perguntado se os budistas no Nepal poderiam fazer algum bem a ele: "Não, não podem". Sequer mencionamos os papeizinhos no muro de Jerusalém...

Se o objetivo da pesquisa científica é jogar luz sobre questões irrespondidas, ainda há muitas sombras envolvendo a capacidade terapêutica das orações. E não apenas de descobrir se funciona ou não. A oração de determinada fé é mais eficaz do que a de outra? Dez minutos de reza de uma freira resolvem tanto quanto uma hora de preces de um estudante de teologia? (Na linguagem médica, essas são questões de "controle de dose".) É possível machucar as pessoas rezando para prejudicá-las? (Uma possibilidade real, de acordo com alguns entusiastas.)

Em 1960 Bernard Grand, biólogo da McGil University, de Montreal, no Canadá, realizou um estudo para saber se a oração era um tipo de "cura à distância". Ele fez incisões na pele de 300 camundongos e dividiu-os em três grupos. Oscar Estebany, curandeiro, segurava a gaiola de um grupo duas vezes por dia e concentrava sua energia curativa nos ferimentos. Alunos de medicina seguravam outra gaiola duas vezes por dia. Ninguém segurava a terceira gaiola. Após duas semanas os ratos de Estebany haviam cicatrizado mais rapidamente do que os outros, de acordo com o relatório de Grad, que foi publicado no Journal of the American Society for Psychical Research, uma publicação alternativa.

Desde então, estudos similares têm sido realizados à margem do establishment médico. Embora o Instituto Nacional de Saúde americano relute em patrocinar estudos sobre preces, ele está apoiando diversos estudos sobre terapias alternativas - o que seria inimaginável há alguns anos. Também há mais fontes de recursos particulares interessadas. O estudo sobre oração de Harvard, por exemplo, está sendo financiado pela fundação John Temple.

Uma das ironias deste avanço nos estudos sobre a oração é que a coalizão de ativistas religiosos e espirituais que levaram as coisas à frente pode desmoronar se for comprovado que rezar tem, efetivamente, algum efeito. É que haverá, muito provavelmente, uma divisão entre aqueles que acreditam que a oração funciona através de poderes humanos inatos, ainda desconhecidos mas perfeitamente terrenos, e aqueles que acreditam que a cura vem de Deus.

"É uma polêmica que não deveria surgir mas que provavelmente vai causar muito barulho", diz o doutor Larry Dossey, autor do best-seller Healing Words (Palavras que Curam). Krucoff prefere não fechar questão sobre o tema. "Acho que é uma ótima discussão", diz. "Mas para os pacientes o que interessa mesmo é o resultado final, a cura".



* Matéria originalmente publicada na Revista Talk

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sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

Imagem

 

Tecnologia muda os hábitos do público

Sistema digital ampliou utilização de câmeras

A popularização das câmeras digitais foi a grande mudança na indústria fotográfica das últimas décadas.

"A tecnologia digital mudou para sempre a maneira como as pessoas tiram, compartilham e guardam suas fotos", diz Virgínia Ginestra, gerente de marketing e vendas da Olympus.

Há 20 anos, o consumidor pensava mais antes de efetuar qualquer disparo na câmera -uma foto mal tirada significava desperdício de filme.

Para tirar cópias, ele deixava o filme no laboratório fotográfico, que podia demorar dias para fazer as revelações. Porta-retratos e álbuns em formato de livro serviam para armazenar e exibir as fotos.

Hoje pode ser difícil entrar em um ambiente sem máquinas fotográficas -elas estão por toda parte, muitas embutidas em telefones celulares.

Qualquer evento pode ser motivo para flashes, e a imagem pode ser conferida na hora, na tela da câmera, impressa em casa e copiada com rapidez.

Com o mercado cada vez mais competitivo, um dos grandes desafios das empresas é oferecer produtos diferenciados, com recursos como detecção de faces, estabilização de imagem e redução de poeira nos sensores. Outro objetivo é facilitar a integração entre o usuário e a câmera.

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quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

Música para multidões

 

Formatos digitais revolucionam a indústria do entretenimento e facilitam a vida dos consumidores

A digitalização das mídias foi a maior evolução dos últimos 25 anos na área de entretenimento doméstico -áudio, foto e vídeo-, diz Leonardo Chiariglione, engenheiro fundador do MPEG (Moving Pictures Experts Group), responsável por formatos como o MPEG-1 Layer 3, o popular MP3, e o MPEG-2, utilizado em DVDs.

Para o consumidor final, um dos maiores impactos, se não o maior, dessa revolução digital ocorreu na música.

Uma historieta fictícia pode ilustrar bem isso. Para ouvir um álbum, dona Ana Lógica suja os dedos com pó ao vasculhar sua coleção de discos, que ocupa bastante espaço e com a qual gasta boa parte de seu salário.

Fazer cópias de discos é trabalhoso: a fita cassete grava o som do LP em tempo real. E as compilações que faz para ouvir no walkman? Coloca o vinil para tocar, coloca o cassete para gravar, toca uma faixa do vinil, pausa o cassete, troca o vinil, toca, grava, pausa, troca, toca... A cópia fica com qualidade de áudio pior que a original.

As coisas são bem diferentes para o jovem Di Gital. Ele liga o computador e encontra rapidamente o que quer ouvir. A maioria dos álbuns armazenados em seu disco rígido foi baixada gratuitamente.

Copia rapidamente as canções favoritas para os amigos e para o tocador de MP3, sem que isso implique perda significativa de qualidade sonora.

Quando o "áudio e o vídeo viraram digitais e ficaram disponíveis para os usuários, o mundo mudou completamente", diz Chiariglione. "Não acredito que houve outra revolução, na área das mídias, separada da digitalização."

O conteúdo digital "proporciona maior facilidade de tratamento, armazenamento, transmissão e reprodução", resume Gustavo Morais, da Creative.

Para Chiariglione, o analógico é escassez, e o digital é abundância. "São duas filosofias incompatíveis." Com o digital, "todo mundo pode obter gratuitamente um conteúdo".

A disseminação do MP3 é um dos grandes exemplos disso, e Chiariglione acha que ele continuará a ser o formato mais difundido, pois mesmo padrões novos e mais sofisticados, como o AAC, não trazem vantagens que justifiquem a substituição do MP3. "É difícil substituir uma tecnologia por outra apenas um pouco melhor."

Analógico tem futuro como matriz e nicho

A música em formato digital começou a se popularizar com o advento do CD, em 1982. No fim do século 20, o formato MP3, com ajuda de softwares para troca de arquivos, ampliou a propagação digital. No meio de tudo isso, como fica o analógico?

"Nem sempre a qualidade [digital] é melhor", diz Gustavo Morais, da Creative. "Pode haver uma perda de qualidade na transformação de sinais analógicos para digitais. Os padrões analógicos deverão permanecer como matrizes para geração e replicação de conteúdo digital."

Para Leonardo Chiariglione, do MPEG, o analógico será um nicho. Morais concorda, lembrando que alguns audiófilos "permanecem fiéis a formatos analógicos, como discos de vinil".

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quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

PSSSIU, OUÇA ESSA ...

A equipe de cirurgiões otorrinos do Hospital das Clínicas, em São Paulo, se considera preparada para o grande desafio-em breve, ela deve implantar em dez pacientes já selecionados, totalmente surdos, um aparelho desenvolvido no Brasil, capaz de devolver-lhes a audição. "Entraremos na sala de cirurgia ainda este ano", promete o otorrino Ricardo Bento coordenador do audacioso projeto. Ao apresentá-lo, o médico paulista, de 37 anos, se exalta, agita-se na cadeira, acelera o ritmo da fala. Ele não abafa o entusiasmo, diga-se, justificado, pois os brasileiros são a quarta equipe no mundo a tentar reverter a surdez profunda, nome sugerido pelo seu ponto de origem, o ouvido interno. Ali, fica a chamada cóclea, a espiral com cerca de 35 milímetros de comprimento, em que as vibrações sonoras se transformam em impulsos para o cérebro. Sem essa conversão, reina o silêncio.
Com delicadíssimos instrumentos, os cirurgiões otorrinos consertam a maioria dos danos à audição. Eles podem, até mesmo, reconstituir um tímpano perfurado, em uma refinada plástica, usando um outro tecido do próprio paciente. Mas, até há poucos meses, as proezas cirúrgicas tinham um limite bem definido: iam, no máximo, até o ouvido médio, a porção entre o tímpano e a janela oval, onde começa o ouvido interno . A Medicina nada podia fazer por aqueles cuja causa da surdez, congênita ou não, se situava no território mais adiante, o da cóclea. Nesses casos, os aparelhos convencionais de surdez não adiantam: "Eles são amplificadores", explica Bento. "E a cóclea danificada nunca reage, por maior que seja a intensidade do som."A idéia de se criar um substituto para a cóclea surgiu na mesma época e local do sonho de conquistar a Lua. No ano em que o foguete Apollo 7 iria orbitar a Terra, 1968, o otorrino americano William House trabalhava para a NASA, a agência espacial dos Estados Unidos. Era praxe manter um otorrino por perto, sempre que se lançava um foguete tripulado: a ausência da gravidade podia provocar distúrbios de ouvido nos astronautas e, quando isso acontecia, o médico dava consulta à distância. A voz dos pacientes, porém, tinha de ser decodificada-era, afinal a época da guerra fria. Os sinais de rádio eram transformados em sinais elétricos, indecifráveis para os russos que tentassem interceptar a conversa. Na base da NASA, um equipamento interpretava os impulsos elétricos, para torná-los novamente ondas de rádio. O otorrino percebeu que aquele sistema era uma imitação da cóclea, o decodificador do ouvido. A partir daí, House criou o protótipo do aparelho de implante coclear, seguido por cientistas da Austrália e da França. Até hoje, no entanto, apenas o modelo australiano foi aprovado, no ano passado, pela rigorosa FDA (sigla de Food and Drugs Administration), o órgão do governo americano encarregado, entre outras coisas, de controlar os equipamentos medicinais. No Brasil, a estimativa dos médicos de existirem 300 000 candidatos ao implante é modesta, pois esse número baseia-se em estudos sobre a população americana, cujas mulheres são vacinadas contra rubéola. "Aqui, só essa doença em grávidas, ao atacar o ouvido do feto, representa 18% dos brasileiros com surdez profunda", compara Bento. Essas pessoas completamente surdas, por sua vez, seriam apenas cerca de um décimo dos casos de distúrbios auditivos, que aparecem sempre que há danos na aparelhagem do ouvido. "Os problemas até agravam, quando a pessoa usa aparelhos de surdez mal adaptados, porque não passaram por um médico", adverte Ricardo Bento.Os sons, da mais agradável melodia ao mais estridente ruído, são vibrações de corpos que, deslocando-se de maneira alternada provocam ondas acústicas ao seu redor, isto é, variações na pressão do ar, percebidas pelo ouvido. Este, curiosamente, deve ter tido sua origem há cerca de 500 milhões de anos, em animais incapazes de ouvir qualquer ruído, os celerenterados aquáticos, como as medusas. Pois. Acredita-se, a função primitiva do ouvido não era captar sons, e sim manter o equilíbrio do corpo-algo tão importante quanto a própria audição. Há cerca de 200 milhões de anos, cenas espécies de peixes, que tinham recursos semelhantes para equilibrar-se, desenvolveram bolsas natatórias-bexigas de ar, para ajudar o corpo a flutuar, sensíveis a ponto de contrair ou expandir de acordo com as pequenas variações na pressão da água, provocadas por uma onda sonora. Essa dança das bolsas natatórias acabava agitando os fluídos dentro daqueles órgãos de equilíbrio conectados com o cérebro-a audição, enfim, podia acontecer.
O ouvido mudou bastante, ao longo da evolução. Os seres humanos, por exemplo, perderam a mobilidade da sua parte visível, o pavilhão auditivo, que todos conhecem por orelha. Nas outras espécies, essa estrutura cartilaginosa é capaz de se mover na direção do som. Ao alcançarem a orelha, as ondas sonoras perde 2,5 centímetros no meato, grande túnel central do ouvido externo. Ali as glândulas sudoríparas da pele passaram por alterações drásticas, a ponto de praticamente abandonarem a produção do suor, para fabricarem uma cera amarga em seu lugar. Há uma boa razão para a troca: o sabor amargo espanta os insetos que ousam se aproximar dessa entrada exclusiva para o som. No final desse corredor, as ondas sonoras batem em uma finíssima membrana, com apenas três camadas de células, tão sensível que o choque de uma única molécula de hidrogênio é capaz de fazê-la tremer. Trata-se do tímpano.
Para trabalhar direito, no entanto, o tímpano precisa que a pressão do ar seja idêntica em seus dois lados. Isso é regulado por um canal, a trompa de Eustáquio, que liga o ouvido médio à faringe. Normalmente, a comunicação com a faringe permanece fechada, a não ser em situações especiais-por exemplo, quando a pessoa espirra, boceja ou deglute. Aliás, é por isso que alguns passageiros de avião carregam goma de mascar na valise. Pois, durante o vôo, a pressão externa pode repentinamente ficar muito menor que a do ouvido médio. Mascar alguma coisa, então, força a trompa de Eustáquio a se abrir. Quando isso não acontece, o passageiro desembarca com a sensação de ouvido tapado.
Encostado no tímpano, encontra-se o cabo de um ossículo chamado martelo. A proximidade dos dois faz o martelo vibrar ao embalo do tímpano, mesmo quando esse se desloca apenas 1 milionésimo de milímetro; assim, a ponta do martelo começa a batucar no osso vizinho, a bigorna. O movimento desta, por sua vez, contagia um terceiro e último osso -por sinal, o menor do organismo, do tamanho da ponta de uma caneta-, cuja aparência revela por que é chamado estribo. Essas estruturas tão frágeis assim como todas as outras do ouvido, ficam incrustadas no osso temporal, que o otorrino coreano Sung Ho Joo exibe na palma da mão, na sala do Hospital Albert Einstein, em São Paulo: "Quando operamos um ouvido, estamos sempre desviando de alguma coisa. Porque, dentro do osso temporal passa a artéria carótida que irriga o cérebro, assim como a veia que traz de volta o sangue sem oxigênio. Mas, pior, o osso é atravessado pelo nervo facial: qualquer esbarrão ali pode causar paralisia".
Quando a familia Ho Joo saiu da Coréia para Brasil em 1966, para que o filho mais velho escapasse do alistamento militar-e da guerra contra o Vietnã-, o caçula Sung, então com 10 anos, já sonhava em fazer Medicina, mas nem cogitava se especializar em ouvido, nariz e garganta. A Otorrinolaringologia ganhou sua preferência, depois de terminar a faculdade, quando um colega chamou sua atenção para a difícil tarefa de interferir no osso temporal. O médico, hoje, depois de estágios nos Estados Unidos e no Japão, orgulha-se de sua escolha. "O primeiro transplante realizado no Brasil foi justamente o de tímpano", ressalta. Os cirurgiões continuam realizando transplantes como aquele pioneiro, feito em 1962. Aliás, costuma-se transplantar também os três ossinhos do ouvido médio, que podem enrijecer-se graças ao abuso de certos medicamentos ou mesmo fraturar por causa de sons intensos, como o de um estouro.Hoje, os otorrinos têm também novas soluções: nos Estados Unidos, por exemplo, começam a ser implantados ossinhos artificiais, feitos de teflon. No caso do tímpano, opta-se pela plástica de reconstituição, sempre que a perfuração é pequena. Essa película rompe-se com certa facilidade-até mesmo por causa de um beijo estalado na orelha. Embora o escape de ar pelo furo faça a pessoa não ouvir direito, na maioria das vezes ela nem desconfia do dano, pois, como qualquer pele, o tímpano cicatriza sozinho.
A entrada do ouvido interno, a janela oval, é fechada pela própria base do pequeno estribo. Na verdade, a saída do ouvido médio é 25 vezes menor do que a entrada pelo tímpano. Esse afunilamento concentra as ondas sonoras -pois o que ocorrerá, então, poderá ser comparado ao efeito de uma pedra batendo em um lago, isto é, apenas 0,01% do som será absorvido pela água. Afinal, a cóclea é recheada de líquido. Sua estrutura é tão sensível que o cérebro mantém mecanismos para protegê-la. Quando o volume do som é estrondoso, o sistema nervoso ordena a contração de músculos ligados aos ossos do ouvido médio, e, com isso, suavizam-se as vibrações."A estratégia, porém, não é eficiente para sons muito agudos ou repentinos", esclarece Sung Ho Joo.Volume ou intensidade corresponde à amplitude das ondas sonoras, cuja unidade de medida é o decibel. "Essa unidade é um logaritmo, ou seja, a diferença entre 50 dB e 100 dB é muito maior do que o dobro", nota Ho Joo. De fato, isso corresponde ao barulho de um restaurante tranqüilo e o som de uma britadeira, respectivamente. Para a cóclea, no entanto, tão importante quanto a intensidade é a freqüência de um som, isto é, a quantidade de vezes que a onda acústica agita as moléculas do meio, durante o seu percurso-e isso é medido em hertz. Entre 20 e 200 hertz, o som é percebido como grave e, entre 7 000 e 20 000 hertz, como agudo. Mas, na verdade, o ouvido humano é um especialista em captar os tons medianos, entre 200 e 7 000 hertz, como o da voz. Essas freqüências precisam de menos volume para serem percebidas.
Se a cóclea fosse esticada, a linha resultante seria uma espécie de piano com cerca de 12 000 teclas-as células ciliadas, que funcionam como filtros, quebrando a onda sonora complexa em diversas freqüências. Pois, no ponto de partida da cóclea, os cílios agitam-se com sons agudos; à medida que se avança para a outra extremidade, as células são sensíveis a sons cada vez mais graves. O movimento da membrana basilar, em que essas células se apóiam, estimula os terminais dos nervos auditivos logo embaixo.
Desse modo, para o sistema nervoso, as diferenças de tonalidades em uma escala musical, por exemplo, são uma questão topográfica: embora o impulso elétrico de uma nota dó seja idêntico ao impulso elétrico das notas ré, mi, fá, esses estímulos partem de pontos diversos no nervo auditivo. Existem, no entanto, pessoas com a audição muito mais aguçada do que a maioria da população-e os otorrinos ainda não entendem por que isso acontece. Pode estar no cérebro o segredo do que os músicos chamam ouvido absoluto, conceito aplicável àqueles com memória fabulosa para freqüências de sons.Julio Medaglia, um dos mais renomados maestros brasileiros, lembra-se de uma prima, que abandonou o estudo do piano na infância: "Ela é capaz de ouvir uma serra elétrica e afirmar se aquilo é um si bemol ou não. Mas isso não parece ser tão importante para um músico. Arturo Toscanini não tinha ouvido absoluto", argumenta Medaglia, referindo-se ao genial maestro italiano, que morreu em 1957, em Nova York, nos Estados Unidos. O irônico é que, às vezes, ter um ouvido absoluto até atrapalha. "No coro de uma capela é comum o efeito proposital de baixar um pouco o tom no final da música. Um ouvido absoluto, no meio dos cantores, fica angustiado -e desafina em relação ao resto", exemplifica Medaglia.Mas isso nem se compara aos apuros da surdez. "O surdo costuma sentar-se encostado na parede, de frente para a porta. com medo de que alguém se aproxime sem que ele perceba". observa o otorrino Ricardo Bento. Ninguém com audição normal ou parcial consegue imaginar, o que seja o silêncio- mesmo se entrar numa câmara acústica, com zero decibel, ouvirá ainda os sons do próprio organismo, como as batidas do coração. Além disso, a audição nunca desliga. Mesmo no mais profundo dos sonos, ela permanece em alerta. Só que, nesse estado, o sistema nervoso aciona uma espécie de filtro, que seleciona informações importantes. Torna consciente, por exemplo, o toque do despertador-e, então, o ouvido acorda para qualquer som.


O fim do mais absoluto silêncio

Há três anos, com a proposta de se criar um aparelho para substituir a cóclea do ouvido, o otorrino Ricardo Bento desceu até o subsolo do Instituto do Coração, sem São Paulo- ali, cientistas se reúnem em um dos mais avançados laboratórios de Bio-engenharia do mundo. "Ficamos motivados por ser um projeto difícil do ponto de vista da Engenharia", conta o médico e engenheiro Adolfo Leirner, que dirige o laboratório. "Mas, sobretudo, o aparelho terá resultados visíveis no horizonte." O engenheiro eletrônico Miltom Oshiro conta que os primeiros implantados usarão um aparelho não-portátil. "De acordo com seus relatos, ajustaremos a versão final do aparelho, que será carregado na cintura como um bip."Uma equipe de fonoaudiólogos ensinará os implantados a ouvir com o equipamento. De fato, não será a mesma coisa do que contar com a engenhosa maquinaria do ouvido interno normal. As 12 000 células ciliadas da cóclea, afinal, separam uma enorme gama de freqüências sonoras; o aparelho de implante, por sua vez, possui um banco de filtros capaz de separar apenas dezesseis freqüências do som, captado por um microfone. O toque de um telefone soará como um "zzzz"-os implantados, claro, serão treinados para reconhecer esse ruído. Mas o aparelho permite à informação sonora chegar a seu destino: o cérebro."Do banco de filtros, as ondas sonoras vão para um microcomputador, que seleciona aquelas com intensidade superior a 55 dB", descreve Oshiro. Então, o som é transmitido em ondas de rádio por uma antena, grudada atrás da orelha, graças a uma ímã. Sob a pele, está outro ímã, com uma antena para captar essas ondas. Um eletrodo, no lugar da cóclea, finalmente transforma o som em sinais elétricos para o nervo auditivo. Assim, é possível ouvir, ainda que as vozes sempre pareçam anasaladas, como a de um robô.


Os canais do equilíbrio

Manter-se em pé, subir ou descer escadas sem cair, caminhar firme, e não cambaleante como um bêbado -o homem só consegue ficar equilibrado graças aos chamados canais semicirculares do vestíbulo, uma câmara pequenina no labirinto. "O sistema vestibular é notoriamente o principal responsável pelo equilíbrio do corpo humano", explica o otorrino Sung Ho Joo. Em cada labirinto, encontram-se três canais dispostos em planos diferentes, preenchidos por um líquido que chacoalha conforme as rotações da cabeça. O vai-vém do liquido, por sua vez, movimenta os cílios no revestimento dos canais. "Esses cílios funcionam como interruptores: para um lado, disparam um estímulo nervoso e, para outro, inibem o sinal elétrico", descreve Sung. "No ouvido direito, porém, a direção inibidora dos movimentos ciliares é oposta àquela do ouvido esquerdo. Ou seja, é como se, enquanto um dos ouvidos diz liga, o outro dissesse desliga."Constantemente, o cérebro soma e interpreta os sinais dos seis canais semicirculares. Quando não consegue fazer isso direito, a vida se transformar em uma corda bamba-basta mexer o corpo, para sentir a ameaça do tombo, acompanhada de tonturas, o sintoma clássico da labirintite, como é conhecido o problema. "A labirintite tem causas diversas e seus efeitos podem ser percebidos em qualquer situação, não apenas quando a pessoa está em lugares altos", esclarece Sung. "Felizmente, a maioria dos casos tem tratamento."

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terça-feira, 27 de dezembro de 2005

Feliz Ano Novo!

de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ANO,
foi um indivíduo genial,
industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar
no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui por diante vai ser diferente.

(Carlos Drummond de Andrade

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2005

O Começo de Tudo

"Espiiritualidade começa com roupas limpas..."
Zuma Reyo

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domingo, 25 de dezembro de 2005

Às vezes se espera demais das pessoas.

Às vezes queremos demais da vida,
O dinheiro que não veio, o amigo que nos decepcionou, o sonho
que não aconteceu, o relacionamento que terminou.

As coisas que perdemos ou que nos tiraram.

Às vezes temos surpresas com nossa saúde, da nossa família e
a dos nossos amigos.

Às vezes as pessoas queridas se vão.

Claro que a vida nos prega peças...

É lógico que, por vezes, o carro quebra, o pneu fura, o
dinheiro acaba, chove demais, o sol tá muito forte...

2006 não vai ser diferente.
Muda o século, muda o milênio, mas o homem é, e sempre será,
cheio de imperfeições.

E a natureza tem sua personalidade que nem sempre é a que a
gente deseja, mas e aí?

Fazer o que? Acabar com o seu dia? Com seu bom humor? Com
sua esperança?

Pensa só: É legal viver reclamando das coisas? Tem graça
viver sem rir pelo menos uma vez ao dia?
Tem sentido ficar chateado durante o dia todo por causa de uma
discussão ou de um desentendimento?


Quero viver bem! Todo mundo quer, mas pensa um pouco, se isto
não depende de nós?
O que eu desejo pra todos é sabedoria.
E que todos nós saibamos transformar tudo em uma boa
experiência.
Que todos consigamos perdoar o desconhecido mal educado.

Ele passou na sua vida... não pode ser responsável por um dia
ruim.
O nosso desejo não se realizou?

Que bom! Não estava na hora, não deveria ser a melhor coisa pra
esse momento.
Chorar de dor, de solidão, de tristeza, desilusão faz parte
do ser humano.

Não adianta lutar contra isso.
Mas se a gente se entende e permite olhar o outro e o mundo
com generosidade, as coisas ficam diferentes.
Desejo para todos esse olhar especial.
2006 pode ser um ano especial se nosso olhar for diferente.

Pode ser muito legal, se entendermos nossas fragilidades e
egoísmos, e dermos a volta nisso.
Somos fracos, mas podemos melhorar!

Somos egoístas, mas podemos entender o outro!

Acredite em 2006! Mas, mais que isso, Acredite no seu poder de
transformação, acredite em você, acredite em Deus!

O grande barato da vida é olhar pra trás e sentir orgulho da
sua história.

O grande lance é viver cada momento como se a receita da
felicidade fosse o AQUI e AGORA.

Crie a felicidade ! Não fique esperando por ela...
Não saia do caminho do bem... por nada nem por motivo algum
deixe seus bons princípios de lado.

Continue sendo uma pessoa de bem, honesta e de caráter.
2006 pode ser o máximo, maravilhoso, lindo e especial.
Pode ser puro orgulho.
Depende de mim e de você.
Pode ser.
E que assim seja.

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sábado, 24 de dezembro de 2005

Tolerância ZERO:

CENA 1: SUJEITO ENTRANDO EM UMA AGROPECUÁRIA.

- Tem veneno pra rato ?

- Tem ! Vai levar ? - Pergunta o balconista.

- Não, vou trazer os ratos prá comer aqui !



CENA 2: NO CAIXA DO BANCO, O SUJEITO VAI DESCONTAR O CHEQUE.

- Vai levar em dinheiro ???

- Não!!! Me dá em clipes e borrachinhas !



CENA 3: CASAL ABRAÇADINHO, ENTRANDO NO BARZINHO ROMÂNTICO.

- Mesa para dois ?

- Não, mesa para quatro, duas são para colocar os pés.



CENA 4: O SUJEITO APANHANDO O TALÃO DE CHEQUES E UMA CANETA.

- Vai pagar com cheque ?

- Não, vou fazer um poema para você nessa folhinha.



CENA 5: SUJEITO NO ELEVADOR (no subsolo-garagem):

- Sobe ?

- Não, esse elevador anda de lado.



CENA 6: SUJEITO FUMANDO UM CIGARRO.

- Ora, ora! Mas você f uma ?

- Não, eu gosto de bronzear meus pulmões também.



CENA 7: SUJEITO VOLTANDO DO PIER COM O BALDE CHEIO DE PEIXES.

- Você pescou todos ?

- Não, alguns peixes são suicídas e se atiraram no meu balde.



CENA 8: COM VARA DE PESCAR NA MÃO, LINHA NA ÁGUA, SENTADO.

- Aqui dá peixe ?

- Não!! dá tatu, quati, camundongo, peixe costuma dar lá no mato !



CENA 9: EDIFÍCIO PEGANDO FOGO FUNCIONÁRIO SAINDO CORRENDO.

- É incêndio ???

- Não, é uma pegadinha do Faustão !



CENA 10 : SUJEITO NO CAIXA DO CINEMA.

- Quer uma entrada ?

- Não, não, é que eu vi essa fila imensa e queria saber onde vai dar !

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sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

Ponto final na discórdia

"Contra o bom senso não há argumento..."
Rogério

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quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

PARA VIVER UM GRANDE AMOR

(Vinícius de Moraes)

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso – para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... – não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro – seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada – para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o “velho amigo”, que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade – para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut, além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô – para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito – peito de nadador. É preciso olhar sempre a bem amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista – muito mais, muito mais que na modista! – para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, estrogonofes – comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostoso farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto – pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer “baixo” seu, a amada sente – e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia – para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que – que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada – para viver um grande amor.

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quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

Quando tudo está perdido....

"O lugar mais escuro é debaixo de uma luz..."
Confúcio

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terça-feira, 20 de dezembro de 2005

Feliz Natal

Sim é Natal, devemos comemorar! É claro! E por que não?

(Jingle Bell, Jingle Bell... bate o sino pequenino......)

Não podemos precisar a data do nascimento de cristo.Estipulou-se 25/12, entretanto não sabemos ao certo, mas o que importa a data?

Importa de fato que ele nasceu. Estranho que ele não pediu que comemorássemos seu aniversário.

Meus conhecimentos bíblicos apenas mencionam que ele desejava sim, que comemorássemos a sua morte, até que ele voltasse. (Mas isso é só para os que crêem...).

O fato é que, crendo ou não no que ele foi, de fato sua passagem pela terra não foi ignorada. Ele transformou o mundo ao seu próprio modo (Modo de Deus).

Mudou conceitos, brigou contra as normas da época. Um revolucionário!

Sim ele nasceu, sofreu e morreu por nós.Você crê nisso?!

Não há sentido comemorar o Natal, (nascimento Dele) se não entendermos sua morte!

Não estamos falando de alguém que nesse mês completa 2006 anos!
Mas de alguém que nasceu sim, sabe se lá em que data correta, morreu e acreditem ou não ressuscitou!

Nessa época do ano as pessoas parecem estar iluminadas pelo
Espírito Natalino! Bondade, abraços, sorrisos, presentes, doações, caridade.

Que coisa boa não é mesmo?!

Deus é amor. Quando comemoramos seu nascimento, devemos entender que Ele deseja que SEU AMOR nasça nos nossos corações.

Que este AMOR não dure apenas o mês de dezembro, mas se perpetue e se manifeste a cada passo dado.
Com atitudes de bondade, paciência, tolerância e perdão.

São meus votos para nosso fim de ano! E para um 2006 melhor

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segunda-feira, 19 de dezembro de 2005

Sempre é bom saber!!!

Conhecimentos simples podem muitas vezes salvar uma vida.
Sintomas de um derrame

Às vezes, os sintomas de um derrame são difíceis de identificar.
Infelizmente, a falta de reconhecimento provoca um estrago. A vítima de
um
derrame pode sofrer danos cerebrais quando as pessoas em
redor não reconhecem os sintomas do derrame.

Agora, os médicos contam que alguém que convive com a pessoa em questão
pode reconhecer o derrame mediante três testes simples:
1. Pedindo à ela para rir;
2. Pedindo à ela para levantar os dois braços;
3. Pedindo à ela para falar uma frase simples.
Se ela tem dificuldade com um destes testes, chame imediatamente o
pronto-socorro e conte sobre os sintomas a quem atender o telefone.

Depois de fazer com que um grupo de voluntários não-médicos fosse capaz
de identificar um problema facial, um problema nos braços ou
dificuldade
em falar, cientistas querem que estes os três testes sejam conhecidos
pelo
maior número possível de pessoas.

Eles apresentaram suas conclusões na American Stroke Association na
reunião anual em fevereiro de 2004.

O uso comum destes testes pode dar oportunidade de uma diagnose
imediata e
um tratamento de derrame, e prevenir um prejuízo do cérebro.

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domingo, 18 de dezembro de 2005

ESSE HOMEM CHAMADO JESUS

Quem foi afinal Jesus? A resposta é difícil - principalmente porque os únicos relatos sobre sua vida são os evangelhos, escritos e reescritos décadas depois de sua morte. A Igreja aceita como válidos apenas quatro desses textos, os chamados evangelhos canônicos, atribuídos pela tradição a Mateus, Marcos, Lucas e João. Outros evangelhos, denominados apócrifos, apresentam narrativas que, às vezes, se chocam fortemente com a dos canônicos. Refletem concepções religiosas e políticas que se desenvolveram nos primeiros séculos do cristianismo e chegaram a ser acusadas de heresia. Estudos bíblicos contemporâneos vêm submetendo tanto os textos canônicos quanto os apócrifos a uma cuidadosa releitura crítica.
Para começar, Jesus nasceu antes de Cristo. Um erro cometido séculos depois no cálculo do calendário é responsável por esse paradoxo. O fato histórico usado como referência para a datação do nascimento é o primeiro recenseamento da população da Palestina, ordenado pelas autoridades romanas com o objetivo de regularizar a cobrança de impostos. Lucas diz em seu evangelho que Jesus nasceu na época do censo. Estudos mais recentes situam esse acontecimento entre os anos 8 e 6 a.C.
Maria e José, os pais de Jesus, teriam se deslocado de Nazaré, na Galiléia, onde viviam, para Belém, na Judéia - cidade de origem de José e onde ele deveria se alistar para o censo. Mas a definição de Belém como a cidade natal de Jesus também é motivo de polêmica entre os estudiosos. Belém era a cidade de Davi, que reinou em Israel por volta do ano 1000 a.C. Na época em que Jesus nasceu, os judeus esperavam por um líder, que os livrasse do jugo romano e restabelecesse a realeza.
Segundo profecias do Antigo Testamento, esse libertador - o messias, que significa o "ungido", como os antigos reis de Israel - seria descendente de Davi. Para os evangelhos, especialmente o de Mateus, Jesus é o messias esperado: por isso seu nascimento ocorre em Belém; por isso também ele é saudado pela aparição de uma estrela, símbolo de Davi.
Conforme o relato de Mateus, Jesus descende de Davi por meio de José. O autor procura conciliar essa origem com a virgindade de Maria, referida no mesmo texto. O que se quer mostrar, evidentemente, é que o nascimento de Jesus ocorre a partir de uma intervenção direta de Deus. É uma idéia que aparece com freqüência no pensamento antigo. Não só heróis mitológicos, mas também grandes personagens históricos têm seu nascimento associado a uma divindade. Os faraós do Egito eram considerados filhos de Amon-Ra, o deus Sol. E a mãe de Alexandre, o Grande (356 a.C.-323 a.C.), estava convencida e convenceu o filho de que ele era descendente de Zeus, o deus supremo da mitologia grega.
Para a Igreja Católica, Maria permaneceu virgem mesmo depois do nascimento de Jesus. A expressão irmãos e irmãs, empregada por Mateus e Marcos, designaria parentes mais distantes de Jesus, como seus primos. Essa opinião é contestada pelos protestantes, que acreditam que os irmãos que aparecem nos evangelhos eram irmãos mesmo. Eles são citados pelos nomes: Tiago, José, Simão e Judas. Tiago, conhecido como Tiago, o Maior, fez parte do círculo dos discípulos mais íntimos; após a morte de Jesus e a saída do apóstolo Pedro de Jerusalém, assumiria a chefia da Igreja.
A ação de Jesus transcorreu principalmente entre os pobres e marginalizados de seu tempo. A fértil região da Galiléia, onde presumivelmente passou a maior parte de sua vida, abrigava uma população miserável, vista até com desconfiança pelos judeus conservadores, pela presença em seu interior de elementos pagãos originários da Síria. Como lembra o estudioso Paulo Lockmann, bispo da Igreja Metodista no Rio de Janeiro, quando Jesus disse "bem-aventurados os pobres em espírito", era dessa população rústica que ele falava.
A própria família de Jesus, porém, puramente judaica, como se pode verificar pelos nomes de seus membros, não era assim tão pobre. Como carpinteiro, José era um artesão pequeno proprietário. Num meio em que os ofícios passavam de pai para filho e eram patrimônio de família, é quase certo que Jesus tenha herdado e exercido a carpintaria.
A lacuna de quase trinta anos na narrativa dos evangelhos - do nascimento de Jesus ao início de sua pregação - deu margem a todo tipo de fantasia. Autores imaginosos fizeram-no viajar a lugares tão longínquos quanto a Índia e o Tibete, em busca dos fundamentos de sua doutrina. Para o estudioso católico Euclides Balancin, do corpo de tradutores para o português da Bíblia de Jerusalém, essas suposições não têm nenhum fundamento. "É muito improvável que Jesus tenha se afastado da Palestina", diz. "O único ensinamento religioso com que ele teve contato era aquele acessível a qualquer judeu da época - as Escrituras. O aspecto revolucionário de sua ação é que ele procurou levar as idéias do Antigo Testamento à prática."
A espetacular descoberta das ruínas e dos manuscritos da comunidade dos essênios, ocorrida em 1947 na localidade de Qumran, às margens do mar Morto, no atual território de Israel, alimentou durante bom tempo a suposição de que Jesus pudesse ter pertencido a essa irmandade religiosa. Mas a crítica mais recente vem desmentindo também essa hipótese.
A comunidade dos essênios era formada principalmente por sacerdotes que haviam rompido com o alto clero de Jerusalém, constituído por grandes proprietários de terras que aceitavam a dominação romana. Abandonando a Cidade Santa, os sacerdotes dissidentes se fixaram nas grutas da região desértica à margem do mar Morto, onde os bens eram divididos entre todos, cada um devia trabalhar com as próprias mãos e o comércio era proibido.
Esses judeus puritanos esperavam a chegada iminente do messias, que viria organizar a guerra santa para eliminar os ímpios e estabelecer o reino eterno dos justos. Os que aspiravam pertencer à comunidade deviam passar por um complexo e prolongado período de iniciação, que incluía o batismo com água. O significado simbólico desse rito era o da morte e ressurreição do indivíduo: ao ser mergulhado na piscina batismal, este morria e renascia para uma nova vida.
É provável que a ideologia dos essênios tenha influenciado o pensamento e a prática de Jesus, assim como da comunidade cristã primitiva. Mas as diferenças também são muito grandes. Como ressalta o padre Ivo Storniolo, coordenador da tradução da Bíblia de Jerusalém, enquanto os essênios se afastavam do mundo injusto e corrompido para viver um ideal de pureza à espera do messias, Jesus mergulhava nesse mundo para transformá-lo.
Além disso, a comunidade dos essênios era rigidamente organizada e hierarquizada, ao passo que a prática de Jesus era informal. "As expressões pregação ou ministério de Jesus podem induzir a um erro de avaliação", comenta Storniolo. "É preciso ter claro que Jesus não era um sacerdote. Raramente pregava nas sinagogas. Seus ensinamentos e sua ação se davam no meio do povo, nos locais de moradia e de trabalho."
De seu lado, o protestante Paulo Lockmann acrescenta: "Nunca um essênio se sentaria à mesa de um publicano (cobrador de impostos) ou pecador como Jesus fez. Ele foi além disso e afirmou que os publicanos e as prostitutas estão vos precedendo no Reino de Deus, querendo mostrar que, quanto mais um homem é pecador, mais ele está em revolta contra o mundo em que vive e mais aberto à transformação".
Próximo dos essênios, sem dúvida, estava João, o Batista. Ele era um asceta rigoroso, que pregava no deserto próximo à comunidade de Qumran, batizava com a água e anunciava a vinda do messias. O tipo de relacionamento que pode ter havido entre Jesus e João Batista intriga os estudiosos. Como Jesus, João tinha um círculo de discípulos, dois dos quais, atendendo à sua indicação, teriam se passado para o grupo de Jesus, integrando o conjunto dos doze apóstolos. Um desses discípulos era André, irmão de Pedro.
Para João, Jesus era o messias esperado. Nele, João via a intervenção iminente de Deus na história. Mas, depois de ser preso pelas autoridades e como Jesus não desse início à guerra santa, João enviou dois discípulos para interrogá-lo se ele era realmente "aquele que há de vir ou devemos esperar outro". Se a resposta indireta de Jesus, citada por Lucas, convenceu João não se sabe. Sabe-se que não convenceu uma parte de seus seguidores. Estes, após a execução do líder, passaram a acreditar que João era o messias e fora traído por Jesus. A partir daí fundaram uma religião, o mandeísmo de que há tênues vestígios ainda, no Irã e na Turquia.
Batizado por João, Jesus meditou e jejuou por quarenta dias no deserto. Essa passagem tem um claro significado. Não só na biografia de fundadores de religiões, como Buda ou Maomé, mas também na trajetória de homens comuns entre os povos primitivos, a preparação para a etapa mais importante da vida é precedida por um período de solidão junto à natureza, quando a pessoa se confronta consigo mesma. O demônio que tentou Jesus durante esse período pode ser interpretado como seu demônio interior - o lado sombrio que todo homem tem dentro de si.
Segundo Mateus, quando Jesus teve fome, o diabo lhe disse: "Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães". Depois, levando-o ao alto do templo de Jerusalém, o desafiou: "Se és Filho de Deus, atira-te para baixo, porque está escrito: Ele dará ordem a seus anjos a teu respeito, e eles te tomarão pelas mãos..." Finalmente, conduzindo-o a um monte muito alto, "mostrou-lhe todos os reinos do mundo com seu esplendor e disse-lhe: Tudo isso te darei, se, prostrado, me adorares". Para Ivo Storniolo, "as tentações no deserto são um resumo das tentações que Jesus sofreu ao longo da vida. Três tentações que a sociedade propõe: riqueza, prestígio e poder. Sociologicamente, há nos evangelhos uma crítica à sociedade baseada nesses valores, por serem privilégio de uma minoria".
Mesmo a estruturação dos ensinamentos de Jesus nos grandes sermões que aparecem nos evangelhos canônicos é posterior à sua morte e se deu pela reunião, em discursos extensos, de frases ditas em ocasiões e contextos diversos. O núcleo de sua mensagem está no Sermão da Montanha, de conteúdo marcadamente social.
Nesse aspecto, a versão do Evangelho de Lucas é ainda mais vigorosa que a de Mateus: "Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados. Bem-venturados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, quando vos rejeitarem, insultarem e proscreverem vosso nome como infame, por causa do Filho do Homem. Alegrai-vos naquele dia e exultai, porque no céu será grande a vossa recompensa; pois do mesmo modo seus pais tratavam os profetas..."
O ponto culminante da trajetória de Jesus, para o qual convergem as narrativas evangélicas, foi sua estada em Jerusalém, onde se confrontou diretamente com o centro do poder, foi preso, condenado e crucificado. Sua entrada na cidade foi triunfal, sendo recebido pela multidão que estendia as vestes sobre o caminho para que ele passasse e o saudava como o messias libertador. Suas palavras e ações, entretanto, logo deixaram claro que ele não vinha liderar uma rebelião militar contra o domínio romano, mas propor uma transformação de outro tipo na estrutura da sociedade e na mentalidade dos homens.
Um de seus primeiros gestos, cheio de significado e conseqüências, foi expulsar os comerciantes do Templo. Este não era apenas o núcleo religioso do país, mas também uma importante unidade econômica, envolvida na cobrança de impostos e num intenso comércio, que visava tanto atender às necessidades dos numerosos peregrinos como manter o sistema de vendas de animais, ofertados pelos fiéis em sacrifício. Essa economia do templo era uma das bases do poder da elite sacerdotal, que Jesus afrontava diretamente com seu ato.
Por outro lado, as palavras de Jesus se voltam contra o que ele considerava uma religião minuciosa e formalista, que se afastava do conteúdo profundo e da mensagem social das Escrituras: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas omitis as coisas mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Importava praticar estas coisas, mas sem omitir aquelas. Condutores cegos, que coais o mosquito e tragais o camelo!"
O famoso episódio em que Jesus é interrogado pelos fariseus e partidários da dinastia de Herodes sobre se se devia ou não pagar tributos a Roma é explicitamente descrito, em Mateus, Marcos e Lucas, como uma trama visando arrancar dele alguma declaração que pudesse incriminá-lo perante as autoridades romanas. A resposta de Jesus - "Devolvei o que é de César a César, e o que é de Deus, a Deus" - certamente decepcionou os que esperavam dele a liderança de uma insurreição nacionalista. Quando, de acordo com o costume de se libertar um prisioneiro durante a festa da Páscoa, o procurador romano Pôncio Pilatos consultou o povo se devia anistiar Jesus ou Barrabás, acusado de morte, os evangelhos dizem que a cúpula sacerdotal procurou tirar partido dessa decepção, incitando a multidão a escolher Barrabás.
Os modernos estudos críticos dos evangelhos vêm permitindo tratar da dimensão existencial de Jesus, antes encarada como tabu. Como mostra Leonardo Boff, em seu livro Jesus Cristo libertador, tudo que é autenticamente humano aparece em Jesus: alegria e ira, bondade e dureza, tristeza e tentação. No entanto, suposições como a de um eventual relacionamento amoroso com Maria Madalena não encontram nenhum apoio nos textos evangélicos.
A própria Maria Madalena, aliás, já foi erroneamente confundida com a "pecadora", mencionada por Lucas, que teria lavado, enxugado com os cabelos, beijado e perfumado os pés de Jesus na casa de um fariseu. Não há evidência de que sejam a mesma pessoa. O que se diz de Maria Madalena em diversas passagens é que dela Jesus expulsou "sete demônios", que estava presente entre as mulheres que acompanharam Jesus ao monte Calvário, onde foi executado, e que Jesus lhe apareceu e falou depois da ressurreição.
Um dos pontos mais delicados na tentativa de reconstituir a dimensão histórica de Jesus são os milagres a ele atribuídos. É preciso ter claro que a separação que se faz hoje entre natural e sobrenatural praticamente não existia naqueles tempos. Os evangelhos dão numerosos testemunhos das curas operadas por Jesus. Em meio a um povo miserável e inculto, Jesus vai libertando as pessoas de seus males: a cegueira, a mudez, a surdez, a paralisia, a loucura.
Padre Storniolo sublinha o caráter alegórico de muitos relatos de milagres. Seria o caso, por exemplo, de Jesus caminhando sobre as águas: "O mar no Antigo Testamento era o símbolo das nações que podiam invadir a Palestina e dominar o povo. Os discípulos na barca agitada pelas ondas simbolizam a comunidade cristã primitiva com medo de se afogar no mar da História. Jesus vem então caminhando sobre as águas, como prova de que, pela fé, aquela comunidade podia ser vitoriosa. Pedro também caminha, até o instante em que duvida. Nesse momento divide suas energias, perde seu poder e começa a afundar, sendo salvo por Jesus".
Um dos milagres de Jesus, citado com mais detalhes por Lucas, é o da cura da mulher que sofria de hemorragia ininterrupta. Aproximando-se por trás de Jesus, que caminhava entre o povo, ela tocou a extremidade de sua veste. Jesus perguntou então: "Quem me tocou?" Como todos negassem, Pedro disse: "Mestre, a multidão te comprime e te esmaga". Mas Jesus insistiu: "Alguém me tocou; eu senti uma força que saía de mim". Então a mulher se apresentou e Jesus lhe disse: "Minha filha, tua fé te curou; vai em paz". O que chama a atenção, no caso, é Jesus ter sentido "uma força que saía" dele - algo que, em linguagem moderna, talvez pudesse ser chamado poderes paranormais.


Política e religião no tempo de Jesus

A ansiosa espera pelo messias libertador reflete a opressão a que o povo judeu estava submetido, sob o domínio romano. Depois da morte de Herodes I (73 a.C.-4 a.C.), rei vassalo de Roma que não gozava de legitimidade junto à população, a Palestina foi dividida entre três de seus filhos: Arquelau, Filipe e Herodes Antipas. A Galiléia, onde Jesus vivia, coube ao último, responsável pela decapitação de João Batista.
Arquelau, rei da Judéia e Samaria, foi substituído pelo procurador romano Pôncio Pilatos, sob cujo mandato Jesus Cristo foi crucificado. Mas o sumo sacerdote do templo de Jerusalém, Caifás, tinha grande influência no governo. Apoiava-se no Sinédrio, conselho de 71 membros formado por altos sacerdotes, anciãos das famílias judias mais ilustres e doutores da Lei.
Vários grupos moviam-se na cena política. No alto da pirâmide social estavam os saduceus - a elite sacerdotal e os grandes proprietários de terras. Eram judeus conservadores que se alinham ao texto da Lei, tal como aparece nas Escrituras, e colaboravam com o dominador romano.
Logo abaixo, vinham os fariseus - elementos do baixo clero, pequenos comerciantes e artesãos. Eram hostis à presença romana, mas sua oposição era apenas passiva. Em todas as questões da vida cotidiana, cumpriam zelosamente a Lei e as tradições orais acumuladas ao longo dos séculos. Em confronto com o templo de Jerusalém, o centro de sua expressão eram as sinagogas, presentes nos menores lugarejos.
Saído dos fariseus, o grupo dos zelotas era formado por camponeses e outros membros das camadas mais pobres, esmagadas pelos impostos. Muito religiosos, eram nacionalistas radicais. Queriam expulsar pelas armas os romanos e instituir um Estado onde Deus fosse o único rei, representado pelo messias, descendente de Davi. Considerado agitador e assassino pela tradição cristã, Barrabás foi um líder zelota.
Entre os apóstolos de Jesus, dois devem ter sido zelotas: Simão e Judas Iscariotes. Também Pedro parece ter simpatizado com eles. O nome Iscariotes pode significar que Judas fosse da cidade de Kariot, foco da ação zelota, ou viria da expressão aramaica Ish Kariot, que quer dizer "o homem que leva o punhal". Sua traição a Jesus pode ser interpretada como um ato resultante de divergência política: enquanto a ação dos zelotas se voltava contra o dominador estrangeiro, a pregação de Jesus visava a própria estrutura social da Palestina.

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sábado, 17 de dezembro de 2005

Aprendendo a perdoar

Todos nós temos que aprender
e cultivar o perdão.
Perdoar é a compreensão do momento do outro, das suas deficiências, do distanciamento do seu espírito em relação ao centro de todo o Universo, da manifestação pura que brota silenciosamente em seu ser.
Não há porque temer, muito menos questionar nossas atitudes quando perdoamos aqueles que nos ofendem. Simplesmente devemos nos opor à discórdia com o que há de mais sublime em cada um de nós.
Perdoar é sentir o amor invadir nosso interior, o amor que conduz a harmonia e a paz do Universo, que dá vida e grandeza.
Perdoar não é uma atitude humilhante, é o reconhecimento da própria Luz que está em nosso coração, é o desejo que o próximo reencontre sua verdadeira natureza.
Perdoar é amar a vida, amar a si mesmo,
amar o próximo, pois nossa origem
é simplesmente o amor.

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sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

MEDICINA ALTERNATIVA

O pai da medicina ocidental, o médico e filósofo grego Hipócrates, gostava de repetir enquanto cuidava de seus pacientes que "o homem é uma parte integral do cosmo e só a natureza pode tratar seus males". Com isso, ele queria mostrar que as causas da doença eram naturais - e não punições divinas como se acreditava até então - e lembrar que o equilíbrio e a saúde do corpo estão diretamente ligados ao ambiente em que vivemos. Essa mesma frase voltou a soar atual nos últimos anos, ao mesmo tempo em que ocorre uma popularização dos métodos alternativos à mesma medicina ocidental que Hipócrates fundou.

A partir do século 17, quando as idéias do filósofo René Descartes começaram a influenciar a ciência, os tratamentos médicos passaram a ver o corpo humano como uma máquina em que cada parte tinha uma função específica e independente. Para Descartes, entendendo-se cada uma das partes, entende-se o todo. Simples assim. A medicina moderna, esquecendo o conselho de Hipócrates, ergueu-se sobre esse pressuposto e ainda está bastante apoiada nele. Hoje, a teoria de Descartes já não faz muito sentido. A ciência mais que provou a intrínseca relação entre mente e corpo e suas conseqüências para a saúde humana. Também está claro que isolar uma parte do corpo e desconsiderar o resto é receita segura para efeitos colaterais inesperados.

Isso não significa dizer que a medicina ocidental ortodoxa tenha desabado e que todos os médicos e hospitais estejam para sempre soterrados nos escombros. Claro que não. A medicina é um edifício sólido, cheio de méritos. Mas, em alguns países do globo, como Canadá e França, uma parcela tão grande quanto 70% da população recorre a tratamentos não convencionais de cura. Esses métodos são bem diferentes uns dos outros - inclusive nos resultados. Mas há algo mais ou menos em comum entre quase todos: eles enxergam o corpo como Hipócrates. Não somos máquinas, somos organismos vivos, cheios de partes interdependentes.

O uso crescente das técnicas alternativas - seja como opção à medicina ortodoxa, seja como complemento a ela - não determina por si só que elas sejam eficientes. Longe disso. Na verdade, estudos confiáveis atestando a eficiência de práticas alternativas são raríssimos. Veja o caso da homeopatia, certamente uma das mais conhecidas entre essas técnicas. Ela existe há mais de 200 anos, é procurada por milhões de pessoas no mundo todo e reconhecida oficialmente no Brasil como uma especialidade médica. Era de se esperar que, dada sua enorme popularidade, ela tivesse sido bem estudada pela ciência.

Pois, segundo um estudo feito pela prestigiada Escola Médica Península, da Inglaterra, foram feitos até hoje, no mundo todo, apenas seis exames rigorosos que comparam a eficiência de remédios homeopáticos com a dos convencionais. Só há oito estudos que comparam a ação da Arnica montana (um dos princípios ativos homeopáticos mais largamente utilizados) com placebo ("falsos" medicamentos, sem nenhum princípio ativo). É muito pouco e os resultados estão longe de ser conclusivos.

Isso quer dizer que a ciência dá as costas para a medicina alternativa? Talvez. Mas as "duas medicinas" têm se aproximado nos últimos anos e hoje admitem a possibilidade de incorporar características uma da outra. "As duas têm aspectos positivos e negativos", disse Xiang Ping, reitor da Universidade de Medicina Tradicional Chinesa, em Nanquim, num discurso de formatura. "A ocidental baseia-se em análises e radiografias, mas não aborda o todo orgânico. Já a medicina tradicional chinesa é eficaz na regulação de todo o corpo. Penso que a combinação das duas medicinas seria perfeita e muito benéfica para as pessoas."

Essa visão de que o corpo é um organismo interligado - e, portanto, não pode ser subdividido em partes independentes - parece ser uma das principais vantagens de muitas técnicas alternativas em relação à ortodoxia médica. "É verdade que, com a verticalização do conhecimento, muitos médicos passaram a ver ‘a doença do paciente’ e não ‘uma pessoa com uma doença’", reconhece o presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CRM-SP), Clóvis Constantino. Já para a medicina alternativa, essa visão não é novidade. "Não existem doenças e sim doentes" foi sempre o lema de Edward Bach, médico inglês que no final do século 19 desenvolveu os controvertidos florais de Bach, uma técnica alternativa bastante difundida.

Ao mesmo tempo, adeptos de práticas alternativas têm incorporado aspectos imprescindíveis da medicina oficial, como a necessidade de apresentar resultados eficientes. Parece um pouco óbvio para nós, ocidentais, mas, para muitas técnicas de fundo "filosófico", o fato de um tratamento funcionar ou não é menos importante do que ele se conformar à "filosofia" na qual é baseado. "Há alguns anos, houve um boom das técnicas alternativas. Aí surgiram profissionais que erroneamente refutavam qualquer idéia da medicina convencional", diz Paulo Eiró Gonsalves, que organizou o livro Medicinas Alternativas - Os Tratamentos Não Convencionais, um dos primeiros no Brasil a reunir textos sobre vários dos métodos alternativos de cura. Prometia-se qualquer coisa e muita gente achava desnecessário testar esses métodos com as ferramentas da ciência - afinal a ciência era, para muitos, o "inimigo" a ser combatido. Hoje, cada vez mais, os entusiastas têm se empenhado em enxergar os métodos que empregam com os olhos da ciência.

Um bom exemplo desse fenômeno um que não é lá muito favorável às terapias alternativas é Steven Bratman. Esse cientista americano, formado em acupuntura, shiatsu, medicina chinesa, fitoterapia e osteopatia craniana, abandonou a direção de uma clínica na Califórnia que misturava as abordagens convencional e alternativa e dedicou-se a estudar a fundo as pesquisas sobre a eficácia das alternativas. Em 1996, Bratman publicou um livro razoavelmente favorável às abordagens alternativas, o Guia Prático da Medicina Alternativa. "Na época, eu acreditava na medicina alternativa e, portanto, assumia uma atitude positiva.

Além disso, eu ignorava que muitos dos estudos em que me baseava não eram rigorosos o suficiente para serem levados a sério", diz hoje. Depois de estudar mais e encontrar falhas em quase todas as pesquisas com resultados favoráveis, Bratman chegou a uma conclusão desanimadora. Segundo ele, todos os estudos somados não são suficientes para dar razão aos que dizem que essas terapias são um bom jeito de tratar doenças.

Bratman percebeu que a imensa maioria dos estudos científicos sobre o assunto é pouco rigorosa. Isso não é à toa. "Bons estudos são caros", diz Edzard Ernst, que dirige o Departamento de Medicina Complementar da Escola Médica Península. E dinheiro é um problemão para homeopatas, cromoterapeutas e afins. Medicamentos da medicina ortodoxa geralmente são testados sob patrocínio de grandes laboratórios farmacêuticos, interessados em comercializá-los. Já as técnicas, práticas e remédios menos rentáveis não encontram apoiadores tão facilmente. Não há muitas grandes empresas interessadas em divulgar a acupuntura ou a iridologia. O departamento de Ernst, mantido pelas universidades inglesas de Exeter e Plymouth, é uma das cada vez mais freqüentes exceções à regra da falta de pesquisas. "Começamos a trabalhar há dez anos. Meu objetivo sempre foi e é um só: aplicar as regras da ciência às técnicas alternativas e complementares", diz Ernst. Eles já publicaram mais de 700 artigos sobre o tema na literatura médica.

É um belo avanço, mas ainda é pouco. Enquanto não há pesquisas suficientes, a medicina alternativa se baseia, muitas vezes, nos resultados obtidos no consultório, no tratamento de pacientes. O médico americano Jack Raso, autor de Alternative Healthcare - A Comprehensive Guide ("Tratamento Alternativo - Um Guia Geral", sem versão brasileira), classificou esse conhecimento como "empirismo não-científico", ressaltando que esse tipo de controle está muito propenso a falhas de vários tipos. Por exemplo: os pacientes desses consultórios tendem a simpatizar com seus terapeutas e a fazer uma análise pouco objetiva. Às vezes a doença passa sozinha e o sujeito, já inclinado a uma avaliação positiva, fica com a impressão de que o tratamento é que deu certo.

Apesar da falta de provas da eficácia, há muita gente disposta a usar os métodos alternativos - inclusive onde menos se espera. Em setembro de 2003, Ernst ajudou o diário britânico The Daily Telegraph a organizar uma enquete em que uma centena de cientistas foi interrogada sobre o uso pessoal de algum método alternativo de tratamento ou cura. Era de se esperar que cientistas, gente com fama de cética, não se interessassem pelo assunto. Não foi bem o que aconteceu. Dos 75 que responderam à pesquisa, 30 disseram já ter usado algum tipo de tratamento alternativo e 20 disseram que os métodos deveriam estar disponíveis a todos por intermédio do National Health System, o sistema de saúde oficial britânico.

É importante lembrar que o fato de não existirem pesquisas que garantam a eficiência de um método não comprova que esse método seja ineficiente. "Falta de evidência não é o mesmo que evidência de falta de resultado", diz Ernst. Ou seja, na maior parte do tempo, a resposta mais honesta à crucial pergunta sobre se as técnicas alternativas funcionam ou não é um redondo "não sei".



Duas medicinas?

Mas, antes de seguir na discussão, é bom avisar que o nome que imprudentemente imprimimos na capa - "medicina alternativa" -, para algumas pessoas, nem existe. "Não há medicina alternativa ou medicina complementar", diz Clóvis Constantino. "A medicina é uma só. Ela engloba diferentes métodos, terapias, tratamentos e remédios que se provaram eficientes pelas pesquisas." Veja o exemplo da acupuntura. A ciência não acredita que sua filosofia esteja correta - ninguém conseguiu verificar a existência de canais de energia correndo pelo corpo. Mesmo assim, testes bem conduzidos provaram para além das dúvidas que as agulhas são eficazes para tratar vários males - por mais que não se entenda como.

Por conta disso, a medicina incorporou a parte da acupuntura cujos resultados foram comprovados. Hoje, as faculdades de medicina ensinam a espetar, os hospitais contratam acupunturistas, os conselhos médicos reconhecem e regulamentam a técnica e alguns planos de saúde pagam o tratamento. A medicina não é um sistema filosófico fechado e imutável, como são as religiões e muitas das terapias alternativas. Ela é uma área do saber que agrupa as mais eficientes técnicas conhecidas para tratar doenças - e portanto pode incorporar coisas que nasceram fora dela.

Parece sensato, mas muitos praticantes de terapias alternativas temem que a absorção de seus métodos pela medicina ortodoxa possa desfigurar aspectos terapêuticos que são parte de um sistema coerente. "Se você vai usar apenas a parte de uma tradição de cura que tem explicação científica, ignorando a base filosófica, vai usar a terapia de maneira incompleta", diz Paulo Eiró Gonsalves. O que Paulo quer dizer é que tomar agulhadas num hospital, aplicadas por um médico formado numa faculdade, não é a mesma coisa do que ser atendido por um velho mestre chinês versado na energia da vida e na visão totalizante do corpo. No primeiro caso, as agulhadas são apenas um remédio a mais, como a aspirina. Pode até funcionar - já que eficiência sem dúvida é uma característica da medicina ortodoxa, ocidental - mas não rompe com o tal modelo de Descartes, que algumas terapias alternativas criticam.

E, afinal de contas, o que é medicina alternativa, se é que essa coisa existe? As técnicas e métodos agregados sob esse nome são tão distintas que torna-se impossível criar uma definição coerente para o termo. Nem todas são naturais, nem todas são holísticas, nem todas são orientais, nem todas são não-oficiais. Com isso, técnicas tão distantes em histórico e abordagem quanto a fitoterapia mágica e a medicina oriental, por exemplo, são colocadas no mesmo barco. A fitoterapia mágica, criada em 1983 pelo americano Scott Cunninghan, é uma releitura duvidosa da fitoterapia clássica e tem pouquíssimos adeptos no mundo - entre as práticas que propõe, há uma que prevê que enterrar um feijão pode servir para tirar pintas ou verrugas. Já a medicina oriental reúne elementos de sistemas tradicionais de cura originados há milhares de anos na Grécia, no Egito e na China. Suas práticas são conhecidas e testadas no mundo todo e já são aceitas por parte da comunidade científica ocidental.

Essa falta de limites claros é vantagem apenas para as técnicas pouco confiáveis que se valem de lugares-comuns espalhados como verdades. Para os pacientes, a falta de limite faz com que a busca por uma opção de cura não convencional seja difícil e perigosa. Usar o procedimento de Cunninghan para se livrar de pintas, por exemplo, pode tornar-se apenas uma perda de tempo. Mas pode também acabar retardando a descoberta de um câncer maligno. É por isso que é importante conhecer as especificidades de cada terapia - a tabela da página 58 traz uma breve descrição das técnicas mais populares e dos seus resultados.

Como regra geral, vale dizer que nenhuma das terapias alternativas deve ser usada em todas as circunstâncias. Se houver qualquer razão para suspeitar de uma doença mais séria, como um câncer ou uma infecção que não passa, um médico convencional certamente vai estar mais equipado para fazer o diagnóstico. As terapias alternativas podem ser boas maneiras de se manter saudável - já que muitas delas pregam o "equilíbrio" nos vários aspectos da vida, um jeito bem razoável de se prevenir de doenças. Elas também são uma saída para problemas causados por males "subjetivos" - as várias doenças ligadas à tensão, por exemplo, podem se beneficiar muito de métodos holísticos, que incluam conversas com o terapeuta, música tranqüila e massagens. Doenças misteriosas como as alergias, ainda mal compreendidas pela medicina do Ocidente, igualmente parecem se beneficiar de tratamentos como a acupuntura e a homeopatia.

E dores musculares ou torções, para as quais a medicina convencional receita quase sempre atenuantes de sintomas, parecem se beneficiar muito mais nas mãos de um quiropraxista ou acupunturista. É claro também que não há mal nenhum em procurar um terapeuta alternativo para cuidar de uma doença para a qual a medicina não tem cura ou para aliviar efeitos colaterais de remédios ortodoxos. Mas os médicos convencionais são bem melhores para combater doenças mais "objetivas", aquelas causadas por fungos, vírus, bactérias e outros inimigos palpáveis que só podem ser vistos com microscópio. De um modo geral, as abordagens alternativas não existem para curar doenças, mas para preveni-las e para complementar um tratamento convencional. Há exceções - a acupuntura, sem dúvida, é eficaz na cura de alguns males, não de todos - mas o ideal é não adotar uma postura radical, do tipo "eu jamais vou a um médico convencional".

Mas, afinal, se na maioria das vezes não sabemos se a medicina alternativa funciona, por que então utilizá-la? Por que não ficar com a velha e boa medicina ortodoxa, cujos remédios e técnicas têm eficiência comprovada por milhões de pesquisas? Os autores do livro The Desktop Guide for Complementary and Alternative Medicine ("Guia para Medicina Complementar e Alternativa", sem tradução brasileira), esboçam algumas respostas para essas perguntas. Eles dividiram os motivos que levam alguém a buscar profissionais da medicina alternativa em dois grupos: os fatores de distanciamento, aqueles que afastam pacientes da medicina ortodoxa, e os fatores de aproximação, os motivos que aproximam pacientes e medicina alternativa.

Parte dos pacientes que buscam a medicina alternativa compartilha a aversão por substâncias químicas ou drogas e privilegiam substâncias naturais em diversos campos de sua vida. "Para essas pessoas, na hora de se vestir, o algodão satisfaz um instinto que o poliéster agride", diz Bratman. Outro fator de aproximação listado foi a "dimensão espiritual". A crença na existência de um Deus é bastante comum entre os adeptos da medicina alternativa. "A maior parte de nossos pacientes está ligada a uma força maior, uma alma do Universo", diz o presidente da

Associação Brasileira de Medicina Complementar (AMC), José Felippe Junior. É bom lembrar que a crença num deus tem sido considerada por pesquisas sérias um fator que favorece a recuperação de doenças graves.

Mas a insatisfação com a medicina ortodoxa também pode estar ligada a fatores que em nada têm a ver com a filosofia de vida do paciente. Pacientes costumam ter uma queixa comum quando o assunto é medicina convencional: acreditam que o médico não lhes dá a devida atenção. A maioria das denúncias encaminhadas aos órgãos que regulamentam o exercício da medicina não se deve a erros médicos e sim à relação médico-paciente. Eles reclamam que o médico não tem tempo suficiente para atendê-los ou que não entendem as explicações sobre os procedimentos usados. "Hoje estamos empenhados em aprimorar essa relação", diz Clóvis Constantino, presidente do CRM-SP, refletindo uma preocupação crescente de todo o meio médico ocidental



Efeito placebo

Tradicionalmente, o jeito que a medicina ortodoxa arrumou para aprovar ou reprovar um tratamento é um teste muito engenhoso chamado "contraplacebo". Funciona assim: um médico arruma uma porção de voluntários. Essas cobaias são então divididas em dois grupos. Um dos grupos é tratado com o remédio ou o tratamento que se quer testar. O outro recebe apenas placebo. Placebo, como já foi dito, é um remédio "falso", sem princípio ativo. Por exemplo, uma cápsula que contenha farinha. Os testes mais confiáveis, além de serem "contraplacebo", são "duplo-cego". Ou seja, não é só o paciente que não sabe qual remédio é o de verdade e qual é o placebo. Os médicos que dão o remédio também não sabem. Tudo para diminuir qualquer influência externa. Só o remédio tem que agir.

Tudo muito bem bolado, muito inteligente. Mas a ciência não contava com uma coisa: e se o placebo não for totalmente inócuo? E se a pílula de farinha curar também? Pois é. Parece que é isso que acontece. "Não temos a menor dúvida de que placebo funciona, em média, em 30% dos casos", escreve Herbert Benson em seu livro Medicina Espiritual. Benson é presidente do Mind/Body Institute, um centro de pesquisa americano focado nas relações entre o corpo e a mente - justamente aquilo que Descartes não previa. Talvez a porcentagem não seja exatamente essa, mas ninguém duvida que o placebo funciona, pelo menos às vezes.

Um exemplo surpreendente foi uma pesquisa realizada pelo cirurgião ortopedista americano Bruce Moseley. O médico testou a eficiência de uma cirurgia para curar artrite no joelho, que consiste em raspar áreas danificadas da cartilagem. No estudo, cinco pacientes foram operados propriamente e cinco receberam aplicações de agulhas em lugares aleatórios. Quatro dos pacientes que passaram pelo tratamento placebo tiveram redução de dor e inchaço e melhoria nos movimentos do joelho.

O placebo pode funcionar a ponto de causar até incômodos. "Sonolência, dor de cabeça, náusea, nervosismo, insônia e prisão de ventre estão entre os efeitos colaterais mais comuns do tratamento com placebo", diz Benson. Há até um termo para denominar os efeitos colaterais de placebos: nocebo. Benson acredita que a razão para ele é o fato de os participantes de pesquisas serem obrigados a ler um documento de aprovação em que esses possíveis efeitos colaterais estão listados.

O efeito placebo põe em cheque a pretensão de objetividade proposta pela ciência ocidental. Se o próprio placebo cura, então toda a teoria por trás dos testes duplo-cego/contraplacebo muda de perspectiva. Veja por exemplo o caso da homeopatia. Embora várias teorias tenham surgido nos últimos tempos, ninguém ainda entende qual é o processo de cura dessa terapia. A homeopatia é baseada em dois princípios. O primeiro é a "lei dos semelhantes" e diz que uma substância que causa determinado sintoma num paciente saudável pode curar esses mesmos sintomas se ingerida em doses muito pequenas. Assim, como a ferroada de abelha causa dor e inchaço, os homeopatas recomendam um preparado feito a partir do veneno da abelha contra vários tipos de dor e inchaço. O segundo princípio diz que quanto mais diluída a substância, mais potente o remédio. Essa é a chamada "lei das infinitesimais".

Depois de séculos de pesquisas, esses princípios fazem cada vez menos sentido à luz do que a ciência sabe. A maioria dos cientistas acha que eles são grandes bobagens. Ainda assim, muita gente se cura com homeopatia, por menos que ela faça sentido. Por que será?

Talvez seja apenas um caso clássico de placebo bem-sucedido. Talvez muito do sucesso de várias terapias alternativas se deva ao fato de que a relação com o terapeuta crie condições favoráveis para que o placebo funcione - ao motivar o paciente, dar a ele esperança e inspirar simpatia e confiança. O placebo tem uma característica interessante: só obtém resultados quem acredita no tratamento. Será milagre, então? Não necessariamente. É plausível que essa postura positiva tenha ação sobre o sistema imunológico e favoreça a cura. Um cético como o cientista Romke Bron, que disse ao jornal inglês The Daily Telegraph que "se alguém entrasse em uma farmácia homeopática durante a noite e trocasse as etiquetas dos frascos ninguém notaria", tem bem menos chances de se curar com esse tipo de remédio.

Ou seja, é importante sim conhecer os princípios de cada tipo de tratamento e saber evitar os charlatões. Mas talvez seja igualmente importante conseguir acreditar no seu terapeuta. Nesse sentido, mil pesquisas provando isso ou aquilo não substituem uma coisa: a confiança que você tem no seu médico, seja ele ortodoxo ou alternativo.



Sentir-se bem

Sair por aí dizendo que a medicina convencional está completamente equivocada e não serve para nada é perda de tempo - e demonstração de ignorância. O escritor de ciência americano Stephen Jay Gould, morto em 2002, tinha uma sugestão para aqueles que acham que a medicina é inútil: que eles visitem algum cemitério antigo e reparem na quantidade de lápides pequenas, uma ao lado da outra. É inegável que a mortalidade infantil despencou com o avanço da ciência e que ela é muito menor nas regiões onde há melhores cuidados médicos. Ninguém em sã consciência pode negar os avanços trazidos pelos antibióticos, ou pelas vacinas, por mais imperfeitos que tanto uns quanto as outras sejam. É óbvio que a medicina derrotou doenças e espalhou saúde - basta saber ler estatísticas para perceber isso.
Mas também é inegável que nem todo mundo se dá por satisfeito com o que a medicina oferece. Desde que o mundo é mundo, as pessoas vão aos "médicos" (curandeiros, pajés, xamãs...) para falar de suas ansiedades, suas dores e obter algum conforto - nem sempre a cura. Essas coisas ajudam o sujeito a sentir-se bem. "E ninguém discorda do fato de que se sentir bem é bom para a saúde", diz Bron, aquele mesmo que acha que não há problema algum em trocar os rótulos dos remédios homeopáticos. Talvez tenha sido esse justamente o ponto em que a medicina ortodoxa errou mais longe. Ou alguém aí acha os hospitais agradáveis? A ciência tem pela frente uma dupla tarefa das mais duras. Por um lado, há que se entender os reais méritos das terapias alternativas, para que elas deixem de fazer falsas promessas. Por outro, ela precisa corrigir seu rumo e retomar o ideal de Hipócrates. E, nesse ponto, talvez algumas técnicas alternativas possam servir de inspiração.


Cada uma é uma




Colocar no mesmo barco todas as técnicas ditas "alternativas" é um grande erro. Algumas delas são amplamente reconhecidas, sobre outras há quase certeza da ineficácia. Conheça as mais famosas e saiba o que a ciência pensa delas



Acupuntura

O que é - Uma das técnicas da medicina tradicional chinesa, a acupuntura consiste na aplicação de agulhas em pontos específicos do corpo. Sua base filosófica indica que esses pontos afetam os diferentes órgãos e estão localizados sobre canais de energia (chamados meridianos) que se espalham pelo corpo

O que a ciência acha - Sabe-se que os pontos têm relação com o sistema nervoso - e o sistema nervoso influencia todo o corpo. Mas cientista nenhum encontrou os tais canais de energia. A técnica não costuma oferecer resultados a curto prazo, mas revelou-se eficiente contra efeitos colaterais de remédios, enjôos, doenças respiratórias, dores e problemas de pressão



Aromaterapia

O que é - Utiliza óleos essenciais de folhas, flores ou madeira para amenizar sintomas e melhorar o bem-estar. Os óleos podem ser inalados, queimados ou espalhados pelo corpo

O que a ciência acha - A idéia de que cheiros agradáveis podem liberar hormônios que causam bem-estar até faz sentido para a ciência e alguns estudos mostram um leve efeito calmante da terapia. Daí a acreditar que eles curem doenças, porém, há uma distância



Cromoterapia

O que é - Baseia-se na idéia de que cores têm efeito curativo abrangente. Os tratamentos envolvem alimentação, modo de se vestir, relação com o ambiente, além da visualização de cores para efeito terapêutico

O que a ciência acha - Não há qualquer evidência de eficácia. De forma alguma deve substituir o tratamento convencional. Mas a cromoterapia pode trazer bem-estar - e bem-estar é bom para a saúde



Florais

O que é - São essências florais diluídas em conhaque. Os mais conhecidos, os florais de Bach, foram preparados pelo médico inglês Edward Bach, ao final do século 19, e são indicados de acordo com a personalidade de cada paciente, prometendo curar diversas doenças

O que a ciência acha - No máximo, pelo que se sabe, funcionam tão bem quanto o placebo. Não podem substituir o uso de medicamentos ortodoxos. Podem representar uma fonte de bem-estar, mas é perigoso acreditar que eles façam o que prometem fazer: curar doenças



Fitoterapia

O que é - Consiste na manipulação de plantas e ervas para a cura de doenças e redução dos sintomas. Prega que as plantas devem ser consumidas integralmente e não combinadas a substâncias químicas que realçam o efeito do princípio ativo, como na medicina ortodoxa

O que a ciência acha - A idéia de que plantas curem faz todo sentido. Praticamente todos os remédios da medicina ortodoxa têm seus princípios ativos retirados de plantas ou de outros seres vivos. E é realmente saudável procurar por substâncias benéficas, em pequenas doses, na alimentação - o que ajuda a evitar efeitos colaterais causados por doses grandes demais



Homeopatia

O que é - Inventada no século 18, é uma especialidade médica no Brasil, mas ainda não foi reconhecida como tal em países com tradição em medicina alternativa, como Canadá e Estados Unidos

O que a ciência acha - Muito utilizada contra doenças crônicas como alergias, asma, rinite e enxaqueca, ainda não comprovou eficiência além do placebo nesses tratamentos. A ciência ignora o modo pelo qual age, mas reconhece alguns resultados. Pode ser o caso mais bem-sucedido de manipulação de placebo



Iridologia

O que é - Os praticantes da técnica afirmam que podem oferecer um diagnóstico físico, psicológico e emocional a partir da análise da íris

O que a ciência acha - Não tem validade científica. A tese de que males físicos se reflitam nos olhos não é absurda. Mas determinar o estado de saúde de alguém tendo como base apenas isso pode gerar diagnósticos incompletos, o que é perigoso



Naturopatia

O que é - Motivada pelos ideais de "volta à natureza", originou-se no século 19 como um fenômeno emocional e espiritual para melhorar a saúde geral do corpo. Prega, entre outras coisas, que alimentos crus são mais bem aproveitados pelo organismo

O que a ciência acha - Muitas das teorias divulgadas pela naturopatia fazem sentido aos ouvidos da ciência. No entanto, ela tende a misturar teorias plausíveis com outras bem menos fáceis de serem assimiladas pela ciência - como a sugestão de que prisão de ventre cause auto-intoxicação



Ortomolecular

O que é - Técnica criada por Linus Pauling, Nobel de Química e da Paz, que emprega o uso de vitaminas, aminoácidos e minerais em quantidades superiores àquelas capazes de serem absorvidas pelo corpo. O diagnóstico é feito a partir da análise de um fio de cabelo

O que a ciência acha - Com base em pesquisas, o teste do fio de cabelo foi considerado sem validade científica por órgãos reguladores



Reflexologia

O que é - Propõe que todos os órgãos internos do corpo têm pontos de reflexo no pé, na orelha, no nariz e outras partes. Acredita que a manipulação desses pontos pode melhorar o fluxo de energia e, portanto, curar sintomas em certos órgãos

O que a ciência acha - Há bem poucos estudos rigorosos sobre a técnica e os que existem não demonstram que a reflexologia tenha efeitos terapêuticos específicos



Reiki

O que é - Rei significa "universal" e Ki, "energia". Reiki portanto é a energia do Universo que poderia ser transmitida ao paciente por meio da impostação de mãos do praticante. A terapia vê a doença como um desequilíbrio energético do corpo

O que a ciência acha - Não existe comprovação científica para a ação curativa dessa técnica. Mas a terapia pode trazer benefícios ao reduzir a tensão



Radiestesia

O que é - Baseia-se nas vibrações do Universo, do ambiente e dos seres vivos. Sua prática mais difundida prevê uma sessão de perguntas e respostas a um pêndulo de metal que poderia levar ao diagnóstico de doenças

O que a ciência acha - A idéia de que um diagnóstico médico possa ser oferecido por vibrações do corpo ou do ambiente não faz sentido à luz do conhecimento científico. Não há pesquisas consistentes sobre o assunto



Shiatsu

O que é - Atua nos mesmos pontos que a acupuntura, mas usando apenas a pressão dos dedos

O que a ciência acha - A pressão dos dedos, ao contrário da aplicação de agulhas, não causa a liberação dos neurotransmissores que atuam no sistema nervoso, o que joga dúvidas sobre as possibilidades terapêuticas da técnica. Mas seus efeitos redutores de estresse são reconhecidos



Urinoterapia

O que é - Propõe a manipulação da urina do próprio indivíduo para curar diversas doenças. Tem origem, possivelmente, em rituais hindus criados há 4 mil anos

O que a ciência acha - Não há estudos rigorosos sobre a eficiência da técnica, que recebe críticas de diversos setores da comunidade científica. Não deve, de maneira alguma, substituir tratamento convencional



Observação:
A classificação à direita tem um quê de arbitrário. Não pretendemos aqui dizer que uma terapia é melhor que outra. Cada técnica tem seus próprios objetivos e pretensões e as pessoas reagem de modo diferente a tratamentos diferentes. Algumas podem não ter efeito comprovado, mas, ainda assim, fazer bem - por exemplo, ao reduzir o estresse. E a ciência sabe que reduzir o estresse é bom para a saúde.


Para saber mais




Na livraria

O Erro de Descartes - Emoção, Razão e o Cérebro Humano, Antônio Damásio, Companhia das Letras, 1996

Guia Prático da Medicina Alternativa, Steven Bratman, Campus, 1998

Medicinas Alternativas - Os Tratamentos Não Convencionais, Org. Paulo Eiró Gonsalves, Ibrasa, 1996

Medicina Espiritual, Herbert Benson e Marg Stark, Campus, 2003

The Desktop Guide to Complementary and Alternative Medicine, Ernst E., Pittler M.H., Stevinson C., White A.R., Mosby, Reino Unido, 2001

Alternative Healthcare - A Comprehensive Guide, Jack Raso, Prometheus Books, EUA, 1994



Na internet

Relatório do Comitê de Ciência e Tecnologia do Parlamento Inglês, www.parliament.the-stationery-office.co.uk/pa/ld199900/ldselect/ldsctech/123/12301.htm

Site de Steven Bratman, que traz um balanço crítico das pesquisas de eficácia, www.altmedconsult.com

Associação Brasileira de Medicina Complementar, www.medicinacomplementar.com.br
Departamento de Medicina Complementar da Escola Médica Peninsula, www.ex.ac.uk/sshs/compmed/

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quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

A VERDADE ESTÁ NOS BONS VINHOS

Um bom francês não pode repousar à luz do dia, viver agitado nem respirar demais enquanto envelhece. A ciência explica porque são dispensados tantos cuidados aos nobres líquidos tintos e brancos.


O vinho à mesa, liturgia.

Respeito silencioso paira sobre a toalha. A garrafa espera o gesto, o saca-rolha espera o gesto que há de ser lento e ritual.

Ergue-se o pai, grão sacerdote prende a garrafa entre os joelhos gira regira a espira metálica até o coração do gargalo. Não faz esforço não enviesa não rompe a rolha É grave, simples, de velha norma.(...)

O Vinho,
Carlos Drurnmond de Andrade

Mais do que bebida, o vinho é um ritual. Os connaisseurs o tratam como um ser vivo, que se reproduz anualmente, cada geração diferente da outra, com peculiaridades que as distinguem e as fazem mais ou menos amadas. Têm na memória os nomes das grandes marcas e das melhores safras. Deixam suas raridades repousando longe da luz e do calor, sem barulho, sem movimento. Abrem as garrafas horas antes de servi-las, para que o líquido respire; sabem a exata quantidade que devem colocar no copo, e não pode ser em qualquer copo. Não apenas o bebem, mas aspiram seu perfume, desfrutam-no. Essa profusão de ritos tem jeito de mistério, domínio exclusivo de iniciados, mas pode ser desvendada pela ciência-que tanto justifica como derruba alguns desses mitos.
Conforme querem os connaisseurs, ou conhecedores de vinho, ele tem mesmo vida. Ao contrário dos destilados, como uísque ou vodca, que saem das destilarias prontos e acabados, o vinho carrega substâncias vivas para a garrafa, repousando em estado latente ou trabalhando muito lentamente, num processo contínuo de ligação entre os elementos químicos que o formam. Esses elementos são resultado de absolutamente tudo o que aconteceu com a uva, de todas as interferências e variáveis que sofreu, desde o momento em que brotou na videira até tornar-se vinho. Essas sutis diferenças explicam o motivo de tanta badalação em torno de um tinto de Bordeaux ou um Chablis (branco) de Bourgogne, e por que nem todo vinho fica tanto melhor quanto mais envelhece.
O bom vinho começa a nascer na terra, em solo calcáreo. Esse é o tipo de solo das grandes regiões viníferas de, países como a França e Portugal. Igual a qualquer vegetal, a videira se alimenta de compostos orgânicos contendo sobretudo nitrogênio, fósforo e potássio, e os sais minerais do solo (cálcio, magnésio, sódio, ferro). Para manter sempre a mesma qualidade, a videira recebe um tratamento espartano. "A uva precisa sofrer um pouco para dar um bom vinho", diz o químico francês Alain Parentheon, chefe do laboratório de controle e desenvolvimento da Moët & Chandon, na região francesa de Champagne. "Em solos muito ricos, os nutrientes puxados da terra pelo pé da videira são distribuídos por muitas frutas e se diluem, dando uvas de menor qualidade", explica ele.
A Vitis vinifera, espécie mais cultivada pelo mundo afora para a produção de vinhos finos, se vira como pode nesse regime para acumular a maior quantidade de nutrientes. É nessa hora que pesa um dos mais importantes fatores de qualidade da uva - o clima. A videira descansa durante o inverno muito frio, assim como as demais plantas que vivem nas zonas temperadas. Na primavera começa a acordar, dá as flores e depois os frutos que vão amadurecer no verão. Uvas para vinhos finos precisam estar bem maduras, e quem vai ajudar nesse trabalho é o sol. Por isso o verão do sul europeu é tão bom para elas - há muito sol e pouquíssima chuva. As uvas começam a precisar de sol quando, já crescidinhas, transformam sua casca, verde opaca em vermelho ou branco translúcido.
Quanto mais sol recebe, mais madura a uva fica; portanto, maior teor de açúcar e menor de ácido terá. A luz e o calor solar atravessam a pele e ativam dentro da uva as enzimas, moléculas de proteínas. Uma extremidade da enzima capta gás carbônico (CO2), outra capta água (H2O), e tem-se como resultado açúcar (frutose e glicose) e oxigênio (O2). Para funcionar direito, as enzimas devem ter metais nas extremidades, aqueles mesmos que a videira puxou do solo. O teor de açúcar é fundamental, pois é ele que vai virar álcool na fabricação do vinho. Mas a intenção da Vitis vinifera ao deixar o sol entrar não era produzir um vinho de primeira, e sim sobreviver. Essa acumulação de açúcar nada mais é do que reserva de energia para sua semente, que no outono-inverno seria largada no mundo com a missão de perpetuar a espécie.
Justamente por causa do clima, o Brasil não tem vinhos de qualidade comparável aos melhores da Europa. O verão brasileiro, ao contrário do europeu, é muito úmido e chuvoso. Cai água demais sobre a videira, causando assim a diluição do açúcar, além de a uva não chegar ao mesmo ponto de maturação das européias. O enólogo Adolfo Alberto Lona, da Martini & Rossi, demonstra as conseqüências: em 1 litro de suco de uva, cada 17 gramas de açúcar produzem 1 grau de álcool. Para se obter a gradação ideal, em torno de 11 graus, é necessário ter 187 gramas de açúcar em 1 litro de suco. No Brasil, 1 litro só tem entre 150 e 160 gramas. O que falta é completado com sacarose, o açúcar de cana.
Colhidas as uvas, elas são levadas à prensagem para virar suco. No caso do vinho branco, o esmagamento é muito lento e cuidadoso, pois o suco mais equilibrado entre açúcar e ácido da uva concentra-se no meio da polpa, entre a região da pele e da semente, e é justamente o primeiro a ser liberado quando a uva sofre pressão. O mosto - suco da uva pronto para ser fermentado - fica depois pouco tempo em contato com a pele, pois é lá que estão as antocianinas, polifenóis responsáveis pela pigmentação vermelha. Por esse motivo é que mesmo uvas vermelhas produzem vinhos brancos - quanto menor o tempo de contato entre pele e mosto, menos antocianinas passarão para o líquido.
Com o vinho tinto o cuidado não é tão grande. Retirado o engaço, os "cabinhos" da uva, os frutos são todos esmagados com pele e semente. Para que o vinho adquira a cor vermelha, o mosto é deixado mais tempo em contato com a pele. Junto com as antocianinas passa grande quantidade de taninos, também polifenóis, que dão um sabor extremamente adstringente ao vinho. Aqui começam a se diferenciar os vinhos tintos dos brancos. Em conseqüência do maior contato com a pele e mesmo com as sementes, o tinto carregará muito mais substâncias e elementos químicos que o branco, sendo portanto de estrutura bem mais complexa e mais resistente. Tal resistência se traduzirá no tempo que o vinho agüenta na garrafa sem se deteriorar - o branco não passa de três anos. A vida do tinto será definida na maturação, a fase posterior à fermentação.
Todo o açúcar que a uva armazenou vai virar álcool na fermentação. O trabalho é feito pelas leveduras, microorganismos que são uma variedade de fungo. Elas existem pairando pelo ar, mas basicamente duas cepas foram selecionadas em laboratório para produzir os vinhos finos: Saccharomyces cerevisae e Saccharomyces bayanus. As leveduras transformam açúcar em álcool (etanol) e gás carbônico. Acontece uma primeira fermentação, chamada tumultuosa, depois uma segunda, em que o açúcar vai acabar de ser consumido. Nos vinhos brancos, a fermentação tem que ocorrer a baixa temperatura, até 15 graus Celsius, para que os aromas frutados e florais, provenientes da uva, não escapem junto com o gás carbônico. Esses aromas vêm de álcoois complexos, como terpenos, terpinos e terpenóides. Por isso, quando os apreciadores giram o copo suavemente sob o nariz, com ar embevecido, antes de tomar o primeiro gole, não estão apenas representando uma cena de ritual sem sentido; um desses terpenos, o geraniol, encontrado sobretudo nas uvas da região alemã do Reno, é a mesma substância química que dá aroma às rosas.
Quando do açúcar só tiver ficado um pouco, entra em cena a fermentação malo-láctica, feita dessa vez por bactérias originárias da uva. Um dos dois principais ácidos existentes na fruta, o tartárico, é bem-vindo, pois é o responsável pela adstringência refrescante do vinho. Mas o outro, o ácido málico, deixa um sabor amargo na boca. Para eliminá-lo, são ativadas as bactérias que convertem ácido málico em ácido láctico, bem menos adstringente e amargo, e em glicerina, outro componente que contribui para amaciar o sabor do vinho. Terminada a fermentação, o vinho branco já estará praticamente pronto, mas o tinto ainda terá um longo caminho a percorrer. Só a quantidade de tanino que carrega basta para deixá-lo intragável. Seu destino é então o amadurecimento, um tempo de repouso e vida mansa, indispensável para que se produzam as reações químicas que aprimorarão as propriedades organolépticas da bebida, ou seja, o conjunto de cor, sabor e aroma.
Esqueça a idéia muito difundida de que o vinho amadurece em barris de carvalho para adquirir cor - isso é coisa de uísque. O carvalho entra na história por ser uma das madeiras mais porosas que existem, permitindo assim que continuamente uma pequena quantidade de oxigênio entre em contato com a bebida. É ele que vai chamar leveduras e bactérias ao trabalho, promovendo oxidações. As oxidações fazem álcool virar aldeído, aldeídos combinados com ácidos viram ésteres, todos eles compostos orgânicos cada vez menos duros ao paladar, deixando o vinho, na linguagem dos enófilos, mais "redondo".
Nessa fase se estabelece a diferença entre vinhos tintos jovens e maduros. Jovens são os que passam pouco tempo nos barris, no máximo um ou dois anos. Conseqüentemente, acontecem nele menos oxidações, sua estrutura será mais simples e seu sabor mais adstringente. O vinho maduro repousa entre três e cinco anos nos barris, e durante esse descanso as reações químicas entre centenas de elementos tornam sua estrutura mais complexa, seu sabor e bouquet mais sofisticados. Só resistem longos envelhecimentos em garrafas os vinhos tintos maduros, dos quais os melhores Bordeaux são um belo exemplo. Eles não só resistem como pedem envelhecimento na garrafa, para continuar vagarosamente a sofrer reações da mesma maneira que no amadurecimento, até atingir o ápice na qualidade de sabor e bouquet. Um Bordeaux ou um italiano Brunello di Montalcino levam de cinco a vinte anos para chegar lá, enquanto os jovens Beaujolais e Chianti apenas de um a três anos.
Quando entra na garrafa, o vinho é composto, nesta ordem descrescente, de água, álcool, glicerina, açúcares, ácidos, ésteres e álcoois superiores. "Além dessas, existem mais
2 000 substâncias químicas em quantidades ínfimas, mas capazes de reagir umas com as outras e alterar as propriedades organolépticas do vinho", conta o bioquímico e enófilo Toshio Fujisaka. Enquanto viver na garrafa, repousando em adegas ou levando safanões em caminhões de transporte pela estrada afora, esse líquido sensível vai responder à altura do tratamento que receber. Eis o motivo de tantos mitos e ritos a cercar os vinhos nobres. O primeiro mandamento do enófilo reza que a garrafa deve ser conservada deitada, longe do calor, a no máximo 15 graus. Temperaturas maiores ativam as leveduras e bactérias que sobrevivem latentes no vinho; se acordarem, podem provocar uma nova fermentação, fazer ligações químicas indesejáveis, quebrar outras.
Caso a garrafa fique em pé, há o risco de a rolha secar, murchar e deixar entrar mais ar do que deveria, e nele vêm mais leveduras, bactérias e oxigênio, seu alimento preferido. O vinho também deve repousar quietinho, sem agitação, para que o pouco de ar que existe lá dentro não se incorpore ao líquido, pois um pouco de oxigênio que ali esteja causará oxidações. Mas nem sempre o vinho na presença de ar vira vinagre, como faz crer a lenda. Só vira se entrar em contato com a Acetobacter sp, cuja especialidade é transformar etanol em ácido acético (vinagre). Obviamente ela existe pelo ar e pode entrar na garrafa - ou não. Porém, quando a garrafa é aberta para a degustação, alguns enófilos até gostam que o ar se incorpore ao líquido, pois ficará mais fluido, tornando os álcoois e ésteres do bouquet mais voláteis e facilmente perceptíveis. Daí a recomendação para as garrafas serem abertas algum tempo antes de consumidas.
Outra obrigação do conhecedor é deixar as garrafas ao abrigo da luz, sobretudo luz solar e de lâmpadas fluorescentes. O perigo é a radiação ultravioleta, catalisadora de reações fotoquímicas, principalmente nas instáveis antocianinas, as responsáveis pela cor do vinho. A luz quebra suas ligações moleculares e sabe-se lá aonde os componentes vão se religar; o vinho branco fica amarelado, o tinto passa a ser cor de tijolo. Mudando a cor por causa das reações químicas, é bem provável que o sabor também fique comprometido. Todas essas agruras pelas quais o vinho passa não são percebidas por qualquer leigo, mas os sentidos muito aguçados e treinados dos sommeliers os denunciam com facilidade. Por isso restaurantes de altíssima categoria mantêm um desses especialistas de plantão, só para cuidar do capítulo dos vinhos: eles indicam diferenças de safras e eventualmente provam a garrafa escolhida, antes de servi-la, para assegurar que ela não se deteriorou.
Sendo assim tão sensíveis, podem os maravilhosos vinhos franceses, italianos ou portugueses resistir ao sofrimento de uma viagem através do oceano até o Brasil, e chegar aqui com a mesma qualidade? Não, ainda que isso não signifique tragicamente que não se possa mais bebê- los. Com o calor e a agitação sofridos durante a viagem, o vinho certamente passa pelas reações que o prejudicam. Quando se compra um bom vinho, deve-se deixá-lo repousar por um a dois meses numa adega, para que se recupere das canseiras da viagem. "Esse descanso pode reverter algumas reações indesejáveis que o vinho tenha sofrido, mas nunca a totalidade delas", explica Orlando Zancanaro Junior, professor de Tecnologia de Fermentações na Universidade de São Paulo. Os enófilos dos trópicos, se quiserem beber o mais puro e imaculado néctar, têm que buscá- lo na fonte.

Um exercício de sensações

Degustar um vinho é muito mais do que bebê-lo. Mesmo porque o paladar só pode dizer se ele é doce, salgado, azedo ou amargo. Para desfrutar até a última gota de sua riqueza e complexidade, os enófilos se valem também do olfato e da visão. O processo de degustação, pleno de detalhes e sutilezas, basicamente começa com o exame visual. Segura-se o copo de vinho pela haste e, contra a luz, analisam-se cor, transparência e brilho. Depois vem o exame olfativo, quando se sente o aroma (cheiro originário da uva) e o bouquet (cheiro produzido nas fases de fermentação e envelhecimento). Para isso, o copo deve ser agitado várias vezes, aspirando-se nos intervalos. Os connaisseurs, pela experiência, chegam ao luxo de distinguir odores como florais, vegetais, picantes ou balsâmicos.
A última etapa é o exame gustativo, quando se toma um grande gole de vinho deixando-o alguns segundos em contato com toda a superfície da boca. Essa cerimônia exige um copo especial, chamado tulipa, alto e de boca estreita, para evitar que o aroma e o bouquet escapem rapidamente. A capacidade de distinguir vinhos bons dos nem tanto é sobretudo um exercício de memória e comparação. O enófilo paulista Clóvis Siqueira sugere, para quem quer se iniciar na degustação, começar comparando três vinhos comuns com um de reconhecida qualidade superior, para sentir a diferença. Depois passa- se à descoberta das preferências pessoais. Pegam-se cinco garrafas de vinho produzido com a mesma uva- Cabernet Sauvignon, por exemplo em regiões demarcadas diferentes, como Bordeaux, Rhône, Bourgogne, Rioja e Dão. Como a personalidade e a característica de cada vinho são únicas, certamente um deles agradará mais ao olhar, olfato e gosto do provador.

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